Quarta-feira, 31.01.07

Arma de destruição maciça


Eles faltam às aulas, tiram licenças sem vencimento, gastam uma fortuna com os telemóveis, investem em sites na Internet, organizam jantares, marchas, conferências de imprensa. Preparam tempos de antena, trazem estrangeiros, às suas custas, para os ajudar. Usam, às escondidas, os faxes e as máquinas de tirar fotocópias das empresas onde trabalham para poupar uns tostões.

Eles não têm máquinas partidárias a apoiá-los. Eles não têm as redacções do seu lado. Eles combatem num terreno inclinado e lutam contra o tempo. Eles estão a dedicar meses - alguns, anos - a esta causa.

Em 1 minuto e 55 segundos, todo o esforço dos militantes do "Não" foi implacavelmente - e irremediavelmente? - esmagado por um sensacional sktech dos "Gato Fedorento" (visto por 1,5 milhão de pessoas, eis o verdadeiro raio de alcance desta arma) a fazer troça da posição do Marcelo.

Tal como já disse o Paulo Pinto Mascarenhas, esperamos neste Domingo por igual sátira ao "Sim". Relembro que se trata de entretenimento em ambiente de total liberdade de expressão mas já agora, no Serviço Público de Televisão. Pago com os meus impostos (150 milhões de euros por ano).
publicado por Francisco Van Zeller às 15:41 | comentar | ver comentários (25) | partilhar
Terça-feira, 30.01.07

Da série "O Som e a Fúria"

EPITÁFIO DE BEJA

Quem quer que sejas, caminhante, quando
passares por este túmulo e no epitáfio
leres que da vida me parti só tendo
uma vintena de anos, tu, sem dúvida,
haverás de lamentar-me. Se porém
pensares em que esta paz que gozo agora
te seja, a ti cansado, assim tão doce
como será para mim, eu farei votos
de que mais vivas e envelheças tarde,
gozando a vida que me não foi dada.
Mas se o chorar te é gosto, porque não
hás-de chorar? Por Nise. Jaz aqui.
Viveu só cinco lustros. Lhe fizeram
este moimento Inacos, o seu pai,
e Io, sua mãe. Vai-te, ou melhor,
ó caminhante, voa, que se agora
és tu quem lê, não tarda serás lido.

Jorge de Sena, Sequências (1980)
publicado por Pedro Picoito às 20:03 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

O Rigor da Clareza

"Falemos claro: a liberalização é a do aborto clandestino!"

- Ana Catarina Mendes, deputada do PS, no programa "Prós e Contras" da RTP (29 de Janeiro de 2007)
publicado por Miguel Morgado às 13:46 | comentar | ver comentários (7) | partilhar

Sócrates vai à China

Estive há semanas, a convite da Jason Associates, num seminário sobre como «escalar a Grande Muralha da China». A proposta era simples e consistia basicamente em percorrer técnicas de negociação, que, desde a saudação inicial até ao processo de conclusão de um negócio, demonstram que ali está uma cultura diferente, um mundo novo que é preciso conhecer e respeitar, antes de entrar.
Uma das tónicas que me impressionou foi o modo como no processo de negociação se encara o tempo. O tempo remete para o amadurecimento. Não se decide à pressa, não se negoceia constrangido, nem sob pressão. Por isso, a negociação vence-se pela paciência. E quem for impaciente é vencido à partida, porque o tempo é o grande aliado do negociador.
Sócrates parte para esta viagem vencido. O seu tempo não é ditado pela agenda da viagem. É ditado pela agenda portuguesa: para marcar o passo à viagem à India do Presidente; para estar fora no dia em que começa a campanha do referendo. Mesmo que não tenha interlocutores ao seu nível lá. Mesmo que a importância dos temas que o levam à China, pudesse justificar uma alteração de calendário. Sócrates está preso do seu tempo. E, na China, essa atitude compromete irremediavelmente o sucesso. Portugal é quem perde.
publicado por Filipe Anacoreta Correia às 12:14 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Direitos do homem

