Sábado, 31.07.10

Inconsciência


No dia 24 deste mês, escrevi num post:

Esta gente do governo (secretários, ministra e Sócrates himself) devia aprender a não condicionar politicamente a Escola de cada vez que abre a boca. Deviam mantê-la higienicamente fechada. Afirmações sobre "faltas", "retenções", "sucesso", "didáctica", etc que, em pessoas abalizadas, se revestem de um significado meramente técnico, se ditas por aqueloutros, têm sempre um objectivo político que instrumentaliza a Escola (alunos e professores) e que nada tem que ver com o que a ela diz respeito.

A citação aplica-se perfeitamente a este novo plano.
O objectivo do governo (de um qualquer governo) não deveria ser o de "acabar com as repetências", mas sim "acabar" com as razões que levam a que haja repetências - tantas repetências. E isso é coisa, se prosseguida seriamente, para levar anos - não para se anunciar aos quatro ventos e se preparar o terreno retórico, de maneira a "despachar" a medida "progressiva" num instante "socrático": contra tudo e todos, sem ouvir ninguém depois de se ter garantido que se ouviria toda a gente. Com este primeiro-ministro, já se sabe o que a casa gasta.
A "retenção" (ou "repetência", ou "chumbo") não deve ser vista como uma punição, mas sim como uma nova e efectiva oportunidade que é dada ao aluno, para atingir os objectivos indispensáveis estabelecidos. Dirão que, em grande parte, senão na maior parte, não é isso que acontece; que o aluno é, por assim dizer, quase deixado à sua sorte, numa situação em que a única novidade é a sua turma. E, assim, em tantos casos, a retenção tende a repetir-se, não a ultrapassar-se. Tudo isso é verdade. Mas muito pior do que isso é acabar "burocraticamente" com a retenção - ou, pelo menos, dispor uma miríade de pretextos, de "critérios" que, armadilhando o terreno avaliativo das escolas, acabam, intencionalmente, por tornar a retenção artificialmente impossível. (Este segundo "método" anestesiante da Escola já é aplicado há alguns anos - mais do que os dos governos do engenheiro Sócrates...) É costume ouvir-se algumas vozes do interior do establishment político-burocrático dizendo que a melhor prova de não haver "facilitismo" está na quantidade excessiva de retenções e de reprovações que sofremos. Mas não é assim - é ao contrário. As retenções e as reprovações acontecem cronicamente, em grande número, precisamente porque estão instalados vícios que induzem, criam espaço para isso a que se vem chamando "facilitismo".
"Acabar com a repetência" artificialmente, num país que tem uma visão desinteressada da Escola (e do que deve ser a Escola) e que tem a imaturidade cultural que sabemos, é uma medida inconsciente, criminosa. Não basta invocar outros países com tradições, hábitos culturais, perspectivas sociais bem mais afins daquilo que se espera da Escola, do que as nossas. Acenar com "os países do Norte da Europa" não passa de demagogia falaciosa, que nos toma a todos por parvos. O objectivo proposto pelo governo só faz sentido noutras condições que não as nossas. (O argumento típico de José Sócrates segundo o qual, se se espera pelas condições ou se se espera a concordância dos intervenientes, "nunca se fará coisa nenhuma", é tão imbecil que não merece resposta.)
Não há ninguém bem intencionado que não queira "acabar" com as retenções - mas também não há ninguém honesto que não saiba que eliminá-las seriamente é impossível.
Querem reduzir drasticamente as retenções, sem o fazer artificialmente, mas sim efectivamente? Muito bem, há então que criar as condições para que os alunos atinjam os objectivos estabelecidos. Alterar curricula, programas (p. ex., os programas de Português: pensem nas dificuldades de interpretação das perguntas dos exames de 11º e 12º Anos de Biologia, Química e outras que os alunos experimentam), ir criando as condições para uma "cultura" do estudo, do esforço e do trabalho nas nossas escolas, tornar de facto possível a constituição de equipas de apoio pedagógico, etc. É verdade que não é fácil e leva tempo. Fechar escolas e atulhar alunos em depósitos, diabolizar a exigência dos professores, decretar a morte da "repetência" ou sabotá-la administrativamente é mais fácil, não é? Pois, mas as alternativas são duas e exclusivas: ou se tem uma Escola ou se tem um arremedo.
publicado por Carlos Botelho às 22:49 | comentar | ver comentários (24) | partilhar

