Segunda-feira, 10.09.12

Lembrete

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Sexta-feira, 31.08.12

Convite

O meu livro "O fim do euro em Portugal?" será lançado 3ª feira, 11 de Setembro (bem sei...) na Livraria Almedina do Saldanha, pelas 19h. A apresentação será feita pelo João Ferreira do Amaral e todos são bem-vindos.

(clique na imagem para ampliar)




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Sexta-feira, 10.08.12

Capa do livro

Eis a capa do meu livro, que deverá estar nas livrarias a partir de 18 de Agosto.

 

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Quinta-feira, 02.08.12

Fim do euro (46) “Acreditem em mim”

Depois de Draghi nos ter pedido para acreditarmos nele, de que o BCE tudo faria para preservar o euro, aguardava-se com alguma expectativa o que a reunião de hoje deste banco nos traria.

 

Afinal o BCE pondera voltar a comprar obrigações dos países em dificuldades, mas apenas DEPOIS de estes pedirem ajuda, que virá sob fortes restrições. Então a intervenção do BCE não era para evitar que estes Estados chegassem ao ponto de ter que pedir auxílio? Isto é completamente surreal e ainda há quem acredite que o euro tem hipóteses de sobreviver.

publicado por Pedro Braz Teixeira às 15:41 | comentar | ver comentários (1) | partilhar
Quarta-feira, 01.08.12

Fim do euro (45) Fim organizado do euro

A UE, que se foi construindo através de sucessivas integrações, deu um passo maior do que a perna ao avançar para uma integração monetária coxa, cujos defeitos estão agora bem visíveis nesta imparável e incontível crise do euro.

 

Como esta integração correu mal, então a solução, propõem alguns, é avançar com ainda mais integração e fazer a união política. A integração monetária tem dado azo a inúmeros conflitos e querem ainda maior integração? Mas não percebem que a integração política ainda geraria mais conflitos do que a integração monetária?

 

A insensatez e o voluntarismo desta ideia de “Europa” trouxeram-nos à terrível situação presente. Acham que doses reforçadas de insensatez e voluntarismo vão ajudar a resolver algum problema?

 

Aqui chegados, parece que seria mil vezes preferível o bom senso (anglo-saxónico ou outro) e perceber que o euro foi uma experiência que correu mal e que é chegado o momento de lhe colocar um fim.

 

Em vez de cogitar sobre soluções erradas e impossíveis (a união política), ou remendos ou paliativos (intervenção do BCE, união bancária, etc.) com inúmeros obstáculos políticos, mais valia unir esforços para colocar um ponto final neste projecto fracassado.

Dadas as características de instabilidade intrínseca do euro, ele tenderá sempre a acabar. Há duas opções limite para esse fim: i) planear e minimizar os custos (ainda assim elevadíssimos) de uma desintegração ordenada do euro; ii) permitir, por inércia, que o euro acabe de forma caótica, destruído por um tsunami financeiro, que destruirá tudo à sua passagem e não apenas na zona do euro.

 

Há sinais crescentes de que a criação do euro foi um jogo de soma negativa, isto é, que os benefícios que trouxe a uns foram inferiores aos custos que impôs a outros. Mas estes prejuízos são insignificantes quando comparados com aqueles que virão de um fim caótico do euro, que se prepara para ser um jogo de soma ainda mais negativa, em que praticamente não haverá ninguém a colher benefícios.

 

A escolha entre as hipóteses enunciadas traz consigo um problema político diabólico. Os eleitorados não têm, em geral, consciência de que o euro tal como existe não é sustentável e terão muita dificuldade em aceitar que um governo tome a iniciativa de terminar o euro de forma negociada, porque isso será dar um passo consciente para algo pior do que o status quo. O problema é que, se ninguém o fizer, teremos o fim caótico do euro, que é ainda muito pior.

 

Este problema político é mais grave nos países periféricos do que nos países mais fortes. Em todos eles haverá graves prejuízos financeiros mas, enquanto nos países mais fortes o fim do euro não deverá trazer alterações significativas no nível de vida, nos países periféricos haverá perdas brutais de poder de compra.

 

Ou seja, há ainda a esperança de que a iniciativa de um fim negociado do euro possa vir de um dos países fortes, à excepção da Alemanha, porque neste caso ficaria sendo vista para todo o sempre como a responsável pela morte do euro, que “não quis salvar”.

 

Mas poderá vir da Finlândia ou da Holanda. A ministra das Finanças finlandesa já sugeriu que o país saísse do euro, embora depois tenha recuado. É evidente que as declarações iniciais foram muito mais genuínas do que as desculpas esfarrapadas posteriores, sendo útil recordar que nenhum outro país escandinavo pertence à zona do euro.

 

Quanto à Holanda, vai ter eleições antecipadas a 12 de Setembro e o partido que vai à frente nas sondagens defende justamente que o país saia do euro.

 

Em qualquer dos casos, as propostas concretas das condições de saída destes países do euro deverão traçar um mapa para a saída dos restantes. A saída da Grécia, que poderá ocorrer entretanto, teme-se que de forma desordenada e com avultadíssimos prejuízos para todos, poderá constituir um estímulo adicional para que se opte pelo fim organizado do euro.