Exmos.,

Fiquei de fora mais uma vez. Ninguém discute o que mais interessa. Ontem no debate sobre o referendo do aborto uma alminha perguntava: se não for a pedido da mulher, é a pedido de quem?
Decerto me reconhecem pela reivindicação em prol da poligamia. Pois bem, há mais qualquer coisa pela qual temos de lutar. A liberalização do aborto a pedido do homem.
Imaginem uma das minhas incursões sexuais em que procuro apenas obter prazer através da relação sexual. E se acontecer que por acidente se dê a fecundação? A verdade é que o meu património genético foi transmitido a outra pessoa. Se essa pessoa decidir, sem o meu consentimento, utilizar esse património genético para os seus fins pessoais, não estará a violar meu direito? E mesmo que existisse um consentimento inicial, não deveria haver uma lei que protegesse a retirada do meu consentimento de modo a que uma outra pessoa não pudesse utilizar os meus genes de acordo com a sua vontade? É que para fins de investigação médica e científica, no art. 9 da Declaração Internacional sobre os Dados Genéticos Humanos, o consentimento pode ser retirado pela pessoa envolvida e nesse caso os dados genéticos humanos, dados proteómicos humanos ou amostras biológicas deverão ser irreversivelmente dissociados ou destruídos.
É só para dizer que esta lei gera uma profunda desigualdade de direitos entre homens e mulheres. É absolutamente injusto. Confere-se o direito à mulher a decidir o que fazer com os seus genes e ao homem não. Por isso, aborto sim. Mas também a pedido do homem.

Ass: T
publicado por Joana Alarcão às 12:01 | comentar | ver comentários (11) | partilhar
Segunda-feira, 29.01.07

Da série "Posta Restante"

"The durability of Conservatism has depended, to a great extent, on it being a disposition rather than a philosophy. What marks Conservatives out, across the generations, and whatever the environment they operate in, is an attitude of mind rather than an adherence to dogma. And that disposition - sceptical, cautious, pragmatic, sensitive to the local and the particular - has been politically successful because it has been in tune with human nature."

Michael Gove, "All hail the new anti-Islamist intelligentsia", in The Spectator, 27/1/07
publicado por Pedro Picoito às 12:36 | comentar | partilhar

Tréplica

Caro Paulo, não sei se serão bem réplicas e tréplicas, sobretudo porque estamos a falar de coisas um pouco distintas. Não tendo o meu sentido de voto definido, e não militando em nenhum dos lados da questão, preocupo-me mais no aprofundamento dos argumentos do que na sua agitação. Há um conjunto de argumentos do lado do "Não" que colocam a questão em termos de gasto e eficiência que não me parecem devidamente fundamentados e, tal como estão apresentados, não convencem. Há até alguma indignação no argumento da pessoa idosa e indefesa que verá o seu tempo de espera por uma consulta/intervenção aumentado devido à deslocação de recursos do SNS para "garantir" o aborto livre e "gratuito". Gostava sinceramente que explicassem porquê, e sobretudo como é que este argumento encaixa em quem tem como bandeira a defesa da "vida".

Quem coloca a questão nos termos "aborto vs vida" e argumenta impostos e recursos tem de resolver a equação "aborto vs parto", que nada por acaso é altamente deficitária para o lado dos "defensores da vida", pois o parto é mais custoso e consome mais recursos ao longo de muitíssimo mais tempo (antes e depois). Se a preocupação é não prejudicar os indefesos em espera, aborta-se o feto e deslocam-se os recursos restantes que seriam gastos com parto, maternidade, pediatria, etc. para os indefesos em espera.

Compreendo que existam certos corredores de pensamento pelos quais às vezes entramos e sentimos as paredes pintadas de suásticas, uma espécie de Mengele tornado contabilista, mas o que espero que o teu lado do "Não" compreenda é que a defesa da "vida" é altamente custosa, exige dinheiro, recursos, sacrifícios. O "Sim" é eminentemente mais eficientista, fácil e os custos são sobretudo de outra ordem e suportados pelo casal ou pela mulher no dramatismo da decisão. O que espero do "Não" é a defesa de como a "vida" vale bem todos esses custos, e como compensa os sacrifício e as despesas associadas, que são muitas e prolongadas.

Quanto à questão da objecção de consciência fiscal, disfruta os Pirinéus, e cá estaremos na próxima semana para a debater se ainda fizer sentido.
publicado por Manuel Pinheiro às 11:10 | comentar | ver comentários (3) | partilhar
Domingo, 28.01.07

A Conquista da Europa

"Depois de ter sido expulso por duas vezes, o Islão regressará à Europa como um conquistador vitorioso. Sustento que desta feita a conquista não será feita pela espada, mas pela pregação e pela ideologia".

