Terça-feira, 21.07.09

ESCOLex SIMplex

Um belíssimo exemplo da Escola "socrática" aqui.
Para prevenir as choraminguices falaciosas que se restringirão ao caso particular, convém ficar claro que o problema não está no caso em si, mas sim no facto de ele ser possível. Possibilitado (na verdade, encorajado e catequizado) por maravilhas como esta.
Tudo isto é feito em 'nome da liberdade, do progresso e do modernismo, contra o obscurantismo.' Como se calcula, é duma Escola destas que os jovens sairão mais livres, mais "modernos" e "iluminados", claro. É desta forma que a Escola "socrática" 'acerta o passo com a Europa e o vasto mundo desenvolvido' [sic].
A única vastidão que se vê nisto é a do deserto.
publicado por Carlos Botelho às 16:01 | comentar | ver comentários (5) | partilhar
Quinta-feira, 16.07.09

Uma cena exemplar

É claro que a esta atrapalhação bolseira não é alheio o cansaço das personagens. O cansaço físico, mais do que o político. Esse cansaço é bem real para quem está naquelas funções, por mais detestável que seja o protagonista. Mas, na verdade, esta cena é o resultado de andar a fazer anúncios de mundos e fundos em catadupa. O primeiro-ministro não consegue acompanhar o passo da sua própria vertigem propagandística. À força de querer mostrar, anunciar este número e mais este e ainda este aqui, Sócrates e parceiros enredam-se e enrodilham-se na trapagem confusa das suas medidas, atiradas a esmo através das televisões, num delírio numérico que mal nos deixa respirar.

O anúncio (mais um...) do aumento das vagas do "ensino profissional" de 90 000 para 125 000 é revelador de quais são as verdadeiras preocupações do primeiro-ministro a respeito da Escola e de como ele a vê. Por um lado, para Sócrates, a Escola é, primeiro que tudo, um meio de que se serve descaradamente para fazer propaganda. Por outro, repisa a importância do "ensino profissional" não, note-se, para dotar jovens de "qualificações", que valeriam por si e poderiam alargar perspectivas profissionais, mas sim para diminuir o "insucesso" e o "abandono escolar". Explica ele, sábio, que o "ensino profissional" costuma registar mais "sucesso".
Parece, então, que a Escola já não é bem uma Escola: pelos vistos, deverá antes ser um sítio para os jovens estarem, cumprindo a função de estar simplesmente ali, com "sucesso" praticamente garantido.
Pense-se no efeito que estas lérias do primeiro-ministro, esta associação praticamente necessária entre "ensino profissional" e "sucesso"/"não-abandono escolar", que este discurso intoxicante tem nos rapazes e raparigas que demandam aquele ensino - muitos deles com uma auto-estima escolar muito débil e com objectivos inexistentes. Pessoas como estas são facilmente condicionadas por aquele discurso de Sócrates. Ele diz-lhes, num certo sentido, o que elas, devido à sua fragilidade escolar e social, querem ouvir. Entram naquele "ensino" convencidas de antemão que, ali, o sucesso é muito mais acessível - por outras palavras, que aquele "ensino" requer não um outro tipo de esforço, mas sim menos esforço. Ora, como sabemos, estas predisposições reproduzem-se e acabam por condicionar o trabalho e os critérios de avaliação que os professores aplicarão aos alunos. Não é preciso ser um génio para se perceber os efeitos que isto terá na qualidade do tal "ensino". Depois veremos as "competências" com que os jovens sairão do "ensino profissional" "socrático". E de que lhes servirão num mercado de trabalho já tão estruturalmente pobre como o nosso.
Mas isso não preocupa Sócrates e a sua trupe da Cinco de Outubro.

publicado por Carlos Botelho às 23:03 | comentar | ver comentários (3) | partilhar
Terça-feira, 14.07.09

Mais motivos de orgulho, patriotas!

Depois da nação se ter lustrado neste orgulho - vejamos aqui a responsável "socrática" a aspergir os Portugueses com o orgulho inaudito de haver mais positivas do que negativas 'a Português e a Matemática' (e não, repare-se, em Português e em Matemática) -, temos, agora, mais um motivo para nos atafulharmos de mais orgulho, para não cabermos em nós de altivez educativa: a trapalhada de instruções contraditórias (por omissão de uma ou das duas re-correcções) enviadas (ou não...) aos professores correctores, já depois dos exames de Português terem sido feitos pelos alunos.
Avançar Portugal!
Pois.
publicado por Carlos Botelho às 13:27 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Demência

