Sábado, 31.03.07

Cavaco e a lei do aborto

Confesso que não sei bem que dizer deste post. Admiro no André Azevedo Alves a inteligência e o saudável desprezo pelo "politicamente correcto". Quando leio o Insurgente é, antes de mais, por causa dele. No referendo do aborto estivemos do mesmo lado, escrevendo ambos no Blogue do Não.
Mas há um tema em que discordamos sistematicamente: Cavaco Silva.
Nas presidenciais, apoiei Cavaco e acedi ao convite para colaborar no Pulo do Lobo, o blogue cavaquista. O André, como muitos outros liberais da blogosfera, absteve-se de fazer campanha pelo único candidato não socialista - com o argumento, (in)justamente, de que Cavaco é afinal um socialista soft. Na altura, tive oportunidade de dizer que achava isso um enorme erro. Continuo a achar o mesmo.
Agora, o André critica Cavaco Silva porque não enviou a lei do aborto, aprovada pelo Parlamento na sequência do refererendo, para fiscalização preventiva do Tribunal Constitucional. E conclui que a "batalha cultural" em que estamos empenhados "não passa por aqui".
Here we go again. Nunca percebi porque é que a mesma direita que tem tantos problemas em votar Cavaco, já não os tem para lhe exigir que defenda as suas causas.
Estou certo de que Cavaco votou "não" a 11 de Fevereiro. Basta ver os sinais subtis, mas bem claros: o seu director de campanha nas presidenciais, Alexandre Relvas, foi também o estratega da campanha do "não", e a sua filha apareceu em várias acções do "não". Pedir mais do que isto é não conhecer o nosso Presidente.
Porque há duas razões para Cavaco não ir mais longe.
A primeira é táctica: quer ser reeleito e fará o que lhe for possível para ter mais um voto do que Soares no segundo mandato, onde a aclamação, perdão, a vitória soarista foi esmagadora. Para isso, não pode tomar partido por um dos lados em assuntos que dividam fortemente os eleitores. É o caso.
A segunda razão é de princípio: Cavaco acredita sinceramente, ao contrário de Soares, que não deve haver divergências públicas entre órgãos de soberania, ou seja, entre o Presidente, o Governo e a Assembleia da República. E, portanto, não vê - como eu também não vejo - nenhuma razão séria para chumbar uma lei que foi aprovada em referendo por 60% dos votos expressos e no Parlamento por uma maioria de dois terços. Mesmo que não goste da dita lei.
Custa? Pois custa. Há muita coisa em democracia que me custa. Mas custar-me-ia muito mais não viver em democracia. E a "batalha cultural" em que estamos empenhados tem de contar com estes acidentes do terreno.
publicado por Pedro Picoito às 23:47 | comentar | ver comentários (9) | partilhar

Da série "Grandes Dúvidas"

Como é que o capitão Von Trapp, do Música no Coração, é oficial da Marinha - se a Áustria não tem mar?
publicado por Pedro Picoito às 23:47 | comentar | ver comentários (7) | partilhar

Da série "Os Outros"

Há um blogue novo por aí à solta: o Fora de Estrutura. A visitar.
publicado por Pedro Picoito às 23:30 | comentar | partilhar

...Enfim...

Isto não será um bocadinho... enfim... ordinário?...
publicado por Carlos Botelho às 14:05 | comentar | ver comentários (9) | partilhar
Sexta-feira, 30.03.07

