Segunda-feira, 30.04.12

‘Tabu’ de Miguel Gomes

Tabu é um dos exemplos daquilo que de bom se faz por cá – aqui em Portugal. Se nem todos ficámos convencidos com a sua última longa-metragem – Aquele Querido Mês de Agosto – creio que agora Miguel Gomes conseguiu reunir um consenso bastante generalizado quanto à qualidade do seu cinema. Tabu, no recente Festival de Cinema de Berlim, foi amplamente prestigiado com a conquista de dois prémios.

Não só o título mas também a divisão dos capítulos e, aliás, todo o enredo, fazem-nos recordar o filme homónimo de Murnau. Tal como o grande clássico de 1931, este Tabu tem um enorme cuidado estético no modo de nos apresentar o drama, tornando-se de certa forma um filme poético. Miguel Gomes transporta a narrativa de Murnau para as colónias de Portugal anterior ao 25 de Abril. É no cenário paradisíaco do continente africano que os dois protagonistas vivem uma intensa paixão proibida pelos padrões morais da sociedade em que se inserem. Os amantes escondem a loucura o mais que podem. Mas a força daquele mundo encarrega-se de dissolver aquela relação sem futuro. Neles fica apenas a nostalgia do passado. A paixão absorvente e estimulante extingue-se, deixando nos dois um horizonte melancólico em que se vislumbra aquele amor perdido como uma miragem, algures na memória. Com o passar do tempo, a solidão e a velhice vão definindo a vida dos dois. E aí – no paraíso perdido – o seu amor é-nos narrado, sempre a partir dos olhos de quem o viveu.

publicado por Andreas Lind às 16:02 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

O futuro passa por aqui

publicado por Paulo Marcelo às 13:00 | comentar | ver comentários (3) | partilhar
Sábado, 28.04.12

O abraço do urso

 

Para quem tem estado atento às questões europeias a leste, tem sido óbvio o clima de conflito permanente que a Polónia alimenta com a União Europeia a respeito das questões energéticas e ambientais. Questões essas que vão do número de licenças de emissão de CO2 ao desmantelamento do parque electroprodutor a carvão, até à legislação relativa à exploração de hidrocarbonetos. Em suma, a Polónia sente hoje pouca compreensão por parte de União Europeia no seu esforço para não cair numa maior dependência energética da Rússia. Outros países de leste também enfrentam este enorme desafio, o de se libertarem do estado de dependência do gás Russo, nomeadamente a Ucrânia e a Hungria. A Bielorrússia parece já dominada e confortável com a situação de dependência relativamente a Moscovo.

 

O propósito destes países é não só político mas também económico. O gás russo é tradicionalmente vendido em contratos de longo-prazo, a um preço em que a indexação ao petróleo pesa mais de 85%. A Ucrânia paga hoje preços de gás natural superiores a 400 $/m3 (valor que é superior em dobro ao que pagam os seus vizinhos da Bielorrússia) e a sua vasta rede de gasodutos é “sucata” se por ela não transitar gás em direcção à Europa. A relação energética da Rússia com a Ucrânia relativamente ao preço do gás tem oscilado entre a negociação e a ameaça dos tribunais arbitrais, no entanto os ganhos para os ucranianos são duvidosos. Em Abril de 2010 o presidente Yanukovych da Ucrânia e Dmitri Medvedev assinaram o Acordo de Kharkiv (pura ironia, a cidade onde Yulia Tymoshenko está presa) que garante aos russos a permanência por mais 25 anos da frota do Mar Negro na região da Crimeia, em troca de um desconto no preço do gás, mas os termos deste acordo permanecem no maior dos secretismos.

 

Uma alternativa recente oferecida a estes países para os aliviar do espartilho russo é a auto-produção, nomeadamente de gás não convencional: o shale gás (gás de xisto) e também o CBM (coal bed methane). A Polónia leva a dianteira com duas dezenas de furos de prospecção realizados e ambiciona começar a sua exploração do gás de xisto dentro de 3 a 4 anos, já a Ucrânia anunciará em Maio as empresas vencedoras para a exploração do mesmo gás nas duas zonas geológicas de maior potencial, mas a exploração comercial só será possível dentro de 5 a 7 anos.

