Segunda-feira, 16.05.11

O discurso dele

Cá está ele de novo. Já todos percebemos que o nosso Führerzeco esbracejante aposta no amedrontamento - vai insistir nessa tecla durante toda a campanha. Trata-se de amedrontar aqueles que estão em condições mais vulneráveis (mesmo os que já estão feridos). Muitos dos mais velhos estão assustados e padecem de uma atávica tolerância para com um "pai" severo ou mesmo brutal que pareça garantir alguma "segurança". Muitos Portugueses, com uma memória real ou induzida da pobreza, no fundo, consideram um luxo a exigência de um primeiro-ministro que não minta como quem respira, que não se tenha revelado incompetente, que não insista em erros clamorosos, que não iluda o público com mil e um artifícios, que não destrate os adversários, que não açule Portugueses contra Portugueses, que não seja um demagogo impenitente. They can't afford it. E não acham ter direito a um primeiro-ministro melhor.

Portas e Louçã também têm (e se têm!) os seus momentos de demagogia, mas a sua demagogia chega a ser brilhante, imaginativa - tanto um como o outro são bem mais criativos (pense-se, por exemplo, na variedade vocabular, nas imagens, no humor - independentemente de nos desagradar o ritmo de Portas ou a visível filáucia de Louçã). Pelo contrário, a demagogia de Sócrates é superficial, vulgar, repetitiva e de uma pobreza confrangedora. (Por exemplo, não chega a ser cortante como Louçã - é apenas brutal.) De cada vez que os "comentadores" e "analistas" vêm elogiar a "eficácia" desse discurso, estão a passar um atestado de menoridade cívica ao público. Nesse sentido, a campanha de Sócrates, tal como vem sendo feita, constitui um insulto a todos nós.

publicado por Carlos Botelho às 00:28 | comentar | ver comentários (6) | partilhar
Quinta-feira, 16.07.09

Uma cena exemplar

É claro que a esta atrapalhação bolseira não é alheio o cansaço das personagens. O cansaço físico, mais do que o político. Esse cansaço é bem real para quem está naquelas funções, por mais detestável que seja o protagonista. Mas, na verdade, esta cena é o resultado de andar a fazer anúncios de mundos e fundos em catadupa. O primeiro-ministro não consegue acompanhar o passo da sua própria vertigem propagandística. À força de querer mostrar, anunciar este número e mais este e ainda este aqui, Sócrates e parceiros enredam-se e enrodilham-se na trapagem confusa das suas medidas, atiradas a esmo através das televisões, num delírio numérico que mal nos deixa respirar.

O anúncio (mais um...) do aumento das vagas do "ensino profissional" de 90 000 para 125 000 é revelador de quais são as verdadeiras preocupações do primeiro-ministro a respeito da Escola e de como ele a vê. Por um lado, para Sócrates, a Escola é, primeiro que tudo, um meio de que se serve descaradamente para fazer propaganda. Por outro, repisa a importância do "ensino profissional" não, note-se, para dotar jovens de "qualificações", que valeriam por si e poderiam alargar perspectivas profissionais, mas sim para diminuir o "insucesso" e o "abandono escolar". Explica ele, sábio, que o "ensino profissional" costuma registar mais "sucesso".
Parece, então, que a Escola já não é bem uma Escola: pelos vistos, deverá antes ser um sítio para os jovens estarem, cumprindo a função de estar simplesmente ali, com "sucesso" praticamente garantido.
Pense-se no efeito que estas lérias do primeiro-ministro, esta associação praticamente necessária entre "ensino profissional" e "sucesso"/"não-abandono escolar", que este discurso intoxicante tem nos rapazes e raparigas que demandam aquele ensino - muitos deles com uma auto-estima escolar muito débil e com objectivos inexistentes. Pessoas como estas são facilmente condicionadas por aquele discurso de Sócrates. Ele diz-lhes, num certo sentido, o que elas, devido à sua fragilidade escolar e social, querem ouvir. Entram naquele "ensino" convencidas de antemão que, ali, o sucesso é muito mais acessível - por outras palavras, que aquele "ensino" requer não um outro tipo de esforço, mas sim menos esforço. Ora, como sabemos, estas predisposições reproduzem-se e acabam por condicionar o trabalho e os critérios de avaliação que os professores aplicarão aos alunos. Não é preciso ser um génio para se perceber os efeitos que isto terá na qualidade do tal "ensino". Depois veremos as "competências" com que os jovens sairão do "ensino profissional" "socrático". E de que lhes servirão num mercado de trabalho já tão estruturalmente pobre como o nosso.
Mas isso não preocupa Sócrates e a sua trupe da Cinco de Outubro.