- Youssef Al-Quaradhawi, teólogo da Irmandade Islâmica.

Não me parece. A "pregação" e a "ideologia" foram a esperança da maioria dos comunistas durante a Guerra Fria, que com mais razão a acalentaram. E mesmo assim nunca prescindiram inteiramente da "missão libertadora" do Exército Vermelho, nem das virtudes do golpe de Estado nocturno. Já a demografia pode ser um aliado mais fiel da conquista islâmica da Europa. Mas é um aliado tão lento, e depende de tantas variáveis de constância duvidosa, que provavelmente não substituirá o ferro e o fogo mais caros ao prosélito impaciente.
publicado por Miguel Morgado às 18:58 | comentar | ver comentários (4) | partilhar
Sexta-feira, 26.01.07

Malhas que o Império tece

O post do Francisco aqui em baixo significa duas coisas.
Primeira: que para a geração de 70, à qual pertencemos, o Prof. Salazar já é uma figura um pouco burlesca e que se presta a jogos como este concurso. Não sei se isso será bom ou mau. Se representa um corte geracional com a memória traumática da ditadura que era a dos nossos pais, representa também uma importante desvalorização da penosa história do século XX português.
Segunda: que há quem se esteja a divertir bastante à custa da ideia bacoca do campeonato.

P.S. Não votei. Caso votasse, o meu voto iria para D. Afonso III, o rei que conquistou Faro. Se não fosse ele, hoje eu seria mouro ou castelhano.
(Pensando melhor, talvez houvesse algumas vantagens...)
publicado por Pedro Picoito às 19:26 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Pela negativa

Quem vota no Salazar no concurso "Grandes Portugueses" fá-lo pelas seguintes razões:

- Porque se sentiu enganado quando quiseram impedir que o homem constasse da primeira lista de "Grandes Portugueses", mesmo que não fosse votar nele;

- Para enervar a esquerda e chocalhar o ambiente politicamente correcto que infecta há 30 anos os media (o meu pretexto favorito, por isso lá vai um votozinho);

- Para se manifestar contra o actual estado de coisas (qualquer que ele seja: crise de costumes, crise de identidade, irrelevância internacional do país etc.);

- Porque foi traído pelo 25 de Abril (diria sobretudo os retornados do Ultramar);

- Por algumas saudades do "outro tempo".

São essencialmente razões ligadas ao passado, a alguma nostalgia e reaccionarismo. São razões negativas.

Eventualmente uma minoria votará em Salazar porque o achou um grande estadista, com um papel fundamental no fim da 1º República, na 2ª Guerra Mundial, no lançamento das bases do desenvolvimento económico do pós-guerra etc. Mas será sempre uma minoria.

Como sei que isto já basta para levar muita porrada, fico por aqui.

P.S. Os meus votos restantes (devem ser uns 4 ou 5) vão para o Rei Afonso Henriques.
publicado por Francisco Van Zeller às 18:07 | comentar | ver comentários (12) | partilhar

APCL de parabéns

O concerto promovido pela APCL (Associação Portuguesa Contra a Leucemia), ontem, no pavilhão Atlântico, em Lisboa, foi comovente e digno dos maiores aplausos. A organização liderada por Duarte Lima está de parabéns pelo belíssimo evento e pelos resultados que a APCL tem vindo a obter.

“Em quatro anos, os dadores de medula óssea em Portugal passaram de dois mil para 65 mil. O aumento deve-se em grande parte à acção da Associação Portuguesa Contra a Leucemia. Ontem a associação juntou o apoio do público ao de várias figuras políticas num concerto no Pavilhão Atlântico, em Lisboa.”
in Sic On-line

A qualidade dos artistas em palco (sobre a direcção do maestro José Cura, que encheu a sala com a qualidade das suas performances) foi notória. A Orquestra Sinfónica Portuguesa esteve muitíssimo bem; o jovem pianista Domingos António uma vez mais surpreendeu; Luz Casal voltou a irradiar (e, a partilhar com o público sentimentos fortes…). Luís Represas e Rui Veloso, que estão com a APCL desde início, mostraram o seu apoio incondicional a esta causa juntamente com o fantástico público que (praticamente) encheu a sala. De anónimos a “conhecidos” ( Presidente da República, Primeiro-Ministro, Ministros, Empresários…) todos marcaram presença em nome de uma causa.
Foi um momento bonito. Um momento que ajudará com toda a certeza os que necessitam dele.
publicado por Joana Alarcão às 13:13 | comentar | partilhar
Quinta-feira, 25.01.07