 

Sem a ajuda europeia, estes países contam com os Estados Unidos que deslocaram para a região um contingente de empresas, com competências e tecnologia na área do gás não convencional, para permitirem a revolução desejada. Os EUA não querem arriscar perder a zona tampão que separa a Rússia da Europa Ocidental, na qual a Polónia é absolutamente determinante em termos geoestratégicos.

 

A Rússia e a Alemanha (a UE é aqui um “sleeping partner” instrumental), pelo vector da energia, estão a realizar uma estratégia voluntária de tenaz que ambiciona a asfixia económica dos países da antiga órbita soviética, no sentido de os conduzir de volta e pelos próprios pés à esfera de que se tinham libertado. Vamos ter que voltar a estudar a história das relações internacionais na Europa de Bismarck, porque é este o modelo que as elites na Alemanha e na Rússia tanto ambicionam, e não o escondem – uma relação bilateral das duas potências continentais europeias sem intermediação, nem de Bruxelas nem de Washington. A oeste e pela via da dependência financeira a Alemanha também tem vindo a construir a sua órbita de dominância política e económica – mas esta realidade é-nos menos estranha.

 

Hoje, começa a ficar evidente que a Rússia está apostada em abraçar energeticamente a Europa. Os russos estenderam um primeiro braço energético pelo norte até à Alemanha e fizeram com os alemães o gasoduto do Mar Báltico (o “Nord Stream” – para contornar a Ucrânia e a Polónia) sem Bruxelas ser tida ou achada, agora o mesmo está a acontecer com o “South Stream” (um outro gasoduto para contornar a Geórgia e a Turquia pelo Mar Negro) e deram a conhecer esta semana que a construção vai ter início ainda este ano. É o braço sul, que entra pela Bulgária e que vai ser estendido até à Itália e à Grécia, terminando na Áustria. O que também parece evidente é o propósito dos russos em minar o principal projecto energético com patrocínio europeu: o Nabucco.

 

Enquanto o kzar e a chanceler negoceiam e decidem o futuro da Europa, em Bruxelas legisla-se sobre o superior interesse das galinhas poedeiras. Não há o risco de, no imediato, a União Europeia se converter num clube de desocupados – não é ainda a preguiça e o ócio que a ameaça: é a irrelevância.

publicado por Victor Tavares Morais às 08:22 | comentar | ver comentários (8) | partilhar
Sexta-feira, 27.04.12

In the 90's (LVIII)

publicado por Nuno Gouveia às 23:59 | comentar | partilhar

O que deixou a geração que fez o 25 de Abril?

66% dos jovens até 24 anos recebem menos de 600 euros mensais

E os outros 27% entre 600-900€ por mês

 

Para além dos salários baixos, não esquecer uma economia decadente, asfixiada por impostos e outros custos como a energia; desemprego elevado, um mercado de trabalho rígido, que não recompensa o mérito, nem dá oportunidades aos mais novos; uma sociedade envelhecida e fechada, cheia de privilégios e direitos adquiridos só acessíveis aos que chegaram primeiro; uma educação medíocre e massificada; um sistema de justiça lento, burocrático e desigual. Estamos todos muito agradecidos aos camaradas da Associação 25 de Abril. E não se esqueçam de repetir muitas vezes que a culpa é do Governo.

 

publicado por Paulo Marcelo às 17:57 | comentar | ver comentários (16) | partilhar

'A nova intolerância'. Eu diria mesmo mais: o novo obscurantismo

«To judge from what we are reading and hearing almost every day at the moment, it would seem Britain is in the throes of a war of religion. A war, that is, between religion and atheism. Professor Richard Dawkins, the Savonarola of atheism, regularly hurls his thunderbolts at believers. Christianity, says the church, is under siege. Christians are being prevented from wearing the crucifix at work, being barred from adoption panels.[...]At the heart of this great argument lies the assumption on the part of the anti-religion camp that this is a battle between reason and obscurantism, between rationality on the one hand and knuckle-dragging ignorance and prejudice on the other. And of course, that anti-religion camp is on the side of reason, and thus of intelligence, science, progress and freedom; whereas religious believers would undo the Enlightenment and take us all back to the dark ages of credulity, superstition and the shackling of the mind.[...]

