Terça-feira, 31.07.12

Os Lusíadas como critério

 

Um critério interessante para se dintinguir a mundividência do Bloco de Esquerda da do PCP é o dos seus possíveis olhares  sobre Os Lusíadas. Um Poder do Bloco (e de boa parte do PS), com o seu fanatismo característico, censuraria e/ou expurgaria o poema de Camões (não sei se apenas nas escolas) daquelas passagens “imperialistas”, “belicistas”, “racistas”, ou “colonialistas” que aqueles polícias culturais, no seu disparatado anacronismo histórico, achariam “inadmissíveis no séc XXI”, ou coisa que o valha. Tenho muitas (e creio que fundadas) dúvidas que o PCP enveredasse por esses caminhos. O velho Partido, que já viu muito e já viveu muito, tende a não se deixar levar pelas modas de um radicalismo de pieguices.

E a direita liberal?... Bem, a nossa pobre direita liberal não passa de uma puta analfabeta que vai com todos. Como não tem nadinha na cabeça e como o seu critério é meramente o da espórtula, para ela, tanto se lhe dá ter uns Lusíadas incólumes como mutilados. Sendo analfabeta, desconfia dos livros e da cultura em geral (por exemplo, queda-se perplexa, coçando a sua feia cabeça, não compreendendo por que razão um livro com um preço inferior há-de ter um valor superior ou onde estará o mérito estético de uma peça não apreciada por multidões) e, por isso mesmo, pode muito bem, pontual e artificialmente, se imaginar a vantagem disso, alardear  “amor pela cultura” e citar, geralmente em descontextos ridículos, alguns versos, palavras, que julga impressionantes na sua boca, e que exibe como gravatas garridas. Como tem, coitada, uma visão prostibular do mundo, para ela, todos os argumentos são redutíveis a uma espécie de darwinismo social pequeno-burguês e, na sua cabeça estreita e suja, todos os que dela discordarem apenas o fazem por uma disputa da esquina.

 

 

publicado por Carlos Botelho às 13:29 | comentar | ver comentários (16) | partilhar

No canudo vive a esperança

 

Os serralheiros têm melhores ofertas de emprego do que os engenheiros. A constatação apareceu na imprensa e mereceu destaque em todos os meios de comunicação. O país fervilhou com a revelação e rapidamente concordou: nas condições actuais, estudar não compensa. Significa isto que andámos todos iludidos, quanto às vantagens de frequentar a universidade?

 

Não. Estávamos certos. Em 1981, Portugal tinha 155 mil licenciados. Vinte anos depois, em 2001, eram já mais de 650 mil. E em 2011, mais de 1 milhão e 200 mil. Isto explica, em grande medida, porque é hoje mais difícil a um licenciado arranjar emprego. Em 10 anos, duplicou o número de licenciados, mas não duplicou a oferta de emprego. Apesar disso, a frequência do ensino superior permanece uma importante mais--valia.

 

1. Um anúncio de emprego indica o salário inicial. Mas não diz qual será o salário no futuro. A probabilidade de ter aumentos salariais significativos ao longo da carreira é mais elevada para o engenheiro do que para o serralheiro. Isto porque, na maioria das profissões não-qualificadas, existe pouca diferença entre os salários no início e no fim da carreira. No caso das profissões qualificadas, a diferença entre o primeiro e o último salário é muito significativa. Afinal, estudar compensa.

 

2. Hoje há mais desemprego entre os licenciados do que havia? Sim, muito mais. No final de 2009, havia 45 mil licenciados desempregados inscritos no IEFP, e no final de 2011 havia 63 mil – um aumento de mais de 40% em apenas dois anos. Isto mostra bem como a situação está mais difícil para os licenciados do que estava há dois anos. Mas não está pior do que para os outros. Entre o total de desempregados inscritos no final de 2011 (605 mil), apenas 10% são licenciados. Além disso, o tempo de desemprego é muito desigual entre os licenciados e os não-licenciados: quanto menor a formação, maior a duração do desemprego. Afinal, estudar compensa.

