Domingo, 31.12.06

Da série "O Som e a Fúria"

THE VALLEY OF THE BLACK PIG

The dews drop slowly and dreams gather: unknown spears
Suddenly hurtle before my dream-awakened eyes,
And then the clash of fallen horsemen and the cries
Of unknown perishing armies beat about my ears.
We who still labour by the cromlech on the shore,
The grey cairn on the hill, when day sinks drowned in dew,
Being weary of the world`s empires, bow down to you,
Master of the still stars and of the flaming door.

W.B. Yeats, The Wind Among the Reeds (1899)
publicado por Pedro Picoito às 15:39 | comentar | partilhar
Sábado, 30.12.06

É do Caracas

Na Venezuela, o presidente Hugo Chávez anunciou anteontem, fardado e perante uma plateia de militares, que não irá renovar a concessão à Rádio Caracas Televisión, uma emissora privada que acusou de "subversiva" (sic).
Há aqui um inconfundível cheirinho a Weimar, mas sempre gostava de saber o que pensa da democracia de Chávez a esquerda lusa, que tão prestimosamente saudou a sua reeleição.
Aceitam-se respostas em norte-coreano.
publicado por Pedro Picoito às 16:08 | comentar | partilhar
Sexta-feira, 29.12.06

Qualidade de vida


Mudar de paradigma, propõe David Cameron: em vez do tradicional GDP (Gross Domestic Product) fala do objectivo GWB (General Well-Being). Voltaremos ao tema, mas aqui fica uma nota positiva na viragem para 2007.
publicado por Paulo Marcelo às 19:15 | comentar | ver comentários (4) | partilhar
Quinta-feira, 28.12.06

Nova Atlântico

Saiu hoje mais um número da Atlântico. Da minha leitura muito rápida, destaco o notável artigo de Rui Ramos sobre a história do PS pós-25 de Abril, "o verdadeiro partido conservador do regime" (não é um elogio), continuação de um outro sobre o mesmo tema que aqui citei há tempos. Vale a pena lê-lo. Nos seus textos dispersos pelo Independente, pelo Público e pela Atlântico, Rui Ramos é actualmente o melhor historiador da vida política da democracia portuguesa. Espero sinceramente, a bem da nação e do mundo civilizado em geral, que o Paulo Pinto Mascarenhas esteja a pensar na colectânea.
Ah, a revista traz também uma análise deste vosso criado à recente viagem do Papa à Turquia. Para ser franco, parecia-me melhor quando a escrevi há três semanas do que ao lê-la hoje de manhã. Será efeito da comparação com o Rui Ramos?
publicado por Pedro Picoito às 16:51 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

Da Série "Posta Restante"

"Na sua condenação da teologia da libertação, nos seus textos contra Leonardo Boff e outros teólogos sul-americanos, Ratzinger travou a dissolução de um acervo doutrinal mais vasto do que a instituição da Igreja em si, que na realidade punha em causa a dignidade da pessoa humana e a correlativa responsabilidade individual, substituindo-a por uma culpabilidade social baseada numa versão abastardada do marxismo e na apologia da violência. Ratzinger, que achava que os teólogos da libertação tinham lido "teologia alemã a mais", referindo-se a colegas e discípulos seus cujas posições tinham influenciado os latino-americanos, atacou doutrinariamente com veemência não só em pontos de política, mas de filosofia e teologia. Ao lermos esses textos hoje, à luz do fim do comunismo e do que se sabe das experiências latino-americanas, percebemos a razão de Ratzinger e a solidez do seu corpo doutrinário" .
José Pacheco Pereira, "Um intelectual orgânico europeu: Joseph Ratzinger (Bento XVI)", in Público, 28/12/06
publicado por Pedro Picoito às 16:37 | comentar | partilhar

Motos, origami e dança

Os políticos e burocratas dificilmente evitam chavões quando se referem ao admirável futuro: é a “sociedade do conhecimento” que está em preparação, onde todos seremos “qualificados” e com elevado “potencial”; é também a libertação da “escravidão” do trabalho físico, que nos momentos oníricos se torna numa sociedade sem trabalho – a sociedade de lazer que nos espera no fim da história. Uma análise destes chavões revela a respectiva vacuidade.

