Quinta-feira, 30.10.14

Lviv, aliás Lvov, aliás Lemberg

A cidade onde, mais logo, a nossa selecção vai jogar com a alemã, tem atrás de si, está assente num passado próximo pouco simpático - muito pouco simpático. Situa-se numa região historicamente muito complicada que já passou por várias mãos no século passado - mãos ensanguentadas.

Esta Lviv é a Lvov dos livros de História do século XX. E já tinha sido a Lemberg, quando a sua região, a Galícia, pertencia, até 1918, ao Império Austro-Húngaro. Uma região etnicamente complicada, já se está a ver. População polaca, ucraniana, uma élite burocrática do Estado constituída por Austríacos e Checos germanófonos. E Judeus - em 1910, 28% da população de Lemberg.

Na Galícia, de que faz parte também a localidade de Oświęcim (mais conhecida por Auschwitz), já tinha havido episódios de tremenda violência no séc. XIX. Por exemplo, em 1846, o levantamento da nobreza agrária polaca contra Viena resultou em horríveis massacres de famílias inteiras desses latifundiários por parte dos camponeses ucranianos, que permaneceram fiéis à coroa imperial. A essa fidelidade, manifestada tão selvaticamente, não será alheio o estado de servidão em que os Ucranianos eram mantidos pelos seus odiados Senhores polacos. Estes, denunciavam, chocados, os liberais, tratavam aqueles como se fossem gado.

 

 

 No quadro do polaco Jan Lewicki, O Massacre da Galícia, podem ver-se oficiais austríacos, sob um edital com a águia bicéfala, pagando aos camponeses pelas cabeças dos nobres polacos. Não sei se as coisas se passaram exactamente assim e se estas cenas não serão produto da propaganda nacionalista polaca - seja como for, o desaparecimento da face da Terra daqueles incómodos fidalgos não deixou de ser oportuno para o velho Metternich, lá em Viena...

 

 

Depois, no século XX, nas ruas de Lvov (muitas mantêm-se inalteradas, em Lviv), assistiu-se (por vezes, literalmente) a cenas muito feias - mesmo muito feias, para uma cidade europeia. Em 1918, ainda a Grande Guerra não tinha oficialmente terminado, mas com Carlos I da Áustria, na prática, já sem Império e prestes a abdicar, foi proclamada, a 1 de Novembro, a República Popular da Ucrânia Ocidental. Como capital, Lvov. Literalmente da noite para o dia, as tropas imperiais estacionadas na cidade transformaram-se no exército da nova república - as suas unidades eram quase integralmente constituídas por Ucranianos. A maioria polaca da cidade, naturalmente, preferia integrar-se na Polónia nascente cujas fronteiras não estavam ainda definidas. Deu-se um levantamento contra a tropa ucraniana, em que se destacaram as Jovens Águias de Lvov (Orlęta Lwowskie), um conjunto de voluntários adolescentes a que, depois, se juntaram mais polacos.

 

 

Postal polaco de Lemberg
 
 
Dois membros dos Orlęta Lwowskie
 
 As forças ucranianas acabaram expulsas da cidade, no dia 21 - foi a partir desta data e durante três dias, que militares e populares polacos atacaram as minorias ucraniana (agora indefesa) e judaica. Nestas alturas, aproveita-se sempre para ajustar contas com os culpados do costume. Resultado: algumas centenas de mortos. A guerra que se seguiu com a Polónia acabou por levar à extinção da nova república ucraniana e à integração da Galícia no novo país da Europa Central. Lvov foi, até à II Guerra Mundial, a terceira cidade polaca mais populosa (depois de Varsóvia e Lodz), com um dialecto próprio, muito influenciado pelo Yiddish.
publicado por Carlos Botelho às 17:46 | partilhar
Sexta-feira, 28.09.12

Cachimbo final

 