 

3. Portugal tem instituições de ensino superior a mais. Há 11,5 instituições por cada milhão de habitantes, sendo este rácio muito inferior em Espanha (2,2), em França (5,1), ou no Reino Unido (2,8). Este excesso de oferta tem como consequência que nem todas as instituições são boas. Dito de outro modo, as licenciaturas não são todas iguais. Os dados da DGES – Direcção-Geral do Ensino Superior mostram que uma em cada três licenciaturas apresenta uma taxa de desemprego superior a 10%. Por isso, um estudante, quando ingressa no ensino superior, deve escolher em função da área de estudo e da instituição. Faz diferença o que se estuda e onde se estuda. Afinal, estudar compensa.

 

A taxa de desempregados licenciados impressiona porque é incompatível com as expectativas do passado. Expectativas que se mantiveram elevadas por culpa de quem não percebeu a evolução dos tempos. E por culpa do poder político, que não informou os estudantes sobre a empregabilidade dos cursos. Agora que a realidade se anunciou, espera-se que cada um cumpra o seu papel. Que os jornalistas desistam dos alarmismos. Que os políticos informem melhor os jovens. E que estes continuem a estudar. Porque no canudo vive a esperança.

 

[publicado no "i"]

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publicado por Alexandre Homem Cristo às 10:00 | comentar | ver comentários (9) | partilhar
Segunda-feira, 30.07.12

Recordar as palavras de um peregrino

Recordo aqui as palavras do Papa João Paulo II na sua despedida da Síria, agora que falta pouco mais de um mês para o seu sucessor visitar a região - o Líbano.

 

DISCURSO DE DESPEDIDA DE SUA SANTIDADE O PAPA JOÃO PAULO II

NO AEROPORTO INTERNACIONAL DE DAMASCO

 Damasco, 8 de Maio de 2001

 

 

Senhor Presidente

Ilustres Amigos sírios

Senhoras e Senhores

 

1. Ao partir da antiga terra da Síria, estou repleto de gratidão. Dou graças sobretudo ao Deus Omnipotente por me ter oferecido a possibilidade de continuar a minha Peregrinação jubilar de fé, por ocasião dos dois mil anos do nascimento de Jesus Cristo. Dou graças também a Sao Paulo, que tem sido meu companheiro de viagem em cada passo deste caminho.

 

Agradeço de forma especial a Vossa Excelência, Senhor Presidente, bem como aos membros do Governo, que me recebestes com o coração aberto e me estendestes a mão da amizade. O povo sírio é famoso pela sua hospitalidade, e durante estes dias eles fizeram um peregrino sentir-se em casa. Não me esquecerei desta amabilidade.

 

Estou grato à comunidade cristã e, de forma particular, a Suas Beatitudes os Patriarcas e Bispos, pela maneira como me acompanharam ao longo da minha Peregrinação.

 

Conservarei com afecto a memória da minha visita à Mesquita "Omayylde" e a amável hospitalidade que recebi de Sua Excelência o Ministro do Waqf, bem como de sua Eminência o Grão-Mufti e da comunidade muçulmana em geral.

 

Rezo para que a longa tradição síria de relacionamentos harmoniosos entre cristãos e muçulmanos seja duradoura e se torne cada vez mais vigorosa, como um testemunho perante o mundo de que a religião, como adoração do Deus Altíssimo, lança a semente da paz no coração das pessoas. Correspondendo às mais profundas aspirações do espírito humano, ela enriquece e une a familia humana no seu caminho ao longo da história.

 

2. A Síria é uma terra antiga, com um passado glorioso. Todavia, de certa forma a vossa Nação é ainda jovem mas, num período de tempo relativamente breve e através de circunstâncias dificeis, progrediu bastante. A minha oração de peregrino é para que a Síria caminhe com confiança e serenidade rumo a um futuro novo e promissor, e que o vosso Pais entre numa era de bem-estar e tranquilidade para todos os seus habitantes.

