Quarta-feira, 31.10.07

Noutro formato

Quem tiver saudades dos comentários do Paulo Gorjão, pode agora acompanhá-lo na TVNET, às segundas-feiras, pelas 21h15, no programa "Blog Spot".
publicado por Miguel Morgado às 16:53 | comentar | partilhar

Um ano depois

Regresso à revista Atlântico um ano depois do primeiro texto. Por coincidência, a edição n.º 32 sai no mesmo dia em que o Cachimbo de Magritte completa um ano de existência.

O texto para a Atlântico foi escrito no início de Setembro e teve como causa próxima a inauguração de uma estátua de Nelson Mandela junto ao parlamento britânico. Depois veio a vitória da selecção sul-africana no mundial de rugby. Sob o ruído dos festejos multirraciais ouviram-se críticas políticas ao predomínio branco entre os atletas: tal como nos coros de uma ópera de Gluck, a alegria exteriorizada era enganadora, a harmonia aparente e as palavras um prenúncio de violência e tragédia.

Os líderes do ANC intensificam a retórica da ‘discriminação’ e da ‘injustiça histórica’, um discurso hostil à população branca e que pretende legitimar um programa extenso de medidas legislativas de controlo sobre todos os elementos relevantes da vida social. Esta hostilidade coexiste com conflitos internos entre facções tribais. Conjugadas representam uma ameaça ao crescimento económico e impossibilitam a existência de uma democracia liberal, culturalmente cosmopolita, uma visão da África do Sul pós-apartheid incorrectamente considerada como o ideal político de Nelson Mandela. Foi sobre essa impossibilidade e sobre a natureza do regime político Afrikaner que escrevi para a Atlântico.

Por fim, um ano de Cachimbo. À partida pretendia escrever com maior regularidade, mas primeiro a pouca disponibilidade de tempo e depois alguma saturação acabaram por resultar numa participação mais ocasional. Em todo o caso, foi um prazer e um privilégio partilhar esta página com os restantes membros do Cachimbo. Agora vem aí o Outono, há livros e discos à espera e a minha necessidade de consolo satisfaz-se com uma simplicidade burguesa.
publicado por Joana Alarcão às 14:57 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

O Princípio de São Peter

Não deixa de ser delicioso que o Daniel Oliveira dê conselhos à Igreja católica sobre quem deve ou não aceder à santidade...
publicado por Pedro Picoito às 13:54 | comentar | ver comentários (2) | partilhar
Terça-feira, 30.10.07

O seu quintal

É impossível não se ficar boquiaberto com o mal disfarçado azedume (e agressividade) com que a Ministra da Educação, hoje, comentou a preocupação do Procurador Geral da República com as agressões que ocorrem nas escolas. Foi por alturas de (mais um) animado comício governamental – desta vez, proclamando os “progressos” na Educação – que teve lugar algures em Lisboa, acho eu.

Disse ela que há assuntos mais graves para o Procurador se preocupar [sic] – esta inacreditável arrogância (a roçar a má educação) só pode partir de uma pessoa que vê as escolas como o seu quintal. Como se as escolas fossem bolhas de realidade alheias à saudável aplicação da Lei. São os quintais privados da senhora. Mesmo que o fossem...

Alguém lhe devia recordar que ela, afinal, não passa de uma Ministra. Não, não é ironia. Repito: não passa de uma Ministra. Não é proprietária daquilo que governa. Prolongando a metáfora, ela não passa de uma caseira encarregada de cuidar do nosso quintal.
E má caseira. Deixa crescer as ervas daninhas em terra própria para boas culturas ao mesmo tempo que se encarniça cegamente, ajudada pelos seus dois sub-caseiros, a espalhar herbicida onde não deve: desta maneira, vai, com afã criminoso, queimando as melhores plantas do quintal, desde as maiores, que já davam bom produto e boa sombra, até às mais tenras, promessa de frutos mimosos. É uma caseira que vai deixar a nossa propriedade literalmente inculta.