 

[Publicado no jornal “i”]

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Domingo, 22.07.12

Fim do euro (44) Cerco à Grécia

FMI quer cessar ajudas à Grécia, que poderá abrir falência em Setembro

 

BCE deixa de aceitar "por agora" obrigações gregas como activos de garantia

 

Ainda vêm com a conversa de que será possível conter o contágio da Grécia para os outros países, no preciso momento em que a Espanha está em alerta vermelho. A hecatombe segue dentro de momentos. 

publicado por Pedro Braz Teixeira às 11:00 | comentar | ver comentários (14) | partilhar
Quarta-feira, 04.07.12

Fim do euro (43) A Alemanha e o euro

O futuro do euro depende – de forma crucial – da Alemanha e, por isso, é essencial perceber o que move este país e até onde está disponível para defender o euro. No entanto, este Estado tem-se comportado duma forma difícil de perceber e que impede que se leve inteiramente a sério as declarações oficiais.

 

Durante o pós-guerra a Alemanha cedeu com facilidade às pressões e chantagens para pagar a Europa, como se fossem umas reparações de guerra. No entanto, após a reunificação essa predisposição alemã para pagar desvaneceu-se, o que não deve causar estranheza.

 

Neste ponto julgo que não deve haver dúvidas: a Alemanha estabeleceu um limite para gastar com o euro e as resistências a aumentar a capacidade do Mecanismo de Estabilidade Europeu (MEE) devem ser levadas a sério. Quando a chanceler diz que não vai haver mais fundos para o MEE comprar as dívidas de Espanha e Itália deve-se acreditar nisso.

 

Por outro lado, a Alemanha quer proteger os bancos alemães, que estão carregadíssimos de dívida dos países em risco. Para isso precisa de comprar tempo e não lhe interessa uma resolução rápida da crise do euro.

 

Finalmente, e esta é a parte mais incerta, talvez o governo alemão veja duas possibilidades no futuro. Ou todos os países passam a adoptar as políticas alemãs e o euro sobrevive; ou há países que não conseguem cumprir as metas orçamentais e acabam por sair do euro. Neste segundo caso, o executivo alemão está preocupado em não ficar em posição de ser acusado de destruir o euro. Quererá ter um discurso de que a Alemanha ajudou até um certo ponto, mas depois foram os países periféricos que não fizeram o seu trabalho de casa e não convenceram os mercados.

 

Há um aspecto em que a Alemanha tem razão: é preciso colocar um limite na ajuda, ainda que se possa discutir qual deve ser esse limite. Se não houver um limite, então é um poço sem fundo e, ainda por cima, é como se a ajuda fosse afinal contraproducente, por substituir as reformas estruturais.

 

Depois de expor isto parece que já estou em condições de responder a uma dúvida que me tem perseguido: se a Alemanha não acredita no futuro do euro, porque é que não acaba já com ele? O governo alemão ainda não está convencido que o euro vai acabar, talvez ainda possa sobreviver, numa versão reduzida. Por outro lado, precisa de tempo para capitalizar os bancos alemães e, ainda precisa de não sair completamente chamuscado de todo este processo.

 

Mas o executivo alemão está errado ao pensar que o euro estaria bem se todos os países adoptassem políticas alemãs. Porque as políticas alemãs, nomeadamente de ter um superavit externo de 5% do PIB, superior ao superavit externo da China (3% do PIB), são insusceptíveis de ser repetidas no resto da zona do euro.

 

Vistos desta perspectiva, não custa tanto perceber os resultados da cimeira europeia da semana passada. Em primeiro lugar, não há nenhuma cedência imediata, tudo vai demorar muito tempo, tanto tempo que a Espanha e a Itália podem ser forçadas a sair do euro antes das primeiras medidas produzirem efeito.

 

Para além disso, a compra de dívida soberana em risco pelo MEE não é uma verdadeira cedência, porque já estava prevista e pressupõe um Memorando de Entendimento, embora não tão exigente como o assinado com a troika pelos Estados que já pediram ajuda.

 

As outras concessões, como a ajuda à banca, foram formuladas de forma tão vaga que podem facilmente ser torpedeadas na concretização dos detalhes.

 

Aliás, quando a Alemanha defende um caminho de federalização orçamental, não deve ser levada a sério. Esta é uma clara jogada política. O governo deste país finge-se muito disposto a ceder, exigindo como contrapartidas condições que sabe serem totalmente inaceitáveis para vários países. Na verdade, está unicamente a tentar livrar-se do ónus da culpa de destruir o euro. Veremos a quem sai furado este jogo. 

 

[Publicado no jornal "i"]

publicado por Pedro Braz Teixeira às 11:32 | comentar | ver comentários (1) | partilhar
Segunda-feira, 18.06.12

Fim do euro (42) Emigrantes portugueses

A pedido de um emigrante português na Holanda, vou escrever algo sobre a sua situação. A primeira questão a esclarecer é que o princípio económico básico em relação às pessoas é serem tratadas em função da residência e não da nacionalidade. Um emigrante português na Holanda contribui para o PIB holandês e não português. Poderá, eventualmente contribuir para o Rendimento Nacional em Portugal se fizer transferências para o nosso país.