Há um tempo para tudo. Aqui no Cachimbo esse tempo durou sete anos. Chegou o nosso outono e, com ele, «o cansaço antecipado de todos os gestos, a desilusão antecipada de todos os sonhos», como dizia o desassossegado Pessoa. O Cachimbo começou como um grupo de amigos e acabou da mesma forma. Várias vezes não estivemos de acordo – ainda bem! –, mas remámos sempre contra o ar do tempo, com um registo próprio, explorando terrenos virgens na bloga nacional. Fez-se boa opinião por aqui: livre, vincada e sem rodeios. Salvámos a pátria várias vezes e, ocasionalmente, tratámos de coisas sérias. Falou-se de ciência, religião, literatura, música, mas também de futebol e rugby, fumando e entornando vinho pelo teclado. Agradecemos aos que leram as nossas cachimbadas. Somámos mais de quatro milhões de visitas, outros tantos comentários, polémicas a perder de vista. Lançámos novos autores, criámos uma linguagem e uma identidade próprias.

Mas o Cachimbo fuma-se devagar, os vícios curam-se, o tempo foge, a motivação escasseia. Entretanto alguns de nós escreveram livros, outros emigraram ou trocaram-nos por miúdos, parlamentos ou gabinetes. A verdade é que vários filhos e teses nasceram ao longo destes anos. Por aqui, continuamos a acreditar que Portugal é uma teimosia viável, que vamos sair disto, libertar-nos das dívidas que nos escravizam. E que a nossa geração tem uma especial responsabilidade na mudança. Sabemos que a realidade nem sempre é o que parece, mas as coisas são sempre o que são – um lugar-comum conservador que procuramos honrar. As outras razões de desencanto ficam entre nós, camaradas de fumo, esquecidas nas paredes do Grémio Literário. A cicuta bebe-se depressa e com estilo. É o que fazemos, apesar das saudades que já temos desta casa onde fomos felizes. Não é fácil fechar um blogue com tantos leitores fiéis. Lamentamos desiludir-vos, mas talvez um dia nos voltemos a encontrar, nesta ou noutras casas de fumo. Até um destes dias camaradas!

publicado por Cachimbo de Magritte às 11:05 | comentar | ver comentários (60) | partilhar
Quinta-feira, 27.09.12

Chegou o ocaso, preparem-se

«Cada outono que vem é mais perto do último outono que teremos, e o mesmo é verdade do verão ou do estio; mas o outono lembra, por o que é, o acabamento de tudo, e no verão ou no estio é fácil, de olhar, que o esqueçamos. Não é ainda o outono, não está ainda no ar o amarelo das folhas caídas ou a tristeza húmida do tempo que vai ser inverno mais tarde. Mas há um resquício de tristeza antecipada, uma mágoa vestida para a viagem, no sentimento em que somos vagamente atentos à difusão colorida das coisas, ao outro tom do vento, ao sossego mais velho que se alastra, se a noite cai, pela presença inevitável do universo. Sim, passaremos todos, passaremos tudo. Nada ficará do que usou sentimentos e luvas, do que falou da morte e da política local.»

 

Bernardo Soares - Livro do Desassossego

publicado por Paulo Marcelo às 11:22 | comentar | ver comentários (1) | partilhar
Quarta-feira, 26.09.12

Da série "Vale a pena ler"

 

A crise espanhola segundo o New York Times - In Spain, Austerity and Hunger.

publicado por Paulo Marcelo às 16:26 | comentar | ver comentários (4) | partilhar

Santana Castilho, o ressentido

Santana Castilho odeia Nuno Crato e Passos Coelho. É um facto que o próprio nos relembra quinzenalmente nas suas crónicas do Público, onde predominam distorções, acusações sem fundamentação e julgamentos morais. Na de hoje, por exemplo, acusa Nuno Crato de mentir sobre o reforço da autonomia nas escolas, apoiando-se num relatório da OCDE. O problema é que esse relatório analisa a questão da autonomia nas escolas entre 2003 e 2011, período que não abrange a governação de Nuno Crato. Aliás, o facto de a autonomia das escolas ter diminuído durante os Governos de Sócrates apenas reforça a posição de Nuno Crato.