Só mais uma coisa. A Ministra, no ataque ao Procurador, referiu-se, note-se, à violência sobre as crianças [sic]. Pinto Monteiro tinha sublinhado a violência sobre os professores. Há aqui uma escolha deliberada da Ministra. Ela pretende, assim, esbater o problema mais sério. É de longe bem mais grave, mais perigosa, a violência exercida sobre os professores por parte de pais e alunos do que a que acontece entre estes últimos. Só uma cegueira verdadeiramente criminosa permite ignorar uma evidência destas. Há aqui qualquer coisa de tremendamente errado.
publicado por Carlos Botelho às 22:09 | comentar | partilhar

Vergonha? Are you talking to me?

Era inevitável. A propósito da recente beatificação de 498 mártires da Guerra Civil espanhola por Bento XVI, a esquerda blogosférica clama que é um escândalo fazer a coisa na semana em que o governo de Zapatero leva a votos a Lei da Memória, destinada justamente (esperemos...) a reabilitar as vítimas do franquismo.

O Nuno Ramos de Almeida, na sua candura (restos dos amanhãs que cantam?) estranha a "coincidência" e que não sejam também beatificados os muitos padres bascos mortos pelos nacionais por se manterem "leais aos direitos do povo basco", o que indiciaria estarmos diante de uma "beatificação política e não religiosa". Eu não sei em que mundo é que o Nuno Ramos de Almeida vive, e também não sei se ele sabe (talvez num mundo onde as beatificações nunca são susceptíveis de leituras políticas), mas aconselho-o a informar-se bem sobre estes padres "leais aos direitos do povo basco". É capaz de descobrir alguns carlistas, que é como quem diz os miguelistas lá do sítio, gente que detestava os espanhóis por serem mestiços de mouros e terem acabado com os foros feudais do "povo basco". Gente, portanto, mais reaccionária que o próprio Franco. Na volta, até foi por isso que os franquistas os assassinaram. Não sei é se será um grande motivo para beatificações: alguém podia ver no caso uma manobra política para santificar o carlismo. E nós não queremos beatificações políticas, pois não?

Já o Daniel Oliveira, sempre pronto a envergar a toga de moralista, acusa a Igreja de "falta de vergonha" porque, às suas "simpatias pela ditadura franquista", junta agora o "esquecimento" das vítimas do outro lado. Convém, no entanto, que ele se lembre do que foi o o outro lado. Em Espanha, tal como em Portugal, em França e no México, a República de então foi violentamente anticatólica. Não quero maçar-vos com pormenores para não me tornar o grande educador dos intelectuais fracturantes, mas lembremos factos. Estima-se que, durante a Guerra Civil, entre oito mil a dez mil padres, religiosos, freiras e leigos tenham sido mortos, por vezes depois de torturados, pelo simples facto de pertencerem à Igreja. Os números não são conhecidos com todo o rigor porque as valas comuns também se tornaram uma prática corrente dos rojos. Além disso, estes assassínios aconteciam ao sabor da fúria dos célebres comités revolucionários. Não havia qualquer tipo de processo ou julgamento, o que dificulta um pouco a contagem. Muito desorganizados, estes latinos. Os alemães é que sabiam.

Na verdade, a perseguição começou ainda antes da Guerra propriamente dita. Entre Fevereiro de 1936, data da vitória da esquerda nas eleições, e Julho, início da sublevação militar da direita, foram mortos 17 padres e saqueados vários conventos em Madrid, Barcelona e Valência. No das carmelitas da capital catalã, os túmulos das freiras foram profanados e os cadáveres expostos, como se pode ver pela imagem que, com a "falta de vergonha" típica da minha malta, submeto à sensibilidade de vexas.

A partir de Julho, o ritmo de execuções tornou-se frenético. Cito Andrea Riccardi, que me fornece estes dados: "De 18 de Julho até ao final do mês, as vítimas do clero foram 861; em Agosto 2077, a uma média de 70 por dia. Durante o Outono, os assassínios continuaram, se bem que em número inferior, e desde o princípio de 1937 caíram sensivelmente" (O Século do Martírio, Lisboa, Quetzal, 2002, p. 316).

