Quinta-feira, 30.04.09

Bloco total

A alteração à lei de financiamento dos partidos, que permite a entrada de mais dinheiro vivo nas contas dos ditos, foi hoje aprovada no Parlamento com o voto favorável de todas as bancadas.
Todas.
Bloco central? Qual bloco central... Isto é o bloco total.
publicado por Pedro Picoito às 23:59 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

100 Dias na Vida de Barack Obama (1)

Enquanto não temos o vídeo do debate de ontem sobre os 100 dias de Obama, em que participei juntamente com o José Gomes André nos estúdios do TVI24.pt, ficam aqui algumas deixas.
Uma palavra prévia: é preciso dizer que não me sinto muito confortável com este hábito de comentar os 100 primeiros dias de um mandato de 4 anos. Não se trata apenas de ser um período muito curto, acarretando inevitavelmente juízos precipitados. O que também me incomoda é que este hábito cultivado pela primeira administração F. D. Roosevelt sugere que o frenesim denota empenho e acção eficaz. Coloca a administração em funções sob a pressão de demonstrar como a administração anterior foi inepta e passiva diante da catástrofe. Foi o que Roosevelt fez com grande sucesso relativamente a Hoover, e Obama tenta fazer agora com Bush. Mas, com tanta gente a comentar os 100 dias, também eu acabei por contribuir para agravar o problema.
Para compreender a acção de Obama no plano interno temos de perceber o que está por detrás da retórica presidencial. Só assim se conseguirá medir os seus actos mais significativos. É que começa a ser gritante o contraste entre a retórica de Obama, que invoca o "pragmatismo", a moderação, o consenso, as pontes entre os dois partidos, o diálogo, etc., e a execução de uma estratégia que no fundamental foi sintetizada por Rahm Emanuel (e também por Hillary Clinton) na sua expressão "não desperdiçar a crise". Isto é, com a circunscrição do discurso político ao horizonte negro da crise, de preferência de uma crise longa e profunda, ir avançando uma agenda que nada tem de consensual, moderada ou pragmática. Foi precisamente isso que sucedeu com o orçamento que já continha o pacote de "estímulo" à economia. Debaixo do tecto vacilante da ameaça económica cataclísmica, tudo é permitido, tudo é autorizado. Mesmo aquilo que não sabemos exactamente que acabámos de aprovar - a experiência dos membros da Câmara dos Representantes durante a votação desse orçamento -, mesmo aquilo que nos provoca reservas. Neste caso, gerir uma crise não é bem devolver a "esperança". Pelo contrário, gerir bem a crise é manter o horizonte de receio para que as nossas reservas sejam incomparavelmente mais pequenas do que o sentido aparente de fazer alguma coisa. Qualquer coisa. Até aquelas coisas que não fazem assim tanto sentido.
publicado por Miguel Morgado às 18:36 | comentar | partilhar

A recondução de Barroso

A ler este conjunto de textos, de Bernardo Pires de Lima. (I), (II), (III), (IV) e (V).
publicado por Nuno Gouveia às 15:31 | comentar | partilhar

Qual será a loucura deste Papa?

In Praise of Folly, por John Berwick, no New York Times.
publicado por Paulo Marcelo às 12:00 | comentar | ver comentários (5) | partilhar