So it follows that people who are intelligent can have no religious faith; those who are religious are either imbeciles or insane. Not only that, religious people are narrow, dogmatic, intolerant and unpleasant. Those with no religious faith are broad-minded, open, liberal and thoroughly splendid people whom you'd be delighted to meet at a dinner party. Little casts a chill over a fashionable table more than the disclosure that a guest believes in God. 

 

I have a rather different take on this great division of our age. My view is that while we may be in a post-biblical — and post-moral — age, we have not disposed of belief. Far from it. We have just changed what we believe in. Our society may have junked the Judaeo-Christian foundations of the West for secularism. But this has given rise to a set of other religions. Secular religions. Anti-religion religions.  

These are also based on a set of dogmas. They proselytise. They involve faith. But unlike the Judaeo-Christian thinking they usurp, these secular anti-religions suspend truth and reason. [...]God has been pronounced dead, and in his place have come man-made ideologies — in which people worship not a divine presence but an idea. [...]

 

Rather than being rational, I suggest these are irrational; not tolerant at all, but deeply illiberal; not open to other ideas, but as dogmatic as any medieval pope. Indeed, these atheistic ideologies are reminiscent not just of religion but of medieval persecutions, witch-hunts and inquisitions.

Let me illustrate all this with an anecdote. After a debate in which he took part some time ago, I pressed Richard Dawkins on his belief that the origin of all matter was most likely to have been an entirely spontaneous event — which meant he therefore surely believed that something could be created out of nothing. Since this ran counter to the scientific principle of verifiable evidence which he tells us should govern all our thinking, this itself seemed to be precisely the kind of irrationality which he scorns. 

In reply, he acknowledged that I had a point but said that the alternative explanation — God — was more incredible. But then he remarked that he was not necessarily averse to the idea that life on Earth had been created by a governing intelligence — provided, however, that such an intelligence had arrived on Earth from another planet. Leaving aside the question of how that extra-terrestrial intelligence had itself been created in the first place, I put it to him that he appeared to be saying that "little green men" provided a more plausible explanation for the origin of life on Earth than God. Strangely, he didn't react to this well at all.

However, Dawkins is not the first scientist to have suggested this. It is a theory which was put forward by no less than Professor Francis Crick, one of the discoverers of DNA.

 

A committed atheist, Francis Crick found it impossible to believe that DNA could have been the product of evolution. In 1973, Crick and the chemist Leslie Orgel published a paper in the journal Icarus suggesting that life may have arrived on Earth through "directed panspermia". According to this theory, micro-organisms were supposed to have travelled in the head of an unmanned spaceship sent to Earth by a higher civilisation which had developed elsewhere some billions of years ago. The spaceship was unmanned so that its range would be as great as possible. Life started here when these organisms were dropped into the primitive ocean and began to multiply. Subsequently, Crick abandoned this theory and returned to the idea of the spontaneous origin of life from purely natural mechanisms.

How can someone so committed to reason be so irrational as to entertain such a fantasy?»

 

E muito mais, da sempre recomendável Melanie Philips.

publicado por Maria João Marques às 17:31 | comentar | ver comentários (4) | partilhar

Au revoir Sarkozy

 

Nicolas Sarkozy já perdeu as eleições.

Assustado com as sondagens que em 2011 vaticinavam Marine Le Pen na segunda volta, Sarkozy apostou tudo numa campanha à direita e tudo fez para evitar que Marine Le Pen conseguisse sequer ser candidata, (em França as candidaturas à presidência têm de ser subscritas por eleitos, e a Frente Nacional não tem eleitos suficientes para subscrever uma candidatura). 

Com esta estratégia Sarkozy pensou conseguir anular a candidatura de Marine Le Pen, permitindo centrar-se numa segunda volta na conquista de votos ao centro, designadamente dos franceses que votaram em Bayrou.