Foram hoje conhecidos os resultados dos exames nacionais do Ensino Básico (Português e Matemática). Comparando com o ano lectivo anterior, houve uma diminuição considerável na percentagem de classificações negativas em Matemática (de 44,9% para 36,2%) e um aumento (praticamente uma duplicação!) na de Português (de 16,7% para 30,1%).
Independentemente de se tratar de subidas ou descidas, o que nos deve preocupar talvez acima de tudo é darem-se estas variações: nem se trata de oscilações, mas sim de autênticos arrancos, sacões, em que, de um ano para outro, se salta ou se cai dez e mais pontos. Há um problema de fiabilidade nestes levantamentos. E, pior ainda, surgem, justissimamente, dúvidas sobre a seriedade e a competência das orientações e critérios com que se elaboram os exames. Como se pode avaliar um processo que apresenta toda esta inconstância? É claro que este ministério da Educação não parece preocupado com isso: preocupa-se somente em produzir propaganda disparatada (como a acusação à Sociedade Portuguesa de Matemática [!] pelos maus resultados dos últimos exames, etc.). A "equipa" da Cinco de Outubro já nem sequer é um parceiro para uma discussão séria sobre o assunto - tem de ser combatida com paciência de Job até Setembro.
Há, nos resultados tornados públicos hoje, um "pormenor" que não deve ser desprezado: veja-se aqui que, tanto em Português que "piorou" muito, como também em Matemática que "melhorou", deu-se um aumento não despiciendo do número de alunos classificados com a nota mais baixa (nota de 'um'): de 310 para 700, em Português e o que é mais espantoso, de 3107 para 3623, em Matemática. E isto é ainda mais sério, se nos lembrarmos que o aumento é acompanhado por uma diminuição do universo dos alunos examinados: de 94832 em 2007/08 para 90184 este ano! Quer dizer, aumentou consideravelmente o número de alunos que praticamente não conseguiram responder a nada ou quase dos exames...
Nenhuma pessoa no seu perfeito juízo se deve alegrar com estes resultados: continuamos com mais de um terço de classificações negativas em Matemática e com uma duplicação vergonhosa das negativas em Português. Ora, o que diz a isto a senhora ministra da Educação? Isto (leiam sentados, por favor):
publicado por Carlos Botelho às 01:51 | comentar | ver comentários (3) | partilhar
Sexta-feira, 10.07.09

A vertigem do delírio

Fugindo da realidade para diante - aqui.
publicado por Carlos Botelho às 16:36 | comentar | ver comentários (15) | partilhar
Sexta-feira, 03.07.09

A ministra desajustada

Queixa-se a ministra da Educação (um cargo de designação irónica) que as quatro propostas de Manuela Ferreira Leite para o campo de batalha em que Sócrates transformou a Escola estabelecem um "clima de ódio desajustado". Vinda de quem vem, é uma acusação que faz sorrir. Uma ministra que, ao lado dos inesquecíveis Lemos e Pedreira, amparados os três pela sempre pronta gritaria "socrática" e por meia-dúzia de tiranetes-serviçais da província, pouco mais fez do que lançar uma rede de ódio sobre a Escola, fomentando politicamente, como nunca se tinha visto, o azedume e a aversão entre pais, professores e alunos.
Lurdes Rodrigues apenas repete aqui os lugares-comuns tipicamente reaccionários da predilecção do seu Chefe: a velha litania do "eu construo e vocês destroem", etc. Num sentido, é natural que assim seja, porque já não têm mais nada para dizer para lá dessas banalidades repetitivas. Já se sentem perdidos, encurralados por todos os lados. Refugiam-se, assim, numa monomania sem qualquer relação com a realidade.
As quatro propostas gerais de Ferreira Leite só são negativas na medida em que negam. São, na verdade, medidas higiénicas. Trata-se de remover os escombros da política educativa de Sócrates. Os escombros e o entulho que Sócrates/Lurdes Rodrigues/Valter Lemos deixam atrás de si são: o abstracto e desencarnadamente artificial estatuto da carreira docente; o chamado "estatuto do aluno", já um remendo sobre remendos, monumento da inacreditável incompetência técnica e da manipulação ardilosa dos alunos e famílias (sacrificando a educação de milhares de jovens com o engodo do aproveitamento fácil mascarado de assiduidade falsamente exigente); o famoso modelo de "avaliação" dos professores (a "simplificação" cosmética não alterou a sua natureza iníqua e perniciosa); finalmente, o burocracismo perverso que esta gente multiplicou exponencialmente nas escolas.
Que se pode fazer a isto senão arredá-lo? É isso que Ferreira Leite, e bem, se propõe fazer.


Por outro lado, é irresistível comparar este piedoso queixume de Lurdes Rodrigues: "o sistema educativo precisa de estabilidade, de continuidade" ou que "procurou nunca destruir o que os antecessores tinham feito", com a sua política verdadeiramente desestabilizadora (dirá a acefalia "socrática" que se tratou do combate aos "privilégios" e tal) e, mais, com as afirmações que reiteradamente produziu, segundo as quais cortava com "trinta anos de governos" em políticas de educação ou com este discurso na conferência O Estado e a Educação em que alardeia a "exigência de rupturas com o passado recente"...