As comunidades políticas recebem, produzem e destroem conhecimento. Classificar uma comunidade política, presente ou futura, como “sociedade do conhecimento” envolve um juízo de descontinuidade, de oposição às formas de organização política prevalecentes no passado, que são, presumivelmente, as sociedades do desconhecimento. Trata-se de uma mistura de estupidez estruturalista e ignorância tecnocrática, cujo contraponto é a estupidez irracionalista dos que acreditam que o conhecimento gera poder e que o poder gera conhecimento, num ciclo inquebrável de dominação humana que necessita de ser destruído, alargado aos discursos culturais “alternativos” e que a “opressão da razão” deve ceder prioridade à imaginação poética.

A oposição entre trabalho físico e trabalho intelectual também envolve dois juízos de valor implícitos – e ambos errados. O primeiro é que o trabalho físico dispensa qualquer actividade mental relevante; o segundo é que o trabalho intelectual se baseia essencialmente em esforço mental complexo. Por último, é fácil compreender que a “sociedade de lazer” é apenas outra forma de designar a mesma abstracção materialista que a sociedade sem classes, a última etapa da progressão humana em direcção à “verdadeira” liberdade. Os historicistas marxistas acentuam a centralidade das condições de produção; os adventistas do lazer eterno acentuam a centralidade das condições de consumo.

Vem isto a propósito de um dos mais interessantes ensaios que li este ano: “Shop Class as Soulcraft”, de Matthew B. Crawford, publicado pela The New Atlantis. Soube da existência deste ensaio através da crónica de David Brooks, para o The New York Times de 14 de Dezembro, mas só tive oportunidade de o ler no dia de Natal. Crawford começa por notar que nas últimas décadas houve um notório decréscimo na utilização humana de ferramentas e uma acentuação da passividade nos modos de vida. A redução das competências implica uma redução da capacidade de agência: a passividade torna-se dependência. O objectivo fundamental do ensaio de Crawford é a identificação dos motivos que levaram a uma notória diminuição da preparação escolar para o desempenho de determinadas tarefas essenciais à autonomia prática e moral.

A capacidade de desempenhar bem uma tarefa que se constitui como finalidade em si própria, tem no racionalismo inspirado em John Dewey e em Frederick Taylor o seu adversário primordial. O objectivo racionalista é dissociar completamente o trabalho humano dos aspectos cognitivos de experiência e aprendizagem, reduzindo-o a um processo decomponível em tarefas abstractas, rotineiras e destituído de decisões autónomas, que são concentradas na administração empresarial – a elite dos cognoscenti. Tal como Oakeshott recordava, o racionalismo moderno procura reduzir a totalidade do conhecimento ao conhecimento técnico, suprimindo o conhecimento prático, precisamente porque este não pode ser deduzido a partir de conjunto de regras criadas ex novo, de aplicação puramente mecânica e universal. Como tal é incompatível com o sistema de produção assente na lógica de “linha de montagem”.

Conscientemente ou não, foi-se também sedimentando a equivalência entre trabalho intelectual e esforço mental, com a correlativa equivalência entre trabalho manual e esforço físico. Ambas são erros conceptuais: o trabalho intelectual está a ser progressivamente esvaziado de exigência mental e o trabalho manual exige competências intelectuais que podem ser extremamente sofisticadas. A este respeito, Crawford cita um exemplo interessante: um programa de computador desenvolvido para facilitar a construção de origami (HyperGami) revelou-se particularmente ineficiente em determinadas figuras geométricas. Tratavam-se de formas cuja solução de construção não podia ser obtida por processos algorítmicos porque o modelo não podia ser completamente especificado: havia restrições, detectáveis apenas através da prática, que não eram formalizáveis. A conclusão é generalizável: há conhecimento prático que não pode ser reduzido a conhecimento técnico e sem o conhecimento prático resultante da experiência acumulada – porventura ao longo de gerações – não é possível executar determinadas tarefas com qualidade.