Sugestões de marketing para o PNR

Ora bem. Antes que as almas sensíveis peçam a minha cabeça numa bandeja, deixem-me dizer que já fui insultado por uns gajos do PNR. Sim, eu próprio, este vosso criado conservador. Eu e o camarada Paulo Marcelo, talqualsíssimamente como Louçã, Soares, Odete e outros distintos combatentes pela liberdade. A coisa nem é muito exaltante, não porque também envolva o camarada Marcelo, mas porque tem umas cenas parvas pelo meio.
Foi assim.
Como todos se lembram, na campanha do referendo do aborto a Plataforma Não Obrigada organizou uma caminhada que reuniu cerca de dez mil pessoas (duas mil segundo alguns jornalistas, mas isso é matéria para a Fernanda Câncio). Eu e o camarada Marcelo participámos na marcha, que arrancou da Alfredo da Costa. Qual não é o nosso pasmo quando vemos sair de uma carrinha alguns skinheads e outros sem heads, carregados de cartazes e folhetos, que se põem a distribuir propaganda do PNR mesmo à nossa frente...
Não era preciso ser muito esperto para adivinhar o efeito que a coisa teria. Dirigimo-nos à rapaziada, curiosa miscelânea de sangue azul e white trash, esperando, por milagre, que alguém compreendesse uma frase sem as palavras "morte" ou "pretos", e tentámos convencê-los a não se misturarem connosco. Em desespero de causa, cheguei a alegar que, no fundo, éramos como eles: também não queríamos misturas.
Tudo em vão.
A certa altura, perdi a paciência e soltei um sonoro "filhos da puta", julgando estar a insultar alguém (só depois vim a saber que é uma expressão corrente nos ajuntamentos de direita, por exemplo nos Conselhos Nacionais do CDS).
Um deles chamou-nos "democratas de merda", igualmente convicto da violência do seu verbo.
Retirei-me, cheio de dignidade, convencido de que o meu insulto era maior.
O camarada Marcelo, com a ajuda dos organizadores, lá conseguiu entretanto convencê-los a ficarem no fim da marcha, o que teve os resultados mediáticos que se sabem.
Agora, que anda tudo em polvorosa por causa de um inocente cartaz no Marquês do Pombal, veio-me à memória esta historieta. Mas que injustiça! Se eles só querem salvar a Pátria...
Confiado nos prévios contactos descritos, aproveito, pois, para sugerir aos criativos do PNR alguns slogans para futuros cartazes. Inspirei-me na hermenêutica do Pacman citada no post anterior. Espero que não levem a mal.
Em vez de bater nos imigrantes, o que já está muito visto, porque não proclamar "Portugal é para todos, mas só se quiserem ser brancos"?
Melhor ainda. Que tal "Estrangeiros fora da selecção - por um Portugal sem Eusébios"?
Ou então "Também somos democratas, mas sem a mariquice das eleições livres"?
Aproveitem o marketing, rapazes. Até o Salazar já vai à televisão...
publicado por Pedro Picoito às 21:45 | comentar | ver comentários (6) | partilhar

Da série "Posta Restante"

"Quatro horas depois do início da conversa, partilhamos um táxi e ele [Pacman, o vocalista dos Da Weasel] conta-me o seu fascínio pelas mulheres, que resume assim: Sou um Almodóvar, só que sem ser paneleiro."

João Bonifácio, "As coisas estão bem na família doninha", in Público - Ípsilon, 30/3/07
publicado por Pedro Picoito às 21:34 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

KO ao terceiro assalto

Nos comentários a este post, ainda sobre a encenação do ciclo de Wagner por Vick no S. Carlos, diz o Luís:
"De que modo é que a música de Wagner chegou até nós senão pelas indicações que deixou escritas nas suas partituras, em escrita musical e em alemão? Respeitar a música de Wagner é respeitar essas indicações. É aí que se encontra o limite. Se Wagner aprovaria este Ouro do Reno e esta Valquíria? Talvez não, porque o palco não seria suficientemente grande para os dois egos. Aliás, acho que Vick teria convencido Pinamonti a despedir Wagner se este contestasse alguma indicação sua. Quanto à encenação: acho redutora e simplista a perspectiva marxista que Vick adopta para encenar o Ouro do Reno, cheia de estereótipos anti-americanos, logo anti-capitalistas: os escravos representados como yupies cocainómanos; os deuses representados como praticantes dos principais desportos americanos – basebol, basquetebol – deuses estes que enganam os pobres trabalhadores da construção civil; os mísseis apontados a Valhalla… Não há pachorra. Na globalidade das encenações das duas óperas subjaz a perspectiva da esquerda sobre a religião, qualquer religião: é obsoleta, vai extinguir-se. Com raciocínios tão grosseiros como se podem encenar obras tão complexas?"
Parece-me que a questão está arrumada: sei reconhecer uma derrota quando fico KO. O Vick que se defenda...

publicado por Pedro Picoito às 21:20 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

Irão: estratégia e tragédia

A passagem do Irão de exportador a importador líquido de combustíveis no prazo de uma a duas décadas é a semente do expansionismo persa: um dos benefícios que Teerão antecipa do caos iraquiano é o controlo dos campos petrolíferos nas províncias de Maysan e Basra, as áreas do Iraque de maior influência xhiita. A sobrevivência do regime islâmico depende crucialmente da concretização das ambições de projecção imperial, mas a prossecução das intimações geopolíticas poderá apressar a queda do regime. É essa a natureza da tragédia política.
O resto do artigo pode ser lido na página do Diário Económico.

