Quarta-feira, 27.06.12

Notícias da frente Leste (a Ucrânia)

 

O jornalista Miguel Gaspar tem assinado esta semana no Público uns artigos interessantes sobre a Ucrânia – recomendo a leitura. A Ucrânia é um caso complexo, como explicava um cidadão ucraniano ao jornal de segunda-feira, a Ucrânia é metade Europa, metade Ásia, um país bipolar onde a sua política é um confuso reflexo desta realidade. A União Europeia desejou a inclusão da Ucrânia no seu espaço de influência política e económica, hoje nem tanto, ao contrário, a pretensão da Rússia de a arregimentar para o seu espaço político a leste é continuamente reforçada.

Estou convencido que a União Europeia deu a Ucrânia como um caso perdido, prefere vê-la como aliada da Rússia do que como um factor de instabilidade e perturbação (nomeadamente no fornecimento de gás à Europa). A Ucrânia lê bem estas intenções e acusa a UE, a coberto das boas relações que alguns dos seus Estados Membros mantêm com a Rússia, de a empurrar para os braços do urso. Quem está muito preocupada com tudo isto é a Polónia, preferia não arriscar a ver a Ucrânia ser asfixiada pelo abraço (ao que noticiam, na inauguração do Euro 2012 o indesejado presidente ucraniano passeou-se pelos tapetes vermelhos de Varsóvia).

A verdade é que, a Ucrânia nada fez para confirmar as diversas alianças (económica e energética) que lhe foram oferecidas pela UE – desaproveitou todas as oportunidades e, pior, fazendo uso de manobras simplesmente oportunistas. Agora, se pretendesse voltar atrás provavelmente seria tarde, estou entre os que acreditam que aumentaram, e muito, as probabilidades de a Rússia, após as eleições de Outubro na Ucrânia, fazer uma “tomada hostil” (sem tanques nem violência) à qual a UE vai assistir com uma contida satisfação.

A Ucrânia está falida e o FMI não parece disposto a salvá-la. Actualmente, só o Gazprombank lhe empresta dinheiro e para comprar gás à Rússia, e a Putin já começa a faltar paciência para as fanfarronices de Yanukovych. A conjugação do desespero financeiro da Ucrânia e da dependência energética da Europa vão ditar o salvo-conduto para a Rússia obter, finalmente, o que tanto deseja: o domínio do operador da rede de transporte de gás (o controlo da Naftogaz, o objectivo mais ambicionado); e a participação da Ucrânia numa união económica e aduaneira a leste, juntamente com a Bielorrússia e o Cazaquistão.

Há mais em jogo na Ucrânia do que a partida de hoje e a final do EURO 2012 no próximo fim-de-semana em Kiev.

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Domingo, 24.06.12

Notícias da frente Leste (a Polónia)

 

 

A Polónia e a Ucrânia são por estes dias palco de outras batalhas que não apenas as desportivas. Estes dois países, determinantes para o futuro da União Europeia a leste, travam uma guerra acesa contra a dependência energética da Rússia, as hipóteses de sucesso não são muitas e os aliados também não.

Vejamos o caso da Polónia, país membro da União Europeia. A Polónia não confia em ninguém, nem nos russos nem nos seus parceiros da UE, apenas em si, e talvez nos norte-americanos. Na passada semana, mais uma vez, fez saber que não está disponível para se "suicidar" às ordens da União Europeia. O seu vice primeiro-ministro e ministro da economia reiterou que a Polónia se opõe aos objectivos obrigatórios inscritos no “Energy roadmap 2050”, proposto pela anterior presidência dinamarquesa da UE. Todos os outros 26 membros da UE já apoiaram as conclusões excepto a Polónia. Mais, quer que a UE só se comprometa com novos objectivos, em termos ambientais, após um acordo mundial e que se deixe de voluntarismos – algo que não vai ser fácil, como tivemos oportunidade de ver na Cimeira do Rio+20.

