Quinta-feira, 14.06.12

Confissão por Mozart

Neste livro, publicado pela Lucerna, encontramos textos de três dos principais teólogos cristãos do século XX, entre os quais o Papa Bento XVI. Barth, Balthasar e Ratzinger confessam, num tom franco e pessoal, a sua paixão pela música de Mozart e falam-nos da espiritualidade que nela encontram. A apresentação é de António Vitorino de Almeida e a maestrina Joana Carneiro faz a introdução aos textos. Estes autores professam uma confissão por Mozart, considerando a simplicidade que reina na sua música como que uma ‘fantasmagoria dos primordiais tempos paradisíacos’, a ‘pura inspiração’.

Creio que a leitura destes textos pode levar-nos a escutar com um gozo ainda maior a obra de alguém que viveu quase somente focado na sua realização. Com efeito, trata-se de alguém que se entregou inteiramente à arte musical. Talvez possa-se bem dizer que deu a vida pela música: ‘o número de obras conservadas de Mozart é, em relação ao seu curto tempo de vida, enorme – mas, evidentemente, muito maior é ainda a soma do mesmo com tudo o que nos foi ocultado e que permanecerá para sempre oculto: em todos os tempos da sua vida, ele improvisava com paixão, criando livremente no instrumento, deixando-se levar com naturalidade em concertos públicos, mas frequentemente, também, horas a fio, diante de poucos ou nenhuns ouvintes, sem nunca ter sido escrito aquilo que produziu nesse momentos – um grandioso e único mundo mozartiano que soou e expirou para todo o sempre!...’, diz-nos Karl Barth.

 

BARTH, BALTHASAR, BENTO XVI – Confissão por Mozart. Lisboa: Lucerna, 2012.

publicado por Andreas Lind às 10:22 | comentar | partilhar
Segunda-feira, 28.05.12

Revisitando a História

A filha de Isabel do Carmo publicou um livro intitulado Mulheres de armas. A edição reúne o testemunho de catorze mulheres que participaram ativamente nas manobras das Brigadas Revolucionárias contra a ditadura no início da década de setenta do século passado: colocar bombas, rebentar petardos com panfletos de propaganda política, assaltar bancos… Trata-se de um movimento inserido na história da luta anti-fascista em Portugal. É verdade. Mas espero que esta publicação não se traduza numa tentativa revisionista da história; num reducionismo da realidade do movimento. As Brigadas Revolucionárias, o Partido Revolucionário do Proletariado, não se inserem apenas na história anti-fascista, mas também numa cultura de certa forma anti-democrática (entendendo-se Democracia pelo sistema parlamentar implementado no pós-25 de Abril).

 

Com efeito, parece-me redutor apresentar as Brigadas Revolucionárias como um movimento de luta contra o fascismo no qual as mulheres já assumiam algum protagonismo político. Convém não esquecer que o PRP-BR deu origem às FP-25 já depois da revolução dos cravos. A sua atividade contribuiu de certa forma para que Abril não tenha sido só cravos. Além disso, tirando o romântico fervor e a adrenalina indelével às ‘armas’, este movimento constitui um grupo de pessoas a quem a história passou ao lado. Para eles, ao Portugal pós-Abril, só duas alternativas se colocavam: uma ditadura de direita; ou uma de extrema-esquerda, a qual queriam construir, provavelmente sem saberem definir e estruturar muito bem em que moldes. A história encarregou-se de mostrar a falsidade das suas profecias. De resto, estas crónicas, algumas das quais bem engraçadas e divertidas, contadas na primeira pessoa daquelas que deram vida a este movimento – o qual teve, aliás, pouca representatividade por todo o país – é o que apenas resta desta ingenuidade política.

publicado por Andreas Lind às 15:11 | comentar | ver comentários (1) | partilhar
Sexta-feira, 11.05.12

Bernardo Sassetti – In memoriam

 

Hoje, repentina e inesperadamente, com apenas 41 anos de idade, o compositor português Bernardo Sassetti faleceu caindo de uma falésia no Guincho. Como toda a sua vida, o seu último acto foi também artístico: fotografava o horizonte aberto que se vislumbra desde aquelas falésias. É uma perda para a música e para a cultura portuguesa. Resta-nos agradecer, apreciar e cuidar a sua obra enquanto compositor e pianista exímio.