Não tão sensivelmente, porém, que José Diaz, secretário-geral da secção espanhola da III Internacional, não pudesse afirmar com orgulho em Março de 1937: "nas províncias em que temos o poder, a Igreja já não existe. A Espanha superou em muito a obra dos soviéticos." Para certas dioceses, o massacre foi realmente metódico. Em Barbastro, por exemplo, dos cerca de 120 padres que havia antes da guerra, sobravam 12 quando esta terminou. É possível que algum tenha morrido de morte natural.

A falta de memória dos nosso lefties, contudo, vai mais longe. Acompanhando esta imagem aqui ao lado, o Nuno Ramos de Almeida tem uma frase que vale a pena citar. "Setenta anos depois dos nazis da Legião Condor terem arrasado a vila basca de Gernika, o alemão Ratzinger vem dar uma ajudinha a um lado do conflito da memória." Até um troglodita de direita como eu percebe que o Nuno Ramos de Almeida está a acusar o Papa de ser nazi. E, por extensão, os incautos bispos que estão a fazer a saudação romana sem saber onde se meteriam setenta anos depois. Por mim, acho que ele está a confundir o Ratzinger com o Gunther Grass.

Mas a confusão maior não é essa. É que, nos anos 30 e 40, a saudação romana estava bastante difundida nas manifestações públicas de vários regimes europeus que podem considerar-se autoritários, mas dificilmente podem considerar-se genocidas. Pensem no salazarismo, para não ir mais longe. O amorável rebento da Mocidade Portuguesa que se observa aqui ao lado tem certamente a mesma queda para a estética que os verdeufémios do camarada Gualter, mas não me parece que seja nazi. Ou que seja capaz de arrasar Gernika, mesmo estando pouco consciente dos "direitos do povo basco". Só que a confusão, vinda de quem se mostrou tão susceptível à proximidade entre Hitler e o camarada Che por via de um bigode, já não se deve atribuir apenas à candura. Deve atribuir-se, com mais ou menos beatificações, à pura e simples hipocrisia.
publicado por Pedro Picoito às 16:57 | comentar | ver comentários (22) | partilhar

Diarreia legislativa

O Ministro da Justiça anunciou ontem uma nova revisão, em 2009, dos códigos penal e processual penal. Recordo que as últimas alterações entraram em vigor há pouco mais de um mês (15 de Setembro) e o que aqui disse sobre isso.
Sofremos mais de excesso de leis, e respectivas alterações, do que de falta delas. É um erro básico do burocrata iluminista pensar que os problemas se resolvem com mais leis ou alterando as leis. O caminho deve ser menos leis, melhores leis. «Corruptissima republica plurimae leges» dizia Tácito.
publicado por Paulo Marcelo às 09:56 | comentar | ver comentários (2) | partilhar
Segunda-feira, 29.10.07

Jesus de Nazaré pelo Papa Bento

Foi finalmente publicado em português de Portugal -os brasileiros levaram meses de avanço- o novo livro de Bento XVI, Jesus de Nazaré. É o primeiro livro escrito pelo novo Papa desde a sua eleição. Vestindo a capa de teólogo, Ratzinger procura demonstrar a coincidência entre a dimensão religiosa e a dimensão história de Cristo. Num cunho mais pessoal, Bento revela o resultado da sua busca pessoal pelo “rosto do Senhor”.
Há hoje uma conferência de Jacinto de Farias, teólogo e tradutor do livro para português (directamente do alemão) sobre o livro, no Palácio da Independência (Rossio) em Lisboa, às 21.30h. Recomenda-se.
publicado por Paulo Marcelo às 17:25 | comentar | ver comentários (13) | partilhar

E vai ser o fim do mundo

«O desastre vai ser brutal, as dificuldades imensas, o próximo presidente vai ter uma administração hipotecada»
Hoje o Insurgente deixa-nos um certo travo a armageddon, alegadamente vertido pela mão económica do grande satã Bush.