Grande Finale (30)

Les Parapluies de Cherbourg, Jacques Demy, 1964

publicado por Carlos Botelho às 21:30 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

A pegada ecológica de José Sócrates

"Vai acabar [o Tâmega], como vai acabar o Tua e o Sabor, às mãos de gente de gabinete que nunca olhou para o céu pelo intervalo escuro das margens agrestes de um vale escavado, desconhece o que é água límpida a correr e o cheiro de urze. Quando já for tarde vamos todos lamentar não saber o que é um rio."

Vale a pena ler o texto todo.
publicado por Carlos Botelho às 21:12 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Não, Sra. Ministra, assim não convence ninguém



P: O fecho de mais de 2500 escolas do primeiro ciclo nos últimos anos tem apenas motivos pedagógicos?
R: Exclusivamente pedagógicos. As escolas muito pequenas não oferecem uma educação adequada às necessidades actuais de recursos e complementos de aprendizagem.
P: De que estudos dispõe o Ministério para afirmar que as turmas pequenas têm mais insucesso?
R: Temos a indicação estatística de que turmas de 15 e menos alunos apresentam taxas de sucesso mais baixas. (...) Além disso, as escolas pequenas não têm refeitório, campo de jogos...
P: Algumas já têm porque foram feitos investimentos recentes.
R: (...) Mais importante do que o que se fecha é o que se abre. Temos 555 centros escolares aprovados. No próximo anos abrirão mais de 100. Em matéria de edifícios escolares vamos ficar (...) com todos os recursos de aprendizagem que consideramos básicos na nossa época. E não há direito que haja crianças que tenham acesso a esses recursos e outras que não.

(Parte final da entrevista com Isabel Alçada no Expresso de hoje)


A vida de milhares de alunos, com idades compreendidas entre os 6 e os 9 anos, e das suas famílias e comunidades, tem sido e continuará a ser significativamente alterada por decisões do Governo que ainda estão por ser devidamente justificadas. Quanto mais oiço ou leio a Ministra ou o Secretário de Estado da Educação a tentar justificar o encerramento das pequenas escolas, mais me convenço que a decisão é tomada com base em motivos não confessados e justificada por motivos sem fundamento evidente.

Por exemplo, que raio de argumento é este que diz “Não há direito que umas crianças tenham acesso a refeitórios, salas de informática, bibliotecas e espaços para a prática desportiva e de enriquecimento curricular, e outras não tenham direito a estes recursos? Mas desde quando é que o direito das famílias à educação deixou de ser o direito de escolha do género de educação que privilegiam para os seus filhos e passou a ser o dever de adaptação àquilo que o Governo considera verdadeiramente importante? E este aqui que diz “Mais importante do que o que se fecha é o que se abre”? Mas mais importante para quem? Para o Ministério da Educação? Para o Governo? Mas desde quando é que a educação existe para servir as nossas instituições governativas? Mais importante para o País? Mas mais importante como? O País já foi devidamente informado dos benefícios que decorrem da transferência dos alunos? Mais importante para as comunidades locais? Mas que sentido faz fechar escolas quando estão em curso programas promovidos por juntas de freguesia e autarquias que visam dinamizar e atrair famílias de jovens para as suas comunidades? Mais importante para as famílias? Mas porque motivo considerarão as famílias que vale a pena trocar a educação escolar de proximidade e o contacto familiar com os professores, característico de uma pequena escola, por uma educação de massas e relações pessoais distantes, como acontece nos centros escolares maiores, apenas porque ali há uma panóplia de recursos materiais interessantes?