 

publicado por Alexandre Homem Cristo às 12:02 | comentar | ver comentários (13) | partilhar
Terça-feira, 25.09.12

Não estão a perceber bem a coisa.

O Governo anunciou que iria reduzir em 30% o apoio às seguintes Fundações:

 

Fundação para os Estudos e Formação Autárquica - Fundação CEFA
Fundação da Juventude
Fundação Arpad Szénes – Vieira da Silva
Fundação Casa da Música
Fundação de Arte Moderna e Contemporânea – Colecção Berardo
Fundação de Serralves
Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva
Fundação Conservatório Regional de Gaia
Fundação Bracara Augusta
Fundação Batalha de Aljubarrota
Fundação Pedro Ruivo
Fundação Caixa Geral de Depósitos – Culturgest (recomendação à CGD)
Fundação Júlio Pomar (recomendação à CGD)
Fundação de Assistência Médica Internacional
Fundação Mário Soares
Fundação Inês de Castro
Fundação Museu Nacional Ferroviário Armando Ginestal Machado
Fundação do Gil
Fundação Manuel Viegas Guerreiro
Solidários – Fundação para o Desenvolvimento Cooperativo e Comunitário
Fundação Maria Isabel Guerra Junqueiro e Luís Pinto de Mesquita Carvalho
Fundação Casa Museu Maurício Penha
Fundação Amadeu Dias
Fundação António Quadros – Cultura e Pensamento
Fundação das Universidades Portuguesas
Fundação Eça de Queiroz
Fundação Engenheiro António de Almeida
Fundação Instituto Arquitecto José Marques da Silva – Universidade do Porto
Instituto de Investigação Científica Bento da Rocha Cabral
Fundação Minerva – Cultura – Ensino e Investigação Científica
Fundação Professor Francisco Pulido Valente
Fundação Económicas – Fundação para o desenvolvimento das ciências económicas, financeiras e empresariais
Fundação Conservatório de Música da Maia
Fundação Ensino e Cultura Fernando Pessoa
Asilo de Santo António do Estoril
Fundação Denise Lester
IFEC - Fundação Rodrigues da Silveira
Pro Dignitate - Fundação de Direitos Humanos
Fundação INATEL
Fundação Aga Khan Portugal

 

No estado de necessidade em que estamos é imperioso que justifique, uma a uma, as razões que levaram a manter 70% dos apoios a estas Fundações.

publicado por Pedro Pestana Bastos às 23:28 | comentar | ver comentários (8) | partilhar

Podemos avançar com a conversa?

Nestes últimos meses, e de forma mais intensa nos últimos quinze dias, temos assistido a um intenso debate em que se opõem duas maneiras de olhar para o nosso país:

- os realistas (para dizer de alguma maneira) perscrutam o défice com olhar agudo e sentenciam que os cortes são necessários, que têm de chegar aos salários e às pensões, não bastam as PPP's e os restantes ganhos de eficiência na despesa; sentem que, enquanto não começarmos a falar de forma mais verdadeira sobre o estado das finanças do país, estamos à procura de caminhos, mas de olhos fechados. E têm razão.

- os humanistas (à falta de melhor palavra) salientam sagazmente que a vida humana não se mede em euros e cêntimos, que há direitos que não estão ao dispor dos políticos, que a aritmética e a contabilidade não podem ser os patrões do destino de uma nação. Sentem que se negarem tenazmente a lógica cega dos números, os interesses instalados acabarão por ceder e se abrirão novas possibilidades até agora fora do debate. E têm razão.

