Quinta-feira, 31.05.07

Rangel comuna

Aquele Paulo Rangel já começa a irritar!
Primeiro foi aquela treta da claustrofobia naquele dia 25 de má memória...
E agora está ali, descaradamente, naquele Debate da Nação, na RTP1, a queixar-se dumas listas de grevistas avançadas pelo Ministro das Finanças que seriam, vejam só, intimidatórias para a greve geral de ontem!
O desplante daquele Rangel! Já não há pachorra. O XVII Governo é um governo socialista, caramba! Alguma vez um governo socialista intimidaria trabalhadores?? Como toda a gente sabe, isso são coisas da Direita. E este governo, socialista, como se tem visto, tem políticas ri-go-ro-sa-mente à esquerda.
O Rangel (cripto-comuna defensor de grevistas) que tenha cuidadinho com aquelas insinuações sobre o Ministro das Finanças. Como diria uma agora afamada educadora do Norte, o senhor Ministro das Finanças é o Ministro das Finanças de Portugal!

Adenda às 00.35: E aquele Anacoreta Correia que lá está... hum... também não é seguro... Acabo de o ouvir dizer, ipsis verbis, que 'por vezes caímos num discurso de deriva securitária'. Mas o que é isto?? E até já o vi sorrir, cúmplice e concordante, para o Fernando Rosas e para o António Filipe! Isto é o fim da civilização tal como a conhecemos... O dr. Paulo Portas tem que fazer alguma coisa.
publicado por Carlos Botelho às 23:37 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

A Razoabilidade no Poder

"O PS concorda que os fumadores não devem pagar multas mais elevadas do que os consumidores de droga".
-- Jornal das 22h, TV2
publicado por Miguel Morgado às 22:36 | comentar | ver comentários (12) | partilhar

Esforços de preservação da vida selvagem na China


31 de Maio de 2007. Vida selvagem na China. Foi confirmada hoje a morte do único panda artificialmente criado que vivia em liberdade na província de Sichuan. Os peritos estimam que Xiang Xiang “pode ter caído de um local mais elevado depois de entrar numa luta com outros pandas nativos.”

29 de Maio de 2007. Vida selvagem na China. Qiangba Puncog, o presidente da região autónoma do Tibete, anunciou que iria aumentar o financiamento para protecção do património cultural. Clarificou e reforçou adicionalmente que as relíquias reunidas e administradas em locais onde se exerce actividade religiosa são propriedade do Estado chinês, e que tal não deve ser alterado sob nenhuma circunstância. Acrescentou ainda que o Decreto sobre os Artefactos se deve à necessidade especial de preservar a existência das relíquias tibetanas.

Pobre Xiang Xiang. Artificialmente criado para viver em liberdade. E isto devido à "necessidade especial de preservar" a sua espécie.
publicado por Joana Alarcão às 19:02 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Desafinidades electivas

O Ivan Nunes tem um blogue novo, que actualiza pouco mas com algumas pérolas.
A propósito daquele filme de que eu gostei muito - "A Vida dos Outros" - , veja-se esta, um artigo de Timothy Garton Ash na New York Review of Books sobre a Stasi e a RDA.
Ele, Ivan Nunes, diz que não gostou do filme. Olhe que não parece, olhe que não parece.
publicado por Pedro Picoito às 17:39 | comentar | ver comentários (8) | partilhar

A Nódoa


Um longínquo informador sugeriu-me que discutisse a recente notícia do Financial Times que comentava a notável "convergência real" verificada no conjunto da União Europeia. Por outras palavras, tal como a teoria da convergência sempre previu, os últimos anos confirmam que os países mais pobres da União têm aproximado os seus níveis de riqueza e de acumulação de capital da média europeia.

O processo parece autorizar a conclusão de que as transferências de dinheiros com vista a apressar o dito movimento de convergência real podem reivindicar (alguma) eficácia e (alguns) bons resultados. Segundo o artigo do Financial Times, já não é possível apontar a Irlanda e a Espanha como casos excepcionais. Todos têm acompanhado o passo: a República Checa e a Eslováquia, mas podíamos acrescentar a Eslovénia (com desempenhos notáveis), os países Bálticos e a Polónia.