Combater a riqueza ilícita para proteger a lícita

Nunca concordei com a frase de Balzac que diz que por detrás de uma grande fortuna está sempre um grande crime. Acredito que a prosperidade (sobretudo se associada à igualdade) é essencial ao nosso bem-estar colectivo. E que cada um de nós a pode alcançar por meios legítimos. Claro que a crise financeira tem desmascarado muita ganância e vigarice, mas não embarco na demagogia fácil contra o capitalismo e contra os “ricos”.
Outra das classes “debaixo de fogo” tem sido a dos políticos. Todos ouvimos falar de certas pessoas que atingem, de um momento para o outro, um património muito acima da remuneração normal da sua actividade. Apesar dos indícios, nestes casos a Justiça não tem sido capaz de punir os alegadamente corruptos. Veja-se o caso de Mesquita Machado, no poder há 32 anos em Braga. Fala-se sobre corrupção, tráfico de influências e cumplicidades com empreiteiros (ex. Bragaparques), mas nunca se conseguiu provar nada. Podia também aqui falar dos casos de Fátima Felgueiras ou Avelino Ferreira Torres. São raras em Portugal as condenações por corrupção.
Como tento evidenciar neste texto no Diário Económico de ontem esta situação gera um sentimento de impunidade. Como o sistema judicial não se consegue punir os culpados, separando o "trigo do joio", tende a generalizar-se a ideia de que os políticos são desonestos. Que só querem “governar-se”. Esta generalização, apesar de muito injusta, pode tornar-se uma ameaça para a democracia.
O combate à corrupção e ao crime económico deve ser uma prioridade política de todos os partidos. Acredito mesmo que único modo de construirmos um país mais próspero, capaz de gerar riqueza legítima, é através de um combate “sem quartel” à riqueza ilícita. Não adianta discutir soluções teoricamente perfeitas que não funcionam na prática, como se tem visto. Não faz sentido invocar a defesa do estado de Direito, como fez o PS na semana passada no Parlamento ao justificar o chumbo do projecto de lei do PSD sobre Enriquecimento Ilícito, quando é esse mesmo estado de Direito que está em causa se nada fizermos para combater a corrupção.
O peixe apodrece sempre pela cabeça.
publicado por Paulo Marcelo às 11:24 | comentar | ver comentários (4) | partilhar
Quarta-feira, 29.04.09

Os próximos 100 serão mais importantes

A cobertura mediática de Obama tem sido provavelmente a mais «macia» na era moderna da comunicação americana. Tudo em Obama é alvo de notícia, inclusive as mais fúteis, como o seu cão ou o guarda-roupa da sua esposa. O que em George W. Bush era motivo de piadas e intermináveis páginas de críticas, em Obama é apenas um parêntesis no meio das notícias positivas que tem recebido dos media. A Obama não são atribuídas gaffes e os seus percalços são considerados perfeitamente normais. Em 2008 Barack Obama foi elevado ao altar do mundo, e 2009 tem servido para entronizá-lo como símbolo deste novo culto: a Obamania. Apesar dos riscos inerentes a uma veneração excessiva, não deixa de ser positivo verificar que a América está de novo na moda.

O meu artigo completo no site da TVI24

publicado por Nuno Gouveia às 22:40 | comentar | ver comentários (16) | partilhar

Publicidade institucional

(Clicar para ver melhor)
publicado por Pedro Picoito às 22:16 | comentar | partilhar

É por estas e por outras que compro a Spectator (mesmo que só a leia uma semana depois)

"Wole Soyinka has several problems as a playwright. One, he`s not Shakespeare but wants to be. A common failing but he might disguise it better."

Lloyd Evans, "Game`s up", in The Spectator, 18/4/09
publicado por Pedro Picoito às 21:39 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Per il Signore Michele



Catenaccio em inglês diz-se Rule Britannia.
publicado por Pedro Picoito às 19:01 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Nuno Álvares Pereira e os seus heterónimos (2)

