Quarta-feira, 30.09.09

Balanço de fim de dia



Dito o que havia a dizer, enquanto ardíamos com o país, aqui fica o balanço ao fim de dia.
publicado por Jorge Costa às 22:14 | comentar | partilhar

Abstenção

Depois de um acto eleitoral, ouve-se sempre a conversa do costume sobre a abstenção, o problema que representa, como demonstra a existência de um desinteresse quase generalizado pela política, como a nossa democracia fica mais pobre e como os partidos se esforçaram para apelar ao voto mas não conseguiram mobilizar os eleitores. Sobre isso:

(1) A taxa de abstenção em Portugal é normal quando comparada com as restantes democracias onde o voto não é obrigatório. Podemos dizer que é pena que não haja mais gente a votar, mas até este argumento é duvidoso se não pressupusermos que o que é realmente pena é que não haja mais gente a interessar-se pela política e que por isso não vote. Se os que votam se interessarem um pouco pela política, já não é mau.

(2) Os partidos não querem que haja mais gente a votar. Ou melhor, é-lhes mais ou menos indiferente. A eleição dos seus deputados não depende do número de pessoas que vota; é apenas determinada a partir das escolhas de quem votou. Ou seja, só interessa a um partido incentivar os eleitores a irem votar se sentir que o eleitorado que lhe é mais favorável não está mobilizado para o fazer, e que isso lhe custará assentos no Parlamento. Pressupor que os partidos, quando apelam ao voto, o fazem por uma qualquer razão de altruísmo democrático é estar mesmo muito enganado. Por isso, aqueles que apelam aos partidos para que promovam políticas de incentivo ao voto estão a pedir-lhes, no fundo, que procurem resolver algo que para eles não é um problema. Esse tipo de debate tem de ser feito fora da lógica dos partidos.

(3) A qualidade da democracia não é determinada pela taxa de abstenção, mas sim pelo funcionamento das suas instituições. Claro que a participação eleitoral é importante e que se existir uma taxa de abstenção de dois terços isso é problemático, mas em condições normais a questão não se aplica. Aqueles que se dizem preocupados com a ‘qualidade da democracia’ que olhem mais, por exemplo, para a interferência dos partidos na Justiça, onde o problema é realmente sério.
publicado por Alexandre Homem Cristo às 19:47 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Da série Também Gosto de Minudências

Pois é.
publicado por Pedro Picoito às 19:19 | comentar | partilhar

Que farei quando tudo arde?*

O Pedro Correia, sempre tão cioso do pluralismo do Delito de Opinião, parece estranhar que o mesmo pluralismo exista em blogues alheios. No caso do Cachimbo, então, não há nada a fazer.
Lembro-me de um post em que nos tratava por "esta malta", unindo-nos já não sei a que comum vileza, e de outro em que recenseava o Pedro Pestana Bastos entre os laranjinhas da casa.
Agora, descobriu que eu e outros "ilustres colegas" temos opiniões diferentes, imagine-se, sobre o Presidente da República.
Lamento desiludi-lo.
O país está a arder e o Pedro conta fósforos na blogosfera. Olhe que sim, olhe que sim.
*Com a devida vénia ao Sr. Francisco Sá de Miranda.
publicado por Pedro Picoito às 18:59 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Alentejo (19)

Portagem. Marvão no cimo, Portagem cá em baixo.
publicado por Alexandre Homem Cristo às 12:00 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Deu dó ver o Presidente a meter água

O Presidente da República não pode abrir um conflito institucional com o Governo, invocando suspeitas, indícios de tremendas irregularidades. Disse aqui, no dia em que elas foram insinuadas por fonte anónima da Presidência da República, que - sim, não é crime acalentar suspeitas, mas é de uma enorme irresponsabilidade partilhá-las com a imprensa - o Presidente não podia tolerar semelhante gesto.

O Presidente da República é o garante da estabilidade institucional. Ontem, fez o exacto contrário do que dele se espera.