[Nota: A extensão da versão inicial do texto obrigou a uma elevada "taxa de compressão" para o adequar ao espaço disponível, o que produziu algumas descontinuidades (razoavelmente) fáceis de identificar. O mesmo motivo torna inviável a publicação da versão integral aqui no blogue.]
publicado por Joana Alarcão às 20:15 | comentar | partilhar

Atlântico nas bancas (e de parabéns)

Mais um número da Atlântico. Destaques obrigatórios, para já: Manuel Lucena sobre o pós-referendo do aborto, Rui Ramos sobre a direita e o 25 de Abril, Vasco Rato sobre "a evolução da direita nos próximos tempos" (discordo e sei, todos sabemos, onde quer chegar - cá voltarei).
Por uma vez, no entanto, o mais importante não é o que está lá dentro: é o segundo aniversário da revista. Ou é, melhor dizendo, o simples facto de que ela continue a existir ao fim de dois anos. Um facto notável, num país em que as revistas de pensamento estão, desde que nascem, condenadas ao crepúsculo.
Sim, eu sou suspeito. Comecei a escrever por lá ainda Helena Matos era a directora, e continuei com o Paulo Pinto Mascarenhas. (A propósito, ninguém como eles merece os parabéns.)
Independentemente disso, porém, a realidade fala por si. A Atlântico é a única revista portuguesa que se assume de direita liberal, mas não tem nenhuma filiação política ou partidária exclusiva nem o apoio significativo de qualquer grupo empresarial ou de comunicação.
E, contudo, move-se.
Que faça muitos e bons, é o que lhe desejo.
publicado por Pedro Picoito às 17:29 | comentar | partilhar

Da série "Os Outros"

"aposto que daqui a 50 anos ganha o santana lopes"

("Futurologia", no Irmão Lúcia.)
publicado por Pedro Picoito às 15:17 | comentar | partilhar

História de proveito e exemplo

Era uma vez um salazarista. Votou no Salazar, ganhou e pôs-se a pensar no futuro radioso que aí vinha.
Era uma vez um comunista. Votou no Cunhal, perdeu e pôs-se a pensar que todo o seu passado tinha sido em vão.
Era uma vez um democrata. Desligou a televisão e foi trabalhar para pagar as reformas dos outros dois.
publicado por Pedro Picoito às 15:07 | comentar | ver comentários (5) | partilhar

Um Partido sem regras?

Falou-se muito sobre a rebaldaria do Conselho Nacional do CDS/PP.

Mas foram em menor número os que se indignaram com outra rebaldaria que, a meu ver, é muito mais grave. Refiro-me ao Conselho Nacional de Jurisdição (CNJ), cuja crise atinge o coração institucional do Partido.
Porque um Partido não pode aspirar a ser uma instituição - e muito menos credível - sem regras.
Sem regras há pessoas e partidos unipessoais.
Ora, é gravíssimo que dois dos vogais do CNJ acusem a última decisão deste órgão de ter um carácter político.

E é no mínimo surpreendente que o Presidente do CNJ colocado diante das mesmas questões - aplicação do Código Civil e alteração dos estatutos-, em dois momentos diferentes, adopte entendimentos jurídicos incompatíveis (em 1999, com Paulo Portas a Presidente, e agora).

Digo, pois, com tristeza, que o Conselho de Jurisdição prestou um péssimo serviço ao Partido. A sua conduta foi gravíssima nas consequências imediatas, mas também na afirmação da ausência de previsibilidade das suas decisões. Empurrando deste modo o Partido para a sua "personalização", mais do que para a sua institucionalização.