São boas notícias para todos aqueles que nunca se deixaram persuadir pelos espíritos pessimistas que há uns anos diziam ser impossível ou muitíssimo difícil converter as economias socialistas em economias de mercado. Ainda me lembro dos prognósticos, elaborados nos momentos dolorosos da mal compreendida "terapia de choque", de grandes catástrofes e que todos seguiriam o caminho da Rússia e da Ucrânia. O contrário esteve mais próximo da verdade. Mas é sempre mais fácil anunciar a catástrofe. Dá um ar de sofisticação e vende bem.

Contudo, nem tudo são boas notícias. Há uma nódoa neste quadro feliz. Chama-se Portugal. É o Financial Times quem o diz, embora nós já o soubéssemos. De "bons alunos" passámos a ovelhas ranhosas. Desde 1999 que "divergimos", isto é, seguimos a trajectória oposta à dos nossos congéneres mais pobres. Tanta desorientação paga-se caro. E não se pagou mais caro porque o nosso contexto é, em termos mundiais, muito protegido, onde os mal-comportados não são tratados implacavelmente.

O nosso Primeiro-Ministro Socrátes sabe que tem de refrear aquele entusiasmo sofregamente simulado. Mas, como nota o FT, o actual Presidente da Comissão Europeia também tem de anunciar os números com voz trémula. Fazem ambos parte da mesma novela.
publicado por Miguel Morgado às 16:17 | comentar | ver comentários (7) | partilhar
Quarta-feira, 30.05.07

Repararam?...

Repararam no modo amatilhado como os jornalistas interrompiam, há pouco, o Carvalho da Silva na sua conferência de imprensa sobre a greve geral de hoje? Não me lembro de alguma vez ter visto tal coisa.
Comparem com a mansidão anterior das conferências dos Secretários de Estado Figueiredo e Medina...
É curioso, não é?...
publicado por Carlos Botelho às 20:49 | comentar | ver comentários (7) | partilhar

Gramáticas de liberdade

No post anterior sobre as grammar schools, sublinhei que a "blairização" do Partido Conservador inglês com David Cameron está a levar ao travestimento de alguns valores fundamentais dos tories, no caso a defesa da liberdade de ensino. Não me parece irrelevante. A liberdade de ensino é (era?) tradicionalmente a chave de qualquer política de educação conservadora-liberal. Ora o nosso comentador Nomanisanisland, cujo nick (embora pertinente) acerta ao lado da questão, acusa-me de não conhecer as grammar schools, onde prevê que "se calhar os bons alunos até serão cada vez melhores, mas os médios serão maus e os maus serão péssimos". Aquele se calhar estraga tudo, mas eu diria que um sistema que contribui para que os bons sejam melhores, pelo menos, e não os bons, os médios e os maus, todos por junto, cada vez piores - se calhar tem algum mérito.
Sem fazer humor com um tema sério, no entanto, reconheço que a minha ciência do ensino britânico é indirecta. A do meu comentador será mais próxima, diz-me e acredito. Noto, porém, que a sua crítica do elitismo é um lugar-comum sobre o ensino privado em Portugal. Acontece que a escola pública, como tanto têm repetido Vasco Pulido Valente e Fátima Bonifácio, é hoje o maior obstáculo à mobilidade social (cá e não só). É-o porque a escola pública assenta numa ficção ideológica: a de que todos os alunos devem ser tratados como iguais e um ensino centralizado os pode tornar iguais.
Qualquer professor sabe por experiência, pelo contrário, que os alunos são todos diferentes e que a maior dificuldade na sala de aula é conseguir que todos esses alunos diferentes acompanhem a mesma matéria. Se o professor vai depressa, os maus alunos ficam para trás. Se vai devagar, os bons alunos não progridem. Como resolver o dilema? A maioria dos professores opta por uma espécie de via média que permite acompanhar o maior número possível de alunos - com o risco de deixar pelo caminho os melhores e os piores. Os resultados estão à vista: o nivelamento do ensino cada vez mais por baixo, na exacta medida em que a via média é cada vez mais baixa. Acho que não preciso de dar exemplos.
Claro que assim não temos os bons cada vez melhores e os médios e os maus cada vez piores. Pois não. Temos os bons, os médios e os maus, todos, cada vez piores. Aliás, nem sequer temos os bons porque os respectivos paizinhos os põem em colégios particulares assim que podem. Cá ou em Inglaterra. Eton existe, e continuará a existir, e hão-de florescer milhares de Etons enquanto houver paizinhos que podem. Só que nem todos podem. Eis o belo destino da igualdade a martelo.
É a esse belo destino que as grammar schools permitem fugir, oferecendo a pobres e ricos uma alternativa em que a selecção é puramente académica. Daí a desconfiança da esquerda perante as grammar schools ou, como aqui se nota, o homeschooling. Nada tem de surpreendente - não passa da velha preferência da igualdade à liberdade que Tocqueville identificava nos jacobinos, agora aplicada à educação. A esquerda, na sua cegueira ideológica, tem horror à selecção pelo mérito, preferindo que todos sejam iguais na mediocridade a que alguns tenham a liberdade de melhorar. Surpreende, isso sim, que Cameron vá pelo mesmo caminho. Talvez ganhe votos do outro lado. Talvez. Alguém devia lembrar-lhe, porém, que uma política educativa mais política do que educativa acaba por não ser nem uma coisa nem outra.