Para além de um certo défice de criatividade no apontar do(s) suspeito(s), tenho alguma dificuldade em perceber exactamente onde é que está o crime. No post citado aponta-se o défice, o que até não é um mau ponto de partida do ponto de vista do réu Bush, na medida em que normalmente o argumento que lhe é atirado é-o no plural: défices gémeos.

O défice da conta corrente é um tema que deixará a maior parte dos leitores a dormir, mas gostava apenas de lembrar que este défice já existia e era apontado como alarmante quando os números se situavam em USD $1Bi/day (4,4%/GDP)na passagem de testemunho de Clinton. Estará hoje em 7%/GDP e as opiniões continuam a variar, desde os que continuam (com as cordas vocais algo cansadas) a gritar "lobo!" até quase o extremo oposto, colocando-o como uma consequência de sucesso que será ajustada se e quando o mercado financeiro o ditar sem qualquer tipo de "dor".

Mas voltando ao défice orçamental, a política aplicada não é assim tão distinta da aplicada por Reagan, mas estranho os argumentos sobretudo no Insurgente. Seria razoavelmente simples (no papel) fazer recuar um pouco mais os valores do défice, bastando para tal fazer o roll-back dos cortes nos impostos e acabar com presença militar externa, nomeadamente os custos (directos e indirectos) da guerra no Iraque e no Afeganistão. Mas parece que é precisamente a questão orçamental da administração Bush que está a caminhar num óptimo sentido, com as últimas notícias oficiais a fixar o valor do défice como o mais baixo dos últimos 5 anos: 1,2%/GDP. A descida do défice deve-se não só a um controlado crescimento de despesas mas sobretudo a um crescimento de receitas fiscais benigno, na medida em que advém não de um aumento das taxas mas antes de uma resposta positiva da actividade económica. A administração Bush puxa os louros para si, alegando mérito nos famosos tax cuts que estimularam a economia e pagaram-se a eles próprios. A verdade é que, mesmo descontando alguma propaganda, há obviamente mérito na política fiscal, e as previsões de valores de défice (e de anulação) para os próximos anos são crescentemente optimistas. Atenção porque o "budget year" vai de (1) Outubro a (1) Outubro seguinte (exc.), pelo que as contas já foram apresentadas neste mês.

Temos então, com cortes de impostos e em guerra, 1,2%GDP (and counting) de défice. É isto que seriamente deve ser comparado à tal saída da NATO?
publicado por Manuel Pinheiro às 17:11 | comentar | partilhar
Domingo, 28.10.07

Tugendhat

Ontem, fui ouvir duas palestras de Ernst Tugendhat na Sociedade Portuguesa de Filosofia. É verdade, o mestre alemão das "Lições sobre Ética" esteve entre nós graças aos esforços de José Sousa Brito e de João Lopes Alves, dois nobres exemplos de generosidade.

As sessões foram extraordinárias em todos os aspectos, a começar pela figura de Tugendhat: já velhote e com grandes dificuldades auditivas, apresentou as duas palestras, disponíveis em versão escrita, em português do Brasil com o inevitável sotaque germânico. Fiquei impressionado com o facto de ter redigido a segunda palestra há pouco mais de duas semanas e propositadamente para os poucos portugueses que se deslocaram até à Avenida da República. Nos períodos de debate, revelou uma comovente modéstia intelectual e o desejo sincero de partilhar as suas hesitações e insuficiências com todos os que o queriam ouvir.