É fácil criticar esta atitude da Polónia, porém não o devemos fazer com leviandade – a situação polaca é bastante complexa e merece ser tratada como um caso singular. O seu sector eléctrico é dependente do carvão em 90% e as alternativas não são muitas, a opção lógica seria o gás natural, mas a Rússia já fornece 60% do gás consumido na Polónia, o restante gás importado vem da Alemanha, e aumentar esta dependência é algo que os polacos assumidamente não querem. O documento que contém a estratégia de segurança nacional da Polónia é claro: “a maior ameaça à segurança nacional do país é a dependência da sua economia de uma única fonte energética externa”.

Os políticos polacos estão conscientes que a actual indústria do carvão está comprometida e que é preciso fazer a reconversão industrial e tecnológica. O que estão a fazer é a comprar tempo, até que tenham condições de prosseguir com outras tecnologias e fontes energéticas alternativas que lhes garantam a segurança de abastecimento e o progresso económico. Diga-se, em abono dos polacos, que alguma coisa tem sido feita: terminais de GNL, interligações por gasodutos com países vizinhos, primeiro país a avançar com a prospecção de gás não convencional (shale gas), tendo também avançado com produção eléctrica com base em energias renováveis e medidas de promoção da eficiência energética. O Governo polaco aprovou em 2009 um documento com a sua política energética até 2030, no qual prevê, por exemplo, que a tecnologia nuclear venha a representar 17% na produção de energia eléctrica (actualmente não existe) – estão a imaginar a irritação que esta medida provoca na sua vizinha Alemanha (até deu origem a uma queixa à Comissão Europeia).

O que os polacos não estão dispostos a fazer é mudanças radicais de acordo com os calendários e os termos delineados em Bruxelas, e a fazê-lo a qualquer preço – arriscando-se a provocar uma convulsão social grave com destruição do importante sector mineiro, são mais de 110.000 trabalhadores.

Mas há um problema sério, onde a oposição da Polónia não é um facto de somenos para as ambições da União Europeia, agora que toda a agenda europeia parece vir a ser apoiada na transição do modelo energético, até a França já veio dar o seu assentimento. A UE está consciente, se quiser avançar por aí, tem de: reformar primeiro o mercado de emissões. A rentabilidade dos novos investimentos em energias renováveis está dependente de um preço do CO2 elevado. Com o actual preço de mercado do CO2 não há o incentivo necessário para o desenvolvimento rápido das renováveis e do gás, ao contrário do carvão que tem queimado bem. O excesso de oferta de licenças e a crise económica afundaram o preço de mercado do CO2, a tocar agora valores na ordem dos 7€/ton. Com este preço do CO2 até o carvão espanhol das Astúrias o único risco sério que enfrenta é o de ser substituído pelo carvão da Colômbia ou da África do Sul ou mesmo da Austrália.

A Comissão Europeia parecia ter um plano para sair deste limbo e iniciar a reforma necessária na cimeira da próxima semana, mas… mais uma vez a Polónia não está pelos ajustes e vai inviabilizar qualquer alteração ao mercado de emissões. Em alternativa, a Comissão accionou o seu plano de contingência e está a estudar formas de contornar as incitativas que necessitem o consenso dos 27. Deve estar preparada para propor uma qualquer medida administrativa que impulsione artificialmente o preço do CO2 para um valor superior aos 20 €/ton, no médio prazo – só assim a “economia verde” pode ter futuro. Esperemos que no desespero de colocar este mercado a funcionar, a UE não condene um dos seus. A Polónia não merece e os riscos podem ser muito elevados, é que o projecto europeu não tem que, obrigatoriamente, começar a desmoronar-se pelo Sul.

Não está fácil a vida na frente Leste, a situação exige flexibilidade táctica e inteligência estratégica. A Ucrânia é uma outra história, fica para outra oportunidade.

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Quinta-feira, 21.06.12

Verão quente

 

Começa hoje o Verão e já sabemos as previsões meteorológicas para Julho, as datas das greves dos “ricos” e as agendas dos festivais de Verão. Só não sabemos ainda onde vai ser o festival de violência e crime deste Verão, depois de Paris e Londres qual será a cidade europeia escolhida para o evento?

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Sábado, 16.06.12

Inovação energética e (des)industrialização

 

O Governo alemão está numa verdadeira encruzilhada.

