Domingo, 12.06.11

Para lá dos néons: O lado negro deste lado do mundo

 

Os números são de 2010, da OCDE e falam por si. No canto superior esquerdo, onde nenhum país deveria estar, surgem destacados a Coreia e o Japão. Uma triste factura social para sociedades que, já com uma prosperidade muito razoável, optam por se manter sobre uma pressão insuportável. Para o leitor ter uma noção, suicidam-se por ano na Coreia 12 mil pessoas. Uma autêntica guerra civil.

Já escrevi no Cachimbo como vivem os miúdos e os adultos aqui: os mais novos a estudar selvaticamente até irem para a tropa, os mais velhos nos Chaebols a trabalhar dia e noite (No Japão é mais ou menos igual). O resultado é a população activa mais qualificada e esforçada do mundo, mas mais infeliz, deprimida e suicida.

Para além da pressão nos estudos e no trabalho, há outras questões que esta gente tem que começar a enfrentar mais tarde ou mais cedo. A vida das mulheres é um inferno: treinadas desde pequenas para serem umas bonecas, magras e bonitas (e são de facto lindas), para casarem entre os 26 e os 28 anos (the golden age, depois são chamadas de velhas), tomar conta da casa (trabalham até casar) e muitas vezes dos pais do marido. Depois, já se está a ver, vigiam-se umas às outras, para assegurar que o status quo se mantém.

Não há diálogo entre amigos, gerações ou colegas. Há relações fortes e grupos coesos, sim, mas apenas ligados por uma actividade ou facto comum. Problemas sérios pessoais são enfiados bem lá no fundo da alma para que ninguém saiba da sua existência. Não se falando de adversidades (e de como contorná-las), as pessoas ficam pouco preparadas e lidam pessimamente com situações inesperadas (serem pouco creativas também não ajuda). E assim, quando chega uma surpresa desagradável (um divórcio, a morte dum pai, o desemprego) a única solução é, muitas vezes, atirar-se de um prédio ou para o rio Han.

No que toca ao suícidio, e especificamente na Coreia, o assunto não consta da agenda do Governo nem dos media, excepto quando envolve celebridades (como o ex-presidente Roh ou a actriz Choi Jin-sil). E não é com medidas avulso - como a colocação de telefones "anti-suícidio" nas príncipais pontes de Seul - que se vai lá. Temas para além do suicídio, que aqui descrevi - e que acabam por estar ligados ao primeiro - são ainda mais complexos de resolver, já que estão profundamente ligados à cultura milenar Confucionista.

O Japão e a Coreia são países sensacionais, com enormes feitos na história recente e grandes lições a dar ao mundo. Mas para se considerarem verdadeiramente desenvolvidos, as suas sociedades têm que começar a zelar pela felicidade dos seus. O que, na minha opinião, vai demorar pelo menos mais uma geração.

publicado por Francisco Van Zeller às 10:29 | comentar | ver comentários (5) | partilhar
Domingo, 15.05.11

De todas as lições, uma maior que as outras

Não há um direito à felicidade. Ponto final. Um sense of entitlement que abunda na Europa (é injusto limitá-lo a Portugal) onde pais, professores, Estado, Segurança Social, Entidades Empregadoras, bancos, "União Europeia" devem assegurar que uma pessoa seja feliz. Que se diverte na escola, que pode ficar desempregado e recusar empregos (até ter um emprego "digno"), que deve ser financiada ad eternum pelos pais para ter uma "juventude completa", que o(a) companheiro(a) se deve ajustar ás suas expectativas de vida. E por aí fora.

