Terça-feira, 31.07.07

A Repartição do Iraque

Algumas vozes apresentam Joseph Biden como provável Secretário de Estado de uma possível administração Democrata, a partir das eleições de Novembro de 2008. Biden é um dos autores do plano de repartição do Iraque em três regiões "semi-autónomas", o que leva a crer que, se for ele o próximo Secretário de Estado, o Iraque deixará de existir.
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Claro que a frustração causada pela situação actual teria inevitavelmente como efeito a recuperação de uma ideia avançada durante a Primeira Guerra do Golfo, sendo nessa altura rejeitada por quem governava. De resto, uma das razões mais fortes para a manutenção de Saddam Hussein após a primeira invasão do país pelos americanos era precisamente que só o tirano poderia manter o Iraque unido, ou, por outras palavras, que o derrube do tirano teria como consequência a sua implosão.
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Fala-se que se trata de seguir o exemplo da Bósnia pós-1995. Usa-se palavras como "descentralização" e "federalismo", como se estivessem a discutir os planos de regionalização em Portugal ou na Inglaterra, ou até a reviver Filadélfia 1787. De facto, o mesmo já se dissera, em 1995, a propósito da Bósnia. Bem, a Bósnia enquanto Estado deixou de existir. Hoje há duas, se não três, Bósnias, que coexistem à distância sob a vigilância de europeus e americanos. E o exemplo da Bósnia ilustra outra coisa desagradável. A repartição do território nestes termos é uma recompensa, talvez a maior recompensa, para as acções criminosas de limpeza étnica entretanto levadas a cabo. Como se não bastasse, a perspectiva futura da repartição do território não só legitima, como incentiva e obriga a mais limpeza étnica, de modo a garantir que as novas unidades territoriais sejam "homogéneas" e "coerentes", coisa que nunca são.
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Repartir o Iraque, para além de ter consequências geopolíticas profundas, constitui nova sentença de sofrimento para as gentes que já tanto penam. O drama destas iniciativas como a invasão do Iraque é sempre a estratégia de saída. Mas a grandeza de um povo não se mede apenas pelo modo como entrou; a saída também conta.
publicado por Miguel Morgado às 13:31 | comentar | ver comentários (6) | partilhar
Segunda-feira, 30.07.07

O Bisavô do Movimento Anti-Globalização

Os "Ludditas", como eram conhecidos no início do século XIX aqueles que abominavam as máquinas, a produção em série, a destruição das corporações de artesãos, a concorrência externa, também cantavam "palavras de ordem", ou melhor, uma canção de guerra. Intitulava-se "General Ludd's Triumph" e cantava-se assim:

The guilty may fear, but no vengeance he aims

At the honest man's life or Estate

His wrath is entirely confined to wide frames

And to those that old prices abate.

Enquanto houver capitalismo, haverá dizeres destes. As causas são variadas, mas não se deve esquecer que o capitalismo é, como sempre disse Schumpeter, um tumulto permanente. Há pessoas que não gostam de viver em tempos de revolução. E a tal ponto desejam a estabilidade que estão dispostas a cobrir-se de ilusões. Mesmo que essas ilusões escondam o propósito ultra-revolucionário de, como rezava a Internacional, abalar o mundo até aos alicerces.
publicado por Miguel Morgado às 15:51 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

E o PM estará de novo ausente?

Ao fim de dois dias de calor, os incêndios voltaram. Veremos como se comportarão as grandes mudanças vertidas na aquisição de equipamento e na organização da resposta a dar, preparadas durante o ano pelo Governo e por António Costa.
A avaliação, em todo o caso, não poderá conduzir a qualquer tipo de responsabilização. Se a avaliação for boa, os louros serão repartidos. Se a avaliação for má, a culpa morrerá solteira. Solteira, mas não descomprometida. É o tempo da união de facto entrar também nas instituições. E como se verá, não será seguramente para reforçar a estabilidade da já débil Câmara de Lisboa.
publicado por Filipe Anacoreta Correia às 15:50 | comentar | partilhar
Domingo, 29.07.07

Conflito de (in)competências

Renato Sampaio, Presidente da Federação Distrital do PS-Porto, não irá demitir a sua DREN. Resta saber por quanto tempo manterá a confiança em Maria de Lurdes Rodrigues.
publicado por Filipe Anacoreta Correia às 17:02 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Da série "Cachimbos de Lá"