A mudança de política energética pode vir a custar aos contribuintes alemães 15.000 M€ só em indemnizações às empresas produtoras (por acto ilegal de expropriação). O plano de transição energética (Energiewende) está a ser o verdadeiro calcanhar de Aquiles da senhora Merkel dentro de portas. São recorrentes as notícias menos favoráveis sobre a política energética alemã: as indemnizações; a demissão do ministro; as várias empresas que ameaçam fechar ou deslocalizar-se. Por exemplo, a empresa de produção de alumínio Voerdal (3ª maior da Alemanha) que emprega 400 trabalhadores queixa-se que os seus custos com a energia subiram mais de 40% decorrente das mudanças políticas, se o governo da Renânia do Norte-Vestefália não a resgatar vai fechar portas.

O Governo alemão também sabe que a conversão do sector eléctrico para a um sector assente em produção renovável vai necessitar de muitas centrais a gás e para que estas sejam construídas: o mercado grossista de electricidade não chega. O mercado não oferece remuneração suficiente, são necessários outros incentivos, algo semelhante a pagamentos por “serviços de garantia de potência”. Foi isto que concluiu um estudo recente que o próprio Governo encomendou à Universidade de Colónia. Portanto, nada de novo, apenas limitaram-se a obter a credenciação científica da solução – aliás, as empresas alemãs já tinham feito saber que não estavam disponíveis para construir as necessárias centrais a gás, para trabalharem menos de 20% das horas do ano, sem a devida compensação. Outros estudos encomendados pelo próprio Governo também não ajudaram, a McKinsey estima que em resultado do novo modelo energético os consumidores alemães vão pagar em 2020 mais 60% pela energia que consomem, passando dos actuais 13.500 M€/ano para 21.500 M€/ano (não inclui a indústria).

Ao contrário do que possa parecer, este não é apenas um assunto de política interna, este tema deve preocupar os demais países europeus, um factor de agravamento significativo nos custos da energia pode tornar a Alemanha bastante sensível à crise económica actual e fazer piorar ainda mais a situação no resto da Europa.

Quer o Governo alemão corrigir esta trajectória? Ainda tem espaço de manobra? Cada vez menos.

publicado por Victor Tavares Morais às 10:00 | comentar | ver comentários (10) | partilhar
Quarta-feira, 06.06.12

Repatriação de emprego, Industrialização e Proteccionismo

 
Como tínhamos antecipado, o plano industrial europeu que se antevê é de inspiração germânica com esperadas nuances gaulesas. Ainda não se sabem detalhes, mas não devemos aguardar rasgos de imaginação. Fazer um plano industrial que serve a Alemanha pode não ser fácil, mas fazer um para o pleno da Europa é algo bem mais difícil. Quem teve sempre os olhos postos no seu umbigo, não é com rapidez que consegue vislumbrar o horizonte. É prudente não alimentar demasiadas expectativas num plano industrial deste género – a China e os EUA já tiveram vários nos últimos anos com sucesso limitado.

 

O plano está a ser delineado, e é agora tempo de moderada esperança, pode ser uma oportunidade única, vai custar muito dinheiro e não poderá ser repetido vezes sem conta. A grande dúvida é: vai este plano corrigir a trajectória de desindustrialização da Europa? A resposta a esta questão é fundamental, porque só ela pode dar alguma esperança aos milhões crescentes de desempregados europeus. E como é que se faz um processo pacífico de reindustrialização da Europa, num mercado global com sobrecapacidade industrial instalada? Eis um desafio imenso, que poucos saberão responder.

 

Os jornais atreveram-se a traduzir o nome do plano industrial Europeu para “Mais Crescimento para a Europa: Emprego, Investimentos e Inovação” – deve estar bem – de acordo com o espírito europeu da época. Se o plano tiver ambição de ser consequente com os objectivos pretendidos, nos próximos meses ouviremos falar de temas que têm andado afastados do nosso léxico económico: repatriação de emprego; industrialização; e proteccionismo. Estas são, hoje, as batalhas que travam brasileiros, norte-americanos, japoneses e chineses, das quais a Europa, sobranceiramente, se auto-excluiu. Se não ouvirem falar destes temas – desconfiem.