Confesso que não sou grande entusiasta da orientação dos esforços intelectuais de Tugendhat, nem da sua proximidade com um contratualismo igualitário, mas ninguém pode duvidar de que nele se pode encontrar um confronto honesto e necessário com a grande questão que atravessa toda a sua reflexão: a justificação moral, de preferência Metaphysik frei. Na minha opinião, a ideia de uma moral "não autoritária" que se fundamenta exclusivamente pela universalidade, reciprocidade e simetria, não pode fazer justiça às diversas experiências morais. Mas a proposta de Tugendhat e especialmente as críticas de que ela resulta não deixam de merecer a mais genuína das atenções e a mais ponderada das respostas. A sabedoria amadurecida não tem direito a menos.
publicado por Miguel Morgado às 00:00 | comentar | ver comentários (2) | partilhar
Sexta-feira, 26.10.07

Três coisas que não se esquecem


(Ontem, fui ouvir George Steiner na Gulbenkian.)

O Professor Steiner chegou à pequena tribuna com os seus papéis sobraçados. Descobriu lá uma caneta esquecida por Rui Vilar, que tinha falado antes. Pegou na caneta. Não sem uma certa dificuldade, atravessou todo o palco e foi entregá-la a Vilar.

Contou-nos como, uma vez, inscrevendo e explicando uma série numérica num quadro, tinha conseguido fazer acordar (awake) a noção do infinito num grupo de crianças desfavorecidas. A noção do infinito.

Ao chegar à saída do Auditório, ainda me voltei. Vi o Professor de costas, desaparecendo já para trás do palco.
publicado por Carlos Botelho às 22:43 | comentar | ver comentários (5) | partilhar

Carta para comprar um banco

Se alguém precisar de uma minuta de carta a propor a compra de um banco -nunca se sabe o futuro- aqui fica esta. Leitura interessante para o fim-de-semana, com várias mensagens subliminares. Uma lição em sete páginas sobre como comprar um banco sem gastar de dinheiro.
publicado por Paulo Marcelo às 17:28 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Comentário assassino para Santana

«Com Santana Lopes, Sócrates vai ter um interlocutor no Parlamento do seu nível político e intelectual»
Campos e Cunha, ex-Ministro das Finanças de Sócrates, hoje no Público
publicado por Filipe Anacoreta Correia às 11:26 | comentar | ver comentários (5) | partilhar
Quinta-feira, 25.10.07

Scoring

De uma conversa antiga, citando de memória e traduzindo:

«A razão pela qual vocês portugueses têm menos menos sexo é porque não conseguem fazer o que eu faço. Sabendo que tenho uma taxa de sucesso com as mulheres de aproximadamente 10%, quando entro num bar selecciono 10 ou 15 mulheres com quem acho que posso ter sucesso. Vou à primeira e ela diz não. Vou à segunda e ela diz não. Vou à terceira e assim sucessivamente. Sei que, tendencialmente, uma vai dizer que sim. É tudo uma questão de resistência psicológica. Vocês portugueses entram num bar, escolhem a mulher que preferem, têm de beber 5 cervejas para ir falar com ela, e se ela diz não vão chorar para casa.»

(Nota técnica: declara-se para os devidos efeitos que os "portugueses" era uma generalização. No Cachimbo só se aceitam bloggers com altos índices de rendimento)
publicado por Manuel Pinheiro às 14:26 | comentar | ver comentários (4) | partilhar

Ainda a Deselitização

Uma sociedade moderna, rica e ágil gera fenómenos como Michael Bloomberg, possibilitando a alguém que cresceu nos subúrbios do Boston (Mystic River) tenha acesso a formação superior, a um mercado de trabalho bem remunerado enquadrado numa estrutura de mercado global ágil e numa cultura de risco, trabalho e mérito. Em que se pode criar um império que se expande e demonstra a sua valia a nível global, bem longe dos arranjos e proteccionismos locais (neste caso inexistentes). E em que se faz isto tudo bem antes de soprar as 60 velas, porque quando se está a chegar perto dos 60 talvez seja a altura para se participar na vida política e ser-se eleito Mayor de Nova Iorque, para continuar gostar do que se faz, ser-se reeleito e ainda estar a tempo de ponderar uma candidatura à Presidência do país.