Visto daqui, do Extremo Oriente, este direito adquirido parece surreal. Aqui dá-se no duro. Primeiro na escola e nos centros de explicações onde as crianças empilham conhecimentos até às dez da noite. Depois no trabalho onde é normal só sair depois do chefe, trabalhar seis dias por semana e tirar uns cinco ou seis dias de férias por ano. Aos adultos cabe 1. trazer dinheiro para casa (e não gastá-lo em coisas pessoais), 2. pagar fortunas para os filhos terem a melhor educação possível, exigindo-lhes notas altas, 3. tomar conta dos pais (velhos). Às empresas cabe reter e treinar trabalhadores, exigindo-lhes basicamente toda a sua vida activa. Ao Estado cabe a obrigação de identificar e investir em "motores de crescimento" da economia, envolvendo depois as grandes empresas e universidades. A segurança social é quase inexistente. As mulheres amoxam em casa (está a mudar, ainda bem), asseguram que as crianças têm maneiras e vêm os maridos ao Domingo.

Há aqui um claríssimo sentimento de que é preciso lutar, sofrer para se conseguir as coisas mais importantes. E que queixar-se ou dar a parte fraca não adianta só prejudica. A felicidade, em suma, conquista-se.

Eu não estou a dizer que esta maneira de viver é melhor que a nossa. Mas é seguramente mais sustentável. E uma lição para nós porque esta gente tem as mesmas pretensões.

publicado por Francisco Van Zeller às 15:00 | comentar | ver comentários (13) | partilhar
Domingo, 01.05.11

Os Chaebols

O sucesso económico da Coreia do Sul, o país que mais rápido se desenvolveu no planeta, está totalmente assente nos chaebols. Os chaebols são conglomerados de dezenas ou centenas de empresas que pertencem a famílias coreanas, agora na sua terceira geração (os mais conhecidos são a Samsung, Hyundai e LG mas há dezenas de outros). Estes monstros começaram a crescer nos anos 60 quando a ditadura militar estabeleceu um ambicioso plano de desenvolvimento para a Coreia e favoreceu um número restrito de empresas - via crédito e concessão de monopólios. Para o leitor ter uma ideia, os três maiores chaebols que acima referi controlam mais de 50% da economia coreana e cada um deles é do tamanho de toda a economia portuguesa.
O que determina o sucesso espectacular de alguns destes grupos? Já mencionei o acesso a crédito fácil (foi mais no princípio, eles agora arranjam dinheiro onde querem) e favorecimento no acesso ao mercado interno, ambos pela parte do governo. Mas há outros elementos, mais subtis e interessantes.
O mais relevante, talvez, seja o facto de toda a população activa da Coreia - ultra qualificada - desejar profundamente trabalhar para um destes grupos e estar disposta a fazer sacrifícios que já não se fazem no Ocidente há 50 anos (eu que o diga carago). Ou seja, estes grupos têm acesso a uma pool sensacional de engenheiros, físicos, matemáticos, economistas e gestores cujo o objectivo de vida é servir a empresa. E estes em troca têm um emprego para sempre e promoções garantidas até aos 50 anos (depois é mais difícil).
A outra característica de sucesso dos chaebols é o estilo militar de gestão, que torna a execução muitíssimo eficaz e a organização mais flexível para mudanças necessárias. Ninguém coloca em causa ordens vindas de cima, que são imediatamente executadas independentemente de fazerem sentido a quem está a executá-las (só esta sociedade profundamente Confuciana permite isto). Ou seja quando é vislumbrada uma oportunidade pelos "patrões" (um novo mercado ou produto por exemplo) a malta atira-se de cabeça e não fica meses a fazer análises de risco, medição do impacto na empresa, alocação de recursos etc. É executar e mais nada.
A última coisa que destaco é a estratégia de crescimento que estes grupos seguem. O sistema educacional na Coreia é famoso por produzir gente sem criatividade, mestres em memorizar e copiar. Os Chaebols acabam por ficar profundamente marcados por esta realidade. E por isso em vez de tentarem inovar e serem líderes nas áreas onde actuam, optam sempre por serem fast followers: seguem de muito perto os produtos da empresa líder no mercado, copiam, inovam em pequenas coisas e vendem a um preço mais baixo, mantendo a qualidade. Esta estratégia, que nos pode parecer um pouco de segunda, tem tido um enorme sucesso. Dificilmente se alterará: basta ver os putos que estão agora na escola para perceber que o essencial não está a mudar.