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Terça-feira, 05.06.12

Que novidade! O plano é alemão

Intitulado "Mais Crescimento para a Europa: Emprego, Investimentos e Inovação”, o plano ultimado pelo Governo de Angela Merkel terá sido alvo de um acordo na sexta-feira passada entre os Ministérios das Finanças, da Economia e dos Negócios Estrangeiros, garante o "Handelsblatt".

 

Alguém ficou surpreendido por terem cilindrado a agenda da Comissão Europeia?

 

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publicado por Victor Tavares Morais às 11:00 | comentar | ver comentários (1) | partilhar
Domingo, 03.06.12

A guerra das cleantech

 

A Alemanha só aceitará um qualquer plano industrial europeu, plano para o crescimento e emprego ou outro nome que lhe queiram dar, se as suas exportações beneficiarem directamente. Acredito que só o fará com as devidas garantias.

O primeiro obstáculo ao sucesso do plano é no próprio espaço europeu, nem todos os países estão em idênticas condições para beneficiarem de um plano como aquele que se desenha no horizonte. O grau de competitividade da indústria alemã está a milhas das demais indústrias europeias, para ganhar a batalha pela venda de equipamentos ligados às indústrias das energias renováveis e do ambiente (as cleantech). Aos concorrentes europeus ganha na inovação tecnológica, nos custos controlados de mão-de-obra, na produtividade – o suficiente para garantir na Europa a “fatia de leão”. Portanto, no campeonato europeu do crescimento das exportações, fruto do potencial plano industrial, a Alemanha seria novamente um vencedor antecipado - sem surpresas.

Dir-me-ão: e os outros, os não europeus, os chineses? Vão deixar de aproveitar uma oportunidade destas, no maior mercado do mundo?

Os chineses vão tentar, mas aqui há que contar com a “má experiência” acumulada e a capacidade de antecipação alemã. Os recentes desenvolvimentos mundiais do mercado de células fotovoltaícas deixam antever o futuro. A poderosa empresa alemã SolarWorld tem liderado com sucesso uma campanha anti-dumping nos EUA, que já conduziu em Março passado a que fossem criadas taxas aduaneiras de 4,7% às importações de equipamento com origem na China. Mas a mais recente vitória é retumbante, à taxa aduaneira soma-se agora a menos módica tarifa anti-dumping, aprovada em Maio pelo Departamento Americano do Comércio, no valor de 31%. Estas medidas fizeram desesperar os chineses, e já conduziram Pequim a apresentar uma queixa formal na OMC.

Apesar de tudo, esta questão é actualmente um “problema menor” da China. Um problema maior é que a germânica SolarWorld já informou os mercados que vai iniciar uma acção semelhante na Europa, ainda este ano. E aqui, o problema pode ser bem mais grave - não nos esqueçamos que apenas 10% da produção chinesa de equipamentos fotovoltaicos vai para os EUA, a fatia dourada é a Europa, com 80%.

Isto para explicar que os alemães, em face da experiência acumulada nos EUA e também na Alemanha (até agora a China tem sido a maior beneficiária dos incentivos do Governo alemão à energia solar), poderão não estar dispostos a financiar um qualquer plano industrial à escala europeia, para benefício de países concorrentes, nomeadamente os asiáticos. Diga-se que esta estratégia contém riscos, para a própria Alemanha, – a demais indústria alemã tem beneficiado, e muito, dos planos de incentivo à economia dos governos chinês e norte-americano. Para os mais optimistas que pensam que é, tão só, desenhar um plano de crescimento e financiá-lo, desenganem-se, dificilmente avançará sem estarem salvaguardas as devidas garantias. Podemos ter uma guerra comercial, envolvendo as cleantech, antes mesmo de ser lançado um qualquer plano industrial europeu. E todos sabemos como as guerras comerciais podem acabar mal.

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Quinta-feira, 31.05.12

O futuro é fabricado na Alemanha

Quanto ao benefício que a Alemanha pensa tirar desta “terceira revolução industrial”, o melhor mesmo é ver a publicidade alemã.

 

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Quarta-feira, 30.05.12

Já existe e é alemão

Ao que dá conta o jornal i a Comissão Europeia prepara-se para apresentar um plano industrial europeu em Setembro. Suspeito que o plano já existe, é alemão e chama-se: Energiewende.