publicado por Carlos Botelho às 23:03 | comentar | ver comentários (3) | partilhar
Terça-feira, 14.07.09

Demência

Foram hoje conhecidos os resultados dos exames nacionais do Ensino Básico (Português e Matemática). Comparando com o ano lectivo anterior, houve uma diminuição considerável na percentagem de classificações negativas em Matemática (de 44,9% para 36,2%) e um aumento (praticamente uma duplicação!) na de Português (de 16,7% para 30,1%).
Independentemente de se tratar de subidas ou descidas, o que nos deve preocupar talvez acima de tudo é darem-se estas variações: nem se trata de oscilações, mas sim de autênticos arrancos, sacões, em que, de um ano para outro, se salta ou se cai dez e mais pontos. Há um problema de fiabilidade nestes levantamentos. E, pior ainda, surgem, justissimamente, dúvidas sobre a seriedade e a competência das orientações e critérios com que se elaboram os exames. Como se pode avaliar um processo que apresenta toda esta inconstância? É claro que este ministério da Educação não parece preocupado com isso: preocupa-se somente em produzir propaganda disparatada (como a acusação à Sociedade Portuguesa de Matemática [!] pelos maus resultados dos últimos exames, etc.). A "equipa" da Cinco de Outubro já nem sequer é um parceiro para uma discussão séria sobre o assunto - tem de ser combatida com paciência de Job até Setembro.
Há, nos resultados tornados públicos hoje, um "pormenor" que não deve ser desprezado: veja-se aqui que, tanto em Português que "piorou" muito, como também em Matemática que "melhorou", deu-se um aumento não despiciendo do número de alunos classificados com a nota mais baixa (nota de 'um'): de 310 para 700, em Português e o que é mais espantoso, de 3107 para 3623, em Matemática. E isto é ainda mais sério, se nos lembrarmos que o aumento é acompanhado por uma diminuição do universo dos alunos examinados: de 94832 em 2007/08 para 90184 este ano! Quer dizer, aumentou consideravelmente o número de alunos que praticamente não conseguiram responder a nada ou quase dos exames...
Nenhuma pessoa no seu perfeito juízo se deve alegrar com estes resultados: continuamos com mais de um terço de classificações negativas em Matemática e com uma duplicação vergonhosa das negativas em Português. Ora, o que diz a isto a senhora ministra da Educação? Isto (leiam sentados, por favor):
publicado por Carlos Botelho às 01:51 | comentar | ver comentários (3) | partilhar
Domingo, 12.07.09

Falar verdade

Falar (próximo da) verdade em política implica sempre a sujeição ao risco da manipulação pelos outros. (Para mais, quando se recusa o truque mediático.)
Quando se quer falar da "realidade", sem embelezamentos ou subterfúgios, escolhe-se um caminho que não tem aquela sobre-simplificação que a "realidade", precisamente, nunca permite.