publicado por Pedro Picoito às 19:57 | comentar | ver comentários (11) | partilhar

Ah, a TV...

Chegou ao fundo? Essa é boa!
De maneira nenhuma... está só a começar...
Por exemplo, isto.
publicado por Joana Alarcão às 18:01 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

A Comédia Humana

"António Costa já definiu uma medida que vai tomar no ciclo do «tempo curto»: sintonizar os semáforos com o tempo que um idoso demora a atravessar uma passadeira. Sem comentários."
publicado por Miguel Morgado às 16:11 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

A Liberdade de Associação (outra vez)

No ano 2000, dobrou-se uma etapa importante na discussão em torno da liberdade de associação e dos seus limites com a decisão final do Supremo Tribunal dos EUA no caso que opunha os Escuteiros a James Dale, um dos seus chefes expulso da organização por assumir publicamente a sua homossexualidade. Por essa altura, havia já várias décadas de controvérsia sobre o assunto, que tinha por ponto central a interpretação do 1º aditamento da Constituição Federal e os limites da liberdade de associação quando esta reivindica a discriminação de candidatos à entrada ou de membros desviantes.

À partida, numa sociedade igualitária e livre, ninguém pode ser discriminado pela sua origem étnica, sexo, religião, cor de pele, orientação sexual, etc. Mas o problema adensa-se quando se percebe que a sociedade igualitária e livre pressupõe a liberdade de associação, de qualquer associação compatível com os requisitos mínimos da manutenção da paz pública. Ora a liberdade de formar associações é, quase por definição, a liberdade de discriminar. A "sociedade civil" (e, a propósito, a família) constitui o domínio da discriminação. Claro que a controvérsia decorre de a sociedade igualitária e livre pretender conciliar todas as consequências da igualdade e da liberdade: os movimentos livres dos indivíduos que se associam, por um lado, e a igualdade de acesso ou de entrada (o contrário da discriminação), por outro.

A liberdade de saída não faz problema. Desde os tempos das primeiras defesas da tolerância religiosa (Locke) que essa liberdade específica se tornou inquestionável. A verdadeira questão incide sobre o direito de entrada enquanto implicação da referida conciliação entre liberdade e igualdade.

De acordo com a jurisprudência do Supremo Tribunal, as associações servem diferentes propósitos. Esse deve ser o critério que autoriza ou rejeita a efectivação do direito de entrada. Assim, associações puramente comerciais (empresas) não podem justificar políticas fortes de discriminação. Já as associações que servem propósitos de "expressão" da identidade individual e grupal não podem desistir da discriminação sem pôr em causa a sua própria existência ou, pelo menos, coerência. A entrada de um homem moreno na "Liga dos Ruivos" de Arthur Conan Doyle seria ilustração evidente.

Mas o problema não termina aqui. Pois é preciso determinar o carácter da associação em causa, o que levanta muitas dificuldades, e ainda se as políticas concretas de discriminação são relevantes para os propósitos professados pela mesma associação. Esta margem de dicricionariedade de que os juízes gozam permitiu-lhes, por exemplo, optar pela inconstitucionalidade da proibição da entrada de mulheres nos clubes nova-iorquinos e, poucos anos depois, garantir o direito dos Escuteiros de expulsar James Dale das suas tropas.