Podemos desencravar esta conversa? Porque é que o realismo dos números há-de ser oposto à consideração da amplitude e totalidade da vida humana? Não é simplesmente uma parte, uma parte verdadeira, dessa totalidade?

É uma falsa oposição. Se deixarem o "realista" falar até ao fim, podem conversar com ele sobre como atenuar as consequências sociais nefastas dos cortes que ele diz serem necessários. Se deixarem o "humanista" falar até ao fim ele certamente saberá estender a sua preocupação social à geração seguinte, que não quer sobrecarregar (ainda mais) com dívidas.

A solução para o país (se existir…) não poderá prescindir de nenhuma destas duas visões. Devíamos ocupar-nos em equilibrá-las, não em usar uma para bater na outra.

publicado por Pedro Gonçalves Rodrigues às 13:08 | comentar | ver comentários (12) | partilhar
Segunda-feira, 24.09.12

Public Discourse

O Witherspoon Institute, recente think tank e centro de investigação localizado em Princeton, New Jersey, publica uma newsletter chamada Public Discourse que costumo receber por e-mail.

 

Os artigos versam sobre temas políticos, normalmente seguindo assuntos da actualidade mas aprofundando com alguma argumentação filosófica ou de ciência política. A linha é conservadora com algumas variantes, já que o painel de colaboradores é vasto. São mais extensos do que o que tipicamente lemos na Internet, mas sem exagerar. O tom por vezes é académico, mas não deixa de ser americano, portanto, explicam como quem quer ser entendido (ao contrário da academia europeia que frequentemente prefere manter uma certa obscuridade que insinue a sua superioridade intelectual).

 

Tenho lido lá grandes artigos que me renovam a esperança na possibilidade de um debate intelectual elevado sobre os temas mais difíceis. Exemplo disto, por vezes, são as polémicas (artigo, resposta ao artigo, resposta à resposta, ...) sempre com muito nível, respeito pelo adversário e atenção genuína aos argumentos opostos.

 

A Public Discourse interesserá especialmente a quem se interesse por política norte-americana, pois inclui muitas discussões sobre a sua constituição, os seus tribunais e leis; mas não se limita a isso e toca muitos temas relevantes e actuais no nosso país. E não esqueçamos que nós somos importadores diários de ideias e cultura americanas. E que os nossos media nos vão servir em breve doses generosas de eleições americanas...

publicado por Pedro Gonçalves Rodrigues às 11:35 | comentar | ver comentários (22) | partilhar
Sábado, 22.09.12

Reset Nacional

 

 

Nos tempos duros que vivemos sentimos de forma mais aguda os defeitos patentes das nossas instituições: não é difícil desiludirmo-nos com o nosso parlamento, os nossos partidos, com o comportamento de uma ou outra classe profissional, com os nossos jornalistas, até com "o povo português" em geral.


Nota-se mais, agora que não há dinheiro para esconder os problemas, a falta que faz a virtude: se houvesse nestes grupos mais gente honesta, veraz, trabalhadora, generosa, leal, audaz… ainda tínhamos alguma hipótese de nos renovarmos como povo e como país.


A falta de virtude das instituições não é mais do que a soma das faltas de virtude das pessoas que as compõem, dirigem, sustentam. Vem-me à cabeça muitas vezes, nestes dias, uma frase de um santo do nosso tempo: «estas crises mundiais são crises de santos». Exprime bem este défice, o pior défice de todos, o da falta de virtude, de forças morais, de rectidão, que apodrece toda e qualquer estrutura social desde dentro.


Chegámos a este ponto porque preferimos a mentira à verdade, o cómodo ao árduo, o egoísmo ao espírito de serviço. Não estou nada certo que estejamos perto de mudar livremente estas atitudes de fundo, ainda que as circunstâncias nos estejam a obrigar a mudar alguns comportamentos externos.


Vamos varrendo da nossa educação, do nosso debate público, das nossas leis, as referências morais, os pontos de apoio para a exigência pessoal, a luta por construir virtudes. Não estranhemos depois se nos encontramos a viver num Portugal mesquinho, preguiçoso e concubino da mentira.