Sobre o progressivo esvaziamento do trabalho intelectual, basta pensar na actividade esmagadoramente rotineira da generalidade das organizações, quer sejam públicas ou privadas. A título de exemplo corroborante, posso citar uma experiência pessoal. Há alguns anos, fui consultor de um ministério; no decurso da aplicação de uma importante reforma legislativa, foi necessário realizar um exercício de optimização espacial de recursos humanos. Os decisores políticos relevantes confiaram a tarefa a uma empresa de consultoria, tendo-me sido solicitado o acompanhamento dos respectivos trabalhos. Os elementos da consultora efectuavam fundamentalmente tarefas de recolha de dados, que depois serviam para calibrar o modelo de optimização; mas o modelo era “fechado”, ou seja: o algoritmo vinha “pronto a usar” e não era acessível aos consultores que o utilizavam. Este tipo de situação não é caso único, nem é especificamente portuguesa: como refere Crawford, na generalidade das organizações há uma tendência para a crescente concentração do conhecimento técnico numa pequena elite.

O racionalismo moderno encontrou aliados inesperados e improváveis na pós-modernidade inspirada em Nietzsche, para quem todas as certezas são apenas ilusões decorrentes de “essencialismos” (por um motivo inexplicável, esta máxima não se aplica à certeza de que todas as certezas são ilusões) e os factos “não existem”: apenas há discursos “alternativos” e não comparáveis. A pós-modernidade irracionalista detesta aquilo a que Crawford chama o infalível julgamento da realidade: aviões que voam em segurança, infra-estruturas físicas como edifícios e pontes que não abatem no decurso da sua utilização normal, ou até uma simples cadeira, confortável e duradoura, expõem de forma demasiadamente real o absurdo do relativismo epistemológico e cultural. Opositores declarados da civilização ocidental, sabem, como Crawford sublinha evocando uma frase de Hannah Arendt, que a durabilidade dos objectos produzidos pelo homem é uma origem da familiaridade do mundo, dos seus costumes e hábitos de relacionamento, entre homens e objectos, bem como entre homens e outros homens. O provisório gera a instabilidade propícia à inovação, geralmente liderada por um capo político, enquanto que a familiaridade gera conforto e cria uma disposição a manter o que é satisfatório, dificultando o tumulto da inovação permanente.

Racionalistas e irracionalistas, nas suas motivações distintas mas convergentes, instrumentalizaram os sistemas educativos ocidentais, tentando eliminar as instituições dedicadas à transmissão do conhecimento prático e forçando a evolução na direcção de uma crescente abstracção teórica, onde a realidade constitui uma interferência indesejável.

Depois de ler o ensaio de Matthew Crawford, decidi ver um documentário há muito (a)guardado: Ballets Russes, a história das companhias de bailado que nasceram a partir da companhia original fundada por Sergei Diaghilev (consulte a lista de compositores e pintores que ao longo dos anos colaboraram com os Ballets Russes). Na cena inicial assiste-se ao reencontro de alguns dos elementos que ao longo dos anos integraram as duas companhias. Nathalie Krassovska, então com 81 anos, faz alguns exercícios: I’m doing a little barre. Two days I didn’t do barre. Krassovska, cuja mãe e avó materna também haviam sido bailarinas – a mãe no Ballet Bolshoi – recebeu delas o gosto e o conhecimento prático da dança. Tal como ela, quase todos os antigos bailarinos entrevistados tinham mais de 80 anos de idade e apesar disso a grande maioria continuava a ensinar diariamente. São vidas inteiras dedicadas ao aperfeiçoamento da prática da dança, numa procura permanente da excelência. Viajando pelo mundo através da II Guerra Mundial, apesar das dificuldades financeiras e das divergências pessoais, os Ballets Russes renovaram a tradição da dança e influenciaram decisivamente o bailado contemporâneo. Quanto a Crawford, preferiu trocar o think tank de Washington onde trabalhava por uma oficina de reparação e restauro de motos antigas. Apesar dos muitos que desistem e dos muitos mais que nem sequer tentam, prefiro terminar o ano de 2006 evocando os exemplos daqueles que defenderam a sua autonomia pela escolha de um modo de vida e que tiveram a disciplina necessária para procurar realizar nele o mais elevado potencial humano.
publicado por Joana Alarcão às 03:05 | comentar | ver comentários (4) | partilhar
Quarta-feira, 27.12.06

Factos ...