Um mercado rígido, burocratizado e relativamente pobre será não só mais lento como não conseguirá gerar consistentemente fenómenos como Bloomberg ou outros. É também a natureza do nosso mercado que explica a deselitização que o PPD-PSD vive. Comparativamente a outros e melhores mercados há menos pessoas, há menos dinheiro, há menos tempo.
publicado por Manuel Pinheiro às 14:01 | comentar | partilhar

E isso não se admite (aos outros)

Uma das críticas comuns às últimas eleições directas no PPD-PSD relaciona-se com a ausência de alternativas no boletim de voto. Alegadamente existiria um conjunto de pessoas que estaria em condições (o que quer que isso queira dizer) de gerar candidaturas e alargar o portfolio da escolha. Estas pessoas terão pensado, telefonado, reunido e decidido pela não candidatura, surgindo o tal pecado capital. Na blogosfera, nos jornais, nas televisões e nos cafés surgiram todo o tipo de adjectivos, em quantidade e em força, como aliás é tradição, sobretudo a seguir aos acontecimentos e sobre os vencidos. Nessas alturas os observadores são todos muito bons e não têm receio de ser peremptórios. Mas há algo de doentio nesta pequena crueldade, neste prazer sádico que esta "opinião" retira da miséria alheia. Qualquer coisa mal resolvida. As críticas substantivas são livres e bem-vindas, mas o tom de quem se coloca num pequeno Olimpo opinativo requere aquilo que os anglo-saxónicos designam de "moral high ground". E quais são então as credenciais da turba linchadora? Um batalhão de jornalistas, académicos, profissionais diversos que trabalham para organizações propriedade do estado ou de outros privados. Pessoas cujos rendimentos ou são retirados do bolso do contribuinte para o seu ou derivam de troca de valor de capital humano com organizações idealizadas maioritariamente por outros, que então os incorporam mas em que a componente risco assumida é profundamente desequilibrada para o lado do accionista, para não dizer mesmo na sua totalidade. A turba linchadora olha para o mercado em que se situa e tem uma de duas hipóteses, arriscar e inovar liderando o seu projecto, ou observar com cuidado os players e tentar integrar-se num deles. Qual a percentagem da turba que opta pela primeira?

Diz-se que política e negócios são mundos distintos, mas por acaso as pessoas são as mesmas, e o seu padrão de decisão é transversal (excepto para quem tenha personalidades múltiplas). Infelizmente, como se viu, o partido reflectiu o país também naquilo que são os seus defeitos: a fuga ao risco, ao confronto, à exposição, a dificuldade em distinguir derrotas de Derrota e encarar as primeiras como passo incontornável na vida. O resultado desta matriz no partido é o que sê. No país também, e o que a turba esquece ou pretende dissimular é que a crítica que faz é a ela própria. Como diria o Doutor Soares, não é bonito. As pessoas devem ser condescendentes com os seus semelhantes.
publicado por Manuel Pinheiro às 13:55 | comentar | partilhar

Da Série "Grandes Dúvidas"

O que faz António Vitorino na RTP1 (às segundas-feiras)? Agora que o governo de Santana Lopes já caíu, e que já ninguém se lembra daquela treta da "ausência de contraditório", não se poderá regressar a alguma sobriedade?
publicado por Miguel Morgado às 11:24 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Bastonário dos Médicos arrasa Ministro da Saúde

A propósito da tentativa do Ministério da Saúde impor à Ordem dos Médicos a alteração dos seus padrões éticos -Código Deontológico- relativamente à defesa da vida humana, oiçam isto na TSF que vale a pena.
publicado por Paulo Marcelo às 11:18 | comentar | ver comentários (2) | partilhar
Quarta-feira, 24.10.07