Sucede que Marine Le Pen resistiu e trepou até aos 18% o que obriga Nicolas a continuar a fazer campanha à direita nesta segunda volta. Consequentemente são os votos de Bayrou que neste momento estão mais incertos e divididos. Com 6,5 milhões de votos à sua direita, Nicolas Sarkozy não consegue ter um discurso centrista e Bayrou, que integra o mesmo partido na UE que Nicolas Sarkozy (PPE), não tem sequer argumentos para apelar ao voto em Sarkozy.

Acresce que Marine Le Pen joga tudo nas eleições legislativas de Junho onde tem possibilidade de, pela primeira vez, eleger um grupo parlamentar. Com a derrota de Sarkozy a direita irá ajustar contas e terá pouco tempo para se organizar, e a Frente Nacional terá mais hipóteses de eleger deputados mesmo em eleições com duas voltas. Nicolas está assim a ser vítima de uma estratégia narcisista que o conduz à derrota. Não deixa saudades. Au revoir. 

 

publicado por Pedro Pestana Bastos às 10:11 | comentar | ver comentários (16) | partilhar

Fim do euro (31) Cláusulas de dracma abandonadas

Já tinha chamado aqui à atenção para o facto de que o Banco Europeu de Investimentos (BEI) tinha começado a introduzir cláusulas de dracma nos empréstimos a empresas gregas, pretendendo precaver-se contra uma eventual saída da Grécia do euro.

 

Entretanto, a Comissão Europeia colocou pressão sobre o BEI para abandonar estas cláusulas, o que parece ter surtido efeito. Afinal os accionistas do BEI são os 27 Estados-Membros da UE e a missão deste banco é “concretizar os objectivos da UE, disponibilizando financiamento de longo prazo a investimentos sólidos”.

 

Mas convém sublinhar que o BEI não foi persuadido de que essas cláusulas não faziam sentido, foi antes forçado pelos seus accionistas a abandoná-las. 

publicado por Pedro Braz Teixeira às 10:07 | comentar | ver comentários (2) | partilhar
Quinta-feira, 26.04.12

Espancada na prisão

 

"Mrs. Tymoshenko, 51, is ill.

She refuses to be treated in a Ukrainian hospital or by Ukrainian doctors, because she fears they may be ordered by the government to harm her.

Now Tymoshenko has gone on hunger strike after prison officials tried to force her to a hospital. Last Friday, she was beaten black and blue and punched in the stomach, according to her lawyer, Serhiy Vlasenko.

Henadiy Tyurin, the regional prosecutor of Kharkov, told reporters that officials did use some force.

"According to the law ... the prison service has the right to use physical measures. She [Tymoshenko] was picked up, carried to the car and taken to the hospital," he said."

 

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publicado por Victor Tavares Morais às 18:18 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

Portugal vai mesmo conseguir cumprir isto?

Diz assim o artigo 3.º do Tratado sobre Estabilidade, Coordenação e Governação na UEM, ratificado pela AR na semana passada:

 

«A situação orçamental das administrações públicas de uma Parte Contratante é equilibrada ou excedentária (...) se o saldo estrutural anual das administrações públicas tiver atingido o objetivo de médio prazo específico desse país, tal como definido no PEC revisto, com um limite de défice estrutural de 0,5% do PIB a preços de mercado. (...) Sempre que a relação entre a dívida pública e o PIB a preços de mercado for significativamente inferior a 60% e os riscos para a sustentabilidade a longo prazo das finanças públicas forem reduzidos, o limite para o objetivo de médio prazo fixado na alínea b) pode atingir um défice estrutural de, no máximo, 1% do PIB a preços de mercado; Se for constatado um desvio significativo do objetivo de médio prazo ou da respetiva trajetória de ajustamento, é automaticamente acionado um mecanismo de correção (...)»

publicado por Paulo Marcelo às 12:01 | comentar | ver comentários (19) | partilhar
Quarta-feira, 25.04.12

25 de Abril sempre (e com os mesmos)

Há uma grupeta em Portugal que se julga dona do 25 de Abril. Manuel Alegre é um deles, e quis fazer notícia ao informar que não ia participar nas comemorações oficiais do 25 de Abril. Sinceramente não percebo porque razão Manuel Alegre haveria de participar nas comemorações.