Parece-nos dispensável a disciplina na educação, a fidelidade no casamento, a ajuda aos mais fracos, o pudor nos media, a moderação nos comodismos, a paciência para os de lá de casa, a perseverança no esforço. E esperamos que todas estas qualidades em falta brotem espontaneamente nos homens que elegemos para nos governar, no dia da tomada de posse.


A miséria moral não começa no que se vê no Telejornal: cruzamo-nos com ela no elevador, está logo ali nos nossos vizinhos. E quando vamos sozinhos no elevador se calhar também lá está, a olhar-nos do espelho.


E é aqui que se pode mudar a nossa conversa nacional de desconfiança e desespero numa conversa de esperança. Sim, está aí no espelho, o Portugal que pode mudar já hoje, o único Portugal que é preciso criticar, e ao qual é preciso exigir mudança. O resto são as tretas que nos trouxeram até onde estamos hoje.

publicado por Pedro Gonçalves Rodrigues às 16:23 | comentar | ver comentários (6) | partilhar
Sexta-feira, 21.09.12

A Coligação

 

 

 Nancy Fouts é uma artista e publicitária americana que não está muito interessada em explicações muito profundas nem, tão pouco, em obras de significado obscuro e difícil.

 

 

 

 

 

E é assim - pelo elogio do impossível - que as esculturas de Nancy Fouts adquirem, nestes dias, uma razão desconcertante e inesperada. A combinação de objectos e animais  pensados com humor relança oportunamente a reflexão sobre as boas e más ligações.

 

 

 

Para quem não acredita que o contexto expositivo da obra de arte não é afinal determinante, veja como o tempo político muda tudo e torna o  humor descontraído em dor lancinante.

 

 

 

 A história persegue-nos e grita-nos aos ouvidos que a teimosia é nossa, que  há coisas que foram feitas assim mesmo, sem combinação possível.

 

 

 

 

Temos sempre a hipótese, para não lhe chamar absurdo político, de os juntar à força no mundo superficial e bem humorado de Nancy.

 

 

 

 

 

 

publicado por Ricardo Roque Martins às 22:58 | comentar | ver comentários (5) | partilhar
Quinta-feira, 20.09.12

Os funcionários públicos e os impostos.

A pergunta que muitos de nós fazemos é a seguinte:

Recuando o Governo em relação à TSU como é que se ultrapassa o veto do Tribunal Constitucional sem se aumentar os impostos a todos ?

Uma das soluções poderá estar em manter os cortes na função pública e retirar, (via fiscal), meio subsídio de férias e meio subsídio de Natal aos privados. Alguns invocam que não pode ser, porque os impostos são para todos de acordo com o rendimento de cada um.

Não estou convencido de que tenha de ser assim. Até aos anos 80, com a nossa Constituição, os funcionários públicos ganhavam menos e não pagavam os mesmos impostos.  

publicado por Pedro Pestana Bastos às 18:16 | comentar | ver comentários (14) | partilhar

Dia 25 no IDL

 

 

Numa altura em que muitos colocam em causa a capacidade de Portugal cumprir o memorando, o testemunho de quem está no Parlamento Europeu e assiste à evolução da percepção dos nossos parceiros Europeus sobre Portugal.

publicado por Pedro Pestana Bastos às 15:26 | comentar | partilhar

Bom senso

O meu artigo desta semana no jornal “i”: Esperemos que o governo tenha o bom senso de recuar na TSU, uma medida que corre o risco de transformar Portugal numa Grécia

 

Adenda: Esta medida tem um grave problema adicional, de expectativas. Ela suscitou tanta oposição que, mesmo que seja aprovada, é muito provável que seja revertida pelo próximo governo. Como, ainda por cima, esta medida quase matou a actual coligação, nem sequer devemos estar muito longe de ter um novo governo (diria que é quase certo que isso aconteça nos próximos 12 meses). Ou seja, nenhum empresário acreditará que a medida é duradoura e, nesse caso, quase nenhum emprego será criado em resultado das alterações na TSU.