Tudo isto dado a conhecer num só dia: ontem

1) Decretada a morte de Saddam Hussein Abd al-Majid al-Tikriti. Enforcamento a decorrer nos próximos 30 dias

2) Ramos- Horta, prémio Nobel da Paz, envia mensagem de Natal a Bin Laden

3) Já morreram mais norte-americanos na guerra do Iraque do que civis nos atentados de 11 de Setembro

Comentários?
...........................
publicado por Joana Alarcão às 22:12 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

Réplica

Meu caro BCM,
Como te disse, não concordo com a primeira parte deste teu argumento. Ao contrário do que escreves, não é a vida que confere o direito, mas sim a "pessoa humana", reconhecida pelo Direito, que carece de protecção a vários níveis, inclusive o mais básico para a sobrevivência, a vida. Por isso o direito à vida é o primeiro (e a condição) de todos os outros direitos, inclusive o direito à liberdade, de que falas. Claro que nem todos os seres vivos têm os mesmos direitos, pois nem todos são "pessoa". Esta noção é pois essencial. Séculos para densificar o conceito, não percebo como o afastas em duas linhas.
Quanto à segunda parte do teu texto, não posso estar mais de acordo.
Obrigado pelo almoço, recebe um abraço.
publicado por Paulo Marcelo às 18:08 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

A Morte de Deus

“… Que fizemos nós, quando soltámos a corrente que ligava esta terra ao seu sol? Para onde se dirige ela agora? Para onde vamos nós? Para longe de todos os sóis? Não estaremos a precipitar-nos para todo o sempre? E a precipitar-nos para trás, para os lados, para a frente, para todos os lados? Será que ainda existe um em cima de um em baixo? Não andaremos errantes através de um nada infinito? Não estaremos a sentir o sopro do espaço vazio? Não estará agora a fazer mais frio? Não estará a ser noite para todo o sempre, e cada vez mais noite? Não teremos de acender lanternas em pleno dia? Será que ainda não estamos a ouvir o ruído que fazem os coveiros a enterrar Deus? Ainda não nos terá chegado o cheiro da decomposição divina? Porque até os Deuses se decompõem! Deus está morto!” (Nietzsche, A Gaia Ciência, §125)

Sim, digam-me…

Por que é que a pausa da SuperLiga é tão longa neste tempo de Natal? Onde estão os golos do Nuno Gomes? Os longos cruzamentos do Nani? As exibições de Lucho? Estaremos condenados a sobreviver com os deuses de fora, com os golos de Drogba e do Cristiano Ronaldo? Para onde vamos nós sem os comentários do Paulo Bento? Onde está Fernando Santos, esse homem tão bom? Como é possível viver com 16 clubes? Façam mais uma competição. Transmitam os jogos da Liga de Honra, da IIª Liga e da IIIª. Neste tempo em que se celebra um nascimento, não deixem morrer a nossa Vida. Recuso-me a viver num mundo sem Deus!
publicado por Joana Alarcão às 11:24 | comentar | ver comentários (4) | partilhar

Direito à vida?