O caso dos Escuteiros de New Jersey não é pacífico. Mas é interessante notar que a contestação à decisão final aponta para a leitura questionável que os juízes fizeram dos documentos apresentados pelos Escuteiros como fontes indicativas dos seus propósitos de expressão, para a sua invisibilidade e retroactividade. Ou seja, ninguém contestou a possibilidade de discriminação, desde que os critérios de exclusão sejam públicos, atempados e inequívocos.

Parece-me razoável enquanto base de resolução da confusão que permanecerá connosco ainda durante muito tempo.
publicado por Miguel Morgado às 14:08 | comentar | ver comentários (6) | partilhar

“Nada nos atormenta mais do que a dor que sentimos”

A religião conforta, responde, explica.
O caso que temos entre mãos deve pôr-nos de sobreaviso em relação a uma ideia tão simples, quanto idiota. O mal existe. É um escândalo e um mistério inexplicável. E é só a partir do interior de uma perspectiva que aceita a preeminência do bem, que o mal pode ser percebido no seu aspecto mais cru, absurdo e inconciliável. Deus existe e é bom. Bem é também tudo aquilo que cria. Então, de onde surge o mal? A forma como cresce e se desenvolve no terreno do bem é um mistério. Tem limites. E daí? Não é aceitável que possa ir tão longe. É este o problema do sofrimento do justo inocente. É aí que o mal se manifesta na sua dimensão mais inadmissível e insuportável. Não há harmonia superior, nem castigo depois da morte que nos permita conjugar o inconjugável.

Dizia Ivan, em Os Irmãos Karamazov: “Acho que ela [harmonia final] não vale uma lágrima de uma criança, uma lágrima daquela pequena vítima que batia no peito e chamava o «bom Deus» no seu canto infecto; não vale, porque essas lágrimas não foram resgatadas. E não será possível resgatá-las. Os carrascos sofrerão no inferno, dir-me-ás tu. Mas de que serve esse castigo se as crianças tiverem também o seu inferno? Aliás, que valor tem essa harmonia que comporta um inferno. Quero o perdão, o beijo universal, a supressão do sofrimento. E se o sofrimento das crianças serve para perfazer a soma das dores necessárias à aquisição da verdade, afirmo desde já que essa verdade não vale um tal preço. […] Prefiro guardar o meu sofrimento não resgatado e a minha indignação persistente. Aliás, encarecem demasiado essa harmonia; custa-nos muito cara a entrada. Acho melhor devolver o bilhete.”

O mal sofrido pelo inocente será sempre um abismo insondável que desafia a razão de qualquer crente. Digo mais, é um abismo insondável porque se é crente. E é preciso ser um profuso ignorante das dimensões mais profundas da religião para se achar que pode ser um ópio do povo. A revolta de Ivan, a “devolução do bilhete”, dá-se porque se assimila e se assume uma tensão dilacerante no núcleo da sua própria existência enquanto crente: ao mal não deveria ser permitido ir tão longe. «Confesso não compreender este estado de coisas», é a única resposta possível do crente aos pais de Madeleine McCann.
Caso se confirmem as piores expectativas, como será possível voltarem à vida?
Bom... Ora aí está uma resposta que o domínio do humano não sabe nem pode fornecer. Mas isto é uma outra história e uma outa questão.
publicado por Joana Alarcão às 10:39 | comentar | ver comentários (8) | partilhar

Caloteiros

Parece que os prazos dos pagamentos do Estado e empresas continuam alegremente a deslizar. Em Portugal actualmente uma empresa ou um particular prestam um serviço e:
- O estado paga 152 dias depois (5 mesinhos, nada mau, se for a CML vai para mais de um ano);
- As empresas pagam 82 dias depois (quase três mesitos).
Nem o Zé Carioca vai tão longe.

Escrevi no Cachimbo há uns tempos em como esta loucura rebenta com as empresas, sobretudo as mais frágeis e as que estão a arrancar (têm capital limitado no início e precisam logo de começar a ganhá-lo com a sua actividade). É de facto uma machadada na iniciativa privada.
A que se deve esta demência? A vários factores, por esta ordem de importância.