As composições de Sassetti fazem-me crer num Portugal alargado, estendido, plural: talvez como seja mesmo a sua identidade. Com efeito, Sassetti tocou com intérpretes dos mais variados géneros musicais, recolheu as sonoridades de múltiplos mundos que apesar de longínquos fazem de certa forma parte da cultura portuguesa e a partir de tudo isso criou algo de único. Ele, apesar de não ter sido uma cópia dos mestres e dos géneros que aprendeu, respeitou as tradições que o foram instruindo musicalmente.

Ficamos, então, com o luto da gratidão.

publicado por Andreas Lind às 16:08 | comentar | ver comentários (2) | partilhar
Segunda-feira, 30.04.12

‘Tabu’ de Miguel Gomes

Tabu é um dos exemplos daquilo que de bom se faz por cá – aqui em Portugal. Se nem todos ficámos convencidos com a sua última longa-metragem – Aquele Querido Mês de Agosto – creio que agora Miguel Gomes conseguiu reunir um consenso bastante generalizado quanto à qualidade do seu cinema. Tabu, no recente Festival de Cinema de Berlim, foi amplamente prestigiado com a conquista de dois prémios.

Não só o título mas também a divisão dos capítulos e, aliás, todo o enredo, fazem-nos recordar o filme homónimo de Murnau. Tal como o grande clássico de 1931, este Tabu tem um enorme cuidado estético no modo de nos apresentar o drama, tornando-se de certa forma um filme poético. Miguel Gomes transporta a narrativa de Murnau para as colónias de Portugal anterior ao 25 de Abril. É no cenário paradisíaco do continente africano que os dois protagonistas vivem uma intensa paixão proibida pelos padrões morais da sociedade em que se inserem. Os amantes escondem a loucura o mais que podem. Mas a força daquele mundo encarrega-se de dissolver aquela relação sem futuro. Neles fica apenas a nostalgia do passado. A paixão absorvente e estimulante extingue-se, deixando nos dois um horizonte melancólico em que se vislumbra aquele amor perdido como uma miragem, algures na memória. Com o passar do tempo, a solidão e a velhice vão definindo a vida dos dois. E aí – no paraíso perdido – o seu amor é-nos narrado, sempre a partir dos olhos de quem o viveu.

publicado por Andreas Lind às 16:02 | comentar | ver comentários (1) | partilhar
Terça-feira, 24.04.12

'Chronik der Anna Magdalena Bach' - Quando um filme se faz música

 

Ontem, a cinemateca brindou-nos com um filme excepcionalmente raro:Chronik der Anna Magdalena Bach. Para o realizar, o casal Straub-Huillet despendeu cerca de dez anos em viagens, pesquisas, bem como no estudo das cartas do compositor e das respectivas partituras. Ao que parece, a estreia do filme no festival de Utrecht, em 1968, suscitou enorme polémica. Muitos o criticaram ao considerarem que planos fixos e longos durante mais de uma hora e meia a mostrarem músicos a executar a música de Bach nada tem que ver com cinema. Talvez, estas críticas façam sentido. Com efeito, neste filme, a música não é um acompanhamento da narrativa, nem um complemento que a reforça: tal como diz o próprio Straub, aqui a música é usada como ‘matéria estética’. Mais do que expor a vida do compositor J. S. Bach no contexto da sua época, Straub faz-nos ver a herança que essa vida nos deixou: a música que resiste à erosão do tempo e da permanente alternância de estilos e de gostos consoante a época em que nos encontramos. Talvez por isso, Straub,em vez de escolher um actor exímio para representar Bach, escolheu o cravista Gustav Leonhardt para interpretar a sua obra. Talvez, por isso, raramente ouvimos Bach falar; é a sua mulher quem nos conta a história. Bach limita-se a deliciar-nos com a sua obra e, ao longo de toda a narrativa musical, nunca vemos o seu rosto envelhecer.