 

Por isso mesmo, entrar-se-á no exemplo clássico de “auto-concretização das expectativas”. À medida que se for percebendo que esta política não produz resultados, maior será a convicção de que ela não pode durar e menos resultados ainda produzirá.

publicado por Pedro Braz Teixeira às 12:49 | comentar | ver comentários (3) | partilhar
Quarta-feira, 19.09.12

Da política como obra de arte


Karel Appel, Dança amorosa, 1955

Faz todo o sentido considerar-se que um poema de Hugo Ball ou que um quadro de Karel Appel não tenham "culpa" da sua não-"aceitação" por parte do público. Uma peça daquelas é um acontecimento imprevisto e imprevisível que interpela o olhar do espectador - e isso pode ser recebido com estranhamento ou com incómodo.
Mas há quem veja as opções políticas de um governo como obras de arte. Isto é, elas estão aí, emanadas do executivo, e são, por definição, "certas", inscrevem-se num contexto alheio a qualquer escrutínio e o público que as não compreende está, ele sim, apenas errado. Não está, ainda, suficientemente educado para as aceitar - com prazer estético, certamente.

publicado por Carlos Botelho às 10:30 | comentar | ver comentários (9) | partilhar
Terça-feira, 18.09.12

Da RTP (22)

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publicado por Carlos Botelho às 23:00 | comentar | partilhar

O olhar

Was ihr nicht tastet, steht euch meilenfern, 

Was ihr nicht faßt, das fehlt euch ganz und gar,

Was ihr nicht rechnet, glaubt ihr, sei nicht wahr,

 Was ihr nicht wägt, hat für euch kein Gewicht,

 Was ihr nicht münzt, das, meint ihr, gelte nicht! (*)

 

Goethe, Faust II, 4918- 4922.

 

Passos Coelho chamou piegas ao povo que o elegeu e que passa dificuldades,  António Borges, com alheamento e sem pestanejar, ou Camilo Lourenço, entre tantos outros, propõem ou acenam com despedimentos em massa, como quem propõe uma ida ao café. Para eles, trata-se, certamente, da "frieza" da "ciência". Da "objectividade", talvez.  Da "necessidade". Whatever. Como sabemos, tudo é argumentável e há sempre boas "razões" para fazermos isto ou aquilo. Mesmo Cavaco Silva, à frente de toda a gente, teve aquela tirada infelicíssima a respeito da exiguidade da sua pensão. 

Estas pessoas não são, por assim dizer, activamente "más". Não têm "pêlos no coração". Não se trata aqui de crueldade. Passa-se com elas o padecerem de um confinamento do olhar. Provavelmente, um confinamento "oligárquico" da sua perspectiva. Com o estreitamento do seu campo visual, há objectos que, pura e simplesmente, não aparecem no horizonte abarcado pela sua compreensão. Aquelas personagens não podem falar de ou "sentir" aquilo que não vêem. Isso não está lá. Não existe. Na melhor das hipóteses, há, para eles, uma assunção meramente formal, teórica, da sua existência. Seja como for, essas realidades não são por eles autenticamente experimentadas como o são outras que lhes estão afectiva e efectivamente mais próximas, que cabem no seu horizonte. Por isso, tantas vezes, quando referem aquelas realidades, fazem-no no modo de uma inautenticidade meramente retórica.