 

A Síria constitui uma presença crucial na vida de toda esta região, cujos povos sofreram por demasiado tempo a tragédia da guerra e dos conflitos. Todavia, para que se abra a porta da paz, devem ser resolvidas algumas questões essenciais de verdade e de justiça, de direitos e de responsabilidades. O mundo olha para o Médio Oriente com esperança e preocupação, enquanto aguarda qualquer sinal de diálogo construtivo. Ainda existem muitos obstáculos graves, mas o primeiro passo rumo à paz deve ser a firme convicção de que é possível alcançar uma solução no contexto dos parâmetros da lei internacional e das resoluções da Organização das Nações Unidas. Exorto uma vez mais todos os povos interessados, assim como os seus líderes politicos, a reconhecerem que o confronto fracassou e jamais obterá bom exito. Somente uma paz justa pode criar  as  condições  necessárias  para  o desenvolvimento económico, cultural e social a que os povos desta região tem direito.

 

Obrigado, Senhor Presidente. Obrigado a todos vós:  Shukran!

 

Que o vosso futuro seja repleto das bençãos do Deus Omnipotente. A sua paz esteja sempre convosco:  As-salámû 'aláikum!

publicado por Victor Tavares Morais às 22:31 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Polaroids de férias

 

[Pescador em Inle Lake, Birmânia, junto à fronteira com a China]

publicado por Paulo Marcelo às 11:32 | comentar | ver comentários (2) | partilhar
Sábado, 28.07.12

Sensibilidade e bom-gosto

Estes são os Jogos Olímpicos da austeridade, como ficou evidente na cerimónia de abertura - uma grande economia de sensibilidade e bom-gosto.

publicado por Victor Tavares Morais às 11:42 | comentar | ver comentários (2) | partilhar
Sexta-feira, 27.07.12

Da série "Hoje apetece-me ouvir isto"


[U2 - One]
publicado por Paulo Marcelo às 16:32 | comentar | partilhar

Da série “O sorriso do lobo”

Quando leio a recomendação da OCDE de equiparação salarial entre o sector público e o sector privado, aumentando os salários dos funcionários públicos qualificados e diminuindo os salários dos menos qualificados, pergunto-me em que grupo de qualificação estarão inseridos os professores do ensino estatal básico e secundário? E, dependendo da resposta a esta pergunta, o que fazer com os seus salários? Baixar-lhes os salários ou baixar-lhes os salários?

publicado por Nuno Lobo às 11:46 | comentar | ver comentários (25) | partilhar

Olímpico

"Antes de Passos Coelho o PSD, longe do poder, era uma federação de Câmaras que se aliavam e guerreavam para fazer e desfazer as direcções nacionais" "O Primeiro-ministro veio agora dizer que esse tempo acabou e que daqui em diante subordinará o partido ao interesse nacional, como ele o entende. A este acto de inteligência e coragem, o público informado respondeu com comentários rasteiros que envergonham um morto" 

 

Vasco Pulido Valente (Público 27-7-2012)

publicado por Pedro Pestana Bastos às 09:59 | comentar | ver comentários (5) | partilhar

Os jornalistas e as redes sociais

Através do Fórum de Jornalistas, tomei conhecimento que a Associated Press publicou recentemente um código de conduta para a utilização das redes sociais por parte dos seus jornalistas. Segundo este código, as redes sociais não são espaços privados, mas sim complementos à sua actividade profissional, e como tal, os jornalistas da AP terão de reger-se por um conjunto de regras. Entre as várias directivas da AP, há alguns aspectos interessantes: a opinião política é simplesmente proibida, se têm relacionamento com políticos, estes devem ser de ambos os lados, "breaking news" devem ser dadas primeiro à redacção e só depois nas redes sociais e devem evitar comentários "insultuosos" para terceiros, sejam eles equipas desportivas, celebridades, empresários ou políticos. Ao lado destas regras gerais, há directivas sobre como comportar-se no Twitter, em relação às fontes, à privacidade e até a política de "amigos/seguidores".