Norman Rockwell, capa da Saturday Evening Post, 27/8/60.
publicado por Pedro Picoito às 00:36 | comentar | partilhar

Atlântico nas bancas

Mais uma Atlântico fresquinha, desta vez com uma novidade: uma recensão do nosso Miguel Morgado. Pois, o mesmo que assina o penúltimo post.
Sou bastante suspeito de amiguismo, tanto do escriba como da revista, mas posso dizer que gostei (com um pequeno senão).
Espero que seja a primeira de muitas colaborações. Agora sim, esses malandros da esquerda vão ver o que é meter-se com a malta de Setúbal...
publicado por Pedro Picoito às 00:26 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Tristes de nós

A Helena Ayala Botto decidiu finar os (não tão) Tristes Tópicos.
É um tópico triste para quem, como eu, passava muito por lá e se divertia com o seu humor inteligente.
Que nos vai fazer falta, agora que a blogosfera está cada vez mais entregue a profissionais do insulto e a amadores a treinar para profissionais.
Desejo-lhe as maiores felicidades. E a quem está por perto.
publicado por Pedro Picoito às 00:16 | comentar | partilhar
Sábado, 28.07.07

A Liberalização do PS e as "Clarificações Ideológicas"

João Cardoso Rosas quer converter o PS num partido liberal. Eu até gosto da ideia, mas duvido que a grande maioria dos socialistas me acompanhe. O apelo de João Cardoso Rosas talvez fosse mais bem acolhido no partido que está ao lado, no PSD. Pensando melhor, o seu apelo é duplo: que o PS se torne num partido liberal (apelo explícito) e o PSD num partido conservador (apelo implícito). É que, num sistema dominado por dois partidos, a "clarificação ideológica" de um partido tem menos custos se o rival também estiver disposto a "clarificar" o que representa. Trata-se de um desejo salutar, mas não para o triste Portugal de 2007. Talvez para mais tarde.

Não deixa de ser curiosa a insistência, à esquerda e à direita, na necessidade de "clarificação ideológica" dos dois maiores partidos portugueses. Também seria preciso ponderar se a salvífica "clarificação ideológica" serviria esses dois partidos tão bem quanto a balbúrdia verbal que os tem caracterizado nos últimos 20 anos.
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Desde que Mário Soares seguiu o seu camarada Mitterrand no guardar o pobre socialismo na gaveta, e Cavaco Silva meteu na cabeça a ideia de "aproximar Portugal da Europa", que PS e PSD se foram governando (e a nós, cidadãos da República) sem grande paciência para a "clarificação ideológica". O chamado guterrismo ameaçou o País com "ideias novas" e já ninguém consegue recordar-se do episódio sem soltar uma gargalhada. O parêntesis Barroso/Santana não foi mais do que isso. E nunca se desenvolvem grandes teses entre parêntesis.
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A exortação à "clarificação ideológica" do PS e do PSD pode representar um impulso mais simples e fundamental. Muitos eleitores portugueses que não desistem de votar sempre que para isso são chamados estão cansados de não ter partidos em que votar com convicção. Ao fim de uns quantos exercícios, a frustação invade compreensivelmente as desgraçadas criaturas. Talvez os partidos atendam a essa frustação. Talvez. Ou talvez a frustação se transforme numa forma mais ou menos empenhada de retaliação. Talvez.
publicado por Miguel Morgado às 23:59 | comentar | ver comentários (3) | partilhar
Sexta-feira, 27.07.07

"A TV Contest Sets Off a Furor Over Portugal’s Ex-Dictator" in The New York Times













In The New York Times
By DAN BILEFSKY
Published: July 25, 2007

( Fotografia de Carlos Ribeiro)

SANTA COMBA DÃO, Portugal — When Portuguese television viewers recently voted the former dictator António de Oliveira Salazar “the greatest Portuguese who ever lived” — passing over the most celebrated kings, poets and explorers in the nation’s thousand-year history — the broadcaster RTP braced itself for a strong reaction. But what ensued resembled a national identity crisis.