Por outro lado, para quem se move com à-vontade no meio de uma auto-suficiência "ideológica", com todos os actos justificados e fundamentados por quaisquer "teorias" subsidiárias da "ideologia" (e não o contrário...), o sofrimento individual dos objectos das suas opções encontra-se sempre esbatido, quando não completamente elidido. Assim, os "revolucionários" não tinham em conta o efectivo sofrimento de alguns que (muitas vezes, com a infelicidade de se encontrarem na época errada no regime errado), de um dia para o outro, viam os seus objectos pessoais remexidos e ridicularizados por mãos a quem nunca tinha sido dado o aprender a compreendê-los. Esse sofrimento individual era (e é) considerado como um efeito co-lateral despiciendo decorrente da culpa que lhes era intrínseca: porque são "os ricos", ou "os donos da terra", etc. Por outro lado, também os nossos "liberais" vêem como um efeito desprezível dos inevitáveis "ajustamentos" toda a degradação humana e o sofrimento que os vai acompanhando. O mecanismo justificativo é sempre semelhante: são culpados (de serem funcionários públicos, ou de "viverem acima das suas possibilidades" e terem de ser reconduzidos aos seu "lugar natural", etc.) e, como tais, têm o que merecem. E são, também como os outros o eram, apontados como "privilegiados". O corolário destas perseguições é uma troça abjecta: uns dizem "coitadinhos dos patrões...", outros dizem "coitadinhos dos funcionários...". Mas, mesmo aqui, geralmente, não há, por assim dizer, uma maldade activa.

Onde pode haver um problema moral é na preguiça em recusar tentar diminuir o confinamento do olhar, em recusar o alargamento do seu campo visual, para que possam incluir-se nele uma série de realidades que permanecem insuspeitas.

 

[(*) Traduzindo livremente, será algo como: O que não tocais, está-vos a milhas [ou a léguas], / O que não agarrais [ou não apreendeis], de todo vos falta, / O que não contais, acreditais não ser verdadeiro, / O que não pesais, não tem para vós peso algum/ O que não cunhais, credes vós, não tem validade.]

 

publicado por Carlos Botelho às 22:42 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

Da RTP (21)

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publicado por Carlos Botelho às 20:00 | comentar | partilhar

A coligação

Tenho uns grandes amigos que passaram por grandes problemas no casamento. Traições de parte a parte, falta de comunicação, discussões de meia noite, saídas de casa. Durante muito tempo muitos de nós vaticinámos que eles se iriam divorciar. Afinal como era possível continuar a partilhar um projecto comum depois da confiança ter sido quebrada.

Contrariamente ao que se previa, e também para tentar proteger os filhos pequenos, os meus amigos persistiram em procurar uma saída em comum. Foram tempos complicados. Foi duro mas continuaram a viver juntos. Aos poucos recomeçaram a partilhar pequenas vitórias da vida em conjunto, a ir juntos ao teatro da filha mais nova, a ajudar o do meio na matemática e a superar uma doença grave na família. Sem se aperceberem, ao longo do tempo, o projecto que parecia destruído foi sendo reconstruído, com mais solidez e envergadura.

 

Hoje os meus amigos, com a ajuda de todos, estão totalmente reconciliados e vivem felizes. Acaba de lhes nascer um novo filho. Olham para trás e tremem só de pensar que estiveram perto de acabar com tudo.

publicado por Pedro Pestana Bastos às 11:23 | comentar | ver comentários (15) | partilhar

Olhem para a Grécia

 

O anúncio de mais austeridade deitou gasolina para o espaço público. As ruas encheram-se de gente indignada com mais sacrifícios. Tudo normal em democracia. Mas que alguns políticos e comentadores se limitem a cavalgar a onda da indignação é estranho e perigoso. Sem deixar de ouvir a frustração das pessoas, convém não esquecer onde estamos e como viemos aqui parar: a dívida que nos escraviza; um Estado gordo e ineficiente, cheio de feudos e privilégios; uma economia estagnada, há mais de uma década, apesar do dinheiro abundante do nosso keynesianismo serôdio.