Primeiro, o Estado (original, original), falido e permanentemente a enganar-se a si próprio com esquemas de recibos verdes para contratar, empréstimos das câmaras e regiões autónomas não previstos, crescente recurso à dívida pública (lembram-se do limite de 60% do PIB? Vão lá ver agora o valor), défices escondidos dos hospitais e das empresas públicas. Resultado: num jogo de empurra para a frente, as empresas fornecedoras acabam muitas vezes por ser as que menos têm capacidade de reivindicação (por oposição, por exemplo, a um sindicato ou a uma associação de câmaras municipais).

Segundo, as empresas que não conseguem pagar a tempo, ou porque recebem em atraso do Estado, ou porque trabalham com empresas que por sua vez trabalham com o Estado. Uma espiral infernal, que começa no Estado (lá está ele outra vez) e acaba em dezenas de milhares de fornecedores diferentes.

Terceiro, os piores. Os verdadeiros hipócritas. Aqueles que, sabendo da sua impunidade, aproveitam para receber cedo e pagar tarde. O expoente máximo desta vergonha é a SONAE. Os seus hipermercados recebem o dinheiro na hora, mas pagam aos fornecedores a 90, 100, 120 dias. Durante este tempo (diferença entre receber e pagar) investem com recursos que não são seus, mas pertencentes a quem está à rasca para pagar salários. Esta cultura espalhou-se como um cancro e são várias as grandes empresas que fazem a brincadeira, obtendo crédito de graça e resultados financeiros (ganhos fora da sua actividade principal). Afinal, quem é o ministro que se atreve a proibir esta prática quando o seu ministério faz ainda pior?

As consequências deste fenómeno são muito más: a instabilidade nas tesourarias das empresas dificulta o seu crescimento (menos investimento, emprego e inovação); os previsíveis atrasos do Estado dão origem a contratos em que os fornecedores aumentam os preços e exigem juros de mora obscenos.

E no fim, claro, pagamos todos.
publicado por Francisco Van Zeller às 00:03 | comentar | ver comentários (5) | partilhar
Terça-feira, 29.05.07

Bloqueios na Câmara (II)

Segundo a lei, o presidente da câmara é, automaticamente, o primeiro candidato da lista mais votada (artigo 57.º da LAL), mas apesar da legitimidade democrática – tendência para a “pessoalização” das eleições locais – não pode escolher a sua equipa mas apenas distribuir pelouros pelos vereadores da sua lista ou da “oposição”.

O problema está na representação proporcional câmara municipal (artigos 113.º e 114.º da Constituição). Todos os partidos – e cidadãos independentes – que tenham atingido um mínimo de votação (cerca de 5% em Lisboa) elegem vereadores com direito de voto nas deliberações da câmara, mesmo sem pelouros atribuídos. A ideia até parecia boa, como são em geral as construções abstractas do nosso legislador constituinte: representatividade das forças políticas locais e uma maior fiscalização interna. O problema está em que um órgão executivo precisa sobretudo de eficácia. A composição pluripartidária da câmara implica a necessidade permanente de encontrar equilíbrios para obter maiorias ou… silêncios. Não é dormir com o inimigo mas anda lá perto. Tudo isto conduz a situações pouco transparentes que já conhecemos, como troca de favores, peculato ou mesmo corrupção.

Mas de diágnósticos estamos todos fartos.
Eis as propostas que apresento hoje no Diário Económico:
Câmara municipal de uma só “côr” política, escolhida pelo presidente da câmara, enquanto líder da lista mais votada nas eleições para a assembleia municipal. O executivo responderia politicamente perante a assembleia, onde estariam representadas as forças políticas locais e os presidentes das juntas de freguesia. Dos três boletins de voto que temos hoje ficariam apenas dois: Município e Freguesia. A responsabilização política e a governabilidade seriam reforçadas.

Upss.. Para isto é necessária uma revisão constitucional. Um pequeno grande pormenor que tem feito atrasar as reformas mais importantes. Até lá vamos cantando e rindo, entretidos com mais umas eleições para a Câmara de Lisboa.
publicado por Paulo Marcelo às 14:01 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Ética Socialista Republicana

Quando Manuel Alegre avançou para a candidatura presidencial, Helena Roseta nem pestanejou. Esteve a seu lado desde o primeiro momento e, em momento algum, ponderou os custos internos que tal apoio lhe custaria no seio do seu Partido.
Hoje, é Helena Roseta quem está numa corrida eleitoral. Estranhamente, porém, lá está sozinha, sem ninguém que faça sobrepor a amizade, convicção e projecto à disciplina partidária socialista.
Afinal, desta vez, parece que não há ninguém a dizer que não. Não há ninguém a resistir. Está velho este PS. Velho e aburguesado.
publicado por Filipe Anacoreta Correia às 10:21 | comentar | ver comentários (13) | partilhar