Os planos praticamente imóveis durante o tempo de duração das peças pedem-nos que nos concentremos no essencial – a música de Bach, e não tanto a sua pessoa. Desta forma, o filme faz-nos viver uma experiência estética que coloca diante de nós um enigma – talvez mistério – difícil de engendrar. Apesar de Bach ter escrito a sua obra a partir da cosmovisão de uma época já passada, a partir de uma religião e de uma espiritualidade particular, a partir de uma linguagem estética que já não vigora entre nós, foi capaz de criar uma obra que continua a tocar os nossos corações. Bach parece ter sido capaz de exprimir a essência da Vida, do Homem, do Mundo; parece ter atingido o Absoluto a partir de uma tradição estética contingente. E por isso a sua música se mantém actual.

publicado por Andreas Lind às 11:22editado por Paulo Marcelo em 26/04/2012 às 12:20 | comentar | ver comentários (1) | partilhar
Segunda-feira, 16.04.12

Falar de Marx depois da morte dos marxismos

Desde a surpreendente queda do muro de Berlim, na já longínqua década de oitenta do século passado, têm vindo a surgir novas (re)leituras de Marx – da sua obra – imunes aos preconceitos ideológicos. A tese é simples: o pensamento de Marx não estava – nem está – errado; nunca falhou… As concretizações históricas concretas é que se alhearam do verdadeiro ‘espírito de Marx’: foi isso o que aconteceu. Nesse sentido, Derrida, Deleuze, Zizek e mais recentemente, entre nós, Sousa Dias[1] procuram desconstruir o dogmatismo da doutrina marxista-leninista de forma a possibilitar um ressurgimento do pensamento de Marx, mais autêntico, cujo espírito urge enquanto necessidade capital de uma sociedade decadente e saturada do  capitalismo que nela vigora. O Marx que aqui nos é apresentando é um Marx avesso a qualquer ideologia, imune e purificado das deturpações ideológicas do leninismo, do maoismo, e de todos os que o tentaram concretizar e enclausurar num ‘ismo’; um Marx contrário a toda a fixação ou cristalização do humano em conceitos e sistemas; um Marx revoltoso de todo o realismo; um Marx cujo espírito – contido no conceito de ‘revolução’ - é essencialmente ‘emancipação’, «fé numa im-possível transformação»[2]; um Marx, num certo sentido, quase nietschiano. Com efeito, em Teses sobre Feuerbach, Marx afirma que «os filósofos não fizeram mais do que interpretar o mundo (…); o que importa é transformá-lo». Esta máxima coaduna-se bastante bem com o espírito de reivindicação dos direitos individuais e da cultura de tolerância (quase sem limites) que fomenta uma ordem jurídica capaz de integrar diversos indivíduos, com diferentes desejos e aspirações, no mesmo espaço comum – o que aliás está bem patente na acção política da chamada esquerda moderna.

 

Gostava de deixar aqui três questões acerca desta renaissance marxista. Em primeiro lugar, não será que esta releitura do pensamento de Marx não poderia ter um equivalente em relação aos princípios do capitalismo e aos autores liberais? Ou melhor, porque razão é o pensamento marxista eterno e
sempre aplicável, enquanto que o capitalismo assiste ao seu término sempre que se depara com uma crise?

Em segundo lugar, não será que esta célebre tese marxista, segundo a qual devemos transformar o mundo em vez de o interpretarmos, não está profundamente errada? Não será que a crise actual que atravessamos não mostra os limites do homem e da sociedade? Não será, também, a realidade a impor-se aos nossos desejos e aspirações?

E, por último, não será este espírito de Marx – que certos autores propõem como parte da solução – um dos culpados da situação que vivemos? Ou seja, não será que esta cultura revolucionária de emancipação – que promove a «fé numa im-possível transformação» do mundo – não legitima os indivíduos a realizarem os seus desejos sem limites tendendo a originar situações insustentáveis do ponto de vista colectivo e social?

Concordemos ou não, creio que todos podemos tirar proveito da leitura destas novas interpretações de Marx e do nosso mundo hodierno.



[1] Ver DIAS, Sousa – Grandeza de Marx: por uma política do impossível. Lisboa: Assírio & Alvim, 2011.

ZIZEK, Slavoj – Viver no Fim dos Tempos. Lisboa: Relógio d’Água, 2011.

[2] DIAS, op. cit., p. 25

publicado por Andreas Lind às 10:50 | comentar | ver comentários (30) | partilhar

Cachimbos

O Cachimbo de Magritte é um blogue de comentário político. Ocasionalmente, trata também de coisas sérias. Sabe que a realidade nem sempre é o que parece. Não tem uma ideologia e desconfia de ideologias. Prefere Burke à burqa e Aron aos arianos. Acredita que Portugal é uma teimosia viável e o 11 de Setembro uma vasta conspiração para Mário Soares aparecer na RTP. Não quer o poder, mas já está por tudo. Fuma-se devagar e, ao contrário do que diz o Estado, não provoca impotência.

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