 

 

As bases de tal revolução, explicadas por Rifkin, são as mesmas que a Comissão encara como eixos centrais do futuro plano industrial: investimento numa rede europeia de energia e aposta nas energias limpas, na renovação da construção civil (tornando cada vez mais os edifícios em pequenos produtores de energia solar ou eólica) e no desenvolvimento dos carros eléctricos, eixos divididos entre grandes e pequenas empresas.

A Comissão não encara a publicação de um plano como uma imposição sobre as políticas nacionais – nem como dirigismo económico. Antonio Tajani, vice--presidente da Comissão Europeia, fala em diálogo com os governos nacionais. Rifkin, por seu turno, afirmou que a Alemanha já está a liderar este novo movimento."

 

A propósito, os alemães já sabem onde gastar algum dinheiro: “Germany needs EUR 20 bn investment in power grid”.

 

Agora, com sorte, é adaptar e transpor para a realidade de cada país; e esperar para saber a quem os analistas políticos vão atribuir a vitória pela realização deste original "plano Marshall" europeu.

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Segunda-feira, 14.05.12

Comitologia popular

Atraído pelo post fui ler a entrevista. E o que propõe a senhora comissária Viviane Reading para ajudar a resolver tão sério problema (a inclusão dos eleitores europeus na política europeia) ? Uma ideia assaz original - a comitologia de base popular.

 

“… uma consulta inédita aos cidadãos que pretende ser muito ampla. Que vai perguntar ao homem da rua: quais são os seus problemas face à Europa? Quais são os seus sonhos? O que é mais frustrante na maneira como se está a construir a Europa? O que gostaria que fizéssemos? Será uma consulta que se prolonga até Setembro, que envolve associações nacionais e cujos resultados vão ser analisados para lançar um grande debate público ao longo de 2013, ….

Esta consulta vai conduzir-nos a um grande relatório….”

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Sábado, 05.05.12

Energiewende

 

Fritz Vahrenhold  é um cientista e político alemão (SPD), e desde 2008 CEO da empresa de energias renováveis do grupo empresarial alemão RWE, foi também um herói do movimento ambientalista em 1978 quando publicou um livro muito crítico da indústria química. Mas após a publicação do seu último livro “Die Kalte Sonne” (O Sol esquecido) em que desalinha do consenso na questão das alterações climáticas, mesmo sendo presidente de uma grande empresa de energias renováveis, foi de imediato acusado pelos movimentos ambientalistas alemães de ser um “lobista” a favor da indústria das energias fosseis (a RWE é também o maior electroprodutor alemão na tecnologia de centrais eléctricas a carvão).

 

Esta semana Fritz Vahrenhold deu uma entrevista à Energy Policy Review, a qual pode ser lida aqui. O mais interessante da entrevista é a crítica que Vahrenhold faz ao plano energético de transição alemão (Energiewende). É um plano irracional que, nas suas palavras, ameaça destruir a indústria que está na base da prosperidade económica alemã. E pior, ao contrário do que possa ser percepcionado pela opinião pública, o plano alemão não congrega uma visão europeia sobre a energia e o ambiente, reflecte apenas uma perspectiva egocêntrica, isto é, não tem um contexto europeu (conclusão minha). A Alemanha avançou para a implementação de um plano desta dimensão sem primeiro se concertar com os seus vizinhos, o que é, no mínimo, um acto de enorme arrogância e uma asneira grosseira. 

 

So how can Germany get out of this dead end?

 

-The exit is Europe. The Energiewende should be a European task. It makes no sense to do it with solar power in Flensburg Solar when you can do it in Andalusia for one third of the cost. Wind energy in the Po delta in Italy makes no sense either. But before we can do it on a European scale we need a pan-European grid. Building such a grid will take us at least twenty years. “

 

 

Infelizmente, para os federalistas europeus mais optimistas, a Alemanha dá hoje todos os sinais (na área da energia…) de não saber o que é uma comunidade. Independentemente da qualidade do plano energético alemão, a sua reflexão e acção nesta área enquanto país, são ainda caracterizadas pelo mesmo grau de independência e autonomia que observávamos na grande nação alemã do final do século XIX, e nunca as que deviam qualificar um Estado de uma futura federação europeia do século XXI. 