 

Alguns aspectos são claramente exagerados e outros sem grande sentido. Mas, a questão de fundo é outra, pois esta é uma realidade que meios de comunicação vão começar a olhar com mais atenção no futuro. Como diz o post do Fórum, outros media estrangeiros já tomaram medidas idênticas. A principal preocupação dos gestores parece ser lidar com a reputação da marca. Ninguém duvide que um jornalista numa rede social pode causar imensos problemas ao meio onde trabalha, especialmente se for usual publicar conteúdos impróprios ou se transformar as suas contas em centros de activismo político. Há excepções, nomeadamente com alguma imprensa assumidamente de esquerda ou direita que existe em países estrangeiros, onde isto não será um problema. Mas é evidente que na imprensa que faz da isenção um porta estandarte, pode ser problemático ter jornalistas nas redes sociais a constantemente afirmarem a sua ideologia através dos conteúdos que publicam. E depois há os maus comportamentos. Um exemplo óbvio é que não podemos ter um jornalista a insultar um político nas redes sociais, e uma semana depois fazer uma reportagem sobre ele. Que credibilidade tem este meio ou este jornalista? Isso parece-me inaceitável. Mas a dúvida que eu tenho é se é preciso criar estes códigos de conduta, que no caso da AP, será lei dentro da agência. Aceito que os meios sintam a necessidade de ter linhas internas para os seus jornalistas, mas parece-me que o bom senso é sempre mais eficaz do que um regulamento qualquer. E se existirem exageros, aí sim, actuar internamente de forma a corrigir esses erros, que, quer queiram ou não, acabam por prejudicar o jornal, televisão ou rádio. 

 

publicado por Nuno Gouveia às 00:55 | partilhar

Ainda sobre os professores

Uma das dificuldades (talvez até a maior) quando se debate a política de educação é a informação base sobre os números. Pretende-se saber qual o custo (recordam-se do debate sobre o apoio do estado ao ensino particular e cooperativo?) por aluno no básico ou secundário e são várias as estimativas disponíveis mas o número em concreto ninguém sabe ao certo. O mesmo com a evolução do nr. de professores do quadro e dos contratados. Mesmo a informação sobre o nr. de alunos matriculados difere consoante as fontes. De acordo com uma publicação recente (que já sofreu uma retificação), do Ministério da Educação, a evolução do número de professores nos últimos 4 anos é a seguinte:

 

2007/08

2008/09

2009/10

2010/11

Total

142.018

142.834

143.109

139.837

Quadro

118.419

111.356

107.717

103.861

Contratados

23.599

31.478

35.392

35.976

 

 

 

 

 

 

 

Variação

Total

 

0,6%

0,2%

-2,3%

Quadro

 

-6,0%

-3,3%

-3,6%

Contratados

 

33,4%

12,4%

1,7%

 

 

Ou seja, o nr. de professores aumentou entre 2007/08 e 2009/10. Em 2010/11 regista-se a primeira redução do nr. total de professores.  Mas o nr. de professores contratados aumentou sempre e o inverso aconteceu com os professores do quadro (que se aposentaram nos últimos anos). Não existem dados disponíveis sobre o ano lectivo que agora findou mas não é de esperar uma alteração na tendência acima evidenciada. Percebe-se a preocupação dos professores mas já não se entende muito bem o cenário de catástrofe anunciada pois os mesmos números mostram que a recente redução (apenas no ano letivo de 2010/11) do nr. de professores se deu não pela via do despedimento mas sim pelo “balanço” entre saídas para a reforma e entradas de contratados. Saliente-se que com o Governo PS os concursos para substituição de professores do quadro (que se realizavam anualmente) passaram a ser de quatro em quatro anos. Os números são o que são e até por isso seria desejável que o Ministério divulgasse qual a projecção para o próximo ano letivo. Assim se pouparia muita polémica.

publicado por Vasco Mina às 00:32 | comentar | ver comentários (14) | partilhar

As guerras do Levante (II)

 

A Europa necessita rapidamente de gás para satisfazer a sua sede de energia, e a sua produção própria está em declínio. São necessários aproximadamente 30 Bcm/ano de capacidade de reserva para não fazer aumentar, ainda mais, a dependência da Rússia. E para estas quantidades, como expliquei no post anterior, não há muitas alternativas – e algumas que havia foram colocadas a hibernar.