Bloqueios na Câmara de Lisboa (I)

Imagine um governo constituído por ministros de todos os partidos. O primeiro-ministro Sócrates tinha dificuldade em controlar o trabalho de Marques Mendes ou de Paulo Portas, ministros sem pasta, mas com assento no conselho de ministros. Jerónimo de Sousa era ministro da solidariedade e Francisco Louçã dos assuntos parlamentares. A atribuição destas pastas tinha sido a única forma de alcançar um mínimo de estabilidade política, o preço de uma frágil maioria na aprovação das decisões mais importantes. Havia constantes jogos partidários e fugas de informação dentro.

É óbvio que este executivo estaria limitado e condenado a uma curta vida.O exemplo parece absurdo mas algo de pior irá acontecer na futura câmara de Lisboa. Serão eleitos dezasseis vereadores de cinco partidos diferentes e de duas listas independentes. Tudo indica que não haverá maioria. O novo presidente terá de negociar apoios políticos com vários vereadores da oposição, tarefa nada fácil numa situação de emergência financeira. Se a tudo isto se juntar uma Assembleia Municipal com uma maioria contrária, a situação será ainda mais grave, prolongando a situação de bloqueio que se vive em Lisboa.

Mas este não é um problema exclusivo da capital. É um exemplo apenas dos graves problemas do poder local, resultado de uma organização autárquica desajustada. (continua)
publicado por Paulo Marcelo às 10:14 | comentar | partilhar
Segunda-feira, 28.05.07

Pobreza em Portugal

A TSF Online dá conta de alguns dados divulgados no encontro organizado no último fim-de-semana pela Comissão Nacional Justiça e Paz. Aí se referem alguns números relativos à pobreza em Portugal. A confirmarem-se estes números, sou forçado a fazer algumas perguntas:

Como pode essa realidade não estar na ordem do dia?

Que desenvolvimento tem tido portugal nos últimos 30 anos? Tem sido proporcional a relação entre o desenvolvimento económico e o desenvolvimento social?

Que papel pode realizar aqui a sociedade civil? E o Estado? O que tem falhado?

E o que diz o actual Governo sobre isto? E os partidos?

Num Portugal especialmente empenhado em arrumar tudo e todos em "alas", ora conservadoras, ora liberais, deixo mais uma questão, dirigida a todos quantos buscam da discussão política mais que um mero exercício de retórica: há aqui matéria para reflexão séria ou a pobreza é um assunto meramente periférico, próprio da agenda de alguns líricos com pouco que fazer?

publicado por Joana Alarcão às 18:39 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

A importância de chamar-se Eton


Tenho seguido atentamente a barragem de fogo cerrado da Spectator contra David Cameron e as suas propostas educativas, em especial o fim das grammar schools.
Simplificando a questão, as grammar schools, públicas ou privadas, têm a liberdade de escolherem os alunos através de um exame. Devido à maior exigência académica, são mais procuradas pelos candidatos com melhores notas, como seria de esperar. A ligação aos pais e ao meio local é fortíssima, mas os críticos, sobretudo à esquerda, acusam-nas de elitismo, como também seria de esperar. Para muita gente, a simples ideia de selecção, mesmo que (ou principalmente se) baseada nas notas, constitui um crime de lesa-igualdade.
Os seus defensores argumentam que, pelo contrário, as grammar schools são a única maneira de os mais pobres conseguirem um ensino de qualidade e baseado no mérito (peço desculpa pela palavra). Por coincidência ou não, podem apresentar como argumento o percurso escolar do antigo líder torie, Michael Howard, de quem Cameron foi ministro-sombra da Educação. Se os trabalhistas passaram anos a tentar acabar com as grammar schools em detrimento das comprehensive schools, supostamente mais igualitárias (em alguma coisa haviam de ser de esquerda...), os conservadores eram até agora apologistas do sistema diferenciado.
Até agora - porque Cameron decidiu mudar a posição do partido, para enorme escândalo da direita britâniva. O debate está ao rubro e a última Spectator dedica-lhe dois artigos e um editorial demolidor, que insinua um complexo edipiano mal resolvido e termina com uma pergunta assassina: teria Cameron, um antigo aluno do selectíssimo colégio de Eton, a coragem de aplicar as mesmas regras ao sector privado? Se não, então porque é que as impõe a quem não pode ir para Eton?
Surpresa das surpresas, nem por um momento as palavras "liberal" ou "liberalismo" aparecem no texto. Vê-se que os tories não estão a par das mudanças no CDS.
publicado por Pedro Picoito às 16:22 | comentar | ver comentários (22) | partilhar