Não, senhora Ministra, o que se abre não é necessariamente mais importante do que o que se fecha. Não o é, pelo menos, enquanto as pessoas directamente envolvidas no processo, assim como todas as outras que se preocupam com a educação em Portugal, não estiverem disso convencidas. E para as pessoas se convencerem disso não basta que o Ministério avance vagamente com uma qualquer “indicação estatística”. Já numa outra entrevista do Expresso, de 19 de Junho de 2010, o Secretario de Estado, João Trocado da Mata, avançou a ideia de que “As estatísticas têm vindo a mostrar que as escolas pequenas apresentam taxas de insucesso superiores à média nacional”. Mas quais estatísticas? Alguém as conhece? Alguém leu algum estudo sério e rigoroso, especialmente dedicado à realidade portuguesa, onde seja patente que a taxa de insucesso dos alunos que frequentam as escolas pequenas é maior do que nas outras escolas? Eu não tenho conhecimento de nenhum estudo e, a julgar pelo artigo de Paulo Trigo Pereira, publicado no Público de 16 de Julho, onde ele justifica a sua demissão do lugar de coordenador do Observatório das Politicas Locais de Educação (OPLE), também nenhum investigador deve ter conhecimento da existência de algum.

Nesse artigo, Paulo Trigo Pereira lembra que o facto do fecho das escolas pequenas ter um efeito negativo na vida das aldeias e vilas deve ser necessariamente ponderado em função do esperado efeito positivo no desempenho escolar das crianças transferidas dali para os centros escolares maiores. Mais ainda, ele denuncia a recusa do Ministério em facultar aos centros de investigação o acesso às bases de dados estatísticos na posse do GEP, Gave, GGF e MISI, dados esses sem os quais não é possível realizar estudos portugueses que demonstrem - se for efectivamente essa a realidade no terreno - que a taxa de insucesso dos alunos são mais elevadas nas escolas que o Ministério tem vindo a fechar e nas outras que ainda pretende fechar. Neste sentido, Paulo Trigo Pereira conclui sobre a impossibilidade de haver no nosso pais uma política rigorosa e transparente de combate ao insucesso escolar - obviamente, demitiu-se.

Como se não bastasse o Ministério agir ao arrepio do que pensam os pais, professores, associações e autarquias locais, o Ministério não se inibe de nos tratar a todos como se fossemos meio imbecis e dispostos a engolir qualquer coisinha que se assemelhe a um meio argumento.
publicado por Nuno Lobo às 18:42 | comentar | ver comentários (4) | partilhar

O fascínio pelo Norte


Anuncia-se o projecto ou o desejo de se "acabar com as repetências" e, mais uma vez, para apoiar uma ideia assim interessante, fatalmente remete-se para essas entidades retoricamente salvíficas que são "os países do Norte da Europa". Para ilustração e sossego dos indígenas, diz-se tratar-se de importar de um "modelo" - segundo o tal "modelo", não se retêm alunos, mas vão "potenciar-se" certas "formas de apoio" para aqueles dotados de "ritmos diferenciados" (este linguajar numa ministra da Educação é, de resto, eloquente do estado da coisa).
É fácil anunciar estas maravilhas e é igualmente fácil transplantar "modelos" abstractamente, desgarradamente. Transplantar sem mais - sem curar das condições em que eles medraram e se consolidaram. Importa-se apenas o "modelo"? E o resto? Também se vão buscar os povos, o seu entendimento da Escola e os seus hábitos culturais?...


(Talvez volte a isto hoje, mas agora vou sair. Não vale a pena desperdiçar um dia destes com proclamações idiotas.)
publicado por Carlos Botelho às 16:13 | comentar | ver comentários (8) | partilhar

Mertas de aprendizagem

Uma pergunta: como combinar o sentido da proposta das metas de aprendizagem com o desejo esfusiante de "acabar com a repetência"? Ou melhor, que sentido fazem aquelas com a proclamação política que vem hoje no Expresso?...
publicado por Carlos Botelho às 15:41 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

A Boa Nova

Patriotas, a Escola está salva! Arregalai bem os olhos e olhai para aqui. Sim, vistes bem: não mais, não mais haverá insucesso na Escola portuguesa. Essa palavra funesta e acabrunhante desaparecerá da nossa memória. Não cabem em si de felicidade as criancinhas nos seus aviários-agrupados e os pais, enquadrados pelo incessante Albino, incessantemente concordando com o governo da Pátria, sorriem sem parar, num contentamento que só para os Velhos do Restelo é estúpido.
Insucesso. Anulando a palavra, acaba também a coisa. Salve, ó Sócrates! Ainda está para nascer um primeiro-ministro que tenha feito tanto à Escola como tu!