Em Dezembro do ano passado falei aqui da ebulição que está a acontecer no Mediterrâneo Oriental onde de repente se preparam para despontarem dois petro-estados: Chipre e Israel. O problema é que ambos disputam com países vizinhos os limites territoriais das suas reservas energéticas o primeiro com a Turquia e o segundo com o Líbano e a Síria.

Estes recursos estão situados no mar mediterrânico, na bacia do Levante onde se estimam que existam reservas de aproximadamente 122 Tcm de gás e 1,7 biliões de barris de petróleo para o conjunto dos quatro países (fonte da empresa americana que ganhou as concessões para a exploração). E aqui, Israel já se antecipou e promete em cinco anos uma capacidade de exportação na ordem dos 20 Bcm/ano na forma de gás natural liquefeito (LNG). Os grandes projectos em curso são Tamar (o mais adiantado) e o Leviathan, onde estão projectadas grandes plantas de extracção e liquefacção de gás para depois o exportar na forma de LNG. Esta opção é aparentemente a mais racional oferecendo a Israel a hipótese de exportar para a Europa ou para a Ásia, onde o gás poderá valer mais. Hoje ninguém parece acreditar na possibilidade de exportação directa deste gás para a Europa por gasoduto terrestre, onde o gás israelita podia competir directamente com o gás russo. E porquê? Porque neste caso teria que atravessar a Síria.

Como todos concordam, um resultado favorável para Israel, da guerra civil na Síria, é a queda do regime e a sua substituição por um menos incompatível – este é um factor decisivo (como se diz em português moderno um gamechanger) neste enorme jogo de interesses económicos. Primeiro, porque pode abrir a alternativa a Israel do gasoduto terrestre passando pela Síria e pelo apetecível mercado turco e com entrada no mercado da UE pela Grécia. Segundo, mesmo com a opção pelo gás natural liquefeito a queda do regime sírio poderá tirar o apoio ao Hezbollah no Líbano, o que para além de aumentar a segurança das fronteiras terrestres a norte de Israel, vai também aumentar a segurança no mar Mediterrâneo protegendo as infraestruturas energéticas de potenciais ataques hostis; e, mais importante, favorecer a negociação das fronteiras marítimas em disputa com os governos do pós-guerra do Líbano e da Síria para a distribuição de tão valiosos recursos energéticos. Quanto à hipótese de um gasoduto submarino que ligue também o Chipre e entre na Europa directamente pela Grécia – pessoalmente, acho que não interessa nem à Turquia e menos ainda aos investidores americanos, pelo facto de passarem ao lado deste enorme mercado e importante aliado.

 

Neste caso, por muito que os média fustiguem a opinião pública mundial com as barbaridades da guerra, a Rússia nunca estará disponível para colaborar – não abrirá de boa vontade o corredor do Levante a Israel e às empresas petrolíferas americanas. As guerras têm sempre uma componente económica, e esta não é diferente.