Ontem, o Presidente entrou postumamente na campanha eleitorar, fazendo o contrário do que disse que não faria, por maiores pressões que lhe dirigissem. Como? Fornecendo ao Governo legítimo capital de queixa sobre um Presidente que o afronta, sem objectivas razões para o fazer. Penso que no Rato agradeceram o Jack-pot.
publicado por Jorge Costa às 09:53 | comentar | ver comentários (10) | partilhar

O que o Presidente disse e não disse

Disse que "o partido do Governo" usou a "manipulação", a "mentira" e o "ultimato" para o "colar ao PSD" e "desviar as atenções do debate eleitoral das questões que realmente preocupam os cidadãos".
Disse que só o o Chefe da Casa Civil e o Chefe da Casa Militar falam em seu nome e que "só por isso" fez a "remodelação" de Fernando Lima.
Disse ter "dúvidas" quanto à "veracidade das afirmações" contidas no email que o DN publicou apontando Lima como fonte do caso.
Disse que o sistema informático da Presidência da República tem "vulnerabilidades" e pode ser alvo de intromissão.
Não disse que Fernando Lima foi demitido.
Não disse em que consistem as suas "dúvidas" sobre a "veracidade das afirmações" do famoso email.
Não disse como desconfiou das "vulnerabilidades", quem as terá aproveitado e porque decidiu revelá-las.
Uma vez que nenhuma das suas palavras foi dita por acaso, Cavaco Silva disse muito mais do que eu esperava há algumas horas.
Foi o maior ataque a um Governo vindo de um Presidente em exercício que já vi em Portugal. E Cavaco não sai assim tão enfraquecido da guerra: a guerra ainda mal começou. Com o PS minoritário no Parlamento e obrigado a negociar até à vírgula, com o PSD ocupado na guerrilha interna e a recompor-se da derrota, com os três pequenos partidos muito próximos em dimensão eleitoral e legitimidade política, o Presidente tornou-se hoje o principal rosto da oposição.
Vai ter muitas oportunidades de o mostrar a Sócrates - enquanto o Governo durar.
publicado por Pedro Picoito às 00:08 | comentar | ver comentários (18) | partilhar
Terça-feira, 29.09.09

O porta-voz oficioso do governo Sócrates

É ouvi-lo aqui, tão atento e profissional!
publicado por Carlos Botelho às 22:46 | comentar | ver comentários (6) | partilhar

Cavaco, afinal, falou (2)

“Confesso que não consigo ver bem onde está o crime de um cidadão, mesmo que seja membro do staff da casa civil do Presidente, ter sentimentos de desconfiança ou de outra natureza em relação a atitudes de outras pessoas”.
Esta frase do Presidente tem um problema. O cidadão é membro da Casa Civil do Presidente (cargo institucional) e desconfia das atitudes de outras pessoas (ligadas ao Governo). Ou seja, quando alguém que tem um cargo institucional desconfia de alguém que está ligado ao Governo, não se trata de um cidadão a ter um mera suspeita. Não sei se é crime, mas é muito irresponsável.

Sobre o caso em si, Cavaco Silva não explicou quase nada, e limitou-se a tentar limpar a sua imagem e a apontar armas aos socialistas. Defende-se afirmando que esta é uma interpretação pessoal, o que, tratando-se de um Presidente da República, é algo que não existe. Exigia-se que Cavaco encerrasse o assunto e/ou o esclarecesse categoricamente. Não fez, verdadeiramente, nenhuma das duas coisas e é ambíguo quanto ao papel de Fernando Lima. Nas acusações que faz, muito sérias, apodrece de vez as relações institucionais com o Governo. Depois de se ouvir das varandas do Altis, no domingo, "Cavaco para a rua", o Presidente responde na mesma moeda.

Entretanto, naquilo que importa mesmo, provavelmente já não se avançará muito. Pelo menos até às eleições Presidenciais.
publicado por Alexandre Homem Cristo às 21:47 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

Um mistério embrulhado num enigma

É obra: embrulhar um mistério num enigma. Mas se calhar sou eu que não consulto bem os búzios e não percebo o que o Presidente quis dizer, mas não disse, embora quisesse que eu percebesse, que ele queria dizer, ou sente, ou...