 

Assim sendo, um emigrante português na Holanda, para efeitos do fim do euro, deveria ser tratado da mesma forma que um cidadão holandês. Em princípio, os seus depósitos em euros em Portugal deveriam continuar a ser depósitos em euros ou na nova moeda holandesa. Este é o princípio que faz sentido, mas num momento de ruptura brutal, em que tantos contratos vão ser rasgados, é preferível não arriscar e ter o seu dinheiro na Holanda e não em Portugal.

 

Na verdade, para os portugueses em Portugal o ideal é ter o dinheiro noutras moedas que não o euro e em bancos de fora da zona do euro. Fazer previsões cambiais é dificílimo, pelo que convém diversificar as moedas. Faço a sugestão, meramente indicativa, de terem 50% dos vossos depósitos em dólares americanos, 30% em libras e 20% em francos suíços.

 

Porquê em bancos de fora da zona do euro? Porque os bancos da zona do euro correm riscos de falência. Os bancos dos países periféricos, como Portugal, têm elevadas dívidas externas, cujo valor crescerá muito com a saída do euro, podendo levá-los à falência. Os bancos dos países fortes têm quantidades gigantescas de dívida pública dos países periféricos, que correm sérios riscos de incumprimento. Por isso, os bancos dos países fortes também correm riscos significativos de falência. Para um emigrante na Holanda talvez não se coloque o risco de perda de valor do novo florim, mas permanece o risco de falência dos bancos holandeses.

 

Julgo que há ainda outras dúvidas sobre o futuro económico imediato. Após o fim do euro é muito provável uma forte recessão, não só europeia, mas também mundial. O facto de a última recessão ser muito recente agrava as consequências deste fenómeno.

 

No entanto, para países com taxas de desemprego baixas e contas externas saudáveis, como a Holanda e a Alemanha, a recuperação não será necessariamente difícil, tal como não foi após a recessão mais recente.

publicado por Pedro Braz Teixeira às 12:50 | comentar | ver comentários (17) | partilhar
Sábado, 16.06.12

Fim do euro (41) Pré-pânico

Os depositantes gregos retiraram 1000 milhões de euros dos bancos, quer na quarta-feira, quer na quinta-feira.

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Quinta-feira, 14.06.12

Fim do euro (40) Acumular capital político

Acabámos de revisitar o mesmo guião de sempre com o resgate à banca espanhola: após ser mil vezes negado, lá acabou por ser pedido. A ilação principal que retiro deste episódio é o reforço da minha convicção de que o euro está a viver os seus últimos meses de vida. Todos os desastres que era “impossível” acontecerem irão concretizar-se, um a um, até à desagregação final desta moeda.

 

A falta de clareza das condições deste resgate foram aumentadas pelas declarações do primeiro-ministro espanhol que, tal como Sócrates antes dele, fez um discurso, para consumo interno, de que a Espanha receberia fundos em termos muito favoráveis. A Irlanda e a Grécia já se posicionaram para uma revisão das condições da sua ajuda, para aproveitarem algum eventual alívio.

 

Portugal poderá ver-se tentado a ensaiar um movimento semelhante, mas não me parece aconselhável tomarmos a iniciativa. Se acabarmos por vir a beneficiar de uma alteração na política europeia face à banca, tanto melhor, mas não parece prudente gastar capital político numa questão que, em Portugal, está muito limitada.

 

Há também aí algumas movimentações no sentido de Portugal pedir mais tempo para fazer a consolidação orçamental. Mas o ano de 2012 está tão extraordinariamente envolto em incertezas, que me parecem muito prematuras estas sugestões.

 

A Grécia é bem capaz de ter novos resultados eleitorais desastrosos, já no próximo domingo, e acabar por sair do euro dentro de pouco tempo. Quando (há ainda quem ache que se pode falar em “se”) a Grécia sair desta moeda, o jogo vai mudar radicalmente. Admito que os líderes europeus reconheçam que a austeridade imposta aos helénicos terá pesado, de forma significativa, na criação das condições para a retirada do euro. Assim, é possível que as exigências de austeridade venham a ser suavizadas por iniciativa europeia. Mais uma vez afirmo que me parece muito prematuro Portugal tomar a iniciativa e gastar capital político com isso. Se 2012 está tão incerto, que sentido é que tem pedir – agora – que o programa de ajustamento se prolongue até 2014 ou até mais tarde?

 

Por tudo isto me parece muito bem que o governo adopte a atitude do bom aluno que quer cumprir, mesmo que não esteja a cumprir tão bem como todos querem fazer crer. Como é evidente, Portugal deve aproveitar a boa vontade da troika de nos querer apresentar como caso de sucesso, avaliando-nos com alguma benevolência.

 

Acima de tudo, julgo que Portugal deve acumular o máximo de capital político, porque vai precisar muito dele quando chegar a altura de negociar as condições de saída do euro, a que seremos forçados pelas circunstâncias, quer pela saída de Espanha ou de Itália.

 

Teremos provavelmente que negociar uma desvalorização do novo escudo e precisamos que seja claramente superior à da nova peseta e da nova lira. Temos um nível de endividamento externo particularmente elevado e vamos ter que entrar em incumprimento de grande parte dele. Era da maior conveniência que pudéssemos negociar as condições desse incumprimento partindo duma posição de superioridade moral, em que cumprimos todos os compromissos que nos foram pedidos e que só estamos a ser forçados a entrar em incumprimento porque o euro se está a desagregar.