O engenheiro Sócrates talvez já não saiba o que isso é. Ou já não é capaz. Como mostram as suas trapalhadas crescentes, está cada vez mais perdido no meio duma série de espelhos que só lhe devolvem a sua própria imagem (com anúncios disto e daquilo por baixo). Mesmo que quisesse ver alguma coisa para lá deles, já não consegue.
publicado por Carlos Botelho às 12:16 | comentar | ver comentários (7) | partilhar
Sábado, 11.07.09

Enterro

Como é que se diz?... Quanto mais fala, mais se enterra. É isso mesmo.
Ora ouçam isto.
O primeiro-ministro, de cada vez que abre a boca, como agora mesmo, com os seus "argumentos" literalmente inacreditáveis e a sua "explicação muito razoável", trata por estúpidos todos os Portugueses. Daqui por dois meses terá a resposta que merece.
publicado por Carlos Botelho às 23:56 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Querer entender

A única "esperteza" de que o Partido "Socrático" é capaz é esta. A saloia.
Quem atentar no que foi dito por Manuela Ferreira Leite nos dois episódios em apreço, terá de concluir (sim, terá) que ela, ainda que numa formulação que se pode prestar a armadilhas esconsas, falou de coisas diferentes. Provavelmente, para o gosto da superficialidade apressada dos media (que é sempre estranha para quem esteja acostumado a deixar à linguagem o ritmo próprio das suas hesitações, das suas imprecisões, dos seus esbatimentos de sentido e que a fazem, precisamente, mais próxima da "reflexão" e da "verdade" e distante do linguajar prêt à porter de plástico dos "jovens" políticos), a diferença não terá ficado suficientemente vincada. Não o terá, pelo menos, daquele modo "fácil" que só aparentemente é claro, mas que, na verdade, engana, ao estabelecer contraposições e distinções que não estão lá ou não são tão vincadas quanto se quer fazer parecer (por exemplo, as frases em série e as polarizações simplistas tão ao gosto de Sócrates e de outros ao "centro" e à "direita").
Seja como for, aqui, para quem quiser entender, foi dito em que sentido e a que se aplica o famoso "rasgar".
Com esta manobra de diversão (de quem já se socorre de tudo), ajudada, claro, pela superficialidade mediática (sempre à caça do estridente ainda que falso), tentou-se que passasse despercebido um propósito de alcance político que foi anunciado e que denuncia precisamente toda a inépcia e incompetência políticas e a demagogia insultuosa do governo Sócrates, no que respeita às suas bandeiras "reformistas" (agora desbotadas e esfarrapadas) : há que 'fazer transformações profundas, mas nunca em agressão às pessoas, nunca criando crispação na sociedade portuguesa, sempre em colaboração com as pessoas, com aquele consenso que é necessário para se fazerem transformações'.
Presta-se isto a aproveitamentos maliciosos, a observações de pormenor que só pretendem minar o seu sentido político geral? Sim, presta. Mas isso é o que acontece sempre aos enunciados (é a sua fragilidade) que são ditos com maior proximidade das realidades a que se referem. É o que acontece quando a linguagem (mesmo na política) está como que in statu nascendi, está, genuinamente, debatendo-se com as coisas.
publicado por Carlos Botelho às 23:01 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Machista? Falocêntrico?...

publicado por Carlos Botelho às 00:38 | comentar | ver comentários (8) | partilhar
Sábado, 04.07.09

O cabo da boa esperança

No Jornal da Tarde da RTP, está um senhor de azul, com uma cabeça que tem qualquer coisa de cabo da GNR dos anos '50, a esbracejar com convicção adestrada, perante uma audiência atentazinha, e a pregar que "o Estado tem um papel", que "cuida das pessoas", que "não se pode deixar o mercado à solta"... Lá lhe devem ter feito um sinal qualquer de que a tv começava a transmitir e o homem, sempre aplicado, a franzir o cenho com o pensamento nas "pessoas" (as "pessoas" votam), lá começou a esvoaçar os braços mais energicamente, porque "não se pode parar" e, curiosamente, "não se pode deixar andar". Enfim, borbulhando num palco aquela espuma de propaganda a que já nos habituou.
Tudo se passa como se, de repente, se tivesse lembrado (mais um milagre "ideológico" do 7 de Junho) que é "de esquerda". Logo ele, que não é de coisa nenhuma.
publicado por Carlos Botelho às 13:26 | comentar | partilhar
Sexta-feira, 03.07.09