Digamos, benevolência hermenêutica, que o Presidente quis partilhar connosco as suas angústias: terá o mail sido extorquido ao correio electrónico de Belém? Que há ali vulnerabilidades, há, soube ele hoje; que ele tenha vindo a público 17 meses depois de ter sido feito, sugere que foi manobra de campanha, logo... Quanto a Fernando Lima, ficámos a saber que só falam em nome da Presidência os chefes das Casas Civil e Militar, de modo que... E, claro, o Governo não pode exigir que membros da Casa Civil abdiquem da sua cidadania... O que tem tudo a ver com...

Perdoem-me mas...
publicado por Jorge Costa às 21:30 | comentar | ver comentários (6) | partilhar

Cavaco, afinal, falou

Cavaco falou. Ligou a dois objectivos, colar o Presidente ao PSD e afastar as atenções do debate eleitoral, duas notícias (o rumor de que estaria envolvido na formulação do programa eleitoral do PSD e o "caso das escutas"). E deixou o recado, quanto à primeira notícia, que não gostou da pressão a que foi sujeito por pessoas ligadas ao Governo, que lhe exigiam esclarecimentos, e quanto à segunda, que em nome dele apenas os chefes das Casas Civil e Militar podem falar.

Foi um discurso muito duro para com o Governo e para com o PS, que surge directamente relacionado com a primeira notícia, e indirectamente com a segunda. Cavaco esclareceu que se tratava da sua interpretação pessoal, mas mesmo assim são questões muito graves que são levantadas contra elementos do PS. Gostava de saber como é que aqueles que pediam a cabeça de Cavaco reagem à sua declaração. Um deles, Ricardo Costa, que estava em directo na SIC, ficou zangado e insistiu que o timing foi mal gerido. Mas sobre o que foi dito, nada adiantou. Acho que engoliu a seco.
publicado por Alexandre Homem Cristo às 20:32 | comentar | ver comentários (6) | partilhar

O Presidente da República vai falar ao país

E o que é que Cavaco Silva nos vai dizer sobre o "caso das escutas" mais logo, às 8 da noite?
Nada.
Por estranho que pareça, concordo com esta previsão do jugular Rogério Costa Pereira. Só quem não conhece Cavaco pode acreditar que ele demite pela TV um Primeiro-Ministro saído de eleições anteontem. Em resumo, caros companheiros laranjinhas e todos os compatriotas que esperam do mais alto magistrado da nação uma luz, por pequena que seja, sobre o mais grave caso político do momento: esqueçam.
Não vai ser hoje.
Se é que vai ser algum dia.
publicado por Pedro Picoito às 16:41 | comentar | ver comentários (5) | partilhar

Retrato das eleições enquanto referendo ao casamento gay

Eduardo Pitta e Miguel Vale de Almeida defendem nos respectivos blogues a mesma ideia: há agora no Parlamento "uma maioria clara a favor da igualdade de acesso ao casamento civil". A expressão é de Vale de Almeida, mas Pitta vai mais longe e diz que 54,4% dos portugueses - os que votaram PS, BE e PCP - seriam a favor da união civil entre homossexuais.
Compreende-se que o activismo gay veja as eleições nacionais do seu ponto de vista particular. A entrada de Miguel Vale de Almeida para as listas do PS tinha o objectivo de roubar esta bandeira ao Bloco, conquistando eleitores à esquerda, e o argumento para o convencer não foi de certeza o TGV. Mas as coisas não são assim tão simples.
Em primeiro lugar, duvido que a bancada do PCP e sobretudo a do PS tenham uma opinião única no tema, que divide os partidos tanto como a sociedade. Excepto o Bloco, claro, que em questões fracturantes funciona - em bloco. Mais do que isso, estas eleições não foram um referendo ao casamento gay, como Vale de Almeida e Pitta parecem sugerir. Até ver, as eleições servem para eleger um Governo e não uma agenda. Se tenho dúvidas quanto aos deputados, tenho ainda mais dúvidas de que todos os eleitores do PS ou do PCP sejam favoráveis ao casamento gay.
Dá muito jeito a ambos inferir da maioria de esquerda no Parlamento a maioria favorável ao casamento gay no país, mas não é muito rigoroso. Dá muito jeito porque assim não tem que se que perguntar realmente aos portugueses o que é que pensam. Não vá dar-se o caso de que a "maioria clara" na Assembleia seja, afinal, bem menos clara na República.
Adenda: Ficámos a saber, pelo menos, qual o nome que os apologistas do casamento gay lhe vão dar quando for a S. Bento: "igualdade no acesso ao casamento civil". Tal como o aborto se transformou em IVG, aí está o IACC.
publicado por Pedro Picoito às 16:36 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