Recentemente, em conversa com o Paulo Marcelo, expressei a opinião de que essa entidade jurídica e moral a que chamamos o direito à vida devia ser abandonada, por claramente absurda. Eis o meu argumento, tal como o apresentei na altura, sem tempo para grande subtileza. Se a vida conferisse um direito, então qualquer ser vivo teria de ser igualmente beneficiário desse direito. Mas se o direito decorre da liberdade ou da personalidade, de nada serve dizer que se protege a vida de um ser livre e único. A vida enquanto tal não é protegida. Em bom rigor, isto explica por que é que nas nossas sociedades somos tão tolerantes em relação ao sacrifício mais ou menos evitável de vidas humanas, como por exemplo nas estradas ou nas grandes obras de construção. O número de mortes é certo, contabilizável, e mesmo assim não deixamos de usar automóveis e de construir pontes.
Claro que tudo isto tinha a ver com o problema do aborto. Teremos muito a ganhar se colocarmos a questão em termos de um direito à liberdade e não um direito à vida. Os meios de contracepção conferem a cada pessoa uma esfera de liberdade sem a qual a sua vida estaria dependente das necessidades da vida em sociedade. O mesmo socialismo parece resultar de um regime de aborto livre. Como explicar a alguém que cada indivíduo é dono e senhor de uma vida própria se essa vida está inicialmente dependende da escolha de outro? Como defender que cada um de nós não existe para cumprir uma função social quando se defende simultaneamente que essa inconveniência que é ter um filho não deve existir, que os nossos filhos cumprem uma função na nossa vida e nada mais do que isso? Como preservar o sentido agudo de aventura quando os poderes públicos estão ao virar da esquina para nos trazer de volta ao conforto? Como impedir que todas as pessoas à sua volta decidam que uma mulher deve fazer um aborto e como garantir que ela permanece livre de decidir o contrário?
A questão não diz respeito à biologia. É política.
publicado por Bruno Verdial Maçães às 01:29 | comentar | ver comentários (10) | partilhar
Segunda-feira, 25.12.06

The sense of an ending

Esta noite, estive a ver o Bing Crosby e o Sinatra cantando o “White Christmas”. Depois, por acaso, vi o Dean Martin a cantar a “My Rifle My Pony and Me”, no Rio Bravo, com o John Wayne e o inesquecível Walter Brennan – lembram-se?... Mas veio-me então uma imensa tristeza. Percebi porquê. Lembrei-me de ter lido isto e ainda isto. E das outras inacreditáveis histórias sobre o abafamento das imagens e designações associadas ao Natal. Aqui e ali. Para não ofender [sic] crentes de outras religiões.
Lembremo-nos do que aconteceu há pouco com o Idomeneo em Berlim e, no ano passado, em Genève, a Le Fanatisme, do Voltaire. Muita gente “sensata”, então, considerou as preocupações, ou mesmo as supressões, como razoáveis. Começa sempre assim.
Lembremo-nos, também, do desfile miserável que foi o episódio dos cartoons. Cá, a tristíssima declaração oficial do nosso Ministro dos Negócios Estrangeiros, o ‘senhor Amaral’ - como lhe chamou essa criatura sem vergonha que é o embaixador do Irão em Portugal.
Há qualquer coisa que se dissemina. Qualquer coisa que não é nada bonita. Os sinais vão aparecendo por todo o lado. Por exemplo, contaram-me noutro dia que, em Croydon, um borough de Londres, uma piscina municipal, num certo dia da semana, está vedada a qualquer cidadão que a queira frequentar, com excepção dos muçulmanos, porque é para estes que esse dia está reservado (para homens e mulheres, segregados por diferentes alturas do dia, note-se). Como se isto fosse normal.
O que está a acontecer (irá acontecer) a este nosso mundo? Um mundo em que ainda (?) faz sentido ouvir-se o “White Christmas”, celebrar-se o Natal (com menor ou maior “autenticidade”, não vem ao caso), exibirem-se símbolos que podem ser religiosos, sim (e, ao escolher um símbolo, excluo outros, claro), haver liberdade de expressão, opções estéticas carregadas de “ideologia” pouco simpática, etc.
Nada de novo, na verdade: o Nacional-Socialismo chegou ao ponto, também, de alterar o texto do Requiem de Mozart para eliminar as referências “judaicas”, não convenientes para aquela modernidade. Entre outros, 'Deus in Sion' passou a cantar-se 'Deus in coelis' e, na vez de 'in Jerusalem', ouvia-se agora 'hic in terra'...
Um dia, proibir-se-á uma interpretação pública do Messias de Händel, porque também ela poderá ferir ouvidos “religiosamente” susceptíveis. E chegará a data em que, serenamente, sem um protesto, retirarão, da National Gallery, por ofensiva, Uma Alegoria com Vénus e o Tempo, de Battista Tiepolo, ou talvez, por obscena, a Vénus ao Espelho, de Velázquez. Sem um protesto.
Não sei se é acertado, como fazem alguns, comparar esta espécie de anemia do “Ocidente” ao final do Império Romano ou, como outros preferem, à queda de Constantinopla. Mas, esta noite, não consigo deixar de ouvir soar na minha cabeça a expressão the sense of an ending (que, atrevidamente, fui buscar a Sir Frank Kermode) – gosto muito dela. Tem-se a sensação amarga de se estar rodeado de gente para quem nada daquilo que se está perdendo é importante. Gente para quem a falta daquilo que ainda se vai tendo (vendo, ouvindo, lendo, fazendo) não fará, realmente, diferença. A sensação de que se está sozinho. Just my rifle, pony and me.
publicado por Carlos Botelho às 03:13 | comentar | ver comentários (5) | partilhar
Domingo, 24.12.06