(nota: na imagem, os HQs da Samsung em Seul - Samsung Electronics, Samsung Life e Samsung Construction & Trading)
publicado por Francisco Van Zeller às 13:23 | comentar | ver comentários (8) | partilhar
Terça-feira, 19.04.11

A defining moment in one's life

Grande Muralha da China, Abril de 2011.
publicado por Francisco Van Zeller às 09:01 | comentar | ver comentários (1) | partilhar
Domingo, 17.04.11

A última fronteira do mundo civilizado


Neste país há cidades ultra modernas, arranha céus de última geração, infraestruturas sensacionais, saúde e educação de ponta. Há um parque automóvel novinho em folha e as habituais Zaras, Starbucks, McDonalds. Há gente vestida como em Nova Iorque e Londres. Há empresas globais como a Samsung ou a Hyundai que vendem biliões mundo fora. Há uma economia que é a 12ª maior do planeta (e que prospera).
Com esta descrição o leitor considerará que a Coreia do Sul é um país parecido com os do "pelotão da frente": uma economia aberta, um modelo de transparência e accountability com empreendedores de sucesso, cidadãos globais e bem informados. Mas não é.
Por trás das semelhanças com os países "civilizados" com quem compete ferozmente, a Coreia tem um modelo de sociedade e de economia absolutamente únicos (ligeiramente comparáveis ao Japão) que torna o país muito sui generis e as suas qualidades impossíveis de replicar (há defeitos também e são mauzotes).
Esta é uma sociedade confucionista, muitíssimo homogénea que preza essencialmente três coisas: a força do colectivo, o valor da educação e a senioridade. O coreano começa desde os 3 anos a ouvir ordens (berros) em casa, depois na escola, na tropa e finalmente no trabalho onde é normal comparecer ao Sábado e tirar apenas 4 ou 5 dias de férias anuais. A pressão é infernal, e o resultado é uma gente que executa com uma qualidade e rapidez inacreditáveis, mas que não consegue pensar por si só na resolução de problemas (em suma, obedece a ordens ou copia bons exemplos). E conhecem muito pouco do mundo que os rodeia.
A economia, em vez de crescer "organicamente" por via de empreendedores capitalizados apoiados por um sistema bancário que arrisque, desenvolveu-se na realidade à volta dos chaebols, os gigantescos conglomerados que controlam toda a economia (só a Samsung é do tamanho da economia Portuguesa) e a quem a ditadura, e agora governos democráticos, deram carta branca para desenvolver o país. Ah, e estes chaebols não são multinacionais, são empresas coreanas com presença no mundo inteiro, o que é totalmente diferente - a cultura empresarial e as lideranças são totalmente coreanas.
Viver aqui é de facto uma experiência: ao contrário do que se possa pensar, o essencial não está a mudar e a peer pressure para manter status quo está intacta. E, sinceramente, porque havia a Coreia de mudar? Este foi o país que mais rápido se desenvolveu no mundo e as perspectivas são muito optimistas. Quem somos nós para julgar este modelo de civilização?

P.S. Agora que finalmente tenho uma porra de um teclado português, conto elaborar mais sobre esta aventura que já se estende por mais de dois anos. Talvez seja uma boa alternativa para a cobertura eleitoral que se avizinha.
publicado por Francisco Van Zeller às 13:40 | comentar | ver comentários (7) | partilhar
Quinta-feira, 01.07.10