A primeira grande dificuldade do futuro governo, no que respeita à Escola, será a quantidade de escombros que vai encontrar pela frente...
publicado por Carlos Botelho às 23:15 | comentar | ver comentários (9) | partilhar
Sábado, 27.06.09

"Os votozinhos, os votozinhos"

O que se faz pelos "votozinhos". Depois de se andar a massacrar o Ensino durante três anos. Gente séria.


(Num certo sentido, não nos deviamos admirar. Afinal, esta gente exemplar está a reger-se pelos mesmos critérios que quer impôr aos alunos, aos professores, ao ensino: o "sucesso". Todo o resto, tudo, lhe deve estar subordinado.)
publicado por Carlos Botelho às 22:36 | comentar | partilhar
Terça-feira, 23.06.09

Doze anos de Ciência

Estas maravilhas ajudam a explicar o estado de quase indigência "científica" em que, todos os anos, desembocam no Ensino Secundário milhares de rapazes e raparigas.
É de esperar o pior, quando a escolaridade obrigatória for esticada até ao 12ºAno...
publicado por Carlos Botelho às 01:35 | comentar | partilhar
Segunda-feira, 22.06.09

A caminho da Ciência

Dezenas de milhar de alunos do 9º Ano fizeram hoje o exame de Matemática [este e podem espreitar os critérios de correcção aqui]. No mesmo dia em que o senhor primeiro-ministro entreteve esta cerimónia.
Lá esteve ele com aquele seu entusiasmo ensaiado e aquela sinceridade treinada que quase diariamente derrama sobre nós. Falou-nos de Ciência, da importância que ela tem para si, da sua preocupação esforçada pela Ciência para Portugal. Independentemente do conteúdo facial da cerimónia (objectivos, estratégia e resultados de parceria com universidade norte-americana), o que sobressai nela, o que Sócrates quer que sobressaia dela (e lá estavam as televisões para isso), é o seu empenho político na formação científica em Portugal, na "produção" de investigadores - é isso que importa aqui. O conteúdo daquela cerimónia (pouco mais que propaganda pura) é político.
Comparemos então a alardeada paixão "socrática" pela Ciência com passagens de um documento sério de gente, esta sim, que sabe do que fala: o parecer da Sociedade Portuguesa de Matemática a respeito do exame de hoje (sublinhados meus):

"(...) O nível geral da prova é de novo demasiado elementar. O exame destina-se a alunos no final da escolaridade obrigatória. Após nove anos de ensino de matemática exigir-se-ia um maior grau de dificuldade.
(...)
Em quase todas as perguntas, os conceitos são testados com exemplos demasiado elementares. Os cálculos são todos muito simples, a equação do segundo grau é trivial, para mais sendo fornecida a fórmula resolvente, e os exemplos de geometria são demasiado directos.
Não há problema algum em introduzir num exame perguntas de anos anteriores ou de grau de dificuldade baixo. O que é prejudicial é que um número exagerado de perguntas corresponda a tópicos que deveriam estar sabidos anos antes e que todas ou quase todas as perguntas tenham um grau de dificuldade muito baixo.
Grande parte da matéria essencial do 9.º ano de escolaridade não foi coberta por esta prova. (...)
Tanto professores como alunos que se empenharam durante estes anos lectivos sentem-se desacompanhados e desapoiados com esta prova. O que exames deste tipo transmitem é a ideia de que não vale a pena estudar mais do que as partes triviais das matérias. Tanto os jovens que prosseguem os seus estudos no Secundário como os que terminam aqui a sua escolaridade não podem concluir estar bem preparados pelo facto de conseguirem um resultado satisfatório neste exame.
Pode pensar-se que provas elementares têm a vantagem de ajudar a perceber que as questões matemáticas não são intransponíveis. Mas estabelecer patamares demasiado baixos, em vez de incentivar a mais estudo e mais conhecimento, acaba por prejudicar todos — tanto os melhores, que se sentem desincentivados, como os menos treinados, que sentem menos necessidade de trabalhar para aumentar o seu domínio das matérias. Em suma, uma prova demasiado elementar como esta não serve o progresso do ensino. Pelo contrário, cria precedentes difíceis de contrariar."

É assim que se pretende criar as condições para um efectivo "desenvolvimento científico"? É assim que se estimula a formação científica?...
publicado por Carlos Botelho às 23:53 | comentar | partilhar

Cachimbos

O Cachimbo de Magritte é um blogue de comentário político. Ocasionalmente, trata também de coisas sérias. Sabe que a realidade nem sempre é o que parece. Não tem uma ideologia e desconfia de ideologias. Prefere Burke à burqa e Aron aos arianos. Acredita que Portugal é uma teimosia viável e o 11 de Setembro uma vasta conspiração para Mário Soares aparecer na RTP. Não quer o poder, mas já está por tudo. Fuma-se devagar e, ao contrário do que diz o Estado, não provoca impotência.

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