Devem penitenciar-se agora aqueles que te bota-abaixaram no passado. Sim, a esses nunca lhes ocorreu esta solução brilhante. (Que a OMS ponha os olhos neste homem determinado - também ela, assim o queira com determinação, pode acabar num ápice com muitas doenças que assolam a humanidade.) Penhorados nós e as gerações-agrupadas futuras. Obrigado, senhor primeiro-ministro, obrigado.
(Não, por favor, não chore - não está a entregar diplomas das Novas Oportunidades.)
publicado por Carlos Botelho às 15:08 | comentar | partilhar
Sexta-feira, 30.07.10

Centrifugal Meditation

publicado por Tiago Mendes às 23:58 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

"Privilegiados" (dedicado ao Carlos Botelho)

Na foto acima seguem dois portugueses extremamente "privilegiados". Mas extremamente mesmo. Tão envergonhados se sentiam (ou seria soberba?) por causa dos seus "privilégios" que nem sequer tiveram coragem para olhar de frente a câmara que os fotografava enquanto fugiam tentando proteger o anonimato (e os "privilégios"). Ao pé deles, e no que a "privilégios" diz respeito, (quase) todos neste país são nada. Como se não bastasse, as duas personagens da foto nunca trabalharam na vida, sobretudo a da esquerda. Já se perceberá o motivo. Razão para o estatuto de privilegiado? O da esquerda (outra vez) é funcionário público (por isso nunca trabalhou nem trabalhará na vida…), e como o da direita é seu filho (notem-se as parecenças indiscutíveis), são ambos beneficiários da ADSE. Ora ser beneficiário da ADSE é um "privilégio" imenso, alvo de inveja, ou de admiração, em Portugal e nos quatro cantos do mundo.
Mas o da esquerda tem um problema que atenta contra os seus "privilégios" e que nem o facto de ser beneficiário (na verdade privilegiado) da ADSE alivia. Ficou a saber, ao ler este pedaço de boa prosa, que tem emprego “vitalício” e que, portanto, não se poderá reformar (ou aposentar). Morrerá a trabalhar apesar de, como se sabe, os funcionários públicos não saberem o que é trabalhar. Por isso, porque não se aposentará, pergunta angustiadamente. Primeiro: se não se aposentar quando é que poderá finalmente começar a trabalhar? Segundo: para onde vai o dinheiro que todos os meses lhe descontam do salário e cujo destino lhe garantem ser a Caixa Geral de Aposentações. Irá para o IPRI? Para a FCT? Para o IDN? Para ajudar a compor um insignificante subsídio público a alguma Universidade "privada"? Para pagar publicidade de organismos do Estado nalgum jornal? Não me parece… Continuará o "privilegiado" a sua indagação na esperança de ajudar a resolver as aparentemente insanáveis contradições deste mundo. Acreditem.
publicado por Fernando Martins às 23:04 | comentar | ver comentários (14) | partilhar

Sobre os talentos musicais comparados estamos falados. Do resto é melhor não falar



Bem vista ali a questão do talento musical de Hillary Clinton.