Neste âmbito, a resposta à pergunta deste post é, em meu entender, essencial para um Partido que se quer com horizonte. Sem regras, sem um corpo institucional que vá para além das pessoas e das maiorias de cada momento, o CDS/PP não construirá um futuro fora da dimensão duma banda. Não estará aqui a razão porque a cada confronto e a cada derrota, metade do CDS/PP desaparece?
publicado por Filipe Anacoreta Correia às 14:40 | comentar | ver comentários (2) | partilhar
Quinta-feira, 29.03.07

Respeitos Humanos?

A Populorum progressio fez 40 anos no passado dia 26 de Março . No dia 28, a Universidade Católica organizou uma conferência com uma sumidade da Doutrina Social da Igreja. Bela conferência. Cardeal Patriarca, episcopado, sacerdotes, teólogos, freiras, seminaristas, jornalistas, uma ou outra alma perdida e eu. Respira-se bem. Acreditem. Isto é malta com nível, viajada, civilizada, com estudos. Já lá vai o tempo em que cheirava a sacristia.

A sumidade é Jean-Yves Calvez e o tema era a actualidade da Populorum progressio. Até aqui tudo bem. Ele é francês, sabe que se farta de Doutrina Social da Igreja, debruça-se sobre os temas da encíclica. Aí vamos nós: noção cristã de desenvolvimento, ambivalências do crescimento económico, denúncia do problema da desigualdade, abusos do capitalismo, exploração dos povos subdesenvolvidos, pontapé e cabeçada no liberalismo económico. Faz sentido. No liberalismo, o católico dificilmente digere o individualismo moral, o mero consentimento das partes para garantir a justiça nos contratos, a pretensão de não alterar o desenvolvimento espontâneo da economia através de normas morais (justiça social faz sentido para regular uma ordem espontânea), a aversão a qualquer intervenção dos poderes públicos na sua condução.

O mais interessante é o seguinte: por que é que, actualmente, quando o católico critica princípios e corolários particularmente liberais, ele acaba por mitigar a tensão dizendo que está a reprovar apenas o «liberalismo radical», o «mais extremo». Certo, há muitas formas de liberalismo. Mas quando Paulo VI malha forte e feio, ele não tem pudor em dizer que está a atacar os princípios fundamentais do liberalismo, sem mais.

Ontem não (e isto é muito frequente). O liberalismo andava a rebolar pelo chão, mas era apenas o «radical», a tal ideologia do capitalismo selvagem. E olhem que o homem não era propriamente um Michael Novak. Não lhe faltava “reserva crítica” sobre o liberalismo e o capitalismo.

Sabem o que mais. Há aqui uma estranha ambivalência no juízo da Igreja sobre o liberalismo. Em muitos aspectos dispara a matar sobre os seus princípios e corolários fundamentais. Mas depois gosta de dizer que foi ao lado, que acertou somente numa extremidade. Muito sinceramente, ajudem-me a entender o que estou a ver mal.
publicado por Joana Alarcão às 19:48 | comentar | ver comentários (17) | partilhar

Fernanda, fado, futebol

Parece que a Fernanda Câncio anda a ler-me às escondidas. Eu não me sentia tão honrado, sei lá, desde o último referendo.
E porque me dá a Fernanda Câncio tal honra, de que não sou merecedor, sei lá, desde o último referendo?
Porque escrevi isto. E isto, juntamente com a vitória do Salazar nos Grandes Portugueses, e o centenário da Irmã Lúcia, e o Benfica, e o fado, e outras coisas tão terríveis que agora não me ocorrem, significa que o país voltou aos anos 40, quando não havia televisão, nem blogues, nem sequer - imaginem - o aborto a pedido.
Deve ser por isso que a Fernanda não faz o link, ou mesmo o linque, para esta caverna obscurantista. Consta que na altura também não havia computadores, quanto mais teclados que fizessem links, ou linques, ou lá que é.
Eu até compreendo o choque, que não tecnológico, da Fernanda. Uma pessoa ganha o referendo e põe-se a pensar que este país finalmente vai ser moderno, europeu, civilizado, mesmo sem links, ou linques, ou lá que é.
E vai o país, zás, e elege o Salazar o maior de sempre.
E a Irmã Lúcia lembra-se de fazer cem anos.
E a malta de os lembrar.
E Nossa Senhora de aparecer por cá, cheia de links, ou linques, para as memórias da vidente.
Que diabo (se me permitem a blasfémia), uma mulher não é de ferro... Nã senhora! Ou melhor: nã Nossa Senhora!
Relatos de milagres - só no DN, o jornal que corrige as nebulosas lembranças de pastorinhos, ditadores e restantes portugueses. A Fernanda aí está para nos dar a verdade. Neste mundo e no outro.
Só há uma coisinha que me escapa.
Afinal, Nossa Senhora de Fátima sempre lhe apareceu ou não?
À Fernanda, quero eu dizer.
publicado por Pedro Picoito às 17:31 | comentar | ver comentários (11) | partilhar

