Segunda-feira, 31.08.09

Democracia directa? Não, obrigado.

Um artigo publicado na última edição do jornal Expresso, intitulado 'Deputados sem opinião', apresenta um caso na Suécia (onde mais?) em que um partido, o Demoex, optou por não ter posições concretas acerca das políticas para o país, adoptando algo mais ou menos parecido com a 'democracia directa', votando na Assembleia consoante os votos que tiverem no seu site relativamente às questões a serem levadas ao Parlamento. Parece que o seu propósito é "estimular a participação de cidadãos, através de discussão activa sobre as diferentes matérias legislativas e executivas, evitando que as ideologias interfiram de forma directa sobre as questões programáticas". Na realidade, o seu efeito é mais perverso do que se possa pensar: vive a ilusão de que 'democracia directa' significa 'melhor democracia'.

(1) A representação política é importante, não só porque é uma impossibilidade física ter toda uma população a votar leis, mas sobretudo porque os cidadãos não dominam todas as questões da política. Aliás, o princípio de representação consiste precisamente na delegação dessa decisão para um representante mais capaz de julgar e decidir em função dos interesses que representa. Até porque o povo decide muitas vezes por paixões, e compete aos representantes, mais sábios, proteger o povo das suas paixões.

(2) Os sistemas partidários tradicionais têm que se adaptar e reformar perante novas exigências e novas formas de participação política. Esse é também o caso português. Mas importa distinguir a reforma do sistema partidário (i.e. reconhecer que não satisfaz as actuais necessidades do país) de o acabar com os partidos (i.e. considerar que os partidos não são necessários). A representação pelos partidos é e será fundamental para o funcionamento democrático.

(3) As conversas sobre a democracia directa facilmente levam alguns a referir-se a Rousseau e o seu Du Contrat Social. Já muito (de errado) se escreveu sobre os supostos perigos totalitários nas propostas de Rousseau, nomeadamente a partir das leituras de Isaiah Berlin e Karl Popper, dois autores muito queridos à direita conservadora. A introdução da tecnologia na equação, como no caso sueco abordado no Expresso, irá provavelmente promover esse tipo de leituras, pois permitirá em parte ultrapassar alguns dos limites físicos da democracia directa. Mas mais interessante do que pensar como conseguir uma democracia directa pela tecnologia será considerar as implicações da tecnologia nos alicerces teóricos do liberalismo político, que constitui o corpo da nossa Política, como as nossas concepções de liberdade e igualdade.

Também aqui.
publicado por Alexandre Homem Cristo às 18:53 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Ausência de limites

Numa entrevista que vale bem a pena ler no Diário de Notícias de ontem, Joe Berardo diz às tantas: "Desde que Marcel Duchamp introduziu o urinol como uma obra de arte, em 1917, que não há limites para a imaginação". Não cito Joe Berardo lorpamente para o gozar: ele não tem nada de lorpa, e até sai simpático, porque inteiramente transparente, da entrevista. O gozo na utilização do poder (Sócrates) é patente, e, à sua maneira, saudável. Aproveito só a coisa, ingénua porque apreendida, do não haver mais limites para a imaginação. É que é bem verdade. Um dos meus maiores degostos nos quinze dias que passei nestas férias em Paris foi o museu do Quai de Branly, para onde Chirac fez mudar as colecções do Musée de l'Homme, que visitei, nos anos noventa do século passado, uma boa dezena de vezes, ou mais. O Musée de l'Homme era um museu maravilhoso de etnologia (não tão bom como o de Berlim, mas maravilhoso). O novo museu, cujo projecto é da autoria de Jean Nouvel, é um horror infantilizante caracterizado. Um centro comercial a meia-luz, em forma de gigantesco corredor galopante, onde todas as peças se tornam invisíveis. De partir o coração. Eu e a minha amiga saimos sete minutos depois. Desgraça por desgraça, é preferível a desgraça do Museu de Etnologia de Belém, que tem todas as peças escondidas por falta de espaço e funcionários. (Se houver algum dinheiro no próximo governo, valia a pena investi-lo aí.) Isto, apesar de tudo, percebe-se: a pobreza é sempre uma razão suficiente. O resto - o Quai de Branly - não. Não há, de facto, "limites para a imaginação".
publicado por Paulo Tunhas às 18:51 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Ainda sobre as idiotices de Saramago e Caim