A historiografia do século XX sobre o interregno de 1383/85 e, portanto, sobre Nuno Álvares Pereira pode dividir-se, simplificando um pouco, em três grandes correntes.
Uma é a dos historiadores nacionalistas, tanto de esquerda como de direita, para os quais os acontecimentos de 1383/85 são uma revolução patriótica contra Castela. Fortemente marcada pelo nacionalismo do século XIX, influencia de modos diferentes monárquicos e republicanos, o Estado Novo e o reviralho, católicos e jacobinos, Jaime Cortesão e João Ameal, António Sardinha e Marcelo Caetano. Convém lembrar que o nacionalismo também serviu aos republicanos para atacar a dinastia de Bragança e que a oposição a Salazar e o PCP invocaram sempre o interesse nacional.
Hoje esta corrente não é tão visível, mas continua a existir sobretudo através do consenso popular. O seu Nuno Álvares é em grande parte o de Oliveira Martins, o herói guerreiro e místico da independência que, no fim da vida, dá tudo aos pobres e vai para frade. Estes vários elementos biográficos do Santo Condestável podem combinar-se em graus diferentes, dando origem a um Nuno Álvares Pereira mais "santo" ou mais "condestável" segundo a inclinação política, ideológica e até religiosa do historiador. Nada de novo, portanto.
Em contraste, os marxistas vêem no interregno uma verdadeira revolução burguesa contra o mundo feudal que Castela e a aristocracia tentam conservar a todo o custo. O grande desacordo entre os marxistas está apenas em saber se essa revolução, de acordo com ortodoxia de Marx, é bem sucedida, iniciando o capitalismo em Portugal e assim antecedendo a futura revolução proletária que o PCP conduziria, ou se essa revolução não é bem sucedida. Armando de Castro, menos ortodoxo, diz que não; António Borges Coelho e Álvaro Cunhal (que, não sendo historiador, escreveu um livro do mais dogmático marxismo sobre o tema com um título previsível: Lutas de Classes em Portugal no Final da Idade Média), dizem que sim - e a prova seria o colonialismo dos Descobrimentos, iniciado em Ceuta por D. João I .
São os marxistas, dignos representantes das "escolas da suspeita" de que falava Ricoeur, quem contesta pela primeira vez a imagem positiva de Nuno Álvares na historiografia portuguesa. O Santo Condestável torna-se, para Álvaro Cunhal, "o principal chefe da contra-revolução" e, para Borges Coelho, "o reagrupador das forças da nobreza", objecto de "suspeita da burguesia" porque "pretende reanimar a velha estrutura social". Um senhor feudal cheio de "ganância" (Cunhal) e "ambição" (Borges Coelho) que recebe e dá terras apenas para consolidar o seu poder (e é este o homem que a Igreja dá aos pobres para rezarem?, pergunta Cunhal, sempre vigilante com o ópio do povo). Ou, na versão mais matizada de António José Saraiva, "um exemplar extremo do espírito senhorial".
Esta revisão de Nuno Álvares tem uma raiz claramente ideológica e o seu eventual valor historiográfico depende tanto do fim político imediato como do valor filosófico do marxismo. O primeiro é, para mim, muito mais evidente do que o segundo. Deixo um pequeno exemplo, entre a inifinidade dos que poderia citar. A páginas tantas, Cunhal tenta explicar as motivações da nobreza portuguesa que esteve ao lado de Castela e sai-se com esta tirada: "Ante a ameaça de serem desapossadas dos seus privilégios, as classes parasitárias preferiram sempre, a uma vitória das forças nacionais progressivas, a dominação do seu país por um estado estrangeiro que abafe a revolução e lhes mantenha os privilégios." Eis uma frase que nos diz muito pouco sobre Nuno Álvares Pereira, exemplo de um nobre que trai a sua classe escolhendo apoiar o Mestre de Avis e a "independência nacional". Recorde-se, porém, que o livro de Cunhal, depois de ser editado em francês em 1965, sai na versão portuguesa em 1975. As palavras que lemos não nos dizem nada sobre o Santo Condestável, mas dizem-nos muito sobre o que o PCP pensava então do Dr. Mário Soares, esse traidor burguês do socialismo, e do Sr. Carlucci, o embaixador americano em Lisboa...
A aproximação hoje mais consensual à crise de 1383/85 e à realidade histórica de Nuno Álvares Pereira vem dos discípulos da chamada Escola dos Annales, o paradigma dominante entre nós desde o 25 de Abril.
Também este modelo tem dois ramos.
Um vai de Joel Serrão (talvez até de António Sérgio) e chega a Armindo de Sousa e Luís Miguel Duarte, interpretando a "revolução" portuguesa como o resultado de conflitos sociais comuns à Europa pós-Peste Negra de 1348.
O outro vê da guerra contra Castela o triunfo de um sector da aristocracia portuguesa, composto sobretudo por filhos segundos das grandes linhagens tradicionais ou por linhagens secundárias e respectivas alianças matrimoniais, sobre a nova nobreza de exilados galegos e castelhanos que dominava a corte de D. Pedro I e D. Fernando, particularmente os Castro, a família de Dona Inês, os Teles de Menezes, a família da rainha Dona Leonor, e o próprio João Fernandes Andeiro. É a tese de Maria José Ferro, José Mattoso, João Gouveia Monteiro e Mafalda Soares da Cunha, que naturalmente consideram a ascensão fulgurante de D. João I e do seu jovem Condestável, dois filhos ilegítimos e menores das respectivas linhagens, uma confirmação da sua visão global da crise. De facto, é muito simbólico que Nuno Álvares, depois de Aljubarrota, receba três dos mais ricos condados portugueses: o de Ourém, que pertencia ao Andeiro (morto às mãos do Mestre de Avis em Dezembro de 1383, no paço da rainha); o de Arraiolos, que pertencia a Álvaro de Castro (falecido de morte natural em 1384, irmão de Dona Inês, tio do outro candidato derrotado ao trono, o infante D. João); e o de Barcelos, que pertencia a João Afonso Telo (irmão de Dona Leonor Teles que morre em Aljubarrota, depois de passar para Castela).
Uma crítica mais profunda destas três correntes pode encontrar-se aqui, num artigo que escrevi para a revista VER e no qual se baseia este post. (cont.)
publicado por Pedro Picoito às 17:45 | comentar | ver comentários (4) | partilhar