 

[Publicado no Jornal de Negócios]

publicado por Pedro Braz Teixeira às 13:10 | comentar | ver comentários (4) | partilhar
Quarta-feira, 13.06.12

Fim do euro (39) Grécia no fim da linha

No próximo domingo, a Grécia terá novas eleições legislativas, mas é altamente improvável que consiga formar um governo. Mesmo que – por milagre – os partidos a favor da austeridade consigam constituir um executivo, tudo indica que será frágil, a cair perante as primeiras adversidades, que serão muitas.

 

Estamos, assim, cada vez mais próximos da saída da Grécia do euro, um evento que era “impossível” de acontecer e que mudará – definitivamente – a natureza da crise do euro. Haverá uma mudança drástica na forma como os mercados passarão a encarar esta crise e as agências de rating serão, mais uma vez, mensageiros e não causadores desta alteração de percepção.

 

Fala-se, abstractamente, da necessidade de conter o contágio da Grécia, mas adivinham-se as maiores dificuldades económicas em concretizar essa contenção mas – sobretudo – antecipam-se os mais inultrapassáveis obstáculos políticos para tal.

 

Em primeiro lugar, haverá um efeito benéfico para a generalidade dos estados membros do euro: a depreciação desta moeda face às principais moedas, que deverá auxiliar as exportações.

 

É também previsível uma nova escalada das taxas de juro dos países periféricos e uma “fuga para a qualidade”, conduzindo algumas das taxas de juro da dívida alemã para valores negativos, em termos nominais. Ou seja, os investidores deverão preferir deter títulos alemães e perder, de certeza, dinheiro com isso, do que correrem o risco de perder muito mais, se depositarem os fundos em bancos, mesmo alemães.

 

Para além disso, há o risco, muito claro, de a condição de “periférico” viajar geograficamente para as paragens mais insuspeitas.

 

A Espanha, depois de respirar de alívio, temporariamente, com a ajuda quase incondicional aos seus bancos, poderá voltar a estar à “beira de um ataque de nervos”, com a necessidade de pedir ajuda – desta feita fortemente condicional – para financiar as suas contas públicas. A Itália, que já está a ser contagiada por Espanha, será também contaminada pela Grécia.

 

Para conter a subida das taxas de juro dos periféricos será necessária uma intervenção cada vez mais intensa do BCE, mas este deverá ser levado à falência pela saída da Grécia, por várias razões, entre as quais avulta o ter intervindo para tentar suster a escalada de taxas de juro deste país. Ou seja, muito dificilmente o BCE poderá ajudar Espanha e Itália.

 

Entretanto, começou-se já a falar de limitar os levantamentos de dinheiro das caixas automáticas na Grécia, caso este país saia do euro. Também se pondera reintroduzir controlos de capitais, dito de outro modo, proibir a fuga de capitais, para além de suspender a livre circulação de pessoas ao abrigo do acordo de Schengen.

 

Quando os habitantes dos países em risco virem que os gregos estão a ser proibidos de levantar dinheiro dos bancos, excepto para as necessidades mais prementes, o que é que se pode esperar? Não custa adivinhar que irão retirar dinheiro dos bancos, mesmo que inicialmente o façam de forma relativamente controlada.

 

É curioso que no caso dos países mais ricos se comece a ponderar uma acção simétrica. Neste momento, a Noruega já dificulta muitíssimo a entrada de capitais do exterior e a Suíça pode também criar sérias dificuldades a capitais que queiram entrar neste país depois da Grécia sair do euro. Também o Reino Unido teme que um afluxo excessivo de fundos conduza a uma apreciação da libra, que iria prejudicar muito as exportações britânicas e colocar em causa a retoma económica. Ou seja, pode haver uma pressão muito grande para fugir dos países do euro com maiores riscos, mas nem todos os países estarão disponíveis para os receber, até pelo receio de que estes movimentos sejam aproveitados para a lavagem de dinheiro.

 

[Publicado no jornal “i”]

publicado por Pedro Braz Teixeira às 12:47 | comentar | ver comentários (4) | partilhar
Quarta-feira, 30.05.12

Fim do euro (38) Dilemas morais

A primeira vez que escrevi sobre uma possível desagregação do euro foi em Abril de 2010, em que analisava as consequências de uma possível separação do euro em dois, um para os países fortes e outro para os países fracos, onde se incluía Portugal.

 

Com a escalada da crise do euro, houve um momento decisivo, em que me apercebi da instabilidade intrínseca desta moeda (Novembro 2010): com moeda própria a variável que sinaliza os problemas (taxa de câmbio) ajuda a resolvê-los; numa união monetária a variável que sinaliza os problemas (taxa de juro da dívida pública) agrava esses mesmos problemas. Isto levou-me à convicção de que o euro tinha os seus dias contados.

 

A partir daí, vivi o dilema moral de escrever sobre o “fim do euro”. Por um lado, não queria gerar nenhum movimento de pânico mas, por outro lado, sentia a necessidade de avisar o maior número de pessoas para esta eventualidade. Os portugueses precisam de se preparar para isto, não só psicologicamente, mas também através de acções concretas. Foi com essa intenção que escrevi aqui o texto “Fim do euro, recomendações práticas”, que sei que circula pela internet.