Vivo, Telefónica e América Latina

"Reparei que os quadros que têm nesta sala de reuniões são representações do quotidiano lisboeta" disse eu ao administrador da Vivo, um brazuca. Ele encolheu-se e não conseguiu disfarçar o incómodo: a Vivo também era da Portugal Telecom.
Em Maio de 2009 tive o privilégio de trabalhar num projecto da Samsung Mobile na América Latina. A Samsung é o 2º maior fabricante de telemóveis do mundo e baseia o seu sucesso em relações previlegiadas com os operadores. Mas naquela região havia problemas de vendas, o que me levou a reunir com vários operadores em diferentes países e a ganhar uma perspectiva privilegiada sobre a Vivo, a Telefónica e a PT.
A situação na América Latina é invulgar: duas empresas controlam 70% do mercado de telefonia móvel em todo o continente - A Telefónica e a Claro (do Mexicano Carlos Slim). A guerra pelo controlo de cada país é total e em todas as plataformas (móvel, fixo, voz, dados, tv etc.), em particular nos maiores mercados, Brasil e México. Neste cenário, empresas como a PT (ou a italiana TIM) surgem para estes duopolistas como empecilhos sem escala e sem futuro na América Latina. Estamos fora de jogo.
Em reuniões e conversas informais com malta do sector confirmei o que todos já sabem: A Telefónica há muito tempo que manifesta o seu incómodo em não ter o domínio total sobre a Vivo porque 1. gostam de mandar em tudo o que tocam, 2. precisam de juntar a operação da Vivo à sua operação de rede fixa (a Telesp), 3. sabem bem o potencial que o Brazil tem: actualmente 180 milhões de clientes, e de acordo com a Anatel (a ANACOM lá do sítio) podem chegar até aos 300 milhões. Era, por isso, uma questão de tempo.
A outra coisa que constatei e não deve ser desprezada, é a profunda, muito profunda preferência dos gestores brasileiros em serem mandados por espanhóis (no quadro daquela obsessão que eles têm com a Europa do glamour) em vez de Portugueses (que serão sempre, sempre considerados europeus de segunda). É por isso que tenho a certeza que daqui uns dias os quadros de Lisboa vão ser substituídos por cenas de uma tourada em Sevilha ou imagens da Castellana. Para grande alegria de todos.
publicado por Francisco Van Zeller às 13:43 | comentar | ver comentários (9) | partilhar
Sábado, 23.01.10

Directamente da Ásia

Este vosso servo, desterrado no Extremo Oriente e distante das lides nacionais, mantém-se porém em alerta se o assunto envolve a Ásia que tanto estima.
Quando Martim Avillez Figueiredo refere que Lee Kuan Yee separou Singapura da Malásia em 1959, está a cometer dois erros (graves):
Primeiro: Singapura separou-se da Malásia em 1965, depois de se tornar num estado "autónomo" do Império Inglês em 1959 e da tentativa falhada de se associar à Malásia em 1963.
Segundo: Não foi Lee Kuan Yee e a sua Singapura que se separaram da Malásia, foi a Malásia que correu com Singapura devido às profundas divergências sobre as políticas raciais do Governo Federal da Malásia. O partido de Lee e os chineses daquela região nunca aceitaram a política de descriminação a favor dos malaios (malaios = indíviduos de raça malaia, diferente de habitantes da Malásia que também incluiam os chineses). Lee queria, obviamente, uma "Malásia Malasiana" e não uma "Malásia Malaia". Interessava-lhe que os chineses de Singapura tivessem acesso aos recursos, muito mais vastos, da Malásia (e aqui entre nós, agradava-lhe a ideia de um dia mandar em toda a península da Malásia).
As divergências tornaram-se insustentáveis em 1965. Num sensacional comunicado à TV (que vi no museu em Singapura) Lee anuncia aos singapurenses a chorar: "estamos sozinhos, só podemos contar com nós próprios". Relembro ao leitor que em 1965 Singapura era pouco mais que um pântano sem recursos e problemas sociais gravíssimos (hoje é o quinto país mais rico do mundo em PIB per capita). Lee gosta sempre se dizer nas suas palestras: "Havia dinheiro para uma semana de importações".
P.S. Algum dos Cachimbos me manda o email do Martim para o meu email? Não o encontro e não posso ligar para ninguém em Portugal a estas horas.
publicado por Francisco Van Zeller às 05:34 | comentar | ver comentários (4) | partilhar
Quinta-feira, 13.08.09