O tema de Caim e Abel é da maior actualidade para judeus e católicos, ao contrário do que presume a ignorância feroz do escritor. Ele não sabe, mas foi a esse tema que o Papa mais admirado, respeitado e querido dos judeus, João XXIII, foi buscar inspiração para a sua oração, composta pouco tempo antes de morrer, em que pedia perdão aos judeus pelo passado. A oração dispensa comentários, e transcrevo-a aqui:

«A marca de Caim está estampada nos nossos rostos. Ao longo dos séculos, o nosso irmão Abel jazeu no sangue que lhe arrancámos, e chorou as lágrimas que lhe causámos por termos esquecido o Teu amor. Perdoa-nos, Senhor, pela maldição que falsamente atribuímos ao seu nome de judeus. Perdoa-nos por Te crucificarmos uma segunda vez na carne deles. Porque não sabíamos o que fazíamos.»
publicado por Jorge Costa às 12:15 | comentar | ver comentários (25) | partilhar

Magritte em versão canina

publicado por Paulo Marcelo às 10:12 | comentar | partilhar
Domingo, 30.08.09

O nível moral de Saramago e o seu entendimento do que é escrever

25 de Março de 2002. Saramago encontra-se em Ramallah com Yasser Arafat, como membro de uma delegação do International Parliament of Writers (IPW). Diz à imprensa: «Devemos fazer soar o alarme para dizer ao mundo que o que se está a passar na Palestina é um crime, e está nas nossas mãos pará-lo. Podemos compará-lo a Auschwitz.»

Quando o jornal israelita Ha'aretz lhe pediu que elaborasse sobre a comparação que acabava de fazer, a respeito das câmaras de gás disse Saramago: «Até agora não existem.» E explicou-se: como escritor era sua função fazer comparações emocionais para chocar as pessoas e fazê-las compreender.

A. B. Yehoshua, um escritor israelita (não traduzido entre entre nós, no que devemos ser únicos na Europa, uma vez que ele é tão aclamado com Amos Oz), com posições políticas situadas bem à esquerda, comentou: as declarações de Saramago são «um ultraje sem precedentes. Não se pode levar o que disse à conta da cegueira, porque a cegueira dele é intencional.»

publicado por Jorge Costa às 14:15 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

Uma singela homenagem à pulsão obreira do senhor primeiro-ministro

Vá, todos juntos, juntos conseguimos:

Wir fahr’n fahr’n fahr’n auf der Autobahn
Wir fahr’n fahr’n fahr’n auf der Autobahn...



[Von hier aus.]
publicado por Carlos Botelho às 11:54 | comentar | partilhar

Sofre de "Doença Igualitária"? Obviamente que Sim!

Hidden Persuader, nos bichos carpinteiros, a propósito de Carolina Patrocínio e das cretinas declarações desta sobre a forma como, supostamente, se relaciona com a sua "empregada", jura, ao contrário de outros, que não sofre de "doença igualitária" e que, por isso, se está "borrifando" para a eventualidade da "criada" da mandatária da juventude de Sócrates lhe lavar ou não os "pés" ou lhe colocar ou não "a frutinha na boca". A propósito de tamanha indiferença, resguardada no uso de um tom que roça o sarcasmo, gostaria de notar duas coisas. Em primeiro lugar, que caso a criada fosse o autor, um familiar ou um amigo do post o sentimento de indiferença era bem capaz de não existir. Em segundo lugar, que Hidden Persuader vive bem com o facto de por aí haver muita gente que para poder ganhar um salário se veja obrigada a lavar os pés ou a colocar a fruta na boca a quem tem, que se saiba, cabeça, tronco e membros em perfeito estado de funcionamento.
Visto isto, se me perguntarem se sofro de doença igualitária, não apenas digo que sim como sou capaz de dizer que sofro da "doença infantil do comunismo".
publicado por Fernando Martins às 11:28 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Da servidão humana