E agora a sério. Mesmo.

publicado por Jorge Costa às 20:41 | comentar | partilhar

Coisas que nunca se deveriam esquecer

Ilha de Moçambique.
(clique para ampliar)
publicado por Jorge Costa às 16:46 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

Um mundo simples e falacioso

Este artigo de Henrique Raposo não analisa um problema. Não é sério: é mais um panfleto demagógico do que outra coisa. A facilidade com que usa as palavras “privilégio” e “privilegiado” é reveladora. O método é antigo: aplica-se o ferrete de privilegiado num grupo – e ele fica logo desqualificado moralmente. A partir desse momento, praticamente não é preciso apresentar argumentos fundamentados. Usam-se uns adjectivos excitantes (como “salazarista”), que, sendo sempre verdadeiros, mascaram o seu uso ilegítimo – isto é, a sua verdade nada acrescenta nem nada retira à sua razão de ser. Ou outros, como “viver acima” (este resulta sempre) ou a “casta” – neste contexto já envenenado, curiosamente, “casta” equivale sempre a “corja”.
Para além da simplificação mentirosa (“saúde à borla”, p. ex.), apresentam-se as coisas de um modo enviesado, deixando-se na sombra factos que não convêm à pulsão difamatória e persecutória do artigo (situação bem respondida aqui).
Enfim, é um texto, que, na verdade, não trata de um tema – simplesmente, pretende acicatar incautos e açular aqueles que já decidiram de antemão quem são os culpados (há-os sempre, nestes processos, transitados em julgado logo no começo): agora, a corja dos funcionários públicos. Já foram outros. E há sempre pretextos disfarçados de argumentos “factuais” e “objectivos”, claro. Parece que a Direita precisa destas coisas estimulantes.
publicado por Carlos Botelho às 14:22 | comentar | ver comentários (20) | partilhar

País cancelado por falta de interesse

Como se .

publicado por Jorge Costa às 13:24 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Uma colossal trapalhada

As a profession we have made a mess of things.

Discurso na recepção do Prémio Nobel: The Pretence of Knowledge. A reler, reler, reler.
publicado por Jorge Costa às 12:48 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Perguntas

Vale a pena ler o artigo do Paulo Pinto de Albuquerque no DN.
publicado por Eugénia Gamboa às 12:22 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Citação montesquieuana do dia

«O governo não pode ser injusto sem ter mãos que cometam as suas injustiças; ora é impossível que essas mãos não sejam empregues para se servirem a elas mesmas.»
publicado por Miguel Morgado às 12:15 | comentar | partilhar

Esperança?

O João Gonçalves recomenda esta posta do Pacheco Pereira e saúda-a como um regresso do mesmo aos "grandes posts". Não percebo a razão do entusiasmo. Sobretudo quando leio a última linha da conclusão de um texto sobre o Portugal "empancado". Não que eu não subscreva algumas daquelas observações. Não que eu duvide de que Portugal é um País "empancado". Mas ler que "É difícil viver num país sem esperança", ouvir que este é o grande remate e o grande problema, é demais para mim. Sucumbir a um lugar-comum, de mais a mais sem fundamento para ser comum, não recomenda ninguém.
.
Para quem quiser saber a minha opinião sobre o assunto da "esperança", espreitem aqui (isto foi publicado no i em Março de 2010):

Na retórica política contemporânea, há poucos lugares-comuns mais piegas que o apelo à esperança. Desde que Obama ganhou as eleições, passou a ser invocada por especialistas sérios, comentadores sábios e candidatos a estadistas mobilizadores. Ninguém resiste a diagnosticar que Portugal, na mais miserável das crises, precisa de esperança. É uma espécie de palavra milagrosa que arranca povos à morte e produz vitórias arrebatadoras. Presume-se que quem a não pronuncia com frequência é aliado secreto das trevas e do desespero.
A coitada da esperança tem um passado glorioso. Antes de reclamada para a política, era virtude teologal, indispensável para a salvação da alma. Com o recuo da religião, politizou-se. Nalguns casos com efeito catastrófico, se recordarmos os messianismos políticos do séc. XX. A esperança na Revolução e na terra prometida pelo Líder deixou atrás de si um rasto de trevas.
Mais recentemente, a esperança converteu-se no recurso psicológico por excelência da modesta democracia representativa. Portugal, arrastado pela moda, não fugiu à regra. Sucede que Portugal precisa não de esperança, mas de vitalidade histórica. O país dispensa miragens equivalentes a transes colectivos capazes de levitar os povos acima de problemas e perigos e a ilusão de que se acreditarmos todas as ameaças desaparecerão. O que já não dispensa é energia moral para olhar nos olhos ameaças que pendem sobre si. Não pode prescindir da vitalidade que nos sustenta quando combatemos perigos concretos. Vitalidade histórica é outra expressão para consciência da realidade, pés assentes na terra. Mas é mais que isso. É a força que nos permite ter confiança nos nossos esforços e não desistir diante da grandeza da tarefa. É o derradeiro antídoto contra a decadência.
publicado por Miguel Morgado às 11:12 | comentar | partilhar