A ministra desajustada

Queixa-se a ministra da Educação (um cargo de designação irónica) que as quatro propostas de Manuela Ferreira Leite para o campo de batalha em que Sócrates transformou a Escola estabelecem um "clima de ódio desajustado". Vinda de quem vem, é uma acusação que faz sorrir. Uma ministra que, ao lado dos inesquecíveis Lemos e Pedreira, amparados os três pela sempre pronta gritaria "socrática" e por meia-dúzia de tiranetes-serviçais da província, pouco mais fez do que lançar uma rede de ódio sobre a Escola, fomentando politicamente, como nunca se tinha visto, o azedume e a aversão entre pais, professores e alunos.
Lurdes Rodrigues apenas repete aqui os lugares-comuns tipicamente reaccionários da predilecção do seu Chefe: a velha litania do "eu construo e vocês destroem", etc. Num sentido, é natural que assim seja, porque já não têm mais nada para dizer para lá dessas banalidades repetitivas. Já se sentem perdidos, encurralados por todos os lados. Refugiam-se, assim, numa monomania sem qualquer relação com a realidade.
As quatro propostas gerais de Ferreira Leite só são negativas na medida em que negam. São, na verdade, medidas higiénicas. Trata-se de remover os escombros da política educativa de Sócrates. Os escombros e o entulho que Sócrates/Lurdes Rodrigues/Valter Lemos deixam atrás de si são: o abstracto e desencarnadamente artificial estatuto da carreira docente; o chamado "estatuto do aluno", já um remendo sobre remendos, monumento da inacreditável incompetência técnica e da manipulação ardilosa dos alunos e famílias (sacrificando a educação de milhares de jovens com o engodo do aproveitamento fácil mascarado de assiduidade falsamente exigente); o famoso modelo de "avaliação" dos professores (a "simplificação" cosmética não alterou a sua natureza iníqua e perniciosa); finalmente, o burocracismo perverso que esta gente multiplicou exponencialmente nas escolas.
Que se pode fazer a isto senão arredá-lo? É isso que Ferreira Leite, e bem, se propõe fazer.


Por outro lado, é irresistível comparar este piedoso queixume de Lurdes Rodrigues: "o sistema educativo precisa de estabilidade, de continuidade" ou que "procurou nunca destruir o que os antecessores tinham feito", com a sua política verdadeiramente desestabilizadora (dirá a acefalia "socrática" que se tratou do combate aos "privilégios" e tal) e, mais, com as afirmações que reiteradamente produziu, segundo as quais cortava com "trinta anos de governos" em políticas de educação ou com este discurso na conferência O Estado e a Educação em que alardeia a "exigência de rupturas com o passado recente"...

A primeira grande dificuldade do futuro governo, no que respeita à Escola, será a quantidade de escombros que vai encontrar pela frente...
publicado por Carlos Botelho às 23:15 | comentar | ver comentários (9) | partilhar
Quinta-feira, 02.07.09

O que conta para Sócrates


Este filmezinho é muito interessante, porque revelador. O primeiro-ministro lá reconhece que o que aconteceu é "inadmissível" e "não podia ter acontecido". Até aqui tudo bem.
Mas, na verdade, tudo mal. Acontece que, para Sócrates, o comportamento de Manuel Pinho, é "inadmissível", não por ser inaceitável em si mesmo, mas sim porque, adivinhem, "afecta a imagem do governo". É isso que preocupa realmente o primeiro-ministro. Mais adiante, lá volta dizendo que "lamenta que tivesse acontecido" por prejudicar, mais uma vez (e sempre em primeiro lugar), a "imagem do governo" e, finalmente, lá se lembra de mencionar "o respeito do parlamento". (Na verdade, aquilo desrespeitou-nos a todos, não apenas o parlamento.)
Se Sócrates fosse um primeiro-ministro que pusesse em primeiro lugar aquilo que deve estar em primeiro lugar, nunca veria no caso um problema de imagem do lado do prevaricador. É que não se trata aqui de "imagens". Mas talvez Sócrates não alcance isso. Parece que, para ele, um comportamento, uma frase, é condenável somente na medida em que prejudica (a imagem de) o seu praticante.
Por outro lado, é nestes episódios que se vê muito bem que, para Sócrates, a "democracia" e o tal "escrúpulo democrático", com que ultimamente enche a sua boca e os nossos ouvidos, não passam de voces.
publicado por Carlos Botelho às 22:49 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Efeitos