Contra o destilar de ódio

Depois da derrota do PSD temos vindo a assistir a um crescente destilar de ódio contra Manuela Ferreira Leite e este PSD. Apesar dos erros cometidos, e foram muitos, o PSD não irá evoluir num sentido positivo se o caminho for esse. As pessoas que deram a cara pelo partido nestas eleições, especialmente aqueles que estiveram na linha da frente na campanha eleitoral e todos os milhares de militantes que participaram na campanha, não irão perdoar àqueles que pretenderem fazer do futuro próximo do PSD uma vingança contra o que se passou nesta campanha eleitoral. Tenho lido muitos comentários inflamados (é certo que alguns nem sequer votaram no PSD e têm um passado de ódio contra Manuela Ferreira Leite) que podem prejudicar o futuro período de reflexão que o PSD terá obrigatoriamente de fazer. Até porque recorda tudo aquilo que foi o partido nestes últimos anos, onde o debate de ideias nunca foi essencial.
publicado por Nuno Gouveia às 15:54 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

Europeus e modernos

Um amigo estrangeiro a propósito das recentes eleições em Portugal e do debate público que aqui houve:
"Totalmente às avessas da orientação geral do resto da Europa".
.
A crise internacional não teve os efeitos políticos que se previu na Europa. Por enquanto, pelo menos, a Europa não virou à esquerda. Bem pelo contrário.
Portugal é a excepção. Deve ser porque somos muito europeus e modernos. E porque desmascarámos o "neoliberalismo" com muito mais arte e sabedoria do que os outros. A malta aqui é que sabe.
publicado por Miguel Morgado às 15:37 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

Os portugueses demonstraram preferir...

Começa assim o longo aproveitamento dos resultados globais para defender as mais diversas agendas. O mandato para os partidos está representado no parlamento, mas sobre o eleitor individual e as suas preferências, é sempre boa ideia relembrar a seguir a umas eleições o teorema da impossibilidade de Kenneth Arrow:

«In social choice theory, Arrow’s impossibility theorem, or Arrow’s paradox, demonstrates that no voting system can convert the ranked preferences of individuals into a community-wide ranking while also meeting a certain set of reasonable criteria with three or more discrete options to choose from.» (Wiki)
publicado por Manuel Pinheiro às 14:18 | comentar | partilhar

O caso é pior

O José Gomes André corrige vários pontos deste texto do Eduardo Pitta, mas a crítica é curta:

1. O Eduardo diz que Portas tem todas as condições para liderar a direita, argumento que já ouço desde a minha longínqua adolescência e que nunca sucedeu, não obstante as rimas nos discursos e as várias roupagens que testou.

2. O BE duplicou o número de deputados e esteve muito perto (0,6%) de atingir a votação do CDS. Não consegue uma maioria com o PS, mas mais de meio milhão de votos num programa como o do BE não é um facto que olimpicamente se deva ignorar.