Artigo completo
publicado por Joana Alarcão às 18:05 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

La mala educación (2)

O meu post sobre a educação para a cidadania em Espanha levantou algumas questões interessantes na caixa de comentários. Vou tentar responder-lhes, agrupando-as em três grupos.
Um grupo é o dos comentários (o do primeiro anónimo e o do João Miranda) que lembram, ao contrário do que eu digo, que a coisa já existe em Portugal. Têm razão, mas não é bem como em Espanha. O contexto do programa Novas Oportunidades não é escolar, ou pelo menos não diz respeito a crianças e jovens em idade escolar, e a disciplina de Formação Cívica no ensino português não tem um programa definido, não tem docentes específicos e não conta para a nota, sendo da responsabilidade do professor da turma no 1º ciclo, do director de turma no 2º e 3º ciclos (5º-9º ano) e de todos os professores, nas respectivas disciplinas, no ensino secundário (10º-12º ano). O seu impacto é mais reduzido e mais diluído do que será em Espanha. Em todo o caso, e confirmando a minha previsão, a ministra Maria de Lurdes Rodrigues e a sua equipa criaram no ano passado um Forum de Educação Para a Cidadania, destinado a "introduzir as mudanças necessárias nesta área" (RTP1, 18/5/06). E que mudanças são essas? "Novas orientações curriculares", ou seja, um modelo mais rígido e semelhante ao espanhol.
Um segundo grupo de comentários/comentadores recorda, por sua vez, que a disciplina já existe lá fora, por exemplo em Inglaterra, sem os resultados jacobinos que eu temerosamente prevejo por cá. O nosso regular customer Julião afiança, com graça, que nem por isso a monarquia inglesa caiu e o João Vasco procura tranquilizar-me com um documento do Governo de Sua Majestade em que, à pergunta "Will citizenship allow the Government to force its view on schools?", se responde expressamente "where political or controversial issues are brought to pupils attention, they are offered a balanced presentation of opposing views". Soa bem, mas tenho as maiores dúvidas de que esta neutralidade se respeite na prática. O que é "a balanced presentation"? Todos sabemos que, em questões de princípios e valores, o que é balanced para uns não é para outros. O erro básico de uma perspectiva como esta é, repito, supor que o Estado, ou a escola do Estado, têm uma visão neutra ou equilibrada (balanced) dos princípios e valores. Isso só aconteceria se as pessoas que ocupam o Estado, mesmo que temporariamente como nas democracias, não tivessem princípios e valores. Mas têm, felizmente. Chama-se-lhes geralmente políticas. No caso dos socialistas, com a sua fé no Estado e na escola, nota-se mais.
O terceiro grupo diz que o princípio da educação para a cidadania não é mau, é até muito bom, embora a sua bondade esteja sujeita às pessoas que leccionam a disciplina. Esta é, quanto a mim, a objecção mais interessante e está relacionada com a anterior. É também a que exige mais tempo. Como estou atrasado para ir salvar as minhas filhas das garras do infantário onde esta tarde, de certeza, lhes ensinaram que o pai é um mau cidadão porque come bolas-de-berlim sem luvas de plástico, não vou poder responder. Fica para hoje à noite ou para segunda-feira. Se eu entretanto sobreviver à intoxicação alimentar com que o Rui Tavares, nas páginas do Público, tem andado a a ameaçar os hereges.
publicado por Pedro Picoito às 17:26 | comentar | ver comentários (8) | partilhar

Da série "Cachimbos de lá"


Peter August Böckstiegel, Auto-retrato, 1921
publicado por Pedro Picoito às 17:21 | comentar | partilhar

Never trust a commie

Com duas ou três palavras e já se sabia ao que vinha, on connaît la chanson, o sindicalista Alfredo Maia. Aqui estava mais uma tentativa de demonstrar que capitalismo e liberdade são conceitos em choque, desta vez na arena dos media. É sempre intrigante saber a que se refere um comunista quando fala de liberdade, mas não vamos complicar a equação.

A escala alegadamente nociva que o sindicalista refere tem, curiosamente, o efeito exactamente contrário. Dentro do conceito de liberdade de informação numa sociedade existe certamente a questão do "acesso" à informação. A possibilidade de desdobramento de conteúdos possibilita a criação de mais e mais plataformas, que possibilitam mais e mais "acesso" e, nos conteúdos pagos, possibilita a baixa dos preços suportados pelo consumidor.