Cachimbos de lá

Adriaen Brouwer, Os fumadores, 1636
publicado por Pedro Picoito às 17:43 | comentar | partilhar

Nada de novo nesta coisa ocidental

Depois disto, desta coisa, para além da perplexidade de algumas pessoas decentes aqui e ali (e no 31 da Armada, no Cinco Dias e noutros) ninguém parece ter ficado muito preocupado, não se avistou nenhum sobressalto.
Para além da intrujice (é essa a palavra) feita às pessoas em Castelo de Vide e a todos nós (sim, a todos nós), da promiscuidade miseravelmente descarada entre função do Estado e interesse do Partido e do uso... mais exactamente, do abuso de crianças para alimento da monomania do Magalhães (e quantas vezes não vimos já a ministra da educação e Sócrates fazendo-o por aí com impunidade, se exceptuarmos uns ovos volantes), para além de tudo isso, reparem no que diz... ou melhor (porque ali, na verdade, as crianças não dizem realmente nada, são instrumentos vocais dos adultos), no que é posta a dizer uma das crianças no video: 'o Magalhães é o meu melhor amigo'.
Só um psico-pata produziria uma coisa de propaganda partidária que abre com uma barbaridade daquelas. Uma criança é posta a dizer 'o Magalhães é o meu melhor amigo.' Já chegámos a este nível obsceno da propaganda política em que há criaturas que, não só intrujam os desprevenidos para usarem os seus filhos e alunos (ao serviço do contubérnio ministério da educação-empresa privada-PS), como não hesitam, porque não têm qualquer pudor humano, em exibir aquilo pela boca de uma criança sorridente. Uma criança que, não o percamos de vista, no projecto daquela gente, pretende ter um papel exemplar. Para a criança-portuguesa-modelo do PS/Lurdes Rodrigues, o "melhor amigo" é um info-trambolho do terceiro mundo. Que visão pavorosa tem aquela gente das crianças e das escolas... Sejamos mais precisos: que visão pavorosa tem aquela gente do que devem ser as crianças e as escolas...
Deverão ser não-crianças - porque não são crianças aquelas cujo correlato fundamental da sua afectividade não passa de uma azulinha, maneirinha, de erros pejadinha, ma-qui-ne-ta. E as crianças, com os risos "socraticamente" carimbados nos seus rostos, ali estão alinhadas, sem amigos e sem verdadeiros professores, entretidas (leia-se enganadas) na encenação em que são figurantes inconscientes. Não sabem, nem podem saber, que estão a ser instrumentais na desumanização crescente das suas vidas e da escola levada a cabo por uns parolos info-deslumbrados e desprovidos de interioridade. A incontinência chega ao ponto de nomear as crianças como "geração Magalhães" [sic]. É o nacional-saloiismo "socrático" em todo o seu esplendor.
Entretanto...