Um dos lemas das manifestações era “que se lixe a troika, queremos as nossas vidas”. Pois. Mas a verdade é que não foi a ‘troika’ que nos invadiu, mas sim o primeiro-ministro Sócrates que lhes pediu que viessem. E ainda dependemos deles para pagar salários e pensões. Esta é a crua verdade que não podemos esquecer. Como se a bancarrota não estivesse ao virar da esquina. Como se o caos grego, que se iniciou precisamente com a quinta avaliação internacional, não estivesse à vista de todos.

Podemos sair daqui sem dor? Alguns cinicamente dizem que sim. A memória é curta e as opiniões mudam depressa. Ainda há poucos meses a ladainha era: vivemos-acima-das-possibilidades-temos-de-mudar-de-vida. Agora que a coisa aperta são as mesmas vozes a dizer que se está a ir longe demais. Ora, pode-se modelar isto ou aquilo, mas é falso dizer que há alternativas à austeridade, pelo menos se quisermos continuar no euro. Quem disser o contrário ou não sabe o que diz ou é mentiroso. Mesmo o socialista Hollande, num país não intervencionado, já anunciou cortes de 30 mil milhões.

O mais triste é que sejam aqueles que nos trouxeram a cavalgar na onda populista. A posição socialista é hipócrita porque sabem que se voltassem ao governo, teriam de aplicar a mesma receita (lembram-se dos quatro PEC?), com riscos de dissolução do partido, tais as contradições em que cairiam. Por isso, Seguro é o último a querer eleições antecipadas e só engrossou a voz para se afirmar internamente.

Apesar do cheiro a PREC que paira no ar, com leves fragâncias gregas, esta crise acabará por resolver-se. Mais que não seja porque ninguém tem interesse em eleições antecipadas. O PSD só quer ser avaliado no final da legislatura. Paulo Portas, no seu calculismo, sabe que não pode esticar a corda demasiado sem ser penalizado nas urnas. Cavaco Silva tem pesadelos com um governo de iniciativa presidencial e tudo fará para evitar que uma crise política lhe rebente nas mãos.

Só mesmo a esquerda radical quer eleições antecipadas. Mas ao contrário dos gregos, os portugueses prezam a estabilidade e continuam a preferir os partidos moderados do centro. Apesar da contestação (e da coligação...) o Governo mantém plena legitimidade política. Terá de investir mais no diálogo social, mas é essencial manter o rumo reformista, que já permitiu alcançar uma balança comercial positiva. Só assim podemos vencer o monstro da despesa pública e retomar a nossa liberdade como cidadãos e como País.

 

[Diário Económico]

publicado por Paulo Marcelo às 10:28 | comentar | ver comentários (10) | partilhar
Segunda-feira, 17.09.12

Retrato do funcionário público (*)

Largo de espáduas, de olhos carrancudo,

Rasgada a boca, orelhas derrubadas,

Ventas negras, focinho cabeludo,

Beiços caídos, garras encrespadas, 

Fornidos pés, e mãos, corpo membrudo,

Seco nas ancas, gordo nas queixadas,

Curvas unhas, e dentes, rabo grosso,

Grosso, e curto nos lombos, e pescoço.

 

Brás Garcia de Mascarenhas, Viriato Trágico, I, 34 [1656?]

 

(*) O objecto do retrato muda consoante as épocas.

publicado por Carlos Botelho às 15:20 | comentar | ver comentários (5) | partilhar

Cachimbos

O Cachimbo de Magritte é um blogue de comentário político. Ocasionalmente, trata também de coisas sérias. Sabe que a realidade nem sempre é o que parece. Não tem uma ideologia e desconfia de ideologias. Prefere Burke à burqa e Aron aos arianos. Acredita que Portugal é uma teimosia viável e o 11 de Setembro uma vasta conspiração para Mário Soares aparecer na RTP. Não quer o poder, mas já está por tudo. Fuma-se devagar e, ao contrário do que diz o Estado, não provoca impotência.

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