Os pobres

Gonçalo, tens razão: a pobreza, que entrou "lá em casa" pela mão do Prós e Contras de anteontem, não deveria ser-nos indiferente. Curiosamente, dá-se uma volta pela blogosfera, sempre tão atenta e opinativa, e nada se diz sobre isto*. O silêncio, porém, não se deve apenas à superficialidade do meio, mas à maior invisibilidade do tema. Ou, melhor, a uma mudança na sua aparência. O pobre que morre de fome, o pobre bíblico, o Lázaro da parábola já quase não existe na sociedade portuguesa - felizmente. Lembro-me de ouvir contar que os meus bisavós, proprietários de uma casa agrícola que podia considerra-se rica no Sotavento algarvio, abriam todos os sábados de manhã o celeiro da quinta aos pobres das redondezas, sobretudo os pescadores de Montegordo, os mais miseráveis dos miseráveis. Essa pobreza está hoje à beira da extinção, graças a Deus, ao turismo e à assistência social (e essa riqueza também, diga-se de passagem). Ainda existem bolsas de pobreza nos bairros de lata de Lisboa, nas "ilhas" do Porto, nas comunidades de pescadores (sempre os pescadores...) da Madeira e dos Açores - como Rabo de Peixe, estatisticamente a freguesia mais carenciada do país - mas o perfil do pobre, perdoe-se-me o sociologismo, mudou.
Hoje, os indigentes nos países desenvolvidos, entre os quais Portugal se conta, não são na maioria pessoas que tenham nascido na pobreza, mas pessoas que caíram na pobreza: toxicodependentes, mães solteiras, famílias monoparentais, desempregados de longa duração, incluindo os imigrantes, velhos e deficientes abandonados. São o fruto amargo da broken society, uma sociedade que aumentou o nível de vida para todos, mas criou também novos excluídos pela erosão dos laços sociais.
Dei-me conta disso, há muitos anos, quando comecei a fazer voluntariado na Musgueira, um bairro da capital entretanto demolido. As condições eram as típicas de qualquer aglomerado de barracas: caixas de chapa, todos clandestinas, minúsculas, apertadas, quase sem divisões, sem privacidade (dentro e fora), sem electricidade, a não ser através de uma ligação directa aos postes da EDP, e sem água canalizada, o que provocava o cheiro que se imagina, ou talvez não, porque nunca se imagina antes de lá entar. Eram raras, raríssimas, as que tinham casa-de-banho. Eram ainda mais raras as que não tinham uma antena parabólica. Aquelas pessoas, que viviam pior do que muitos animais, tinham falta de tudo, mas não de uma televisão. Preferiam a MTV à água canalizada. Não as critico. Foi uma grande lição para mim, aos 15 ou 16 anos, ver que a pobreza não estava tanto na falta de bens, mas na falta de consciência da própria dignidade.
O que significa que a pobreza já não é um problema assistencial, mas um problema cultural e social no sentido mais amplo. O combate à pobreza não passa só pela acção distributiva do Estado, das Misericórdias ou de instituções de solidariedade privada como o muito louvável Banco Alimentar. Isso é ainda necessário nos casos mais graves, sem dúvida. Mas a urgência principal talvez esteja em políticas que reforcem a liberdade e a responsabilidade dos pais, das familias, das escolas, das associações voluntárias, das comunidades intermédias em que Burke e Tocqueville viam palpitar uma sociedade de homens capazes de tomar o próprio destino nas mãos.
Combater a pobreza é lutar pela liberdade e pela qualidade de ensino. Aquilo de que precisa uma criança da Musgueira não é de ir obrigatoriamente para a escola mais próxima, onde todos os colegas têm as mesmas expectativas, ou seja nenhumas, e professores muito progressistas valorizam os seus "saberes" alternativos, sem lhe ensinarem o Português e a Matemática indispensáveis no mercado de trabalho. Português e Matemática que os filhos da classe média aprendem em melhores escolas, públicas ou privadas, porque os pais fazem um enorme esforço financeiro ou sabem preencher papéis com a morada certa.
Combater a pobreza é não facilitar a ruptura familiar através de leis bem intencionadas, mas perigosas, como o "divórcio na hora". Para além de todas as consequências que o divórcio tem na vida de cada um, e que nunca são agradáveis, o fim do casamento é uma das causas mais seguras de pobreza para a mulher, que fica geralmente com os filhos a cargo sem ter o mesmo apoio económico do marido.
Combater a pobreza é passar claramente a mensagem de que a droga é um mal porque destrói um de nós, e não apenas uma questão sanitária que só diz respeito ao "direito ao corpo" do próprio. Podemos diminuir a incidência da SIDA distribuindo seringas nas prisões, mas não será isso, bem pelo contrário, o que vai diminuir o consumo nas ruas.
Combater a pobreza é incentivar as famílias com parentes mais velhos a cuidar deles em casa, deduzindo nos impostos o que gastariam com eles num asilo ou nos muitos cuidados de saúde que teriam de garantir se eles vivessem sós.
Os exemplos poderiam multiplicar-se e tu conheces por certo muitos outros. A pobreza tem muitos rostos, mas, quando a olhamos de frente, é sempre um reflexo do que somos e do que queremos ser.
*Adenda: Informam-me, entretanto, que o Blasfémias tem dois posts sobre o assunto. Fui ver e tem mesmo, mas são um bocadinho ao lado. A excepção confirma a regra.
publicado por Pedro Picoito às 14:16 | comentar | ver comentários (19) | partilhar