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Sábado, 28.04.12

O abraço do urso

 

Para quem tem estado atento às questões europeias a leste, tem sido óbvio o clima de conflito permanente que a Polónia alimenta com a União Europeia a respeito das questões energéticas e ambientais. Questões essas que vão do número de licenças de emissão de CO2 ao desmantelamento do parque electroprodutor a carvão, até à legislação relativa à exploração de hidrocarbonetos. Em suma, a Polónia sente hoje pouca compreensão por parte de União Europeia no seu esforço para não cair numa maior dependência energética da Rússia. Outros países de leste também enfrentam este enorme desafio, o de se libertarem do estado de dependência do gás Russo, nomeadamente a Ucrânia e a Hungria. A Bielorrússia parece já dominada e confortável com a situação de dependência relativamente a Moscovo.

 

O propósito destes países é não só político mas também económico. O gás russo é tradicionalmente vendido em contratos de longo-prazo, a um preço em que a indexação ao petróleo pesa mais de 85%. A Ucrânia paga hoje preços de gás natural superiores a 400 $/m3 (valor que é superior em dobro ao que pagam os seus vizinhos da Bielorrússia) e a sua vasta rede de gasodutos é “sucata” se por ela não transitar gás em direcção à Europa. A relação energética da Rússia com a Ucrânia relativamente ao preço do gás tem oscilado entre a negociação e a ameaça dos tribunais arbitrais, no entanto os ganhos para os ucranianos são duvidosos. Em Abril de 2010 o presidente Yanukovych da Ucrânia e Dmitri Medvedev assinaram o Acordo de Kharkiv (pura ironia, a cidade onde Yulia Tymoshenko está presa) que garante aos russos a permanência por mais 25 anos da frota do Mar Negro na região da Crimeia, em troca de um desconto no preço do gás, mas os termos deste acordo permanecem no maior dos secretismos.

 

Uma alternativa recente oferecida a estes países para os aliviar do espartilho russo é a auto-produção, nomeadamente de gás não convencional: o shale gás (gás de xisto) e também o CBM (coal bed methane). A Polónia leva a dianteira com duas dezenas de furos de prospecção realizados e ambiciona começar a sua exploração do gás de xisto dentro de 3 a 4 anos, já a Ucrânia anunciará em Maio as empresas vencedoras para a exploração do mesmo gás nas duas zonas geológicas de maior potencial, mas a exploração comercial só será possível dentro de 5 a 7 anos.

 

Sem a ajuda europeia, estes países contam com os Estados Unidos que deslocaram para a região um contingente de empresas, com competências e tecnologia na área do gás não convencional, para permitirem a revolução desejada. Os EUA não querem arriscar perder a zona tampão que separa a Rússia da Europa Ocidental, na qual a Polónia é absolutamente determinante em termos geoestratégicos.

 

A Rússia e a Alemanha (a UE é aqui um “sleeping partner” instrumental), pelo vector da energia, estão a realizar uma estratégia voluntária de tenaz que ambiciona a asfixia económica dos países da antiga órbita soviética, no sentido de os conduzir de volta e pelos próprios pés à esfera de que se tinham libertado. Vamos ter que voltar a estudar a história das relações internacionais na Europa de Bismarck, porque é este o modelo que as elites na Alemanha e na Rússia tanto ambicionam, e não o escondem – uma relação bilateral das duas potências continentais europeias sem intermediação, nem de Bruxelas nem de Washington. A oeste e pela via da dependência financeira a Alemanha também tem vindo a construir a sua órbita de dominância política e económica – mas esta realidade é-nos menos estranha.

 

Hoje, começa a ficar evidente que a Rússia está apostada em abraçar energeticamente a Europa. Os russos estenderam um primeiro braço energético pelo norte até à Alemanha e fizeram com os alemães o gasoduto do Mar Báltico (o “Nord Stream” – para contornar a Ucrânia e a Polónia) sem Bruxelas ser tida ou achada, agora o mesmo está a acontecer com o “South Stream” (um outro gasoduto para contornar a Geórgia e a Turquia pelo Mar Negro) e deram a conhecer esta semana que a construção vai ter início ainda este ano. É o braço sul, que entra pela Bulgária e que vai ser estendido até à Itália e à Grécia, terminando na Áustria. O que também parece evidente é o propósito dos russos em minar o principal projecto energético com patrocínio europeu: o Nabucco.