Manuel Alegre não é Deputado, não é ex-Presidente da República, não é ex-Presidente da Assembleia da República, não é capitão de Abril, não participou no 25 de Abril e não estava sequer em Portugal.

 

Mas a que título e porque razão é que Manuel Alegre iria participar nas comemorações oficiais do 25 de Abril ? 

publicado por Pedro Pestana Bastos às 23:56 | comentar | ver comentários (13) | partilhar

Dalai Lama vai perder fãs à esquerda

 

Dalai Lama: I love George W. Bush

 Asked about the people he’s met who have really impressed him, the Tibetan leader-in-exile said during a sit-down with CNN’s Piers Morgan that other than Nelson Mandela – whom he considers “quite impressive” – he also admires Bush. “I love President Bush,” the Dalai Lama said.

publicado por Nuno Gouveia às 14:27 | partilhar

"The Keynesians will never forgive the Germans for being right"

Europe's Phony Growth Debate - Editorial do Wall Street Journal

 

Growth or austerity? That's the choice facing Europe these days—or so the Keynesian consensus keeps saying. According to this view, which has dominated world economic councils since the 2008 crisis began, "growth" is mainly a function of government spending.

Spend more and you're for growth, even if a country raises taxes to pay for the spending. But dare to cut spending as the Germans suggest, and you're for austerity and thus opposed to growth.

This is a nonsense debate that misconstrues the real sources of economic prosperity and helps explain Europe's current mess. The real debate ought to be over which policies best produce growth.

 

In the 1980s, the world learned (or so we thought) that the way out of the malaise of the 1970s were reforms that encourage private investment and risk-taking, labor mobility and flexibility, an end to price controls, tax rates that encouraged capital formation, and what the World Bank now broadly calls "the ease of doing business." Amid this crisis, Europe has tried everything except these policies.

If Reagan or Margaret Thatcher are toodéclassé for Europeans to invoke, how about Germany? Throughout the 1990s and the first years of the last decade, Germany was Europe's hobbled giant, with consistently subpar growth rates and unemployment that in 2005 hit 11.3%, nearly at the top of the OECD chart.



publicado por Nuno Gouveia às 13:13 | partilhar

Fim do euro (30) Surtos de inflação

Portugal sofreu até hoje três grandes surtos inflacionistas, que mudaram o “regime de preços” de forma súbita e prolongada. O primeiro iniciou-se com a guerra da independência de 1383-1385, cujo financiamento obrigou à desvalorização da moeda. Entre 1383 e 1430, os preços terão sido multiplicados por 630, o que faz deste episódio o maior surto inflacionista da nossa história.

 

Entre 1430 e 1915 houve desvalorizações pontuais da nossa moeda, após as quais havia prolongados períodos de estabilidade monetária. Quando a inflação é baixa durante longos períodos cria-se a convicção de que essa condição nunca será alterada nos tempos mais próximos. Um exemplo excepcional desta convicção foi o empréstimo externo de 1902, destinado a sanar os problemas decorrentes da bancarrota portuguesa de 1892, que foi emitido em libras, com uma taxa de juro de 3% e um prazo de 99 anos!

 

Em 1916 iniciou-se o segundo surto inflacionista, fruto da instabilidade da 1ª República, mas sobretudo da irresponsabilidade da participação portuguesa no teatro europeu da I Guerra Mundial, que gerou custos brutais e nenhumas vantagens. A participação portuguesa na guerra nas colónias fazia todo o sentido, mas na Europa era absurdo, até pelas fraquíssimas condições do exército português. Parece que o regime republicano usou a participação na guerra como forma de legitimação internacional e interna. É caso para dizer que se monarquia não tivesse caído em 1910, não teríamos cometido este erro histórico com custos brutais, inclusive em termos de fome.

 

Entre 1915 e 1924 os preços terão subido cerca de 22 vezes. Uma consequência importante desta inflação foi a diminuição drástica da dívida pública portuguesa (de 140% do PIB antes da guerra para menos de 90% em 1924), porque a inflação reduziu brutalmente o valor real desta dívida.