Da série "Melões de cá"

Lewis John Rhead, Rugby Football as Played at Rugby School (s.d.)

publicado por Pedro Picoito às 11:19 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Uma nova constituição para Portugal? (II)

Como interpretar a “nova constituição” de que fala Menezes?
Vou dar o benefício da dúvida ao novo líder do PSD. Talvez ele quisesse apenas provocar um “abanão” constitucional para iniciar o debate sobre a revisão “ordinária” de 2009.
Em qualquer caso, aqui ficam as minhas propostas de revisão constitucional.
A principal alteração seria introduzir a subsidariedade. O Estado só poderia intervir no plano económico, social e cultural quando fosse mais eficaz do que as entidades intermédias: autarquias locais, empresas, etc. A introdução deste critério constitucional, que já existe a nível europeu, levaria o Estado a concentrar-se nas funções de soberania, dando espaço à iniciativa privada e à sociedade civil. Teríamos, tendencialmente, um Estado mais pequeno, descentralizado e eficiente.
Na constituição económica, defendo a eliminação de certas disposições anacrónicas como a proibição dos latifúndios, as organizações de moradores, a economia planificada (políticas agrícola, comercial e industrial) e as referências à “gratuitidade” dos serviços públicos, que têm impedido reformas na área da saúde e da educação.
No plano político, deveria desaparecer a regionalização, recusada no referendo de 1998, e acabar o monopólio dos partidos políticos nas candidaturas à Assembleia da República. Sobre o Tribunal Constitucional parecem excessivas as críticas de Menezes. Seria um erro a integração no Supremo Tribunal de Justiça.
Na área social, eliminar a obrigação do Estado promover o “pleno emprego” (art. 58.º) e a garantia de “segurança no emprego” (art. 53.º) que têm conduzido, na prática, à generalização dos contratos a prazo e a um elevado desemprego em Portugal.
Mas quero aqui afirmar com toda a clareza: Portugal não tem um problema constitucional, nem sofre de ingovernabilidade. É um erro considerar que o atraso nacional se deve ao sistema político. Ou que a solução dos nossos problemas está em mudar a constituição. Como diria Menezes, os portugueses não comem constituições. Esse seria o caminho mais fácil mas errado. Espero que o PSD não vá por aí.
publicado por Paulo Marcelo às 10:29 | comentar | ver comentários (4) | partilhar

Cachimbos

O Cachimbo de Magritte é um blogue de comentário político. Ocasionalmente, trata também de coisas sérias. Sabe que a realidade nem sempre é o que parece. Não tem uma ideologia e desconfia de ideologias. Prefere Burke à burqa e Aron aos arianos. Acredita que Portugal é uma teimosia viável e o 11 de Setembro uma vasta conspiração para Mário Soares aparecer na RTP. Não quer o poder, mas já está por tudo. Fuma-se devagar e, ao contrário do que diz o Estado, não provoca impotência.

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