Baldios de Natal

No princípio era a ilha
embora se diga
o Espírito de Deus
abraçava as águas
Nesse tempo
estendia-me na terra
para olhar as estrelas
e não pensava
que esses corpos de fogo
pudessem ser perigosos
Nesse tempo
marcava a latitude das estrelas
ordenando berlindes
sobre a erva
Não sabia que todo o poema
é um tumulto
que pode abalar
a ordem do universo agora
acredito
Eu era quase um anjo
e escrevia relatórios
precisos
acerca do silêncio
Nesse tempo
ainda era possível
encontrar Deus
pelos baldios
Isso foi antes
de aprender a álgebra

Tolentino Mendonça, A Infância de Herberto Helder (1990)
publicado por Paulo Marcelo às 16:14 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Ainda a poluição visual nas cidades

Em complemento a este post do Marcelo, a prefeitura da cidade de S. Paulo decidiu proibir a utilização de todos os tipos de outdoors e painéis electrónicos. Nada mau, para uma metrópole com 11 milhões de habitantes. Obviamente estou contra.
publicado por Francisco Van Zeller às 00:23 | comentar | ver comentários (3) | partilhar
Sexta-feira, 22.12.06

Não se governam nem se deixam governar

A reacção da recusa de Rui Rio em dar "tolerância de ponte" no dia 26 de Dezembro mostra quão actual está esta expressão. Passem milhares de anos e de influências de tantas civilizações e cá estaremos, sempre a chafurdar nos direitos e nas conquistas do "povo".

Numa reportagem da SIC, em tom pesaroso, a locutora lá ia dizendo que a tal tolerância tinha sido concedida pelo Governo e que "todas as câmaras municipais contactadas pela SIC" iam ter os serviços encerrados no dia 26.

Rio argumentou, e muito bem, que estamos em crise económica e que milhares de pessoas do sector privado - como eu porra - iam trabalhar dia 26. Muitas delas precisam dos serviços da câmara a funcionar, e não a ressacar no enésimo feriado deste ano.

É que só neste mês já tivémos e vamos ter: uma sexta-feira pela Restauração, uma sexta-feira pela Imaculada Conceição, uma segunda-feira pelo Natal e uma segunda-feira pelo ano Novo! O que é que querem mais?

P.S. Eu até admito que Rio faça isto para piscar o olho a alguns sectores da direita. Mesmo assim prefiro que alguém dê o exemplo.

publicado por Francisco Van Zeller às 16:13 | comentar | ver comentários (7) | partilhar

Feliz Natal em Pecado

Tem sido assim desde sempre, e este que me bate à porta já está planeado para ser igual. Assim de cabeça mergulho em três pecados capitais: gula, luxúria e preguiça. Três em sete não é maioria, mas sendo capitais talvez o argumento não colha. No dia do juízo em que não acredito talvez possa argumentar que em tempos escrevi num blogue com muitos cristãos. Como se diz na gíria anglosaxónica: that's got to count for something. Ou talvez não.