Publicado no i

Há bandas que procuram a canção pop perfeita. Os romancistas norte-americanos procuram o grande romance americano. O Santo Graal das letras americanas teria de ser um grande fresco de toda a história americana; mítico mas que projectasse o homem comum; exemplar dos valores americanos, inspirador e escrito na língua telúrica das pedras e da paisagem, a língua de Whitman, de Twain e de Faulkner. Um romance onde coubesse toda a América, um romance que fosse a América.

Por esse motivo, pode parecer estranho que um livro escrito por uma mulher negra, sobre a vida de uma escrava e da sua luta para se reconstruir em liberdade, que decorre em meados do século XIX, seja talvez o mais próximo que os escritores americanos estiveram daquele grande romance. É o relato de uma experiência minoritária, sobre uma das páginas negras da história americana e, no entanto, Beloved ultrapassa claramente esses limites. Em vez da construção épica de um país, temos a história de Sethe, mulher, negra e escrava em fuga de uma plantação, Sweet Home, rumo à liberdade. Privado de desejos e vontade própria, o escravo não tinha autorização para se apegar aos seus porque nada lhe pertencia. O seu corpo, animalizado, brutalizado e violado, não lhe pertencia. Para não sofrer mais, o escravo nem sequer se podia afeiçoar aos filhos, porque “não valia a pena memorizar feições que nunca veria transformarem-se em adultas”, “assim protegíamo-nos e amávamos pouco”. Para o escravo, a liberdade era mais do que a carta de alforria, o soldo pago pelo suor do rosto, era “chegar a um lugar onde se podia amar tudo aquilo que se escolhesse - sem precisar da autorização para o desejo”. Quando Sethe se vê novamente sob a ameaça de perder o que conquistou com a fuga, recusa-se a aceitar que os filhos voltem para o lugar escuro de onde escaparam e degola a própria filha. E o que é mais chocante no sacrifício é a necessidade que subjaz ao acto aparentemente tresloucado. Tal como Abraão ouve a voz de Deus e não hesita em sacrificar o seu único filho, Sethe está disposta a matar os filhos para os poupar à não-vida da escravidão. O que parece loucura é, afinal, amor. Depois de conhecer a liberdade, Sethe não quer que os filhos sintam na pele a mesma árvore de carne viva que ela carrega às costas. A memória do sofrimento não se cinge às cicatrizes físicas. Beloved é também uma história de fantasmas que não se podem esquecer (o fantasma da criança morta assombra a casa de Sethe e encarna nessa criatura vinda de lado nenhum que se chama Beloved), de passados que não se podem exorcizar.

O Nobel que Toni Morrison recebeu deve-se sobretudo a este seu quinto romance, publicado em 1987. E o lugar de Beloved na galeria dos grandes romances americanos releva da sua ressonância bíblica, que lhe confere o carácter mítico, e do poder evocativo da tradição oral, que lhe garante a força telúrica e o enraizamento popular. É a história da libertação de um povo e do sangue derramado nesse caminho. É sobretudo a história de uma mulher e do seu êxodo particular rumo à Terra Prometida que cada ser humano livre traz no seu coração.
publicado por Joana Alarcão às 11:20 | comentar | partilhar
Sábado, 29.08.09