As momices taurinas que o ministro Pinho fez há pouco diante de toda a gente e ofendendo toda a gente (desgraçadamente, até a si mesmo) - e ainda não sei que consequências terão - são, num debate do "estado da nação", um retrato do estado do governo.
Àquelas tristes figuras, não é de todo alheio o estilo insolente e ofensivo a que o primeiro-ministro Sócrates nos habituou durante quatro anos. Sócrates sempre deixou a inconveniência e mesmo a má-criação à solta no seu governo. Nunca pôs travão a desaforos ditos pelos ministros e secretários. Para além das afirmações politicamente insensatas, chegou-se à deselegância e às acusações insultuosas. Acontece que o próprio primeiro-ministro foi praticante disso. Sócrates, por várias vezes, por demasiadas vezes, disse coisas indignas do cargo que ocupa. Esses comportamentos reproduzem-se.
publicado por Carlos Botelho às 17:54 | comentar | partilhar
Quarta-feira, 01.07.09

"Forma" e "conteúdo"

É costume agora ir-se dizendo por aí (e não só pelo PS...) que a linha política do governo tem sido, em geral, "certa". Que o problema esteve no "discurso".
Nada mais errado. O "discurso" do governo Sócrates é também uma opção política enquanto tal. (E não esqueçamos que o "discurso" teve quase sempre uma função legitimadora das outras opções.)
Não há um "discurso" errado de um lado e uma "prática política" certa do outro. Não são separáveis. E foram ambos errados.
publicado por Carlos Botelho às 01:11 | comentar | ver comentários (5) | partilhar
Segunda-feira, 29.06.09

Crenças

Isto e isto, na verdade, não são mais do que variações da gritaria "socrática" do "pessimismo", do "bota-abaixismo" e de outros lamentos pela "irresponsabilidade" das oposições da pátria. Já não se trata agora daquela morna, sonsa e "burguesa" mediania, daquele seguidismo disfarçado de bom-senso a que nos habituou. Não. Começa mesmo a assomar à superfície um rancor que já não se disfarça. Desespero, provavelmente. E pode muito bem haver ali um espanto sincero: como é possível haver uma alma sequer que duvide, que critique, que se oponha ao benéfico governo do engenheiro Sócrates? Como?...
Há sempre uma certa crueldade na perturbação das crenças dos outros. É melhor deixá-lo em paz.
publicado por Carlos Botelho às 23:08 | comentar | ver comentários (4) | partilhar
Sexta-feira, 26.06.09

O ciclotímico

Animal feroz, coração partido. Indiferente a linhas editoriais, furioso com linhas editoriais. Berros ameaçadores, sussurros ternurentos. Não está a par de nenhum negócio da PT, está a par daquele negócio da PT. Não interfere em negócios privados, interfere num negócio privado. Sim, são insultos, não, são manifestações de desconforto. Era o que faltava que o governo se deixasse influenciar pela rua, é claro que o governo deve ouvir os sinais de descontentamento. Animal feroz, coração partido.
publicado por Carlos Botelho às 22:15 | comentar | ver comentários (3) | partilhar
Segunda-feira, 22.06.09