 

A forma como tenho lidado com este dilema moral é escrever de forma ponderada, alertando para os riscos e recomendando respostas serenas. Um dos problemas potenciais é que o pânico pudesse gerar uma fuga generalizada de depósitos dos bancos em Portugal.

 

Felizmente que desde Dezembro de 2011 os bancos da zona do euro têm acesso a grande liquidez por parte do Banco Central Europeu (BCE), por prazos muito mais latos do que o habitual e com exigências muito mais suaves de garantias para aceder a estes fundos.

 

Em muitos países tem-se assistido a uma fuga de depósitos, em particular na Grécia, por razões – obviamente – alheias aos meus escritos. Por singular coincidência, Portugal tem sido uma excepção, tendo havido mesmo um substancial aumento dos depósitos bancários. Poderei ler essa reacção como uma de duas razões: ou os meus textos têm sido completamente desvalorizados, ou têm levado a respostas muito serenas, o que sempre desejei desde o primeiro momento.

 

As famílias e empresas também enfrentam um dilema moral: deverão colocar todo o seu dinheiro a salvo e, com isso, talvez provocar uma catástrofe; ou deverão esperar pacientemente que, apesar de tudo, a catástrofe aconteça? Sugiro uma solução de compromisso: vão transferindo progressivamente o vosso dinheiro para moedas estrangeiras, para bancos de fora da zona do euro. Ao fazerem-no lentamente, dificilmente estarão a desencadear a catástrofe que temem. Se as coisas se precipitarem, logo poderão decidir em consciência o que vos faz mais sentido.

 

Não devem pensar que estão a salvar a vossa pele, colocando em risco o país. Por um lado, as vossas decisões individuais dificilmente poderão ser decisivas mas, sobretudo, o dinheiro dos portugueses que estiver no exterior quando o euro acabar serão divisas preciosas para o país recuperar o crescimento com o novo escudo.

 

Feliz ou infelizmente, neste momento o tempo escasseia. Isto levanta duas questões. Por um lado, sobra cada vez menos tempo para tomar decisões que protejam os portugueses do fim do euro. Por outro lado, como há muito pouco tempo, não há margem para que as decisões das famílias e empresas portuguesas possam criar um quadro grave.

 

Finalizo anunciando que estou a completar um livro, com o título provisório “Fim do euro em Portugal”, que deverá estar disponível no final de Junho, onde estes temas são naturalmente desenvolvidos. Só temo que Grécia saia do euro antes disso, limitando os benefícios que poderão decorrer da sua leitura.

 

[Publicado no jornal “i”]

publicado por Pedro Braz Teixeira às 08:51 | comentar | ver comentários (7) | partilhar
Segunda-feira, 28.05.12

Fim do euro (37) Congelamento de pagamentos na Grécia

Os cidadãos gregos estão a votar com a carteira na saída do país do euro. Para ler na íntegra:

 

Together the rise of the black economy and the freeze in payments, the clearest sign of disintegration is in public revenue collection. After showing a timid rise in the beginning of May, it nosedived right after the May 6 elections. By May 20 the fall was in the order of 20 percent, with taxpayers putting off paying dues and the practice of discounts for not issuing a receipt spreading even to the catering sector.

publicado por Pedro Braz Teixeira às 18:04 | comentar | ver comentários (2) | partilhar
Quarta-feira, 23.05.12

Fim do euro (36) Fuga de depósitos

Desde o início de 2010 que tem havido um lento desvio de depósitos bancários da Grécia para o exterior que, até Março de 2012, foi de 30% do total. Após o impasse resultante das últimas eleições houve um acelerar deste movimento, que terá sido estancado, mas que poderá agravar-se a qualquer momento. Em particular, se a repetição das eleições a 17 de Junho voltar a produzir um impasse ou um governo que não esteja disposto a cumprir os acordos com a troika.

 

O líder do Syriza (o Bloco de Esquerda grego), partido que lidera as sondagens, acalenta a doce ilusão de chantagear os parceiros europeus, insistindo em recusar respeitar os compromissos assumidos pela Grécia. O Syriza está carregado de razão ao pensar que a saída da Grécia provocaria danos devastadores na zona do euro. Mas está iludidíssimo (e não está sozinho) ao imaginar que, por isso, os líderes europeus tudo farão para impedir a saída deste país.

 

Por mais irracional que seja esta atitude, a Alemanha jamais consentirá que a Grécia deixe de cumprir o programa de austeridade aprovado. A agravar esta irracionalidade está a ilusão, desta feita por parte da Alemanha e de outros estados europeus, de que é possível criar um muro de protecção do contágio a outros países e – o cúmulo do delírio – de que este muro já foi construído e está pronto a funcionar como uma barreira eficaz.

Porque é que há esta fuga de depósitos da Grécia? Os depositantes gregos enfrentam dois riscos. Em primeiro lugar, o risco de que os bancos gregos vão à falência. Em segundo lugar, o risco de que a Grécia saia do euro. Há variadas estimativas sobre a possível desvalorização do dracma, mas fala-se de valores em torno de 50%. Isto significa que os depósitos que permaneçam na Grécia se desvalorizariam em 50%, para além de perdas adicionais devido à provável falência dos bancos gregos, na sequência da saída do euro.