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publicado por Victor Tavares Morais às 00:07 | comentar | ver comentários (7) | partilhar

Grande Final (169)

 

Nanook of the North, Robert J. Flaherty, 1922

publicado por Carlos Botelho às 00:00 | comentar | partilhar
Quinta-feira, 26.07.12

Eu não sei se são loucos ou se acham simplesmente que os outros são muito tolos

Vejamos: os funcionários públicos têm uma segurança no emprego que no sector privado não existe; os funcionários públicos têm uma avaliação de desempenho risível quando comparada com a avaliação praticada do sector privado; os funcionários públicos têm o diligente tribunal constitucional a defender-lhes os valores dos ordenados, mesmo com o estado falido; os funcionários públicos têm acesso à prestação de cuidados de saúde em instituições que os trabalhadores do sector privado só têm pagando directamente ou comprando seguros de saúde; etc.; etc.; etc.. Com todas as benesses que oferece o serviço público, só alguém muito convencido da indigência intelectual alheia pode sugerir a necessidade de aumentar salários no sector público para os equiparar ao sector privado, como se não fosse razoável que as tais benesses - que têm o seu valor pecuniário - se concretizassem em mais baixos ordenados no serviço público. Mas lendo o que a OCDE considera 'razoável', ficamos esclarecidos sobre quem produz tais razoabilidades.

publicado por Maria João Marques às 18:19 | comentar | ver comentários (24) | partilhar

Cachimbos de lá


Pierre Etaix (?), Trafic, 1971
publicado por Pedro Picoito às 12:35 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

A espécie, afinal, ainda não se extinguiu

É verdade. Escutaram-se vocalizações inconfundíveis de um indivíduo da espécie em questão. Já quase se tinha perdido a esperança de haver vida inteligente naquele ecossistema. Havia já sinais que levavam a crer haver ainda daqueles indivíduos -  inteligentes, mas com um comportamento mais discreto, por estarem em inferioridade numérica relativamente a outros especímenes. Estes últimos, dotados de equivalências zoomórficas e valendo-se de outros expedientes, acabam por mitigar as suas capacidades intelectuais inferiores com a espessura notória das caixas cranianas, com a vantagem do número e com as reacções em manada, nas proximidades das zonas donde vão retirando o seu sustento.

Mas, agora, é certo: para espanto da comunidade científica, já quase desenganada, e dos simples como eu, foi avistado e escutado um social-democrata no Partido Social Democrata. Podem ouvir, aqui, a partir dos 3m. 50s.

publicado por Carlos Botelho às 12:01 | comentar | ver comentários (4) | partilhar

Coisas

É pesaroso, compungido pelo atrevimento, que venho aqui com coisas... maçadoras, desagradáveis, mas elas estão aí e são, certamente, inarredáveis -  enquanto as não arredarmos. Se as arredamos do mundo ou somente da nossa vista, é outra história, que terá a moral que quisermos que ela tenha. A moral não depende dos deuses, nem das pedras, ou das coisas inertes. Depende de nós.

A nossa linguagem, a linguagem que escolhemos, também não é inerte. Nem inerme. Assim, cabe perguntar: "viver ao nível das nossas possibilidades" é isto aqui?...

publicado por Carlos Botelho às 11:31 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

As guerras do Levante (I)

 

A Síria é agora a porta que uns querem abrir (ou arrombar) e outros querem manter bem fechada. Muitos perguntam porque se prolonga e agudiza aquela guerra dado que aparentemente não há móbil económico conhecido, porque investem tanto a Rússia como a Turquia naquele país, em lados opostos, porque há homens da CIA e da Mossad também no terreno em apoio aos rebeldes, sem no entanto conseguirem ouvir uma explicação que os satisfaça e que una os pontos. Aviso que não tenho essa pretensão, apenas desejo escrever sobre uma vertente desta complexa guerra.

Muito do que vemos e ouvimos no espaço informativo não ajuda, explica mal o que se está a passar no terreno e muito pouco do que efectivamente acontece nos bastidores da política internacional. A informação que nos chega sobre a guerra civil na Síria merece e deve ser devidamente filtrada; nomeadamente a do mainstream noticioso (da CNN à Al-Jazeera) e das despreocupadas agências noticiosas nacionais.

Uma razão para nós europeus exigirmos ter melhor informação é porque esta guerra ainda nos diz respeito – esta é, também, uma guerra pelo acesso aos mercados europeus e em particular ao mais apetecível de todos: o mercado da energia.