A caminho da Ciência

Dezenas de milhar de alunos do 9º Ano fizeram hoje o exame de Matemática [este e podem espreitar os critérios de correcção aqui]. No mesmo dia em que o senhor primeiro-ministro entreteve esta cerimónia.
Lá esteve ele com aquele seu entusiasmo ensaiado e aquela sinceridade treinada que quase diariamente derrama sobre nós. Falou-nos de Ciência, da importância que ela tem para si, da sua preocupação esforçada pela Ciência para Portugal. Independentemente do conteúdo facial da cerimónia (objectivos, estratégia e resultados de parceria com universidade norte-americana), o que sobressai nela, o que Sócrates quer que sobressaia dela (e lá estavam as televisões para isso), é o seu empenho político na formação científica em Portugal, na "produção" de investigadores - é isso que importa aqui. O conteúdo daquela cerimónia (pouco mais que propaganda pura) é político.
Comparemos então a alardeada paixão "socrática" pela Ciência com passagens de um documento sério de gente, esta sim, que sabe do que fala: o parecer da Sociedade Portuguesa de Matemática a respeito do exame de hoje (sublinhados meus):

"(...) O nível geral da prova é de novo demasiado elementar. O exame destina-se a alunos no final da escolaridade obrigatória. Após nove anos de ensino de matemática exigir-se-ia um maior grau de dificuldade.
(...)
Em quase todas as perguntas, os conceitos são testados com exemplos demasiado elementares. Os cálculos são todos muito simples, a equação do segundo grau é trivial, para mais sendo fornecida a fórmula resolvente, e os exemplos de geometria são demasiado directos.
Não há problema algum em introduzir num exame perguntas de anos anteriores ou de grau de dificuldade baixo. O que é prejudicial é que um número exagerado de perguntas corresponda a tópicos que deveriam estar sabidos anos antes e que todas ou quase todas as perguntas tenham um grau de dificuldade muito baixo.
Grande parte da matéria essencial do 9.º ano de escolaridade não foi coberta por esta prova. (...)
Tanto professores como alunos que se empenharam durante estes anos lectivos sentem-se desacompanhados e desapoiados com esta prova. O que exames deste tipo transmitem é a ideia de que não vale a pena estudar mais do que as partes triviais das matérias. Tanto os jovens que prosseguem os seus estudos no Secundário como os que terminam aqui a sua escolaridade não podem concluir estar bem preparados pelo facto de conseguirem um resultado satisfatório neste exame.
Pode pensar-se que provas elementares têm a vantagem de ajudar a perceber que as questões matemáticas não são intransponíveis. Mas estabelecer patamares demasiado baixos, em vez de incentivar a mais estudo e mais conhecimento, acaba por prejudicar todos — tanto os melhores, que se sentem desincentivados, como os menos treinados, que sentem menos necessidade de trabalhar para aumentar o seu domínio das matérias. Em suma, uma prova demasiado elementar como esta não serve o progresso do ensino. Pelo contrário, cria precedentes difíceis de contrariar."

É assim que se pretende criar as condições para um efectivo "desenvolvimento científico"? É assim que se estimula a formação científica?...
publicado por Carlos Botelho às 23:53 | comentar | partilhar
Sábado, 20.06.09

O "corporativismo"