Mas mesmo no mundo hipotético do empresário que, com varinha de condão, tem sempre lucro, mercado e grandes margens, e em que todas as plataformas são viáveis mesmo com multiplicação de estruturas, a escala alegadamente maléfica continua a ter precisamente o efeito contrário do sugerido pelo sindicalista. Um player com grandes margens num mercado significa, genericamente, uma de duas coisas: ou é um monopólio ou está aberta a passadeira de veludo para a entrada de concorrentes. E é precisamente nesta última hipótese que esses países malandros da coisa do capitalismo se baseiam para o mercado dos media e da informação. Mais players significa maior quantidade e diversidade de informação. É este pluralismo, e não um Pravda gigante em várias plataformas com milhares de jornalistas, que garante maior e melhor oferta informativa, e que garante maior facilidade de "acesso" ao consumidor quer por criação de mais plataformas quer pelo custo do "acesso" a elas.

E mesmo nas continhas do emprego, as coisas não funcionam, para variar, da forma que o sindicalista as coloca. Genericamente, produtividade e emprego crescem no mesmo sentido. Curiosamente, uma das razões possíveis é a questão do custo do "acesso": o aumento da produtividade possibilita a baixa de preços, que por sua vez permite aumentar o mercado potencial e o lucro final, não existindo perda, antes pelo contrário, de postos de trabalho.

Há um trabalho muito bom no sector industrial, em que o Nordhaus (o tal que escreveu o livro com o Samuelson) "shows that more rapid productivity growth leads to higher rather than lower employment". Existem muitíssimos trabalhos medindo a totalidadade da economia, e não apenas sectores, e embora com algumas nuances e pistas a desenvolver, a tendência é a mesma: maior produtividade, maior e melhor emprego. Se alguém vir o sindicalista, por favor lance-lhe um destes à tola.
publicado por Manuel Pinheiro às 14:02 | comentar | partilhar

Águia Vitória transfere-se para o Arsenal

O desfecho há muito pressentido tornou-se realidade: a águia Vitória deixará de actuar para o Benfica e irá representar o Arsenal durante as próximas cinco épocas. Os dirigentes do histórico clube londrino já haviam manifestado o desejo de ver a águia Vitória a actuar no Emirates Stadium em diversas ocasiões. O acordo foi finalmente obtido durante a madrugada, numa estalagem nos arredores de Lisboa.
Na próxima época, em vez do voo a que habituou os adeptos benfiquistas, a águia Vitória será disparada de um canhão dourado semelhante ao do símbolo do Arsenal. O canhão será colocado no exterior do estádio. Após o lançamento, a águia Vitória ganhará altura e descerá em voo picado para o centro do relvado, onde receberá a sua recompensa. O contrato representa uma melhoria substancial relativamente às condições actuais: embora os valores exactos não tenham sido divulgados, os responsáveis londrinos já admitiram que Vitória passará a receber qualquer coisa próxima dos 40kg de rosbife por semana, mais bife menos bife. No Benfica, recorde-se, Vitória recebia menos de 20kg de fêveras de porco por semana.
Luís Filipe Vieira não quis comentar a saída do símbolo encarnado, mas adiantou que ‘o mais importante foi não ter faltado com a palavra dada ao bicho’. Acrescentou ainda estar de consciência tranquila e garantiu que ‘há um animal que neste momento viaja para Lisboa, para substituir a águia’. Recusou-se no entanto a revelar a espécie ou raça: ‘terminada a quarentena, apresentaremos o animal’. Corre o rumor que o clube da Luz terá contratado uma jovem lama peruana, que cospe com precisão e insolência a considerável distância. ‘Um bicho desses poderia ser usado num espectáculo inovador antes dos jogos, utilizando os símbolos dos clubes adversários como alvos’, adiantou um outro dirigente benfiquista, sem no entanto confirmar a contratação.
Simão Sabrosa já desejou boa sorte à águia Vitória: ‘somos todos profissionais e queremos melhorar as nossas vidas. Eu fui para Madrid para comer mais churros ao pequeno-almoço; compreendo perfeitamente o desejo de Vitória em experimentar o excelente e competitivo rosbife inglês’.

publicado por Joana Alarcão às 10:26 | comentar | ver comentários (11) | partilhar

Estatuto do Jornalista: o que está em causa (III)