Somos uma desgraça de criação, nesta viagem não embarco sozinho e o quotidiano está recheado de muitos mais. Não houvesse mercado e não haveria produto, mas ao menos poder-se-ia disfarçar. Ele serve para nos erguer, escreveu aqui o Picoito em tempos. Não sou um entendido, mas se a doutrina é a que consta por aí, consta também que trabalho não lhe vai faltar.

Nunca comprei a famosa "ideia de Deus", mas sempre olhei com curiosidade a delicada escolha do menu por muitas das suas "criações". Pensei que os ensinamentos fossem eternos, mas, genuinamente, para bem e para mal, alguns são mais eternos do que outros. Talvez não fosse má ideia encarecer um pouco a "absolvição". Digo eu, de fora, e como parte não especialmente interessada. Eu e os meus tratamos bem mim e dos que nos estão próximos. Também não tratamos mal os outros, mas sei que, em Janeiro, quando voltar ao serviço cívico após a profissão, vamos ser bem menos do que aqueles que fizeram fila para comprar bonecos daquele que os irá, diz o Picoito, erguer.

No metro, que uso regularmente durante o ano, são as pessoas mais pobres que dão sistematicamente esmola. Elas sabem porquê.

Feliz Natal.
publicado por Manuel Pinheiro às 15:03 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Com tanto para olhar ainda sobra espaço para ver?

Passei uns dias em Londres. Mesmo tentando evitar o roteiro turístico, são inevitáveis certas ruas, museus, algumas lojas, o metro. Impressiona a quantidade de publicidade nos espaços públicos, até no metro e autocarro há som e televisões a passar anúncios. É impossível passar ao lado, fugir das imagens e do barulho, tão intrusivos que ocupam os sentidos, quando não a cabeça. Acaba por sobrar pouco espaço para ver a cidade e observar as pessoas.
Já sei que é o Natal, o apogeu do consumismo. Já sei que o frio não ajuda a levantar a cabeça. E que Lisboa não está melhor. Mas será que a globalização capitalista implica vendermos espaço e tempo nas nossas cabeças? Com que direito nos impõem um esforço permanente para preservar a liberdade de ver e pensar naquilo que queremos? E será que sobra espaço para ver alguma coisa?
publicado por Paulo Marcelo às 11:54 | comentar | ver comentários (4) | partilhar

Da série "O Som e a Fúria"

Marc Chagall, A Virgem com o trenó (1947)

A ESTRELA

Eu caminhei na noite
Entre silêncio e frio
Só uma estrela secreta me guiava

Grandes perigos na noite me apareceram
Da minha estrela julguei que eu a julgara
Verdadeira sendo ela só reflexo
De uma cidade a néon enfeitada

A minha solidão me pareceu coroa
Sinal de perfeição em minha fronte
Mas vi quando no vento me humilhava
Que a coroa que eu levava era de um ferro
Tão pesado que toda me dobrava

(cont.)
publicado por Pedro Picoito às 01:54 | comentar | ver comentários (1) | partilhar
Quinta-feira, 21.12.06

Da série "Os Outros"

No Amigo do Povo, o meu amigo (e do povo) Fernando Martins escreveu o post que eu gostaria de ter escrito sobre a última pérola do Daniel Oliveira: o revolucionário conceito de "conservadorismo católico e comunista" (sic). A ciência política nunca mais será a mesma.

No Mar Salgado, o Pedro Caeiro diz o que há a dizer sobre a recente nomeação de Maria José Morgado para combater a corrupção no futebol. Apesar de quase desaparecido, o Pedro continua a ser um dos melhores marinheiros da blogosfera lusa.
publicado por Pedro Picoito às 12:51 | comentar | ver comentários (2) | partilhar
Quarta-feira, 20.12.06

Zangam-se as comadres...