Maravilhas


A nossa querida Lisboa, capital mundial da cultura e de outras coisas edificantes, será o local escolhido para a cerimónia de declaração das "Sete Novas Maravilhas do Mundo", a realizar no próximo dia 7 de Julho (07/07/07). A iniciativa de colocar à consideração dos internautas a escolha das maiores obras arquitectónicas do espírito humano poderia não passar de mais um exercício essencialmente fútil e infantil, que reflecte a vontade (ou mania) contemporânea de pronunciar veredictos (democraticamente, bem se vê). A votação para o "Maior Português", e o debate maioritariamente ridículo que suscitou, ilustram bem a patologia.

Todavia, a reacção virulenta do Egipto à simples ideia de fazer acompanhar as Pirâmides - a única maravilha sobrevivente das lendárias "Sete Maravilhas do Mundo" - de outros monumentos, para além de atestar o caso agudo de esquizofrenia de que padecem algumas sociedades do Médio Oriente, recordou-nos que os veredictos nunca podem ser politicamente inocentes. O caso da inclusão de Salazar no pódio dos "Grandes Portugueses" serve, uma vez mais, como exemplo. A indústria do entretenimento que se dedica a propôr estes rankings e hierarquias mais ou menos arbitrários gosta e precisa de salientar a "importância" do "envolvimento cívico" ou do "debate de ideias". Mas tem dificuldade em lidar com a reacção daqueles que estupidamente dão mais importância ao assunto do que este merece. O que servia sobretudo para elevar os "valores da Humanidade", para promover a "paz, a tolerância e o amor em toda a Terra", afinal desecandeou uma resposta rude, chauvinista e intolerante. E nós, infelizes espectadores, estamos inconsoláveis perante tamanho delírio.
publicado por Miguel Morgado às 19:46 | comentar | partilhar

O financiamento do dito

Confesso que já estou um pouco saturado com o tema do aborto. Mas como gosto de um bom debate de ideias e a coisa tem mais piada dentro do mesmo blog - no Cachimbo isto está a aquecer - aqui fica um texto, em jeito de resposta ao post Death & Taxes , do Manuel Pinheiro.
Começo por dizer que se houver um “sim” à pergunta do referendo, passará a existir na lei portuguesa um “direito” da mulher a abortar livremente, até às 10 semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado. Recordo que deixarão de ser necessárias indicações (como até agora) e que nada nos garante que haja sequer um aconselhamento obrigatório (como existe na Alemanha). Se assim for, cumpre saber como se vai organizar o Estado para garantir, na prática, esse novo “direito” legal ao aborto?
Conhecendo as limitações do SNS e a recusa prática de muitos médicos em praticar o aborto (objecção de consciência), é natural que surjam clínicas privadas especializadas em IVG (duas clínicas espanholas já anunciaram que iriam abrir portas em Lisboa) onde serão praticados a grande maioria dos abortos.
É também inevitável (o Ministro da Saúde já fez declarações nesse sentido) que o Estado venha a financiar a prática de aborto mesmo fora do SNS, de modo a garantir às mulheres o seu novo “direito”. Este ponto é importante porque contraria a tese de que o aborto é uma questão privada e de “consciência”. Ou seja, para além de outras coisas, está também em causa neste Referendo o financiamento da IVG. Será que uma opção individual - note-se que não estão em causa razões de saúde da mulher ou do feto - deve ser financiada pelos impostos? Não vale a pena fugir da questão, ou dizer que é uma mais uma cedência “economicista”. Nada disso. É um problema politico e com profundas implicações na relação do Estado com os cidadãos. Será legítimo usar os recursos públicos para financiar uma prática considerada por metade da população como uma eliminação de uma vida humana?
E surge um outro problema, agora de ordem ética. Se o aborto for financiado pelos impostos, não podemos considerar legítima a evasão fiscal daqueles que consideram o aborto um crime?
publicado por Paulo Marcelo às 14:08 | comentar | partilhar

Death & Taxes

Já passaram alguns dias e ainda não é claro o alcance do argumento dos impostos na questão do aborto. Julgo que para a maioria dos defensores do "Não", o objectivo não é lançar as mulheres para situações de clandestinidade, mas antes evitar que o aborto se realize e que possa nascer uma criança, preservando então a vida. Se o objectivo é este, e caso fosse um defensor do "Não", o mais provável é que ficasse quieto e calado no tema fiscal; no entanto, não só houve a má ideia de uns certos outdoors, como ainda houve algo pior: um colóquio/comunicação em que se argumentou sobre o tema com intervenções de António Borges, Isabel Neto e Maria José Nogueira Pinto.