3. Direitos de Autor. O tema é fácil de explicar: O Sindicato dos Jornalistas, e em especial o seu presidente, o temível Alfredo Maia (na foto), tem lutado incansavelmente para que os jornalistas recebam, para além do seu salário, direitos de autor, quando as suas peças são usadas noutros suportes que não aqueles para os quais foram contratados. Por exemplo, um jornalista escreve no jornal DN. Se a peça for para o site do DN têm que ser pagos direitos de autor. Se passar na TSF idem.
Esta posição é totalmente contrária à estratégia multiplataforma (papel, online, televisão, mobile TV etc.) dos grupos de media. A tendência é naturalmente aproveitar os conteúdos produzidos no grupo e fazer uma gestão inteligente dos mesmos que permita rentabilizar ao máximo a operação. Os grupos em Portugal sofrem com a escassez do mercado publicitário e precisam de procurar alternativas, nomeadamente outras plataformas (a maior parte delas ainda não rentáveis).
Há quem diga que esta é uma luta de vida ou morte para o Presidente do Sindicato: com os níveis de sindicalização a diminuirem para valores irrelevantes, a gestão de direitos poderia ser uma forma de voltar a ganhar protagonismo entre os jornalistas, especialmente os mais jovens, que não se identificam com o discurso - nem com o estilo - deste sindicato.
Apesar de considerar totalmente ultrapassada a posição do Presidente Maia, achei interessante um dos argumentos por ele utilizado: quanto mais longe for esta estratégia de rentabilização dos grupos menos jornalistas existirão; menos jornalistas significa menos pluralismo e diversidade de opiniões, tornando um dos pilares da democracia - o da liberdade de informar - mais frágil.
publicado por Francisco Van Zeller às 00:56 | comentar | ver comentários (4) | partilhar
Quinta-feira, 26.07.07

La mala educación


Em Espanha, onde passei os últimos dias, a guerra cultural está ao rubro. O Governo socialista fez aprovar no Parlamento uma Lei Orgânica do Ensino, a polémica LOE, que torna obrigatória uma disciplina de Educação Para a Cidadania no secundário. Há-de chegar cá, como já chegou a Itália (curiosamente, também quando lá estive: começo a ter medo de sair de casa).
De acordo com o nome, a coisa serve para ensinar as criancinhas e os adolescentes a ser, pois claro, bons cidadãos. Deus e os nossos leitores sabem que não tenho grande paciência para esta coisa da cidania. Além de tresandar a ética republicana, a tal que ninguém define e portanto ninguém pratica, a ideia é que a identidade das pessoas se determina antes de mais pela sua pertença a um Estado, o qual ainda por cima nos diz o que devemos ou não fazer, jacobinismos suficientes para me dar a volta ao estômago conservador-liberal.
Mas não julguem que estamos no domínio das abstracções. O pior é que o programa da redentora matéria - obrigatória, recordemos - não passa de um cavalo de Tróia para meter o admirável mundo novo do politicamente correcto na cabeça dos filhos dos outros. Com o pacote todo, incluindo a famosa ideologia de género, a diversidade de modelos familiares e os modos de vida alternativos (sim, é mesmo isso que estão a pensar).
Previsivelmente, a Igreja e o Governo destaram "à puerrada", como diria o Futre nos tempos do Atlético de Madrid. Os bispos sugeriram aos católicos a objecção de consciência e até a greve às aulas, entre outras acções musculadas a que esquerda gosta de chamar desobediência civil. Zapatero respondeu, num comício com a JS lá do sítio, que "nenhuma fé está acima da lei".
O que seria uma verdade simpática, se a questão fosse de fé. Não é, lembrou entretanto o porta-voz de uma das maiores associações de pais espanholas, Benigno Blanco, com óbvio equilíbrio apesar do nome algo maniqueísta, recomendando ao Governo que não faça de uma luta pela liberdade de educação a próxima guerra Igreja-Estado.
Tem toda a razão e só mesmo por má fé os socialistas podem ter comprado essa guerra. E se a má fé também não está acima da lei, o que temos aqui é o paradoxo do costume: quanto mais os jacobinos proclamam a neutralidade ideológica do Estado, mais procuram usar o Estado para impor a sua ideologia aos "cidadãos".
Estou curioso para ver o que se segue. Até ao começo das aulas ainda se mete tudo a banhos, mas algo me diz que a temperatura não vai descer.
Há-de chegar cá, acreditem.

publicado por Pedro Picoito às 18:26 | comentar | ver comentários (9) | partilhar

Estatuto do Jornalista: o que está em causa (II)