Depois de ter ficado famoso por dizer que os seres humanos não tinham mais direitos do que os animais, Peter Singer enfrenta agora a fúria dos activistas de direitos dos animais por dizer que ...bem ... que os animais não têm mais direitos que os seres humanos. O célebre filósofo de Princeton não compreende como é que os princípios gerais que, em seu entender, tornam lícitos certos actos praticados sobre humanos – aborto, infanticídio, eliminação dos deficientes, por exemplo – também não sejam aplicáveis aos bichos, justificando, nomeadamente, a experimentação com animais. Foi como uma bomba. Para os grupos de direitos dos animais esta posição é absolutamente inaceitável.

A polémica instalou-se e os defensores dos direitos dos animais tratam-no agora como um proscrito: «No one in the animal rights movement views Peter Singer as the father of the modern animal rights movement. It’s a label that has been placed on him by the media because he wrote a book entitled “Animal Liberation”». E vejam lá bem as coisas horríveis de que os seus antigos admiradores agora (mas só agora…) o acusam: «Mr Singer has never believed in the rights of animals but is a Utilitarian, who would presumably agreed that if the experiments conducted on the Jews in the concentration camps by the Nazis could be seen to have benefited more human beings than the number of Jews killed, then somehow this would be deemed acceptable because it is viewed by utilitarians as being for the greater good. He’s the same man that advocates killing handicapped children in circumstances where for them to live might be a burden on the parents.» [Notícia aqui e reacções aqui].

Ou seja, no nobre desejo de proteger cães e gatos talvez ainda se venha a recuperar, como uma espécie de efeito secundário, alguma humanidade para os humanos... Não sei se rir, se chorar, ou se soltar um grunhido (e escusam de brincar com o meu apelido...)

publicado por Joana Alarcão às 17:55 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

...

Já se zombou acerrimamente com o conteúdo da campanha da Igreja Maná que, nos últimos tempos, tem ocupado os espaços públicos e os pára-brisas dos nossos automóveis. Resta saber porquê. Os princípios teológicos respeitantes à virtude da esperança (ou à falta dela) são perfeitamente adequados. Senão vejamos.
O estado nas nossas finanças particulares e públicas é “um caso sério de falta de graça”. Dívidas e despesas imprevistas? Público e privados estão em sintonia. E pode ser que a solução para este caso tão sério dependa integralmente da Graça divina. «Não desespere! Deus quer e pode fazer um milagre nas suas finanças!» Se dos nossos méritos e dos deméritos dos governantes já pouco se espera, então como não desesperar? Consultemos rapidamente São Tomás de Aquino. A esperança tem como fim último a felicidade eterna. O seu objecto é assim um bem futuro sobrenatural, árduo, mas exequível. O desespero, por outro lado, nasce da consideração de que é impossível atingir o bem árduo a que se aspira. A perpetuidade da pena dos condenados no fogo do inferno impede-os de terem qualquer esperança. Ao saberem que não podem evadir-se do castigo, o bem sobrenatural e objecto primário da esperança nem sequer é apreendido como possível.
Dirão que a Igreja Maná exagera. O bem constituído pelo equilíbrio das nossas finanças públicas é um fim árduo, mas precipitamo-nos quando clamamos por Deus. Afinal, tal bem é exequível e nada tem de sobrenatural. Pois permitam-me discordar. É exequível e antevemo-lo como possível. Não estamos na situação dos condenados no inferno. Mas olhem que tem contornos sobrenaturais. Deixem lá ver se completam e publicam a lista dos excedentários da função pública e depois logo falamos. Pois é. Talvez só mesmo um deus nos possa salvar.

publicado por Joana Alarcão às 00:15 | comentar | ver comentários (4) | partilhar

Cachimbos

O Cachimbo de Magritte é um blogue de comentário político. Ocasionalmente, trata também de coisas sérias. Sabe que a realidade nem sempre é o que parece. Não tem uma ideologia e desconfia de ideologias. Prefere Burke à burqa e Aron aos arianos. Acredita que Portugal é uma teimosia viável e o 11 de Setembro uma vasta conspiração para Mário Soares aparecer na RTP. Não quer o poder, mas já está por tudo. Fuma-se devagar e, ao contrário do que diz o Estado, não provoca impotência.

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