O argumento de António Borges é a utilização alternativa de recursos, o custo de oportunidade de realizar um aborto seria demasiado elevado para ser realizado pelo SNS. Isabel Neto e Maria José Nogueira Pinto optam (pelo menos nos excertos da imprensa) pelo argumento da despesa, o mesmo dos outdoors: o aborto custa dinheiro, Portugal tem problemas de despesa pública, e esse dinheiro é melhor aplicado em outras áreas do já sobrecarregado SNS.

Este argumento alegadamente eficientista não convence no seu próprio terreno. De uma maneira geral, só utiliza o SNS em Portugal quem não tem dinheiro suficiente para escolher um privado. Quem hoje viaja até clínicas em Londres ou Madrid, tendencialmente não utilizará o SNS, por razões de maior privacidade e qualidade global. Quem rumará ao SNS será o grosso das mulheres que hoje opta por situações clandestinas em Portugal que acrescentam mais riscos clínicos ao acto por desadequação de formação e equipamento de quem o realiza. E é aqui que o argumento fiscal e eficientisca esbarra, senão vejamos:

Quem opta pelo aborto clandestino realizado em Portugal são pessoas tendencialmente pobres, com rendimentos próximos do salário mínimo, ou seja, não contribuem para a receita fiscal, ou apenas marginalmente o fazem. Recebem no entanto os benefícios do Estado, como sejam o SNS, a justiça, a segurança, etc. Estando em situação carenciada e não desejando ter (mais) filhos, e se o "Não" é para levar a sério, as crianças nascidas deste meio serão beneficiárias do Estado, utilizarão os serviços do SNS, frequentarão o pré-escolar e toda a escolaridade seguinte em escolas públicas, receberão abono de família, etc.

Fazendo a comparação monstruosa entre o custo de um aborto e o custo de uma criança ao Estado nos termos descritos, o aborto acaba por ser um óptimo negócio fiscal ao estilo Malthusiano. Abortam-se os filhos dos mais pobres, que tendencialmente serão menores contribuintes do que os filhos dos mais ricos, e passamos a dar mais e melhores condições a quem cá está. Reduz-se a pobreza, aumenta-se o PIB per capita, e o Estado deixa de estar comprometido com tantos custos sociais, libertando futuras receitas para o bolso do contribuinte ou outras realizações.

É rico? Preocupa-se com os seus impostos ou com a eficiência do SNS? Vote Sim. Vai ver que compensa.
publicado por Manuel Pinheiro às 13:25 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Portugal e a Tristeza (continuação)

Não sei se é exacto, mas cá vai: “quem almeja ser trovão, tem de se acumular nuvem durante muito tempo”.
É a isto que nos recusamos. Na primeira oportunidade, por mais pequenina que seja, começa a algazarra. Mal se amontoam duas ou três nuvenzitas, começa logo a pingar. Há sempre um arauto que gosta de traduzir tudo isto em falta de auto-estima ou pessimismo. Ai Jesus! Vem lá uma depressão nacional. Temos de reverter imediatamente a situação. Vejam como somos bons. Olha o Figo, o Cristiano Ronaldo, o Mourinho. Casos individuais e pontuais? Não senhora. Portugal sabe organizar grandes eventos: a Expo, o Euro, o Laureus, o Estoril Open, o Dakar. E lá fora? Somos tão bons como os outros. Os Madredeus vão ao Japão, a Mariza ganha prémios em Inglaterra, há tecnologia portuguesa no espaço, a Selecção de Futebol faz ver a muita gente.
Que razões existem para a falta de auto-estima? Nenhumas. Mas quem foi o inteligente que disse que somos falhos nesse bem primário da auto-estima para termos que suportar estas injecções de pretenso sucesso nacional? Que urgência em fazer ver o óbvio. Como se a única mensagem de Portugal fosse a de martelar ao mundo (e a si próprio) que o português é tão bom como os outros.
É isto. Quando principiamos a escurecer, dá-se uma ténue precipitação. Penso que a sabedoria popular descreve isto como “chuva molha-parvos”. Haverá coisa mais aborrecida?