Animais

“Tout au début de la Genèse , il est écrit que Dieu a créé l’homme pour qu’il règne sur les oiseaux, les poissons et le bétail. Bien entendu, la Genèse a été composée par un homme et pas par un cheval”. Talvez Saramago não concorde com esta última frase de Milan Kundera. É esperar para ler o novo romance do nosso Nobel. A frase é retirada de um dos últimos capítulos de “A Insustentável Leveza do Ser” (perdoem-me a paneleirice do francês mas só tenho a edição baratinha da Folio, à qual restará pouco tempo, tal a decrepitude das folhas). Kundera defende que a bondade do homem só se pode manifestar em toda a pureza e liberdade quando é dirigida aos que não o podem ameaçar, aos que lhe são “hierarquicamente” inferiores. Refere-se aos animais. De acordo com esta ideia, a verdadeira crueldade também só se poderia manifestar quando exercida contra animais, contra aqueles que, por decreto divino e humana soberba, estão à nossa mercê. O homem é deus e senhor dos animais. Vive a sua superioridade quando dispõe do destino de uma mosca, de um cão, de uma galinha. Em “Aparição”, Carolino, esse Raskolnikov alentejano, sente uma vertigem de super-homem nietzscheano quando mata uma galinha à pedrada. “O homem é que é Deus porque pode matar”, conclui com lógica imbatível. No livro “O marinheiro que perdeu as graças do mar”, Yukio Mishima descreve a morte de um gato às mãos de um grupo de adolescentes. “Fui eu que o matei. Posso fazer tudo, por mais terrível que seja”. Nestes dois exemplos, a morte do animal é um exercício cruel de superioridade, o treino para o homicídio, o líquido viscoso que serve para encher “as cavernas do tédio”. Kundera reforça esta comparação. Na Checoslováquia, antes de passarem ao alvo humano, os russos organizavam campanhas de extermínio de cães, porque sujavam os passeios, porque eram um risco para a saúde infantil. “Il fallait d’abord l’entraîner contre une cible provisoire. Cette cible, ce furent les animaux”. Quando somos crianças, a crueldade contra os animais é um meio comum de testarmos os limites da nossa humanidade, e quem nunca arrancou as asas a uma mosca que atire a primeira pedra a um pombo. Embora moralmente distintos, são gestos tão humanos quanto os de uma criança que afaga um cão moribundo. As lágrimas que Tereza derrama por Karenina (“Bon Dieu, vous n’allez tout de même pas pleurer pour un chien!”) e o olhar triunfante de Carolino após matar a galinha são os extremos – de bondade e crueldade puras - da nossa humanidade condenada.
publicado por Joana Alarcão às 21:27 | comentar | partilhar

Parabéns à Maria João

A Maria João Marques teve hoje um rapaz de 3 quilos e meio, que vem ao mundo precedido de justa fama. Parabéns dos camaradas aqui do Cachimbo e votos de muito sossego.
publicado por Pedro Picoito às 17:37 | comentar | ver comentários (4) | partilhar
Sexta-feira, 28.08.09

Coscuvilhice de Estado

Em Portugal, temos por hábito perder demasiado tempo a pensar e discutir coisas sem importância nenhuma, ficando naturalmente com pouco para as que realmente importam. O mais recente 'caso' das escutas entre a Presidência e o Governo é uma das coisas importantes que se afogou no fluxo dos vários faits-divers deste Verão pré-eleitoral. Não é um mexerico de Verão, é uma questão com tremendas repercussões políticas e institucionais. O que está em causa, para além do óbvio, é o respeito pelas instituições soberanas da nossa democracia, que não podem cair sob suspeita impunemente. Ou é verdade, ou não é (e esperemos que não seja), mas a resposta não se pode resumir a uma crença ou fé na inocência de quem está envolvido. Entretanto, passados dez dias, ninguém na Presidência se pronunciou.

Hoje, numa entrevista ao jornal i, Deus Pinheiro afirma que Cavaco Silva terá certamente comentado o 'caso' em privado, e que se não o fez publicamente é porque tal não deverá ser do interesse do país. O problema desta visão de Deus Pinheiro é a sua concepção muito limitada e paternalista do que é o 'interesse do país', como se fosse preferível para o país não saber que as suas instituições políticas podem estar comprometidas.