Vejamos então esta vertente da guerra (não sei se a mais importante), o caso concreto do mercado da energia: a Europa é ainda um muito desejado mercado para os países exportadores de recursos energéticos e não está a conseguir libertar-se do espartilho movido há já algum tempo pela Rússia. Face às quantidades em jogo para satisfação das necessidades futuras de energia na Europa, agora que países como a Alemanha, a Bélgica e a Itália desistiram da opção nuclear, poucas são as soluções alternativas aos russos. Na verdade, para as quantidades em jogo, havia apenas duas alternativas aos russos: o Norte de África e o Irão, todas as outras apenas mitigavam o problema. O gás que possa vir de outros países de leste como o Azerbeijão ou do Turquemenistão não ameaça seriamente as ambições de Putin. A Rússia conduz uma estratégia sem diversificação que também a torna, cada vez mais, dependente da cativação da Europa – de quem quer ser o principal fornecedor arriscando a que esta seja o seu principal consumidor. A dependência económica russa dos recursos naturais (energias fósseis), e a falta de mercados de dimensão alternativos à Europa, faz com que o fracasso desta estratégia não seja sequer admissível por Moscovo – poderiam conduzir a convulsões sociais inimagináveis.

A estratégia da Rússia passa por “secar” as alternativas concorrentes através de alianças estratégicas. Depois das alianças com as companhias energéticas alemãs e até mesmo com os governos regionais na Alemanha já conseguiu alianças estratégicas com importantes países europeus, países que podiam oferecer entradas a sul: a Itália e a França. À Itália (à ENI), com o elevado patrocínio de Putin, amigo e aliado indefectível de Berlusconi, foi oferecida participação em importantes investimentos em projectos na Rússia e nos gasodutos que transportarão o gás de leste até à Europa. Com a França foi usada a mesma estratégia e a GDF tem já um importante conjunto de alianças na Europa com a Gazprom. A neutralização destes dois países era importante, ambos podiam oferecer uma alternativa ao gás da Rússia, o gás proveniente do Norte de África, nomeadamente da Argélia, e da Líbia. Sabendo o estado a que foi conduzida a região não é necessário fazer aqui mais desenvolvimentos sobre esta hipótese e a confiança que esta oferece aos investidores.

Sobra ainda a outra alternativa, capaz de satisfazer o apetite energético europeu e competir com os russos: o Irão.

O Irão, por razões sobejamente conhecidas, era até há pouco uma carta fora do baralho para o fornecimento de energia à Europa, até que a Turquia (secundando a China) a resolveu usar. Desde que o poder mudou na Turquia, a sua relação com o Irão tem sido muito ambígua, parecendo acatar as resoluções internacionais mas simultaneamente defendendo-o da aplicação das sanções económicas e até aumentando as trocas comerciais com aquele país. Uma das razões é a sua dependência energética. A Turquia vem mantendo com a Rússia um importante braço de ferro energético (mas também alianças pontuais) e não deseja aumentar o seu grau de dependência - as ambições de potência regional assim o exigem. A Turquia anunciou recentemente um importante investimento – o início da construção de um gasoduto de 5000 km com capacidade para 35 Bcm/ano para simultaneamente importar gás directamente do Irão para o seu mercado interno e exportar para a Europa (o curioso, e para quem não saiba, é que o gás iraniano, ao contrário do petróleo não está sujeito a sanções). A Rússia nunca acreditou seriamente na concorrência iraniana pelo mercado energético europeu, e sempre desconfiou da possibilidade da concretização de uma aliança de iranianos e turcos – a história corroborava esta opinião suportada na falta de confiança mútua. Pode não passar de um bluff de Erdogan, para objectar à decisão russa pelo South Stream, vamos aguardar para ver porque a história não acaba aqui.