 

No período que se seguiu, entre 1924 e 1972, os preços portugueses multiplicaram-se apenas por 3. Esta prolongada estabilidade permitiu que se voltassem a emitir obrigações a uma taxa baixa e fixa, com prazos alargados.

 

O terceiro surto inflacionista iniciou-se em 1973, com o primeiro choque petrolífero e com os desregramentos que ocorreram a seguir ao 25 de Abril de 1974. Entre 1972 e 1995 os preços portugueses multiplicaram-se por 30, sendo que no final deste período a taxa de inflação já estava a diminuir claramente para os actuais valores muitos baixos.

 

Uma diferença importante entre o segundo e o terceiro surto inflacionista é que quando este se iniciou o nível de dívida pública era muito baixo (20% do PIB), pelo que não houve efeito de redução de dívida como o verificado durante a 1ª República. Pelo contrário, houve uma explosão da despesa pública, que fez disparar a dívida pública para valores muito elevados.

 

Para além dos surtos de inflação que ocorreram, parece útil referir os outros surtos que “deveriam” ter acontecido, mas que não se concretizaram, tendo presente que as guerras são as maiores fontes de subida da dívida pública e que, por isso, geram a maior tentação de recorrer à inflação. O primeiro seria associado à prolongada guerra de independência, entre 1640 e 1668, em que houve alguma desvalorização da moeda, mas de forma limitada. O segundo episódio é o das invasões francesas, entre 1807 e 1811, que também poucas consequências monetárias trouxe.

 

O terceiro caso é o da guerra colonial, entre 1961 e 1974, que foi compatível com contas públicas equilibradas e inflação controlada. Neste caso terá havido contenção em outras rubricas da despesa pública, em particular a educação, que “pagaram” a guerra.

 

Com a provável saída do euro, Portugal deverá conhecer o quarto surto inflacionista da sua história, um tema que merecerá uma análise mais detalhada nos próximos artigos. Convém recordar que o Banco Europeu de Investimentos passou a proteger-se da eventual saída da Grécia da zona do euro, incluindo cláusulas de dracma nos empréstimos recentes a empresas gregas.

 

[Publicado no jornal “i”]

publicado por Pedro Braz Teixeira às 12:22 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

O que os outros recordam do 25 de Abril de 1974

 

publicado por Victor Tavares Morais às 10:02 | comentar | partilhar
Terça-feira, 24.04.12

Paris e o resto

Confesso que me surpreenderam os resultados das eleições francesas. Não tanto pela escassa margem de vitória do candidato do PS sobre Sarkozy, mas sobretudo sobre a disparidade territorial do voto na Frente Nacional. Se em Paris cidade não passou dos 6% e ficou em quinto lugar (sexto em alguns bairros mais bourgeois), em Seine et Marne (departamento contiguo de Paris), atinge os  20%.

Na Vendeia, (historicamente o departamento mais à direita de frança), Marine não passa dos 15% mas no proletário Somme chega aos 24%.

 

publicado por Pedro Pestana Bastos às 19:45 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

'Chronik der Anna Magdalena Bach' - Quando um filme se faz música

 

Ontem, a cinemateca brindou-nos com um filme excepcionalmente raro:Chronik der Anna Magdalena Bach. Para o realizar, o casal Straub-Huillet despendeu cerca de dez anos em viagens, pesquisas, bem como no estudo das cartas do compositor e das respectivas partituras. Ao que parece, a estreia do filme no festival de Utrecht, em 1968, suscitou enorme polémica. Muitos o criticaram ao considerarem que planos fixos e longos durante mais de uma hora e meia a mostrarem músicos a executar a música de Bach nada tem que ver com cinema. Talvez, estas críticas façam sentido. Com efeito, neste filme, a música não é um acompanhamento da narrativa, nem um complemento que a reforça: tal como diz o próprio Straub, aqui a música é usada como ‘matéria estética’. Mais do que expor a vida do compositor J. S. Bach no contexto da sua época, Straub faz-nos ver a herança que essa vida nos deixou: a música que resiste à erosão do tempo e da permanente alternância de estilos e de gostos consoante a época em que nos encontramos. Talvez por isso, Straub,em vez de escolher um actor exímio para representar Bach, escolheu o cravista Gustav Leonhardt para interpretar a sua obra. Talvez, por isso, raramente ouvimos Bach falar; é a sua mulher quem nos conta a história. Bach limita-se a deliciar-nos com a sua obra e, ao longo de toda a narrativa musical, nunca vemos o seu rosto envelhecer.