3. "61% dos portugueses que votaram apoia o casamento entre pessoas do mesmo sexo". A soma dos partidos não é essa, mas mesmo que fosse a conclusão é literalmente indefensável. Qualquer um pode alegar que que "61%" decidiram votar nos partidos A,B,C apesar de estes defenderem X,Y,Z. O voto é uma agregação de preferências. Pode-se alegar que existe legitimidade parlamentar para avançar com essa agenda se ela estiver nos programas, mas não se pode daí concluir que cada um dos eleitores apoia todas e cada uma das medidas do partido em que votou. O número de apoiantes até pode, em tese, ser maior.

4. "Pacheco Pereira continua em parte incerta." Ontem JPP esteve quase uma hora num frente a frente na SIC Notícias com o Ministro Silva Pereira. A crítica é livre, mas não faz sentido acusar JPP de falta de frontalidade ou coragem, sobretudo vindo do Eduardo Pita que, num teste de carácter, aceitou escrever no Simplex, um blogue que deu guarida ao miserável anonimato blogosférico.

5. É citado, através das palavras do Pedro Picoito, o caso António Preto. Fui contra a sua inclusão nas listas, totalmente indefensável, mas é sempre bom relembrar a diferença de tratamento que o Eduardo dá às suspeitas sobre António Preto e às suspeitas sobre o seu tão idolatrado numero uno.
publicado por Manuel Pinheiro às 13:27 | comentar | ver comentários (5) | partilhar

CDS pê quê?

O Pedro Pestana Bastos responde à minha pergunta provocatória com outra pergunta: e se fosse o PSD a ganhar em minoria, não estaria eu a defender uma coligação com Portas em vez de lançar suspeitas sobre o CDS?

Sim, evidentemente. Mas se o CDS fizesse uma coligação com o PSD, o risco de mudar de nome seria bastante menor...
publicado por Pedro Picoito às 13:16 | comentar | partilhar

Dois livros Sefarad

Ora aqui vão os curtos posts anunciados sobre os dois livros que integram a nova e inédita colecção Sefarad, da Editora Nova Vega.

Breve História dos Judeus em Portugal, de Jorge Martins.

O livro quer ser uma visão sinóptica da realidade judaica em Portugal, ao longo dos oito séculos pelos quais ela se prolonga, destinada a um público não especializado, «particularmente aos professores e aos estudantes, complementando ou suprindo as clamorosas omissões dos nossos programas escolares». A promessa não é cumprida, pese embora as virtudes que o livro tem, e o recomendam.

Não é cumprida, em primeiro lugar, porque praticamente se não detém na presença judaica em Portugal, ao longo de toda a Idade Média. Esse período, muito sumariamente aflorado, abarca apenas uma dezena de páginas, numa obra de 190.

E sendo de nós a mais distante, a compreensão da presença judaica no período medieval é crucial para o entendimento da tragédia que ocorre do Renascimento em diante.

A falta está longe de ser justificada pela ausência de estudos: desde os trabalhos de Henrique da Gama Barros («Judeus e Mouros em Portugal», in Revista Lusitana, volumes 34º e 35º, de 1936 e 1937, disponíveis online graças à sageza do Instituto Camões), de Maria José Pimenta Ferro Tavares (Os judeus em Portugal no século XIV, Guimarães editora, Os Judeus em Portugal no século XV, dois tomos, Universidade Nova de Lisboa e Instituto Nacional de Investigação Científica), até aos de Elias Lipiner (O Tempo dos Judeus segundo as ordenações do Reino, Nobel editora), para falar apenas de obras seminais neste domínio, porque as mais parcelares abundam, a informação não falta. Falta a sua abordagem no livro em apreço, como falta, para os demais capítulos, muito mais bem tratados, uma bibliografia, senão comentada, pelo menos recomendada, já que o público visado inclui professores e estudantes, eventualmente interessados em desenvolver conhecimentos.

É para o período pós-«expulsão» - de facto, nunca houve expulsão, mas o seu exacto contrário: a conversão forçada e o impedimento de saída do Reino -, que esta Breve História é mais interessante. É louvável a atenção que dispensa a um problema crucial da história de Portugal - a introdução e vigência dos estatutos de limpeza de sangue, que dominaram, pelo menos desde 1600 até à sua supressão por Pombal, em 25 de Maio de 1773, a vida pública e a sociedade portuguesa, bem como à narrativa da progressiva reconstituição da existência judaica pública em Portugal, até à contemporaneidade.