Montanha Russa

Reparem bem na enormidade dos números...o que vale é que esta malta já está habituada a isto.
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Quinta-feira, 23.07.09

Os motivos da pancadaria

Em plena silly season nada melhor do que mais umas imagens de pancadaria num parlamento de uma "democracia emergente". Como os leitores do Cachimbo têm o direito - e o interesse - de compreender as razões de outro momento glorioso do parlamento da Coreia do Sul (é pratica comum: a última sessão de porrada foi apenas há uns meses), seguiu um enviado especial para Seul que, em princípio, já não volta mais.
E o motivo é sério. O presidente Lee Myung-Bak, eleito há ano e meio, é considerado um businessman pragmático e, entre coisas, acabou com a "sunshine policy" - a política de abertura em relação à Coreia do Norte preconizada pelo seu antecessor - exigindo o fim do programa nuclear dos seus vizinhos (A reacção do Norte foi o que se sabe: mísseis , satellites, testes etc.).Um outro ponto ultra sensível da agenda de Myung-Bak é a relação do Estado com os media e os limites à sua propriedade - O presidente tem sido acusado de mudar as chefias dos medias do estado e de exercer pressão sobre os grupos privados. Uma tentação universal - familiar entre nós - que originou também uma proposta para voltar a permitir que os grandes conglomerados detenham televisões (há umas imagens celebres do Chairman Lee, da Samsung, a chorar quando teve que vender a "sua" televisão nos anos 80).
Esta proposta foi discutida no parlamento durante 8 meses e, previsivelmente, não se chegou a nenhum acordo. Ontem o Great National Party, partido do Presidente e com a maioria no Parlamento, levou de surpresa esta proposta a votação. A oposição, o Democratic Party, reagiu e tentou impedir a entrada dos deputados na câmara principal para se atingir o quórum (com cordas e correntes). Foi neste momento que comecou a porrada. A lei acabou por passar no meio de muita gritaria e confusão mas muitos dizem que não estavam presentes os 148 deputados necessários. Obviamente a coisa não fica por aqui.
publicado por Francisco Van Zeller às 05:29 | comentar | partilhar
Quarta-feira, 22.07.09

"Publico" descobre um novo continente

"Um eclipse solar total vai passar pela Ásia, Japão e pelo Pacífico durante quarta-feira. Será o eclipse solar mais longo deste século, com uma duração maior do que cinco minutos."

Acordar deste lado do mundo e constatar que o meu vizinho Japao foi promovido a Continente, pelo "Publico" eh patetico. Estagiarios de Verao concerteza.
P.S. desculpem os acentos, computador coreano.

publicado por Francisco Van Zeller às 00:45 | comentar | ver comentários (1) | partilhar
Segunda-feira, 13.07.09