 

Julgo que, neste momento, poucos gregos acreditarão que o Estado grego possa garantir o valor dos depósitos, mesmo em dracmas. O Estado helénico já está falido e vai ficar ainda mais quando sair do euro. Imaginar que, nessas circunstâncias, o Estado irá assumir ainda mais perdas para garantir os depósitos, para além de um montante relativamente baixo, é do domínio do delírio, até porque seria politicamente um suicídio, por constituir uma “ajuda aos ricos”.

 

Porque é que esta fuga de depósitos pode acelerar a saída da Grécia do euro? Para substituir estes depósitos em fuga, o Banco da Grécia tem emprestado dinheiro aos bancos gregos, agindo como um “balcão” do BCE. Isto significa que estes empréstimos são, em última análise, uma responsabilidade dos accionistas do BCE, com o Bundesbank à cabeça. Dado que o montante de depósitos nos bancos gregos é superior à ajuda já concedida, é quase como se estivéssemos a duplicar a ajuda a este país. Por outro lado, se a Grécia sair do euro ficará praticamente impossibilitada de pagar qualquer destes empréstimos. Assim sendo, é natural que, em algum momento, este processo seja travado, reconhecendo-se que a única resolução possível é a retirada da Grécia.

 

Porque é que isso contagiará outros países? A saída da Grécia do euro irá abrir uma caixa de Pandora impossível de fechar. O que se passar na Grécia será, previsivelmente, uma antevisão da câmara de horrores pela qual outros países passarão. Por isso o contágio é inevitável. Aliás, o contágio nem está restrito aos mercados obrigacionistas, afectando também os mercados accionistas (o índice bolsista português está em mínimos de 1996), cambiais (o euro já começou a depreciar-se face às principais moedas) e de mercadorias (o preço do petróleo também se tem ressentido da perspectiva de recessão mundial que deverá acompanhar o colapso da zona do euro). Para além disso, o contágio não se estende apenas aos países europeus, mas praticamente a todo o mundo: é cada vez mais frequente que uma má notícia sobre a crise do euro provoque a queda das bolsas asiáticas.

 

[Publicado no jornal “i”]

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Quarta-feira, 16.05.12

Fim do euro (35) Contágio grego

As próximas semanas serão de suspense eleitoral, de novo na Grécia e em França. Depois do impasse que resultou das eleições gregas esperam-se novas eleições em meados de Junho, mas é provável que se chegue a um novo impasse, mesmo que de uma natureza diferente. A maioria alcançada pelos partidos anti-austeridade pode alargar-se, pelo facto de ser provável que seja o Syriza (o Bloco de Esquerda grego) o partido mais votado que, por isso, deverá receber um bónus de 50 deputados.

 

Os eleitores helénicos estão num estado de perfeita esquizofrenia, querendo – em simultâneo – permanecer no euro e colocar um fim à austeridade. O mais provável é acabarem sem nenhuma das duas. Se não querem austeridade têm que sair do euro, o que lhes traria uma nova dose de austeridade, deste feita não pela via orçamental, mas pela via cambial, muito mais violenta.

 

Com a saída da Grécia, o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF), que emprestou mais de 100 mil milhões de euros a este país, sofreria perdas brutais. Este FEEF é o tal muro de protecção que, pelas mais misteriosas razões, os líderes europeus consideram capaz de impedir o contágio a outros países. Na verdade, há fortíssimas razões para presumir o oposto, desde logo o contágio que as notícias sobre a Grécia estão a ter sobre os mercados accionistas asiáticos. As perdas do FEEF vão expor duas situações graves. Em primeiro lugar, a saída de um país que representa apenas cerca de 2% do PIB da zona do euro vai engolir cerca de um quinto dos recursos do FEEF. Qual é o investidor que pode sentir a mais leve sombra de tranquilidade com isto?

 

Em segundo lugar, as perdas do FEEF vão tornar claro, em particular para a Alemanha, que os “empréstimos” europeus são, em última análise, “ajuda” aos países em dificuldades, a tal “união de transferências”, híper-detestada pelos países contribuintes. Isto constituirá um poderosíssimo travão a qualquer tipo de novas contribuições para o FEEF.

 

Para além disto, como já vimos na semana passada, a saída da Grécia do euro irá provocar a falência do BCE e de todos os bancos centrais da zona do euro, em particular do Bundesbank. O desastre de Fukushima provocou uma comoção fortíssima no povo alemão, que o levou a desistir da energia nuclear. A falência do Bundesbank será o equivalente a um Fukushima monetário, que deverá conduzir a uma alteração drástica da atitude da Alemanha face ao euro.

 

Com elevadíssima probabilidade, a saída da Grécia do euro deverá produzir um efeito de contágio brutal sobre os países fracos, ao mesmo tempo que deverá conduzir a uma diminuição drástica do apoio ao projecto do euro junto dos países fortes, em particular junto dos alemães.

 

Não é, assim, temerário prever que a saída da Grécia será o princípio do fim do euro, que poderá bem acontecer ainda durante o corrente ano.

 

Uma das consequências deste contágio deverá ser a fuga de depósitos dos países em risco, em particular de Portugal, havendo recomendações na imprensa internacional de fazer depósitos em euros em países seguros, como a Alemanha. Nada de mais imprudente. Se Portugal sair do euro há uma elevada probabilidade de esses depósitos no exterior serem transformados em novos escudos, valendo muito menos. Pior ainda, os bancos dos países fortes têm investimentos gigantescos em dívida dos países fracos, pelo que têm elevado risco de falir. Tendo em atenção todas as limitações de fazer previsões em tempos de turbulência excepcional, recomendo depósitos em outras moedas que não o euro, feitos em bancos de fora da zona do euro. 