Por tudo isso, o livro vale pelos apontamentos de maior detalhe que traz a estes temas, impossíveis de desenvolver na obra - essa sim - de síntese da História dos Judeus Portugueses, de Carsten Wilke, das Edições 70, feita a pensar nos mesmos públicos, e plenamente sucedida, que o autor deste post teve o prazer de traduzir e colocar à disposição dos leitores.

Por fim, falta ao livro um desenvolvimento minimamente satisfatório da vida dos judeus portugueses que se salvaram e constituíram uma diáspora fundamental na história do Judaísmo, visto que foram a «vanguarda» - a expressão é do próprio Heinrich Graetz, o fundador, no século XIX, da moderna história do povo judaico -, que abriu os judeus à modernidade e a modernidade às novas possibilidades da existência judaica. É certo que o livro se chama Breve História dos Judeus em Portugal. Não é menos certo que tal história não é compreensível sem o estabelecimento das relações que se mantiveram entre os cristãos-novos portugueses e os seus irmãos regressados ao judaísmo normativo no exílio. É certo ainda que essa ponte é dos tópicos mais precisados de investigação e estudo, mas as estradas foram abertas, por I. S. Révah, nem uma vez mencionado no livro, o que é um pouco difícil de entender, não por uma questão de cortesia, mas por uma questão de estudo do tópico em causa.

Ora é precisamente a relação entre os cristãos-novos e os seus irmãos exilados - assunto que me parece dos mais decisivos para a história por fazer -, que constitui um dos eixos mais importantes do segundo livro da colecção Sefarad,

A tormenta dos Mogadouro na Inquisição de Lisboa, da autoria de António Júlio Andrade e Maria Fernanda Guimarães.

Este, sim, com investigação original, baseada na leitura inédita de processos da Inquisição e reconstituição histórica fundamentada, é livro inovador. Constitui-se tendo por pano de fundo o protgonismo dos cristãos-novos na Restauração de 1640, as lutas entre o partido inquisitorial e o partido anti-inquisitorial onde preponderaram os Jesuítas - sim, os Jesuítas e não só a sua figura mais eminente, o Padre António Vieira - e traz dados de valor inestimável à investigação futura das relações entre os criptojudeus em Portugal e os judeus livres, designadamente de Livorno. António Rodrigues Mogadouro, um dos mais importantes (inclusive no sentido económico do termo) homens de negócio da «nação», foi garrotado e queimado em auto-da-fé, não só por «pertinaz e impenitente», mas também como fautor: «passava» judeus perseguidos para o exílio. Leiam, se quiserem compreender.
publicado por Jorge Costa às 12:45 | comentar | partilhar

Estúpida burguesia

Este país tem meio milhão de votantes no Bloco de Esquerda. Instruídos, classe média, urbanos, cada vez mais bem distribuídos pelo país. Com esta burguesia, estúpida, como dizia o Marcelo (não o afilhado, mas o padrinho), é natural que estejamos condenados a sucessivos ciclos de desgraça.

P.S.: Estúpida, na acepção de Marcelo=incapaz de distinguir o inimigo.
publicado por Jorge Costa às 11:07 | comentar | ver comentários (15) | partilhar

Cachimbos

O Cachimbo de Magritte é um blogue de comentário político. Ocasionalmente, trata também de coisas sérias. Sabe que a realidade nem sempre é o que parece. Não tem uma ideologia e desconfia de ideologias. Prefere Burke à burqa e Aron aos arianos. Acredita que Portugal é uma teimosia viável e o 11 de Setembro uma vasta conspiração para Mário Soares aparecer na RTP. Não quer o poder, mas já está por tudo. Fuma-se devagar e, ao contrário do que diz o Estado, não provoca impotência.

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