Busan e as peixeiras

Este fim de semana, Busan. a segunda maior cidade da Coreia do Sul, com uns míseros 3,5 milhões de habitantes. Dá para o Estreito da Coreia e o seu porto gigantesco (suspeito que seja dos maiores da Ásia) é o motor da economia local e a porta de saída para os triliões de wons em exportações. Há também uma vaga praia com os habituais resorts, casinos e discotecas. A noite não é má. Mas o melhor é mesmo o peixe e o marisco.
Por isso mesmo fomos um grupo a um mercado de peixe relativamente modesto, mas recomendado por locais. Na Coreia, já se sabe, quando se penetra no "país real" a experiência antropológica multiplica por dez. Foi, felizmente, mais uma vez o caso.
Ao entrarmos os quatro, as peixeiras começaram a gritaria e a risada enquanto apontavam para as nossas caras exclamando "moshisóió!" (bonito). No meio de tanta agitação, com o nosso "survival Korean" conseguimos escolher um peixe para ser morto logo ali e servido em estilo sushi no primeiro andar. Depois do jantar - obviamente o melhor e o mais fresco sushi de sempre - voltámos ao mercado para nos despedirmos. Enquanto se dava nova sessão de berraria, uma das cinquentonas baixotas, discretamente, pega-me no braço, aponta para um cartaz onde consta o seu número de telefone, manda-me um olhar malandro e diz-me "call me, call me". Na saída, um comité de despedida de dez peixeiras. Uma maravilha.
Entretanto começou a monção deste lado (já tinha começado na India): chove à dois dias sem parar e vai ser assim mais um mês.
publicado por Francisco Van Zeller às 13:59 | comentar | ver comentários (4) | partilhar
Sexta-feira, 10.07.09

Guerras Modernas 2: Ignorar é o melhor remédio

Há uns dias, a meio de uma aula de coreano com 10 pessoas de todas as nacionalidades, ouvem-se helicópteros e aviões a circular perto de Seul. Os americanos começam a ficar nervosos:
- Teacher do we have to worry about this?
- (professora coreana) No...it's just some drills because of North Korea (sic)
Ao fim de 50 anos de retórica, o Sul desenvolveu uma capacidade inacreditável de ignorar olimpicamente as ameaças do Norte. O leitor do Cachimbo, bem informado, dirá que assim é porque deste lado estão dezenas de milhares de americanos em stand-by e -mais importante- porque a corda que os chineses deram ao Norte está-se a acabar. Mesmo assim. Quem fala no dia-a-dia com esta gente não deixa de ficar surpreendido com o desinteresse de uma ameaça que está a 45 (quarenta e cinco) quilómetros das suas casas.
publicado por Francisco Van Zeller às 13:41 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Guerras Modernas

Hoje quase não consegui aceder ao Google, porque os meus queridos vizinhos do Norte descobriram essa coisa fantástica que é sabotar a Internet. Enfim, sempre fazem menos estragos do que lançar para o meu quintal um Taep'o-dong 2.
publicado por Francisco Van Zeller às 13:29 | comentar | ver comentários (2) | partilhar
Domingo, 14.06.09

O Potencial

Não passa semana sem que o The Economist elogie o Brasil e a resiliência da sua economia. O Brasil é o menino bonito dos países "emergentes" e dos investidores da "economia global": depois do pânico no Verão passado, em que o Real voltou a perder 50% lembrando os maus velhos tempos, as previsões apontam para uma recessão muito mais soft do que a Europa e EUA e para um crescimento robusto já em 2010. Ao mesmo tempo há espaço para descer as taxas de juro, para o Estado gastar dinheiro e para o banco central ir acumulando reservas aos biliões.
Tudo isto são factos inéditos em tempos de crise. O leitor do Cachimbo, informado e interessado, lembrar-se-á das décadas de hiper-inflação, da dívida externa, das taxas de juro nos vinte e tal por cento. Parece que isso agora é passado, finalmente. E às boas notícias macro-económicas juntam-se outras: a independência energética, a criação de clusters em várias indústrias (ocorre-me agora a Embraer e a Vale) e a afirmação de potência regional (enfim, muito ajudada por aqueles vizinhos tarados).
Com tanta coisa boa, seria de esperar que aterrando em S. Paulo - o monstrinho urbano de 20 milhões de almas que controla o continente - e convivendo com os Portugueses que lá se encontram (muitos e bons) encontrasse um ambiente de euforia. Embora optimistas, os nossos compatriotas queixam-se dos problemas estruturais que faltam resolver. Para além da violência, muitos destes problemas não chegam a Portugal: a burocracia e a intervenção permanente do Estado, a corrupção que consome recursos inimagináveis, a falta de infraestruturas. Diz quem sabe que por isso mesmo o Brasil perderá uma oportunidade de ouro de revelar todo o seu potencial (aquele de que se fala desde o tempo dos nossos avós). Oxalá que não.
publicado por Francisco Van Zeller às 13:40 | comentar | ver comentários (6) | partilhar
Domingo, 03.05.09