 

Por agora, os russos estão demasiadamente concentrados a dificultar a vida a um concorrente de última hora, bem mais credível - o mais recente potencial petro-estado do Mediterrâneo Oriental. Estão a tentar obstruir a entrada do gás de Israel no mercado energético da Europa, pelo corredor do Levante: a Síria. É que Israel, como a Rússia, alimenta a ambição de abastecer a Europa, depois das extraordinárias descobertas de gás na bacia do Levante.

 

No próximo post vou tentar explicar as ambições israelitas e como se cruzam na guerra civil da Síria os interesses opostos de Israel e da Rússia numa violenta guerra que é também económica. Esta é uma das guerras que se trava no Levante.

 

(contínua)

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publicado por Victor Tavares Morais às 00:07 | comentar | ver comentários (12) | partilhar
Quarta-feira, 25.07.12

E assim termina o sonho olímpico de uma jovem atleta

 

Uma atleta grega fez um comentário de mau gosto que foi considerado racista. Quando percebeu que ofendeu pessoas pediu perdão de forma clara e pública. Sem apelo nem agravo o Comité Olimpico não perdou e mandou a atleta para casa.

Quatro anos de sonho e de esforço terminaram assim porque uns burocratas não perdoaram um momento menos feliz. Contam com o aplauso do politicamente correcto e desfizeram uma jovem atleta que se preparou anos para um sonho.

Muito pior do que o comentário é a postura arrogante de quem não aceita um pedido de desculpas. Perdoar é o modo mais sublime de crescer. Pedir perdão é o modo mais sublime de se levantar.

publicado por Pedro Pestana Bastos às 23:35 | comentar | ver comentários (7) | partilhar

O jornalismo na vanguarda do debate político

Ontem, o editorial do PÚBLICO terminava com um conselho ao Primeiro-Ministro para não lixar os eleitores. Hoje, o líder parlamentar do PS critica o Primeiro-Ministro por estar-se a lixar para os eleitores. O jornal PÚBLICO já não noticia nada; faz política. O PS já não pensa nada; segue a voz do PÚBLICO.

 

PS. Mais risível ainda do que o facto de o editorial do PÚBLICO se ter lembrado que o Primeiro-Ministro se assemelha a um "líder messiânico", é a ideia de que o PS tenha efectivamente brindado o Governo com "muitos desafios" que pudessem ser levados a sério.  

publicado por Nuno Lobo às 17:02 | comentar | ver comentários (8) | partilhar

Aleppo

 
 

OTHELLO:

Soft you; a word or two before you go.

 I have done the state some service, and they know't.

 No more of that. I pray you, in your letters,

 When you shall these unlucky deeds relate,

 Speak of me as I am; nothing extenuate,

 Nor set down aught in malice: then must you speak

 Of one that loved not wisely but too well;

 Of one not easily jealous, but being wrought

 Perplex'd in the extreme; of one whose hand,

 Like the base Indian, threw a pearl away

 Richer than all his tribe; of one whose subdued eyes,

 Albeit unused to the melting mood,

 Drop tears as fast as the Arabian trees

 Their medicinal gum. Set you down this;

 And say besides, that in Aleppo once,

 Where a malignant and a turban'd Turk

 Beat a Venetian and traduced the state,

 I took by the throat the circumcised dog,

 And smote him, thus.

 

[Stabs himself]

 

Shakespeare, Othello, V, 2, 388-406.

publicado por Carlos Botelho às 17:00 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Cachimbos

O Cachimbo de Magritte é um blogue de comentário político. Ocasionalmente, trata também de coisas sérias. Sabe que a realidade nem sempre é o que parece. Não tem uma ideologia e desconfia de ideologias. Prefere Burke à burqa e Aron aos arianos. Acredita que Portugal é uma teimosia viável e o 11 de Setembro uma vasta conspiração para Mário Soares aparecer na RTP. Não quer o poder, mas já está por tudo. Fuma-se devagar e, ao contrário do que diz o Estado, não provoca impotência.

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