Este post aqui (e também o comentário) do camarada do Cachimbo João Miguel Gaspar, constitui o género de exposições que costumam ser sumariamente despedidas como "corporativas" por parte da propaganda "socrática" ou da sua quinta coluna na "direita" dita "liberal".
A propaganda (neste caso, a "socrática") parte sempre os dentes quando embate nestas descrições. Porque são descrições e não efabulações. Enquanto que o discurso da propaganda é abstracto, vive numa atmosfera rarefeita de realidade, isto é, paira acima das "coisas concretas" e só remotamente (de modo instrumental) tem que ver com elas, aquele tipo de descrições são menos grandiosas e ambiciosas, estão circunscritas aos modestos limites da realidade. É precisamente porque se encontram mais próximas da realidade, quer dizer, das coisas tal como realmente se passam (o dia-a-dia modestamente concreto - com tudo o que isso contém - nos tribunais, nas escolas, nas esquadras, nas repartições), que essas descrições são menos ruidosas, menos visíveis, não se prestam ao espalhafato. Por isso, o discurso de Sócrates só pode ser espalhafatoso, porque respira no nível do artifício e, aí, o primeiro-ministro é "eloquente" - mas, quando aparenta tentar descer à realidade e falar dela, inevitavelmente, soa a falso. É preciso não esquecer que, quando o discurso do primeiro-ministro parece tentar falar do "concreto" (nos estreitos intervalos da sua fala abstracta omnipresente), ele continua ainda enformado pela sua abstracção propagandística.
Por definição, o discurso "socrático" é de propaganda, por isso não pode (nem quer) situar-se numa descrição da realidade. Esta é constantemente escondida, subtraída ao nosso olhar por aquele discurso. A eficácia deste processo é atingida quando, postos perante a realidade, não a reconhecemos como tal e tomamo-la, precisamente, como uma irrealidade. É o que se passou aos olhos do público com os protestos dos magistrados, dos médicos, dos professores, dos polícias, dos funcionários públicos em geral (e talvez também dos agricultores e de assalariados) que apareciam esvaziados de autenticidade, porque descontextualizados do cenário que a propaganda foi laboriosamente erigindo. Este um dos efeitos mais perversos do discurso "socrático".

Mas esta rarefacção do "concreto" seria insuportável se deixada a si mesma. Assim, tenta ser compensada, reforçada pela justificação "ideológica" mais rasteira: as objecções, as críticas, as simples dúvidas, as mais das vezes assentes na realidade (que, teimosamente, aqui e ali, se vai subtraindo às narrativas da propaganda), são desde logo arredadas, dum modo primário, como "corporativas".
A propaganda desconsidera todas essas posições com um imenso ruído para que não possam ser ouvidas. Nunca são verdadeiramente respondidas (veja-se os debates no parlamento ou as reacções do primeiro-ministro a manifestações) - são atacadas, por assim dizer, de lado, tanta vez ad hominem. São, dessa maneira, praticamente esvaziadas de conteúdo e mesmo desligadas da sua ligação à realidade: apresentadas como meras expressões de "interesses", "privilégios", etc. Para o público ideal "socrático", todos os protestos se reduziriam a um desfile inócuo de gesticulações mudas, desprovidas de sentido, irreais, que percorrem as ruas com protestos esvaziados de qualquer conteúdo que não os seus "interesses" imediatos. Apenas "insultos", "maledicência", "bota-abaixismo". Num sentido, a contra-argumentação "socrática" é sempre uma acusação moral, nunca "técnica". Os que se lhe opõem estão, antes de mais, moralmente errados.

Na visão "socrática", como se viu na entrevista, as famosas "reformas" nunca são justas ou injustas, benéficas ou perniciosas, competentes ou incompetentes. Há, quando muito, "problemas de comunicação" - as opções, como tais, não são afectadas. O primeiro-ministro, na Quarta-Feira, para lá do embrulho de humildade, limitou-se a reproduzir, numa voz mais doce, os dois tipos de ataque do costume. Por um lado, a referência ao "bem comum": é este que motiva as suas opções políticas, logo os pontos de vista contrários são estreitos, "egoístas". Sócrates, assim, aposta na inveja social e pretende isolar do público, em ilhotas de descontentamento egoísta, as classes profissionais afectadas. (Pelos vistos, até aqui, terá tomado por ilhotas grandes ilhas...)
Por outro lado, ele "compreende" o "descontentamento", o "desconforto", porque as "reformas" são "muito exigentes" e requerem "mais trabalho" - isto é, os que resistem são incompetentes ou preguiçosos. A este respeito, nada de novo no novo Sócrates: continua insultuoso.
publicado por Carlos Botelho às 14:08 | comentar | ver comentários (2) | partilhar
Quinta-feira, 18.06.09