A Nova Europa

Esther Mucznik, no Público de hoje, cita Tarik Ramadan, para quem urge "mudar a história oficial" europeia, no sentido de construir um novo "eu" europeu. Acrescenta Mucznik:
Que história quer Tarik Ramadan mudar? A tradição judaico-cristã europeia? O papel determinante do cristinianismo na transmissão do legado clássico e o seu papel integrador da civilização ocidental? O reconhecimento do Holocausto como elemento fundador da Europa em que vivemos hoje? Um futuro comum é possível e desejável. Mas com base na aceitação desse passado histórico que fez da Europa o que ela é hoje.
publicado por Joana Alarcão às 15:34 | comentar | ver comentários (3) | partilhar
Quarta-feira, 28.03.07

Mais alguns elementos

Esperando não ser já tarde demais, junto resultados das duas sondagens sobre os "Grandes Portugueses" - de empresas insuspeitas - estas sim, com rigor científico na forma como recolheram a informação. Junto ainda dois posts do igualmente insuspeito Pedro Magalhães. É interessante verificar que as sondagens (realizadas na mesma data e utilizando amostras semelhantes) dão resultados tão díspares.
publicado por Francisco Van Zeller às 23:45 | comentar | ver comentários (17) | partilhar

Encore

No meu diálogo com o Luís a propósito do "caso Pinamonti" (que tem sido a três porque o Tiago Ivo Cruz também participa, e ainda bem), chegámos ao ponto em que já não se confrontam opções de política cultural, mas critérios estéticos de encenação.
É um terreno mais escorregadio e, portanto, mais interessante.
Nos comentários, ambos discutem o ciclo de Wagner encenado por Vick no S. Carlos, mas também o papel do encenador na ópera actual e até se certas encenações mais originais podem considerar-se ainda fiéis à obra. Faço notar que são três planos diferentes.
1. O Wagner de Graham Vick é discutível? Indiscutivelmente.
Coloca dificuldades aos cantores? Com certeza.
Tem problemas de acústica? Sem dúvida.
A estas críticas nada posso responder, excepto que a encenação de Vick é um portento de criatividade e leitura atenta dos "Nibelungos" (de todo o ciclo, porque foi expressamente criada para um programa coerente e não para espectáculos avulsos, como se fez tantas vezes no S. Carlos). Nunca houve um Wagner assim em Lisboa - e só não digo em Portugal porque soaria a provinciano. E olhem que eu nem gosto muito de Wagner. Acontece-me o mesmo que ao Woody Allen: sempre que o ouço, fico com vontade de invadir a Polónia...
2. Mas terá sido a encenação tão criativa que acabou por trair a "verdade" das obras, tornando-as outra coisa que não Wagner?
Como o Luís, também eu acredito que há um limite para as encenações, além do qual a obra pode ser seriamente comprometida. Mas esse limite não está nas intenções ou indicações do autor: está na própria música. Se a encenação põe em causa uma interpretação fiel à partitura, então não serve.
Foi o que aconteceu com o Wagner de Vick? Não me parece. Não foi o Wagner de Bayreuth (se é que há um Wagner de Bayreuth), mas também não foi um Wagner "de câmara"... Em nenhum momento senti que se estivesse a sacrificar o "Anel" aos caprichos do encenador ou aos condicionalismos da orquestra.
Não sei, claro, se este foi um Wagner que Wagner aprovaria. Mas sei, e o Luís também sabe, que se a aprovação do autor fosse o critério para montar uma ópera, talvez nunca se chegasse a ouvir nenhuma.
(cont.)
publicado por Pedro Picoito às 17:05 | comentar | ver comentários (5) | partilhar