A qualidade de uma democracia mede-se, sobretudo, pelo respeito que esta tem pelas suas instituições. E em plena luta eleitoral, talvez fosse conveniente lembrar aos nossos políticos que, muito mais do que eles serem eleitos, o 'interesse do país' está precisamente em manter as instituições democráticas imunes aos seus caprichos.
publicado por Alexandre Homem Cristo às 20:01 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

E Para Beber?


Cerveja Super Bock e água Vitalis. Sempre! A partir de hoje e, pelo menos, até 2012.
publicado por Fernando Martins às 19:02 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Mas o que é que querem esconder?


A confirmar-se esta notícia, publicada hoje pelo jornal i, a situação é de uma enorme gravidade. Pretender esconder, por razões de oportunidade política, os resultados da avaliação da reforma penal já terminada pelo Observatório Permanente da Justiça, para depois das eleições, confirma a ideia de este Governo se preocupa mais com a sua imagem do que em resolver os problemas do país. E que os socialistas têm medo de serem confrontados e responsabilizados com os resultados de quatro anos das suas políticas, preferindo esconder ou adiar para depois das eleições. Ainda por cima num tema importante, como a reforma penal, cujos resultados não poderiam ser positivos como aqui e aqui tentei demonstrar.
publicado por Paulo Marcelo às 15:16 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

Da série "sem comentários"

publicado por Paulo Marcelo às 15:10 | comentar | partilhar

É Saramago

José Saramago prepara-se para cometer um novo livro de «regresso aos escritos com a religião como protagonista», segundo o i. Vá-se lá bem saber o que isto possa querer dizer. Mas adivinha-se o nível intelectual da coisa, a medir por esta explicação que, sobre o fenómeno, o nosso crânio nobelizado dá à espanhola agência EFE: «Deus não é de confiança. Que Deus é este que para enaltecer Abel despreza tanto Caim?». Chama a isto ironia, mordacidade.

Vai daí, a jornalista da EFE pergunta ao crânio se ele não teme «nova crucificação», análoga à que diz que teve quando publicou o seu «evangelho». Resposta: «Alguns talvez o façam, mas o espectáculo será menos interessante. Os católicos não lêem o Antigo Testamento. Se os judeus tiverem uma reacção, aí já não me supreendia. Mas não compreendo como é que o povo judeu fez deste o seu livro sagrado. É um conjunto de absurdos», etc., etc.

Este crânio ignora, pelos vistos, que o povo judeu não existe, historicamente falando, antes do Livro a que se refere; que o Livro é a sua «constituição»; que a frase dele faz tanto sentido como esta: «Não compreendo porque é que os cristãos fizeram dos Evangelhos livros sagrados». Ou esta: «Não compreendo porque é que os muçulmanos fizeram do Alcorão um livro sagrado». Talvez porque o seu conhecimento das coisas mais elementares sobre o Livro e os judeus lhe escape totalmente. O que não o impede de anunciar que vai escrever sobre elas. E isso é mau? É pior: é Saramago.
publicado por Jorge Costa às 15:08 | comentar | ver comentários (18) | partilhar

Distinção



"Este Compromisso de Verdade, que aqui assumo pessoalmente em nome do PSD, distingue-se claramente dos habituais programas partidários.
Distingue-se, em primeiro lugar, porque de forma clara fazemos uma selecção de prioridades. O programa eleitoral do PSD não se apresenta como uma receita que pretende resolver todos os problemas do país ao mesmo tempo e que, indiscriminadamente, tudo promete a todos. Há que ter a coragem de definir as áreas de intervenção urgente e prioritária e de assumir que essas mobilizarão, à frente das restantes, os esforços de um Governo PSD. Assim, tomamos o compromisso de dar prioridade à economia, às questões sociais de solidariedade e saúde, à justiça, à educação e à segurança. Serão estes os cinco campos de intervenção urgente e preferencial de um Governo do PSD. Sabemos, por experiência, que os recursos são escassos e que não é possível fazer – fazer bem – tudo ao mesmo tempo. Sabemos, por conhecimento e em consciência, que a política é a arte da escolha e um exercício permanente de opção e selecção. Os projectos políticos também têm de ser julgados pela capacidade que têm de fazer opções e pelas opções que, substancialmente, fazem. Cabe agora aos portugueses julgar o mérito das opções feitas.