A "mundivisão" de José Sócrates

Sim, é esta. (E ele lá fez uso da palavrinha na entrevista de ontem.) É esta e, provavelmente, com esta cor.
Ontem, na entrevista, para dar um exemplo duma boa grande obra, dum excelente investimento público, um argumento para os seus grandes projectos, Sócrates, o secretário-geral dum Partido chamado Socialista e primeiro-ministro num ano posterior a 1973, mencionou, deslumbrado, a ponte 25 de Abril (nem sei como não disse ponte Salazar...). Podia ter-se referido à Expo 98 ou à ponte Vasco da Gama - mas não, optou mesmo pela ponte Salazar.
É claro que, para alguém ideologicamente oco como o nosso primeiro-ministro, é ideologicamente indiferente mencionar a ponte 25 de Abril (Salazar) ou a Vasco da Gama. (Na Alemanha, elogiaria as auto-estradas do III Reich.) Acontece que grandes obras públicas nunca são inócuas num regime político. Muito menos o são numa ditadura. Aquela ponte, precisamente chamada Salazar, foi o resultado de opções políticas e foi (e ainda é), ela mesma, um objecto político-ideológico. Como o é, actualmente, o pobre Magalhães. (Veja-se o uso obsessivo que a propaganda "socrática" faz do portátil - e, precisamente na entrevista, Sócrates lá voltou a brandir ideologicamente o objecto).
Sócrates é um deserto ideológico, mas, quando diz aquele género de coisas, sabe muito bem a escolha política que faz.
publicado por Carlos Botelho às 21:28 | comentar | ver comentários (7) | partilhar
Quarta-feira, 17.06.09

Um desabafo

Inflecte a voz, dando autênticas guinadas em curvas e contra-curvas de "sinceridade". Engelha aquelas caretas condoídas. Diz 'corta-se-me o coração' com a mesma convicção com que diria 'eu é um bitoque e um sumo'. Alarga-se naquelas inacreditáveis parolices da importância do Magalhães na formação (!) das crianças. Como é típico, chama 'ignorantes' aos cépticos. Cita enviesadamente Manuela Ferreira Leite para a deixar ficar mal. Recita como um cábula aquelas tretas da 'esquerda moderna', que não é a 'esquerda arcaica' e do 'país moderno que evoluiu' e que 'não pode parar'. Representando, mal, um profeta da modernidade perplexo com tanta incompreensão. Quase bate com a mão no peito confessando-nos os seus 'valores profundos'. Na verdade, não disse nada.
Como pode alguém dar um voto (um 'votozinho', diria a outra) a este homem? Como?...
publicado por Carlos Botelho às 21:57 | comentar | ver comentários (5) | partilhar

A frase da "entrevista"

"Aaah... ora vamos lá a ver... Vamos ser honestos... aaah..."
publicado por Carlos Botelho às 21:31 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Keep going, babe...

A Ana Lourenço está a acordar...
Os custos dos "grandes investimentos"....
Se isto durar mais um bom pedaço, o homem derrete a máscara (ainda mal seca) da humildade...
Ele não gosta mesmo que lhe façam perguntas inconvenientes - já começa a mostrar-se irritado.
Mais um empurrãozinho e ainda desata a elogiar (com aquela sua vacuidade oportunista) as grandes obras do Estado Novo! - não citou o New Deal, mas sim a Ponte 25 de Abril como exemplo do investimento público...
publicado por Carlos Botelho às 21:25 | comentar | partilhar

Cachimbos

O Cachimbo de Magritte é um blogue de comentário político. Ocasionalmente, trata também de coisas sérias. Sabe que a realidade nem sempre é o que parece. Não tem uma ideologia e desconfia de ideologias. Prefere Burke à burqa e Aron aos arianos. Acredita que Portugal é uma teimosia viável e o 11 de Setembro uma vasta conspiração para Mário Soares aparecer na RTP. Não quer o poder, mas já está por tudo. Fuma-se devagar e, ao contrário do que diz o Estado, não provoca impotência.

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