 

[Publicado no jornal “i”]

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Segunda-feira, 14.05.12

Fim do euro (34) Krugman também muito pessimista

Krugman está a ver o fim do euro ao virar da esquina. A saída da Grécia very possibly next month. E o fim do euro dentro de meses. 

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Sexta-feira, 11.05.12

Fim do euro (33) Bancos centrais fazem planos para a saída da Grécia

Os resultados intratáveis das últimas eleições gregas estão a forçar os bancos centrais europeus a preparar planos de contingência para a saída da Grécia do euro. Preparem-se para mais notícias nesta linha, mas não se iludem com quem promete que esta saída deixará os restantes países livres de contágio. 

publicado por Pedro Braz Teixeira às 21:14 | comentar | ver comentários (3) | partilhar
Quarta-feira, 09.05.12

Fim do euro (32) Muro de protecção

Com o resultado das eleições gregas – um país ingovernável – demos mais um passo em direcção ao abismo. O país vai ter que cortar a despesa pública em mais 11 mil milhões de euros até Junho, para continuar a receber ajuda, e não parece que tal venha a ser conseguido. Nem parece que as novas eleições no próximo mês mudem o actual estado de coisas.

 

Como foi então noticiado pelo jornal “i”, desde o início deste ano que as autoridades europeias estão a pensar em deixar a Grécia sair do euro, estando a preparar esta saída, através da criação de um muro de protecção (firewall) à volta deste país, para evitar o contágio a outros países.

Este projecto tem duas “pequenas” falhas. A primeira é a ilusão de que é possível construir um tal muro de protecção. A segunda é a debilidade do muro que se tem criado e prevê criar. Vejamos cada um destes problemas em detalhe.

 

A mera ilusão de que é possível criar uma barreira que impeça o contágio é o pecado original deste processo. Parece que os líderes europeus se convenceram, ou se quiseram convencer, de que tal coisa seria possível, sem ter havido a mais leve dúvida sobre o assunto. Assumiu-se rapidamente que era alcançável tal coisa e passou-se logo para a discussão de como o concretizar.

 

O BCE tem na sua carteira cerca de 40 mil milhões de euros de dívida pública, que diminuiriam drasticamente de valor se a Grécia sair do euro. Para além disso, o Banco da Grécia deve mais de 100 mil milhões ao resto dos bancos da zona do euro, que jamais poderá pagar se o país deixar de pertencer ao euro.

 

Há imensas incógnitas neste cenário, nomeadamente qual a desvalorização do dracma face ao euro, mas se aplicarmos a taxa de perdão da dívida de três quartos que envolveu a recente reestruturação da dívida grega chegamos facilmente a perdas superiores a 100 mil milhões de euros para o conjunto do Eurosistema (composto pelo BCE mais os bancos centrais nacionais da zona do euro). Estas perdas conduziriam à falência, quer do BCE, quer de todos os bancos centrais envolvidos, incluindo o Bundesbank e o Banco de Portugal. Alguém imagina que seja possível criar um muro de protecção em relação a esta catástrofe? Parece-me evidente que isto despoletaria um tsunami de desconfiança, que não deixaria nada de pé.

 

Se um país minúsculo como a Grécia, que representa apenas 2% do PIB da zona do euro, pode provocar efeitos tão devastadores, o que se poderá esperar de mais uma saída? Temos também que recordar que a saída da Grécia vai testar a paciência dos alemães, que têm um ditado que diz que “é melhor um fim com horror do que um horror sem fim”.

 

Face a tudo isto o segundo problema referido inicialmente, o da insuficiência do muro de protecção, torna-se quase irrelevante. Mesmo assim, este muro, que é o Mecanismo de Estabilidade Europeu, está dotado de um montante insuficiente e com capacidades limitadas, não podendo, por exemplo, recorrer directamente ao BCE.

 

Em resumo, a convicção de que seria possível isolar a Grécia do resto da zona do euro levou a uma dura intransigência por parte dos parceiros europeus, mesmo quando o país estava numa espiral recessiva que só agravava as contas públicas. A reestruturação incompreensível levada a cabo, com todos os custos do incumprimento, mas sem os benefícios de tornar a dívida pública sustentável intensificaram o sentimento grego da inutilidade dos seus presentes esforços.

 

Tudo isto provocou uma revolta contra os partidos que estavam de acordo com as condições da troika e trouxe o país à sua actual situação de ingovernabilidade que, deve sublinhar-se, foi criada também pelos parceiros europeus. É bem possível que estas eleições gregas tenham iniciado o processo de desagregação do euro. 

 

[Publicado no jornal “i”]

publicado por Pedro Braz Teixeira às 16:32 | comentar | ver comentários (8) | partilhar
Sexta-feira, 27.04.12

Fim do euro (31) Cláusulas de dracma abandonadas

Já tinha chamado aqui à atenção para o facto de que o Banco Europeu de Investimentos (BEI) tinha começado a introduzir cláusulas de dracma nos empréstimos a empresas gregas, pretendendo precaver-se contra uma eventual saída da Grécia do euro.