2. Sanções para os jornalistas: aqui o tema pia mais fino. O novo Estatuto contempla um conjunto de normas, baseados no já existente código deontológico dos jornalistas (que não tem sanções previstas). São atribuídos poderes à "Comissão da Carteira" (constituída por jornalistas) para fiscalizar a profissão. No limite, um jornalista pode ser suspenso (pensou-se em multas, imaginem o que seria).
Gritaria. Choro e ranger de dentes. Crónicas incendiárias do José Manuel Fernandes (considerado o inimigo número 1 do Estatuto). Os jornalistas argumentam que a sua profissão já é suficientemente escrutinada e limitada: pela opinião pública, pelos provedores de leitores, pelo Conselho Deontológico do Sindicato, pela Entidade Reguladora da CS, pelos estatutos editoriais e códigos de cada órgão de comunicação social e, claro, pelos tribunais.
O problema é que nem os tribunais funcionam (ou demoram 10 anos a decidir), nem os códigos são muito respeitados. O histórico de 30 anos em "liberdade" é profícuo na destruição de bom nome de pessoas, empresas, ministros, governos etc.
Evitando uma vez mais cair na tentação reaccionária de considerar todos os jornalistas uns irresponsáveis e delinquentes, não deixa de ser necessário "incentivar" a classe a ter mais respeito por alguns direitos e liberdades dos cidadãos.
Pessoalmente sou defensor da auto-regulação (definição de regras sem a intervenção do Estado) mas até agora esta modalidade tem-se revelado ineficaz e, de facto, enquanto a performance dos tribunais não melhorar é necessário algo mais.

publicado por Francisco Van Zeller às 17:19 | comentar | ver comentários (5) | partilhar

SMS Pedro Picoito

O próximo é o post 1,000.
publicado por Manuel Pinheiro às 17:09 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

Presunções

Há dias, um reporter comentava, durante um telejornal, a "interrupção" de um dos mais mediáticos casos judiciais a que assistimos nos últimos anos. A razão: férias judiciais. Isto não sem antes dar conta de que o processo se encontrava recheado de incidentes, de inúmeros recursos e a abarrotar de testemunhas.
Mais: faltariam ser ouvidas ainda, segundo o repórter, centenas de testemunhas, sendo certo que do vastíssimo número das que já foram ouvidas muitas dificilmente saberiam explicar - sequer - porque é que ali estavam.

À luz da lei, até decisão em contrário, todos são considerados inocentes.

À luz de outros olhares, há comportamentos que, até prova em contrário, devem ser considerados altíssimamente suspeitos. No mínimo!
publicado por Joana Alarcão às 15:36 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Crónicas do Planeta Oval (13)


Depois do susto (20-20 com as Fiji a um quarto de hora do fim), a África do Sul ganhou jogando como melhor sabe: chutando para fora e confiando nos avançados. Deu resultado - mais dois ensaios. Os springboks têm um pack muito sólido, como se viu na vitória de 36-0 sobre a Inglaterra. A sua terceira linha (Russow, Burger, Smith) é a melhor do torneio. Mas também têm falhas: falta-lhes um chutador de topo - e todos vimos, no caso australiano, como isso pode ser fatal - e mostraram enorme dificuldade em lidar com um adversário versátil e criativo.
Ora, a Argentina e França têm justamente essas características...
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publicado por Pedro Picoito às 13:26 | comentar | partilhar

Eduardo Prado Coelho (1944-2007)

Morreu Eduardo Prado Coelho.
Nos últimos trinta anos, ninguém como ele encarnou em Portugal a figura do intelectual politicamente empenhado - e quase por definição "de esquerda" .
Foi comunista em 75, esteve perto do Bloco, integrou as listas do PS para a Câmara Municipal de Lisboa com Carrilho.
Divulgador incansável de estruturalismos e pós-modernismos entre nós, a sua intensa actividade académica e mediática era também parte, e não a menos importante, de um compromisso político.
Fica a memória de um homem que viveu o seu tempo tão de perto que nem sempre soube julgá-lo com serenidade.
publicado por Pedro Picoito às 13:26 | comentar | partilhar

Cachimbos

O Cachimbo de Magritte é um blogue de comentário político. Ocasionalmente, trata também de coisas sérias. Sabe que a realidade nem sempre é o que parece. Não tem uma ideologia e desconfia de ideologias. Prefere Burke à burqa e Aron aos arianos. Acredita que Portugal é uma teimosia viável e o 11 de Setembro uma vasta conspiração para Mário Soares aparecer na RTP. Não quer o poder, mas já está por tudo. Fuma-se devagar e, ao contrário do que diz o Estado, não provoca impotência.

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