 

Enquanto o kzar e a chanceler negoceiam e decidem o futuro da Europa, em Bruxelas legisla-se sobre o superior interesse das galinhas poedeiras. Não há o risco de, no imediato, a União Europeia se converter num clube de desocupados – não é ainda a preguiça e o ócio que a ameaça: é a irrelevância.

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Quinta-feira, 26.04.12

Espancada na prisão

 

"Mrs. Tymoshenko, 51, is ill.

She refuses to be treated in a Ukrainian hospital or by Ukrainian doctors, because she fears they may be ordered by the government to harm her.

Now Tymoshenko has gone on hunger strike after prison officials tried to force her to a hospital. Last Friday, she was beaten black and blue and punched in the stomach, according to her lawyer, Serhiy Vlasenko.

Henadiy Tyurin, the regional prosecutor of Kharkov, told reporters that officials did use some force.

"According to the law ... the prison service has the right to use physical measures. She [Tymoshenko] was picked up, carried to the car and taken to the hospital," he said."

 

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Sábado, 21.04.12

Dois modelos e um abraço

 

Está aí a eleição presidencial francesa, e ao contrário do que inicialmente parecia ser um factor distintivo dos candidatos, o modelo energético francês não chegou a ser seriamente posto em causa. Com Sarkozy e Mélenchon claramente do lado pró-nuclear, François Hollande limitou-se a um acordo com os ecologistas para uma redução da dependência energética francesa da energia nuclear dos actuais 75% para os 50% em 2025 – a montanha pariu pouco mais do que um rato. Ficou claro, mesmo antes de conhecermos os resultados eleitorais, que a França vai manter o seu modelo energético. Do outro lado está a Alemanha, que fez saber no ano passado que iria desactivar as suas centrais nucleares até 2022. Parece evidente que vamos ter na Europa, pelo menos, dois modelos energéticos distintos, o francês e o alemão. No “clube francês" alinham o Reino Unido, a Holanda, a Polónia e a República Checa, do lado alemão, parecem já estar cativados: a Áustria, a Suíça e a Itália.

 

Se em França é a manutenção do status quo, e portanto a incerteza não é condição determinante, já o modelo alemão convoca aos especialistas e políticos todas as dúvidas e perplexidades – Como vai um país altamente industrializado revolucionar o seu modelo energético sem comprometer a sua competitividade económica? Qual o significado político desta mudança? O objectivo alemão é de ter 30% de renováveis até 2020 e 100% em 2050. A produção renovável vai exigir uma capacidade de “back-up” muito considerável que só as centrais a gás parecem poder oferecer, o que também significa, que o modelo energético desejado vai deixar a Alemanha ainda mais dependente do gás russo.

 

Com a mudança do modelo energético alemão, algo muito significativo poderá estar a acontecer na Europa – uma maior aproximação de Berlim a Moscovo, com todas as implicações políticas daí decorrentes. O que ontem poderia parecer ter carácter especulativo, com a saída de Gerhard Schröder directamente da chancelaria alemã para a petrolífera russa, tem hoje da observação dos factos recentes, um significado muito concreto. Por exemplo, quando a Rússia desvia, desde o início deste ano, parte significativa do gás com destino à Alemanha dos gasodutos ucranianos (privando a Ucrânia dos proveitos desse trânsito) para o recentemente construído gasoduto russo do Mar do Norte (Nord Stream), que liga a Rússia directamente à Alemanha.

 

Em breve, ao abraço do urso poderão sucumbir a leste, por asfixia económica, países como a Ucrânia, mas desenganem-se, os que pensam que não é nada connosco - o “bafo” do urso também se fará sentir a oeste.

(continua)

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Sábado, 11.02.12

um bom detector europeu

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Quinta-feira, 09.02.12

Realpolitik der Energie

The cold snap gripping Europe has forced Germany, which decided last year to abandon nuclear power, to bring several reactors back on line, the daily Handelsblatt reports in its Thursday issue.