Da série "Posta Restante"

No Público de hoje, Pedro Magalhães diz tudo o que há a dizer sobre a desastrosa campanha do PSD para as autárquicas em Lisboa e os seus previsíveis resultados. Marques Mendes, que eu tenho defendido sempre na medida do possível (e até um bocadinho mais), sai mesmo muito mal desta embrulhada.
Já agora, leiam também o certeiríssimo retrato do nosso sistema partidário por Francisco Sarsfield Cabral. Deixo um pequeno excerto: "Os partidos tornaram-se agências de empregos - está aí o poder dos dirigentes. O próprio retorno da ideia de regionalização tem algo a ver com o objectivo de se criarem mais lugares para os inscritos nos partidos."
Nem mais.
publicado por Pedro Picoito às 16:10 | comentar | partilhar

Entretanto, numa das frentes...

Seguindo a conversa com o Filipe e o Adolfo:

Percebo a lógica que o Filipe segue, mas não concorcordo especialmente com ela. Nesse campo tendo a concordar com o Richard Rorty e o seu profeta, João Galamba, quando afirma não conhecer nenhuma filosofia ou posição política que não seja ideológica. É interessante que a este propósito (numa outra discussão), o João se tenha lembrado de Marx, relembrando que para este último ideologias seriam as dos outros, pois o que ele fazia era ciência. Acrescentaria eu ainda uma outra visão de Marx segundo a qual os seus textos eram construídos da terra para o céu, ao contrário das ideologias, que eram construídas do céu para a terra.

No conservadorismo, por exemplo, muito facilmente encontramos Russel Kirk explicar que tal como 2+2=4 também o conservadorismo é a negação da ideologia, como encontramos o William Buckley utilizar frequentemente a expressão "ideologia conservadora". Digamos que a palavra ideologia é usada e abusada por todos os lados, tão estigmatizada como banalizada, segundo o interlocutor ou até as circunstâncias da argumentação. Muitas das críticas às ideologias são acertadas, mas convém não exagerar. Sem uma construção política, de homens para homens, que a sustente, o que resta da liberdade senão uma ideia?

Bem sei que alí do lado direito do Cachimbo estão escritas umas coisas não muito abonatórias sobre ideologias como conceito. Mas o Cachimbo é plural, e em boa verdade talvez tudo se resuma a um jogo menor de palavras e conceitos. Se me perguntarem por ideologia nem sei bem o que responder. Saltam sobretudo ideias. Difusas, às vezes aleatórias e até contraditórias. Vocês sabem de que é que estou a falar. O Walt Whitman escreveu um poema sobre isso.
publicado por Manuel Pinheiro às 15:42 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

Os Predadores do Deserto Socialista

Nas eleições legislativas de 2005 que permitiram a formação do governo actualmente em funções, o Partido Socialista obteve no distrito de Setúbal 186 365 votos (43,63% dos sufrágios). Em termos de representação parlamentar, os votos renderam 8 mandatos, número que excede a composição de alguns grupos parlamentares. Aonde foram eles buscar tanto apoio num deserto? Parece que o deserto socialista tem este dom da fertilidade...
publicado por Miguel Morgado às 13:36 | comentar | ver comentários (5) | partilhar

Cachimbos

O Cachimbo de Magritte é um blogue de comentário político. Ocasionalmente, trata também de coisas sérias. Sabe que a realidade nem sempre é o que parece. Não tem uma ideologia e desconfia de ideologias. Prefere Burke à burqa e Aron aos arianos. Acredita que Portugal é uma teimosia viável e o 11 de Setembro uma vasta conspiração para Mário Soares aparecer na RTP. Não quer o poder, mas já está por tudo. Fuma-se devagar e, ao contrário do que diz o Estado, não provoca impotência.

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