Os planos praticamente imóveis durante o tempo de duração das peças pedem-nos que nos concentremos no essencial – a música de Bach, e não tanto a sua pessoa. Desta forma, o filme faz-nos viver uma experiência estética que coloca diante de nós um enigma – talvez mistério – difícil de engendrar. Apesar de Bach ter escrito a sua obra a partir da cosmovisão de uma época já passada, a partir de uma religião e de uma espiritualidade particular, a partir de uma linguagem estética que já não vigora entre nós, foi capaz de criar uma obra que continua a tocar os nossos corações. Bach parece ter sido capaz de exprimir a essência da Vida, do Homem, do Mundo; parece ter atingido o Absoluto a partir de uma tradição estética contingente. E por isso a sua música se mantém actual.

publicado por Andreas Lind às 11:22editado por Paulo Marcelo em 26/04/2012 às 12:20 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Lançamento do livro "Tratado de Lisboa"



Num momento em que o projecto europeu atravessa a pior crise da sua história, com riscos de regressão e de desintegração, permitam-me assinalar o lançamento de uma obra colectiva, da qual sou um dos co-autores, com um pequeno contributo, diga-se. Trata-se da primeira anotação e comentário completo, em português e por autores portugueses, aos tratados europeus assinados na nossa cidade de Lisboa, em 13 de Dezembro de 2007, pelos 27 países membros da União Europeia. Recordo que o Tratado de Lisboa, também conhecido como Tratado reformador, alterou profundamente os anteriores tratados, em especial o Tratado da União Europeia, assinado em Maastricht em 1992, e o Tratado de Roma (1957), que passou a designar-se como Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia. O lançamento deste livro da editora Almedina será hoje, 24 de Abril, às 18 horas, no Palácio das Necessidades, onde estarão presentes o Primeiro-Ministro e o Ministro dos Negócios Estrangeiros. O livro será apresentado pelo Governador do BP e será evocada a memória de um querido colega, o Dr. Mário de Melo Rocha, co-autor do livro, entretando falecido. Aqui fica o convite.
publicado por Paulo Marcelo às 10:29 | comentar | ver comentários (1) | partilhar
Segunda-feira, 23.04.12

In the 90's (LVII)

The Mission, uma banda que gravou os melhores discos na década de 80. Mas durante estes anos ainda gravaram alguns bons álbuns, um desses o "Masque" de 1992, que não obteve grande sucesso comercial. 

publicado por Nuno Gouveia às 23:46 | comentar | partilhar

25 de Abril

Será que a Associação 25 de Abril, Mário Soares e Manuel Alegre terão coragem para defender que o feriado não se deve manter? A coerência obrigaria a levar o seu argumento até ao fim.

Ao contrário do que sustentam, o que venceu no 25 de Abril não foi uma determinada "linha política", mas sim a possibilidade de os portugueses escolherem democraticamente a linha política que querem.

E se aqueles não a sabem respeitar, é altura de sairem de cena. Não precisam de voltar, pois deste modo não fazem cá falta.

publicado por Filipe Anacoreta Correia às 19:56 | comentar | ver comentários (9) | partilhar

Cachimbos

O Cachimbo de Magritte é um blogue de comentário político. Ocasionalmente, trata também de coisas sérias. Sabe que a realidade nem sempre é o que parece. Não tem uma ideologia e desconfia de ideologias. Prefere Burke à burqa e Aron aos arianos. Acredita que Portugal é uma teimosia viável e o 11 de Setembro uma vasta conspiração para Mário Soares aparecer na RTP. Não quer o poder, mas já está por tudo. Fuma-se devagar e, ao contrário do que diz o Estado, não provoca impotência.

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