Argumento de autoridade


Ontem, no DN, a Fernanda Câncio escreveu um artigo sobre a Irmã Lúcia, insinuando que os sucessivos relatos das aparições de Fátima teriam sido "martelados".
Eu acho que é preciso ter mais fé para acreditar em certos jornais, mas desta vez até acredito - se ela disser que foi Nossa Senhora que lhe contou tudo.
publicado por Pedro Picoito às 16:38 | comentar | ver comentários (7) | partilhar

Coisas que realmente interessam

Ontem (27 de Março) foi anunciada nos jornais italianos a importante descoberta (por Horst Bredekamp e William Shea) de umas aguarelas da Lua, inéditas, atribuídas a Galileu (Notícia do Corriere della Sera). Tratando-se do mais estudado de todos os cientistas do passado, qualquer aparecimento de materiais relacionados com ele, mesmo de aspecto inocente, causa sempre sensação. A última vez que apareceu um novo documento -- que agora tem a famosa designação de documento G3 -- toda a historiografia galileana estremeceu, depois da interpretação avançada por Pietro Redondi. Além disso, este assunto dos desenhos da Lua feitos por Galileu é um tema fascinante, que tem feito correr muita tinta entre os historiadores de ciência (veja-se, por exemplo, aqui). É possível que esta nova descoberta ajude a resolver algumas das dúvidas antigas.
publicado por Joana Alarcão às 16:09 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Mau era se tivesse ganho o Camões

Ou o Vasco da Gama. Ou o Prof. Egas Moniz, ou Pedro Nunes. Abria-se de maneira incontrolável a torrente habitual de disparates acerca do valor da televisão na nossa sociedade. Se esse tivesse sido o desfecho teríamos agora tudo quanto é “intelectual” palavreando, em mesas redondas na TSF e artigos no Jornal de Letras, acerca do “bom serviço” prestado pela TV: “que serve para aproximar as pessoas da história do país” (não serve); que “ensina e educa” (nem uma nem outra); “que traz a cultura até aos cidadãos” (não traz); “que promove a consciencialização acerca do nosso património histórico” (não promove); “que questiona a história” (isso é que era bom...). Assim, pela via dura, os bem pensantes talvez comecem a notar que o que a TV faz sempre é transformar numa comédia tonta tudo aquilo em que toca.

O voto foi de protesto? Desculpem lá (sobretudo os meus camaradas cachimbadores) mas não creio. Isso é pedir muito a um telespectador. Talvez só uns poucos o tenham feito. O que aconteceu foi que as pessoas reagiram como habitualmente: responderam de igual para igual à imbecilidade que lhes era proposta e desceram ao nível boçal que a TV promove. “Epá ‘bora aí votar no Salazar”. Para quê? “Epá, pelo gozo, pá; para chatear, para avacalhar, meu.” Assim. Exactamente como num episódio dos “Morangos”...

A TV, como sempre, dá a realidade em formato de cartoon. Desta vez, para abandalhar e pelo gosto de chatear, os espectadores decidiram votar no lobo mau. Numa outra qualquer ocasião, por razões igualmente parvas (sentimentalismo, pseudo-intelectualidade, etc.) vão votar num dos três porquinhos ou numa fada madrinha qualquer.

Mau era se tivesse ganho o Fernando Pessoa e estivéssemos agora a falar como se o resultado de um concurso parvo na TV traduzisse alguma coisa séria. Isso é que era mesmo mau. Enquanto for para dar bola, filmes, novelas e até concursos cabotinos, tudo bem. O problema é quando a televisão quer “educar”, “ensinar”, “problematizar”, “levar à reflexão” ou fazer qualquer outra dessas coisas “elevadas” ou “nobres” -- ou cheias de “cidadania”. A televisão é má (e talvez até perigosa) quando se toma ares de séria.
publicado por Joana Alarcão às 12:25 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

Cachimbos

O Cachimbo de Magritte é um blogue de comentário político. Ocasionalmente, trata também de coisas sérias. Sabe que a realidade nem sempre é o que parece. Não tem uma ideologia e desconfia de ideologias. Prefere Burke à burqa e Aron aos arianos. Acredita que Portugal é uma teimosia viável e o 11 de Setembro uma vasta conspiração para Mário Soares aparecer na RTP. Não quer o poder, mas já está por tudo. Fuma-se devagar e, ao contrário do que diz o Estado, não provoca impotência.

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