...ninguém parece muito preocupado com o insulto. Começo a dar razão ao que o Fernando Assis Pacheco uma vez disse de Portugal.
publicado por Carlos Botelho às 17:30 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

O equívoco do PS

Este erro é a imagem da campanha do Partido Socialista e do seu cabeça de lista. Ainda ontem no debate da SIC Notícias, Vital Moreira demonstrou a verdadeira tragédia que representa para o PS nestas eleições. Os alarmes já devem ter soado na sede socialista, e parece-me que Vital irá andar (ainda) mais desaparecido desta campanha.
publicado por Nuno Gouveia às 15:17 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

100 dias de Obama

Miguel Morgado e José Gomes André vão estar em directo no Portal IOL às 14h30, para debater os primeiros 100 dias do mandato de Barack Obama. A não perder!
publicado por Nuno Gouveia às 13:40 | comentar | ver comentários (5) | partilhar

Post sobre um senador que não é um Jefferson Smith

Uma sorte para Obama, este 60º senador. Que os democratas o aproveitem, não admira e fazem muito bem; estão a encontrar os meios para passar no Senado as suas políticas, que por enquanto são populares; os republicanos fariam o mesmo. Só não é mesmo nada abonatório que se mude de partido porque assim se garante a nomeação democrata quando era quase certo que se perderia a republicana. Deve ser mau feitio meu, mas isto não é o que eu chamo uma política de valores éticos.
publicado por Maria João Marques às 00:32 | comentar | ver comentários (6) | partilhar
Terça-feira, 28.04.09

Como é que se diz catenaccio em inglês (853!)

(Quantos mais exemplos serão necessários até acabarem as parolices que para aí se dizem sobre o futebol de ataque das equipas inglesas?)
publicado por Miguel Morgado às 21:41 | comentar | ver comentários (22) | partilhar

Músicas de genéricos (15)


The virgin suicides 1993

publicado por Nuno Lobo às 20:07 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

O impacte económico da educação deficiente


The economic impact of the achievement gap in America’s schools é o título do mais recente estudo da McKinsey & Company. O ponto de partida é já conhecido: o PISA 2006 mostra que os alunos americanos estão no 25º lugar a matemática e em 24º em ciência, muito abaixo da média dos resultados dos restantes países da OCDE e mais abaixo ainda, naturalmente, dos países com melhores resultados, como a Finlândia, Coreia, Holanda, Nova Zelândia, Canadá e Suíça; os alunos americanos brancos obtêm melhores resultados do que os pretos; os ricos melhores resultados do que os pobres; e alunos com uma herança social semelhante obtêm resultados muito diferentes de sistema escolar para sistema escolar e de escola para escola.

Para além dos custos sociais habitualmente enunciados quando se discute estas questões educativas, o relatório procura salientar o custo económico da subutilização do potencial dos alunos americanos: se os EUA tivessem conseguido diminuir a distância que os separa dos países com melhores resultados educativos, como a Finlândia e a Coreia, o PIB de 2008 poderia ter sido entre $1.3 e $2.3 biliões mais elevado (um acréscimo de 9 a 16 por cento). Dito por outras palavras: o custo económico dos maus resultados educativos nos EUA equivale a uma recessão nacional permanente, com um custo económico anual maior do que a recessão que actualmente afecta a economia americana.

Segundo o relatório, o custo económico dos maus resultados educativos nos EUA não afecta apenas as classes baixas, mas estende-se às classes médias; aliás, ao contrário das famílias mais desfavorecidas, que estão conscientes de que as escolas dos filhos ensinam mal os seus filhos, o estudo revela que as famílias das classes médias não têm consciência de que os seus filhos estão a ser deficientemente preparados para os desafios que a economia global do conhecimento naturalmente lhe irá impor num futuro muito próximo.

Por outro lado, uma visão optimista dos resultados, sustentada, sobretudo, no facto de alunos com uma herança social semelhante obterem resultados muito diferentes de sistema escolar para sistema escolar e de escola para escola, sugere que os resultados podem ser substancialmente melhorados se os alunos forem sujeitos às melhores práticas educativas: não obstante os factores sociais extra-escolares terem uma influência nos resultados dos alunos, o estudo revela que as boas práticas educativas, naturalmente associadas às boas políticas educativas, são igualmente determinantes para a melhoria dos resultados escolares dos alunos e consequente melhoria das suas perspectivas de vida.

O relatório também chama a atenção para a necessidade de se desenvolver cada vez mais e melhores mecanismos uniformes de avaliação, prestação de contas e comparação dos resultados dos alunos e dos professores, pois só assim será possível distinguir as boas práticas educativas das más e adoptar conscientemente as primeiras em detrimento das segundas.