(Continua)
publicado por Joana Alarcão às 12:44 | comentar | ver comentários (1) | partilhar
Quarta-feira, 24.01.07

Publicidade Institucional

Durante 20 segundos esperei, sem sorte, o momento em que diria aos microfones: É do Caracas.

publicado por Manuel Pinheiro às 14:41 | comentar | ver comentários (2) | partilhar
Terça-feira, 23.01.07

Portugal e a Tristeza

Dizem que este é o mês em que mais se manifesta. Não me refiro a esta, mas a outra. Falo de algo que, precisamente por sermos como somos, gostamos de exorcizar ou de acreditar que já cá não mora. Mas ela por cá habita, milita, debilita. Gostamos de entendê-la como uma herança, um peso, uma tara, um espinho cravado na carne. Não é o amargor de um grande mal que aflige ou o vazio deixado pela promessa de uma qualquer plenitude que fica por cumprir. Não é noite, nem sombra. É nevoeiro. Presta-se a uma estranha doçura, à canção e à estrofe, a ser estimada, saboreada, querida até com um soluço contido e um nó na garganta, acompanhados pelos suspiros de uma guitarra:

“Ó gente da
minha terra
Agora é que eu percebi
Esta tristeza que trago
Foi de vós que recebi”

Perdoem-me os políticos, os empresários, os cientistas, os economistas, os investigadores de amplos horizontes, os supostos optimistas de espírito afirmativo e confiante, enfim, perdoe-me o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa. Perdoem-me, mas avanço com esta extravagância de sugerir que a vocação universal deste povo talvez seja a de presentear o mundo com uma tremenda lição sobre a tristeza. Qual tristeza e que lição? Eis o que falta saber.

(Há-de continuar)
publicado por Joana Alarcão às 23:58 | comentar | partilhar

A propósito de um primeiro aniversário

Os comentários aguardam a viragem do cabo das tormentas.
publicado por Paulo Marcelo às 16:36 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Blade Runner

Há 25 anos, Ridley Scott estreou um dos filmes mais extraordinários de sempre. Blade Runner, uma combinação de produção futurista/distópica com o género do film noir dos anos 40, tem ao seu serviço recursos aparentemente inesgotáveis: uma estética própria, uma banda sonora histórica, interpretações homéricas (refiro-me à do gigante Rutger Hauer, não necessariamente à de Harrison Ford) e um argumento que aborda questões profundas sem pieguices (bem, sem pieguice excessiva) - assim teria de ser quando se escolheu um Philip K. Dick como texto original, e se permitiu que o próprio autor acompanhasse a produção do filme.



Roy Batty: "I've seen things you people wouldn't believe. Attack ships on fire off the shoulder of Orion. I watched C-beams glittering in the dark near the Tannhauser Gate. All those moments will be lost in time, like tears in rain. Time to die."

publicado por Miguel Morgado às 13:01 | comentar | ver comentários (3) | partilhar
Segunda-feira, 22.01.07

Logicamente

O referendo de 11 de Fevereiro é essencialmente uma história para distrair os pobrezinhos da sua miséria. Sendo uma fábula socialista envolve necessariamente a denúncia de “injustiças”, a “mobilização” dos cidadãos para a luta e o apelo à marcha colectiva contra o “obscurantismo”. Já dei os meus cinquenta cêntimos para a discussão das motivações políticas e resultados previsíveis do processo e não retomarei o assunto.

Limito-me a assinalar o regresso temporário do Tiago Mendes à blogosfera, do lado do “sim” e provavelmente trazendo consigo argumentos de peso e bem medidos. Ao contrário de alguns idiotas úteis, o Tiago recusa o papel de “ingénua” e apresenta-se a título individual. Não esperava outra coisa, diga-se.
publicado por Joana Alarcão às 08:34 | comentar | ver comentários (6) | partilhar

Cachimbos

O Cachimbo de Magritte é um blogue de comentário político. Ocasionalmente, trata também de coisas sérias. Sabe que a realidade nem sempre é o que parece. Não tem uma ideologia e desconfia de ideologias. Prefere Burke à burqa e Aron aos arianos. Acredita que Portugal é uma teimosia viável e o 11 de Setembro uma vasta conspiração para Mário Soares aparecer na RTP. Não quer o poder, mas já está por tudo. Fuma-se devagar e, ao contrário do que diz o Estado, não provoca impotência.

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