Distingue-se também este Programa, porque é sucinto e objectivo, não se refugiando em generalidades, prometendo tudo a todos. O ponto de honra – a verdadeira nota distintiva – é que todos os critérios definidos, todas as soluções propostas, todas as medidas avançadas são susceptíveis de ser executadas. Tudo o que é explicitado será rigorosamente cumprido. Por isso se trata, não de um programa feito por um conjunto de sábios, que já escreveram dezenas de programas de governo e que se limitaram ao “copy-paste” das versões anteriores, mas de um “Compromisso de Verdade”. Quem estiver à procura neste texto de “soluções mágicas”, “medidas-bandeira” ou “slogans de belo efeito”, vai procurar em vão. Um compromisso de verdade vive da consistência e da coerência interna, não do “panfletarismo fácil”. Com este compromisso, os portugueses sabem com o que podem contar. É um projecto cujo cumprimento e execução podem ser verificados página a página, parágrafo a parágrafo, linha a linha. Este programa deve ser julgado e apreciado também por isso: por esta fácil possibilidade de aferição e controlo externo.

(...) Não se trata, por isso, de um programa editado por um grupo de sábios, a pensar no marketing político, segundo o princípio da satisfação máxima da clientela eleitoral. Trata-se, pelo contrário, de um documento que, não só no seu conteúdo, mas também na sua elaboração, obedeceu a um escrupuloso respeito pelos cidadãos que seriam seus destinatários e pelo imperativo da verdade. Estamos convictos que, só por si, este Compromisso de Verdade contribui para restaurar os laços de lealdade e confiança com o eleitorado, com os cidadãos portugueses."


Manuela Ferreira Leite, no discurso de apresentação do programa eleitoral do PSD.

[Também aqui.]

publicado por Carlos Botelho às 13:29 | comentar | partilhar

Mais poder e menor funcionalização dos juízes

«Prepararemos um programa de reforma do processo civil com base nos princípios da simplificação processual, máxima concentração dos actos processuais, oralidade das decisões judiciais, confiança na actuação do juiz na condução do processo, produção antecipada da prova e diminuição das formas de processo.» (Programa do PSD)

O Pedro Pestana Bastos diz, e bem, que o tema da remuneração dos juízes tem sido a escolha central dos media dentro do programa para a justiça do PSD. Concordo com a medida e recomendo sobre ela leitura do Nuno Garoupa, mas discordo da atenção que lhe é dada, sobretudo porque até no tema dos juízes há dois pontos para mim mais interessantes: um deles é o excerto acima citado onde claramente há uma vontade de dar mais poder aos juízes. O outro é o citado aqui em baixo pelo PPB e onde concordo em absoluto com o programa e discordo do Pedro, que é a inclusão dos juízes de mérito de forma crescente no sistema. Penso que já aqui defendi que a curto prazo o nosso sistema deveria estabelecer as bases para, articulado com outras medidas, adoptar o sistema holandês em que 50% dos juízes passam a ser juristas de mérito com mais de 40 anos, o que é distinto da tal politização que o Pedro falava, com o objectivo de, a longo prazo, termos um sistema a 100% de mérito, muito anglosaxónico dirão alguns, mas muito bom digo eu.
publicado por Manuel Pinheiro às 12:03 | comentar | ver comentários (5) | partilhar