 

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Segunda-feira, 06.02.12

Déjà vu

 

Mais uma vez, a Rússia faz a Europa tiritar de frio e demonstra que energia é poder. São já oito os países europeus a sofrer com a redução do gás russo. Pelo meio, a Rússia aproveita para acertar contas com a Ucrânia a quem acusa de ficar com o gás destinado à Europa, em trânsito nas redes ucranianas (80% do gás russo transita pela Ucrânia). E Putin também não perde uma oportunidade para nos recordar que o eixo do poder na Europa ainda é Paris-Berlim-Moscovo. Está na hora de alguém na UE prestar contas, mas como isso provavelmente não vai acontecer, a Polónia e os demais vão encontrar fortes razões para continuarem a afirmar uma política energética à revelia do directório europeu.

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Terça-feira, 24.01.12

Uma estratégia refinada

Como tinha escrito neste post, o embargo da UE ao petróleo iraniano fora de um quadro de concertação mundial é autoflagelação. Agora com refinarias, um pouco por toda a Europa, a encerrarem ou em vias de passarem para mãos orientais, com a construção de novas refinarias suspensa, pergunto: onde vai a Europa comprar no futuro os refinados com garantias de origem do petróleo? E a que preço?

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Quarta-feira, 07.12.11

Outras dívidas da Europa

 
 
Faz hoje 70 anos que os EUA sofreram o ataque a Pearl Harbor e decidiram entrar na Guerra, e ainda hoje, a paz na Europa só é possível porque continua a ter o aval americano. Se necessário fosse, ficou mais uma vez demonstrado na recente visita do Vice-Presidente americano Joe Biden à Grécia e à Turquia.

 

"The geopolitical balances between Greece, Cyprus, Israel and Turkey will naturally figure prominently in Biden's talks with Premier Lucas Papademos and President Karolos Papoulias.

The Cyprus-Israel alliance in exploiting the rich gas deposits in the southeastern Mediterranean, in concert with the American Noble Energy company, along with the emerging Greece-Israel partnership, have tipped the regional balances against Turkey for the first time in decades. 

For Cyprus, the gas card should normally have been a significant factor in exacting concessions from Turkey in ongoing Cyprus settlement talks, since the Turkish-Cypriots have much to gain as participants in a unified federal state.

But there are indications that Washington may put the brakes on such a strategy, due to Turkey's geopolitical importance. Moreover, the US is eager to mend ties between Turkey and Israel, which could again shift the regional balances. "

 

Além deste tema, parece que um outro tema europeu também esteve nas conversas – os Balcãs.

 

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Segunda-feira, 05.12.11

A Europa não chega

 

As sanções financeiras ao Irão, por parte da Europa, parecem ter surtido efeito, já o impacto do embargo às importações de petróleo iraniano pode vir a ser nulo, ou mesmo negativo.

 

A Europa hoje, no seu conjunto, representa apenas 20% das exportações iranianas (os outros grandes são a China, o Japão, e a Coreia do Sul). O que a Europa se arrisca a conseguir, com este embargo, é que o Irão desvie estes volumes para os outros compradores (e concorrentes), e se necessário, lhes venda a desconto face ao mercado. No final, o Irão arrecada a mesma receita, enquanto a Europa vai ter que ir comprar estes volumes a um preço mais alto.

 

Neste cenário, de crise económica, as sanções energéticas ao Irão devem ser acordadas num quadro de concertação mundial, caso contrário: é autoflagelação.

publicado por Victor Tavares Morais às 21:41 | comentar | partilhar

Cachimbos

O Cachimbo de Magritte é um blogue de comentário político. Ocasionalmente, trata também de coisas sérias. Sabe que a realidade nem sempre é o que parece. Não tem uma ideologia e desconfia de ideologias. Prefere Burke à burqa e Aron aos arianos. Acredita que Portugal é uma teimosia viável e o 11 de Setembro uma vasta conspiração para Mário Soares aparecer na RTP. Não quer o poder, mas já está por tudo. Fuma-se devagar e, ao contrário do que diz o Estado, não provoca impotência.

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