 

Entretanto, a Comissão Europeia colocou pressão sobre o BEI para abandonar estas cláusulas, o que parece ter surtido efeito. Afinal os accionistas do BEI são os 27 Estados-Membros da UE e a missão deste banco é “concretizar os objectivos da UE, disponibilizando financiamento de longo prazo a investimentos sólidos”.

 

Mas convém sublinhar que o BEI não foi persuadido de que essas cláusulas não faziam sentido, foi antes forçado pelos seus accionistas a abandoná-las. 

publicado por Pedro Braz Teixeira às 10:07 | comentar | ver comentários (2) | partilhar
Quarta-feira, 25.04.12

Fim do euro (30) Surtos de inflação

Portugal sofreu até hoje três grandes surtos inflacionistas, que mudaram o “regime de preços” de forma súbita e prolongada. O primeiro iniciou-se com a guerra da independência de 1383-1385, cujo financiamento obrigou à desvalorização da moeda. Entre 1383 e 1430, os preços terão sido multiplicados por 630, o que faz deste episódio o maior surto inflacionista da nossa história.

 

Entre 1430 e 1915 houve desvalorizações pontuais da nossa moeda, após as quais havia prolongados períodos de estabilidade monetária. Quando a inflação é baixa durante longos períodos cria-se a convicção de que essa condição nunca será alterada nos tempos mais próximos. Um exemplo excepcional desta convicção foi o empréstimo externo de 1902, destinado a sanar os problemas decorrentes da bancarrota portuguesa de 1892, que foi emitido em libras, com uma taxa de juro de 3% e um prazo de 99 anos!

 

Em 1916 iniciou-se o segundo surto inflacionista, fruto da instabilidade da 1ª República, mas sobretudo da irresponsabilidade da participação portuguesa no teatro europeu da I Guerra Mundial, que gerou custos brutais e nenhumas vantagens. A participação portuguesa na guerra nas colónias fazia todo o sentido, mas na Europa era absurdo, até pelas fraquíssimas condições do exército português. Parece que o regime republicano usou a participação na guerra como forma de legitimação internacional e interna. É caso para dizer que se monarquia não tivesse caído em 1910, não teríamos cometido este erro histórico com custos brutais, inclusive em termos de fome.

 

Entre 1915 e 1924 os preços terão subido cerca de 22 vezes. Uma consequência importante desta inflação foi a diminuição drástica da dívida pública portuguesa (de 140% do PIB antes da guerra para menos de 90% em 1924), porque a inflação reduziu brutalmente o valor real desta dívida.

 

No período que se seguiu, entre 1924 e 1972, os preços portugueses multiplicaram-se apenas por 3. Esta prolongada estabilidade permitiu que se voltassem a emitir obrigações a uma taxa baixa e fixa, com prazos alargados.

 

O terceiro surto inflacionista iniciou-se em 1973, com o primeiro choque petrolífero e com os desregramentos que ocorreram a seguir ao 25 de Abril de 1974. Entre 1972 e 1995 os preços portugueses multiplicaram-se por 30, sendo que no final deste período a taxa de inflação já estava a diminuir claramente para os actuais valores muitos baixos.

 

Uma diferença importante entre o segundo e o terceiro surto inflacionista é que quando este se iniciou o nível de dívida pública era muito baixo (20% do PIB), pelo que não houve efeito de redução de dívida como o verificado durante a 1ª República. Pelo contrário, houve uma explosão da despesa pública, que fez disparar a dívida pública para valores muito elevados.

 

Para além dos surtos de inflação que ocorreram, parece útil referir os outros surtos que “deveriam” ter acontecido, mas que não se concretizaram, tendo presente que as guerras são as maiores fontes de subida da dívida pública e que, por isso, geram a maior tentação de recorrer à inflação. O primeiro seria associado à prolongada guerra de independência, entre 1640 e 1668, em que houve alguma desvalorização da moeda, mas de forma limitada. O segundo episódio é o das invasões francesas, entre 1807 e 1811, que também poucas consequências monetárias trouxe.

 

O terceiro caso é o da guerra colonial, entre 1961 e 1974, que foi compatível com contas públicas equilibradas e inflação controlada. Neste caso terá havido contenção em outras rubricas da despesa pública, em particular a educação, que “pagaram” a guerra.

 

Com a provável saída do euro, Portugal deverá conhecer o quarto surto inflacionista da sua história, um tema que merecerá uma análise mais detalhada nos próximos artigos. Convém recordar que o Banco Europeu de Investimentos passou a proteger-se da eventual saída da Grécia da zona do euro, incluindo cláusulas de dracma nos empréstimos recentes a empresas gregas.

 

[Publicado no jornal “i”]

publicado por Pedro Braz Teixeira às 12:22 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Cachimbos

O Cachimbo de Magritte é um blogue de comentário político. Ocasionalmente, trata também de coisas sérias. Sabe que a realidade nem sempre é o que parece. Não tem uma ideologia e desconfia de ideologias. Prefere Burke à burqa e Aron aos arianos. Acredita que Portugal é uma teimosia viável e o 11 de Setembro uma vasta conspiração para Mário Soares aparecer na RTP. Não quer o poder, mas já está por tudo. Fuma-se devagar e, ao contrário do que diz o Estado, não provoca impotência.

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