O programa do PSD para a Justiça


O centro das atenções no que se refere ao programa PSD para a justiça tem sido a proposta de existência de uma componente variável na remuneração dos Juízes.
Concordo com este princípio, devendo os próprios Juízes (através do Conselho Superior de Magistratura) ter um papel essencial na determinação dos critérios de fixação da parte variável, que serão assim prémios de produtividade evitando-se regras que funcionalizem os Juízes.
Mas a meu ver há uma proposta concreta que não tem sido falada e que consubstancia uma alteração na natureza e constituição dos Tribunais.
O PSD propõe a introdução nos Tribunais superiores de Juízes provenientes de outras profissões jurídicas.
Em rigor tal já acontece no Tribunal Constitucional em que a Assembleia da Républica elege Juízes por indicação dos partidos. Mas se em relação ao Tribunal Constitucional tal principio pode ser compreendido em função da sua natureza política, (o que não significa que se concorde), já no que se refere ao Supremo Tribunal de Justiça e ao Supremo Tribunal Administrativo tal iniciativa constitui um ataque à independência do poder judicial perigosa para a separação de poderes. Se há realidade que ainda funciona bem na justiça em Portugal são os Supremos Tribunais, não os queiram poluir com "juízes" políticos.


publicado por Pedro Pestana Bastos às 10:32 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Liberdade, diz ela

Não vou falar do programa do PSD, com o qual concordo, e que, penso e desejo, concordarão a maioria necessária dos portugueses para que ele venha a ser a base do programa do próximo Governo de Portugal.

Quero falar de uma coisa, na aparência, mas só na aparência, mais modesta. Das palavras de Manuela Ferreira Leite, ontem. E de uma palavra em particular: liberdade.

Há quanto tempo a palavra liberdade não entrava no discurso político como seu eixo fundamental?

Na recapitulação final do seu discurso, Manuela Ferreira Leite disse: «Um Estado que (...) que não se revê no dirigismo asfixiante de tudo o que é livre, de tudo o que mexe e agita. (...) Um Estado que seguirá, na melhor tradição das democracias ocidentais, a tradição da liberdade, da igualdade de oportunidades e da solidariedade».

Pode parecer estranho, muito estranho, mas para os que vaticinavam uma asfixia do espaço político e ideológico do PSD por intrusão de um Sócrates supostamente centrista o suficente para lhe retirar justificação, o mínimo que se pode dizer é que o obituário, ainda em moda há pouco tempo nas opiniões publicadas, foi um exagero.

A diferença, toda a diferença, está aí: na liberdade, como ela a diz.
publicado por Jorge Costa às 10:17 | comentar | ver comentários (2) | partilhar
Quinta-feira, 27.08.09

As lições do Simplex

Não sei se serão os efeitos de 4 anos de governo, mas estes simplex(es) estão tão habituados a dar lições de cátedra aos seus adversários que já não cuidam de proteger o flanco, como se poderia dizer. Dão lições de tudo, mesmo quando dizem asneiras. O tom é inconfundível. Agora, um Simplex quis dar lições a Paulo Rangel sobre Maquiavel, e a ver na invocação do florentino uma declaração "grave".
Não estou aqui a proteger Paulo Rangel, não só porque ele não precisa que o protejam, como nem acho que a sua leitura de Maquiavel seja particularmente rigorosa. Mas gosto de ver o simplex Leonel Moura substituir a ignorância de Rangel pela sua tremenda erudição ao dizer que Maquiavel falou sobre a tirania, ao passo que hoje vivemos numa democracia. A chatice destes pensadores que andam nas bocas dos sábios dos nossos tempos é que dão trabalho a ler. Talvez o Leonel Moura não tivesse escrito este post se reparasse que na obra "O Príncipe", por exemplo, a palavra "tirania" não aparece uma única vez. Talvez lhe desse que pensar.
publicado por Miguel Morgado às 19:14 | comentar | ver comentários (7) | partilhar

Cachimbos

O Cachimbo de Magritte é um blogue de comentário político. Ocasionalmente, trata também de coisas sérias. Sabe que a realidade nem sempre é o que parece. Não tem uma ideologia e desconfia de ideologias. Prefere Burke à burqa e Aron aos arianos. Acredita que Portugal é uma teimosia viável e o 11 de Setembro uma vasta conspiração para Mário Soares aparecer na RTP. Não quer o poder, mas já está por tudo. Fuma-se devagar e, ao contrário do que diz o Estado, não provoca impotência.

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