É impossível ler o relatório da McKinsey & Company e não se pensar no caso português. Os resultados do PISA 2006 mostram que os alunos portugueses estão ligeiramente abaixo dos americanos, concretamente no 26º lugar a matemática e 24º em ciência, logo, também muito abaixo da média dos resultados dos restantes países da OCDE e a uma distância substancial dos países com melhores resultados. É certo que Portugal é um país muito diferente dos EUA e que as ambições de um e de outro não são exactamente as mesmas. Talvez os EUA tenham razões para se sentirem particularmente alarmados com a distância que os separa dos países com melhores resultados educativos; por outro lado, precisamente porque Portugal não tem as potencialidades dos EUA, os maus resultados educativos dos alunos portugueses devem ser alvo de uma preocupação acrescida da nossa parte.

Seria interessante percebermos, também nós, quais os custos económicos que pagamos pelo facto de estarmos consideravelmente distantes dos países com melhores resultados educativos. Não menos interessante seria avaliarmos com propriedade quais os custos económicos que pagamos por termos um Ministério da Educação que adopta uma política educativa centrada na propaganda em desfavor da verdadeira aprendizagem. Não é por acaso que a primeira nota do relatório da McKinsey & Company diz o seguinte: “In this analysis, we focus mainly on ‘achievement,’ which reflects the mastery of particular cognitive skills or concepts as measured through standardized tests, rather than ‘attainment,’ which measures educational milestones such as graduation rates.” Em suma: o PISA revela o estado da educação portuguesa e os números do Ministério da Educação revelam o que a Ministra quiser.

Finalmente, está mais do que na hora de Portugal começar a desenvolver mecanismos uniformes de avaliação, prestação de contas e comparação dos resultados das escolas, professores e alunos; está mais do que na hora do Ministério da Educação começar a publicar os resultados das escolas, dos professores e dos alunos. A inexistência de indicadores educativos torna praticamente impossível que se desenvolva em Portugal um estudo semelhante ao que a McKinsey & Company desenvolveu para o caso americano. Sem indicadores não há estudos; sem estudos não há boas políticas públicas de educação; sem boas políticas públicas de educação não há boas práticas educativas; sem boas práticas educativas não há boas escolas, bons professores e bons alunos; sem bons alunos não há bons profissionais; e sem bons profissionais não há desenvolvimento e crescimento económico.
publicado por Nuno Lobo às 19:40 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

País faz de conta


Conforme foi denunciado pelo Carlos Nunes Lopes no 31 da Armada, o Partido Socialista utilizou meios do Ministério da Educação para "angariar" miúdos para um vídeo de propaganda. O mais grave desta situação é o facto da propaganda ter sido realizada com crianças cujos pais não deram a sua autorização para tal. De facto, a governação do PS tornou-se no exemplo do que não se deve fazer em política. Admira-me como o país insiste impávido e sereno a este desenrolar de situações, onde o PS usa e abusa do seu poder no aparelho de estado.
publicado por Nuno Gouveia às 16:59 | comentar | ver comentários (5) | partilhar

Há mais coisas entre o céu e a terra, etc.

Li algures que Peter Singer, que odeia Bush mas ama os animais, afirmou numa entrevista que a superstição do carácter sagrado da vida humana desaparecerá até ao ano de 2040. Mas não disse que outra superstição irá substituir a primeira. De resto, que a ideia da íntrinseca dignidade da pessoa humana pode desaparecer da consciência comum dos povos, é uma hipótese com a sua plausibilidade. Que possa ser identificada com o triunfo da civilização é que me parece mais tortuoso. Há mais coisas entre o céu e a terra, etc...
publicado por Miguel Morgado às 16:24 | comentar | ver comentários (10) | partilhar

Cachimbos

O Cachimbo de Magritte é um blogue de comentário político. Ocasionalmente, trata também de coisas sérias. Sabe que a realidade nem sempre é o que parece. Não tem uma ideologia e desconfia de ideologias. Prefere Burke à burqa e Aron aos arianos. Acredita que Portugal é uma teimosia viável e o 11 de Setembro uma vasta conspiração para Mário Soares aparecer na RTP. Não quer o poder, mas já está por tudo. Fuma-se devagar e, ao contrário do que diz o Estado, não provoca impotência.

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