Memória

Numa época em que tantos sonham outra vez com a Revolução sem terem mudado de inspiração, vale a pena perder os 30 segundos que demora a ler este artigo.

Enemies of the People:

THE Khmer Rouge “Brother Number 2”, Nuon Chea, plays with his grandchildren, watches a broadcast of Saddam Hussein’s execution and dreams of Democratic Kampuchea. For years Pol Pot’s right-hand man has had visits from Thet Sambat, a journalist whose parents and brother died in the genocide. The writer wants to learn why, but does not tell his story, hoping that the taciturn ex-leader will volunteer an explanation. He also tracks down Khuon and Suon, low-level cadres who executed villagers, slit stomachs to eat their gall bladders and buried victims in ditches.
The edgy and often surreal conversations of these men are shown in “Enemies of the People”, a prize-winning documentary made on a shoestring. It has drawn interest from the tribunal that will try Mr Nuon Chea and three other regime leaders next year, and which has tried to subpoena the footage.
The film has two climactic moments. First, when the writer brings the cadres to Mr Nuon Chea, who initially says Cambodians were not responsible for killings and then assures his former underlings: “You did not have any intention, therefore you did not commit any sin”. His hybrid Buddhist-Maoist logic is chilling. “Ours was a clean regime”, he insists. Even now he calls his victims “enemies of the people”, their deaths justified by the revolution. Then the writer reveals (just before Mr Nuon Chea’s arrest) how his family suffered. Brother Number 2 seems moved—he too lost many relatives to a regime which he helped run. Distinctions between victims and perpetrators are blurred in a traumatised country.
Never before have cadres confessed to murder on screen; and never since has this leader spoken frankly of his role. Mr Thet Sambat shows a smiling determination to uncover terrible histories, but says that “I need to stop researching the past.” Others will conclude the opposite.


publicado por Miguel Morgado às 11:00 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Economistas e outros seres fabulosos

É verdade. O Estado impossível em que hoje vivemos também foi uma construção teórica (consensual, no essencial) da classe de «cientistas» a que chamamos, com o respeito antes devido aos sacerdotes, economistas. Estão quase todos no poder. Defenderão contra todos os vulcões de evidências os castelos no ar que ajudaram a erguer, quando não foram mesmo os seus principais artífices. O menor dos males que daí advirá será a péssima reputação daquilo a que chamam ciência, que obrigaria à humildade perante os imprevistos da história.
publicado por Jorge Costa às 10:05 | comentar | ver comentários (4) | partilhar

Tão absurdo quanto trágico

Julgamento da Casa Pia em risco de ser anulado.

Recordo aqui o artigo 20.º da Constituição, que prevê o direito fundamental dos cidadãos a uma decisão judicial num prazo razoável. Espero que os juízes desembargadores do Tribunal da Relação de Lisboa tenham o bom senso de fazer prevalecer a Verdade e a Justiça sobre meras formalidades processuais que, cada vez mais, ameaçam de morte o nosso Estado de Direito.
publicado por Paulo Marcelo às 09:18 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Cachimbos

O Cachimbo de Magritte é um blogue de comentário político. Ocasionalmente, trata também de coisas sérias. Sabe que a realidade nem sempre é o que parece. Não tem uma ideologia e desconfia de ideologias. Prefere Burke à burqa e Aron aos arianos. Acredita que Portugal é uma teimosia viável e o 11 de Setembro uma vasta conspiração para Mário Soares aparecer na RTP. Não quer o poder, mas já está por tudo. Fuma-se devagar e, ao contrário do que diz o Estado, não provoca impotência.

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