O Terceiro Túnel da Agressão (da série "Lições da Coreia")

Os sul coreanos nem queriam acreditar quando Park, norte coreano, ferido e capturado na DMZ (Demilitarized Zone), lhes falou da existência de outro túnel a apenas 44 quilómetros de Seul. Estávamos em 1978 e este era o terceiro túnel que o Sul descobria em apenas 4 anos.
Tal como o túnel 2, tinha dois metros por dois metros, estava a cerca de 70 metros debaixo do chão (granito maciço, imaginem a dinamite e os mortos...) e em apenas uma hora poderia passar pelos seus 1,7 quilómetros uma divisão inteira (30.000 homens). A diferença para os primeiros dois túneis é que este estava próximo demais de Seul.
Este Domingo estive lá em baixo, no "Terceiro Túnel de Agressão", como lhe chama o Sul, e fiquei a saber que foi identificado um quarto túnel em 1990, suspeitando-se existirem mais 10(!). O Norte negou sempre tudo, claro. Começou por acusar o Sul de ser o verdadeiro autor desta loucura e após apresentação de provas irrefutáveis (na construção do túnel o dinamite explodia para o lado sul), admitiu anos depois que sim, que o terceiro túnel era obra sua, tratando-se no entanto de uma mina de carvão (chegando ao ponto de pintarem as paredes de preto).
Perante esta minha singela descrição, o leitor do Cachimbo imaginará que outros "projectos revolucionários" iremos conhecer quando o lado Norte da Coreia colapsar (por fome, frio, doença ou uma mistura dos três).
publicado por Francisco Van Zeller às 21:30 | comentar | ver comentários (4) | partilhar
Sábado, 25.04.09

Bem longe, pá

Hoje é um dia bom para estar a 10278 quilómetros de Portugal.
publicado por Francisco Van Zeller às 17:53 | comentar | ver comentários (9) | partilhar
Segunda-feira, 06.04.09

O míssil 2

"North Korea's controversial rocket launch put the South Korean government and the international community on their toes throughout a dramatic weekend, but the latest fiasco doesn't seem to have stopped or bothered foreign investors from doing business in the country bordering one of the world's most threatening nations.
Sunday's launch was news, but nothing new, executives said Monday, after the communist North fired off a long-range rocket despite international warnings to refrain from doing so.
``The problems in the North have been there and known for the past 50 years,'' said Hans Bernhard Merforth, vice president of the European Chamber of Commerce in Korea, a business lobby group representing 850 European companies. ``The political instability is certainly not positive, but it won't affect investors in any new way.''
He said escalating problems may renew emphasis down the road, but Pyongyang's latest action should be seen as a ``warning, not a red flag.''
North Korea's provocative move hasn't led to an immediate downgrade in the credit ratings of Asia's fourth-largest economy, as major international agencies stated that the developments were already reflected in the current status.
Darren Krakowiak, director of Jones Lang LaSalle, a global real estate consultancy, said that the rocket may have many diplomatic and military implications, but has a minimal impact from a commercial perspective.
``I have never once had anyone ask about North Korea when making an investment decision,'' said the two-year resident of Korea, who advises prospective property buyers around the world on the local market.
He said someone considering an investment today won't reconsider tomorrow simply because of the rocket.
Those who feel overly cautious probably aren't serious about investing here, said Tom Coyner, who provides consultation for inbound investors as the president of Soft Landing.
``People who did their research and know the country should understand what the investment conditions are like here,'' he said, adding that the unnerved crowd usually only has a vague idea of the peninsula without knowing the ``clear difference between North and South Korea.''
Sakong Il, the chairman of the Korea International Trade Association and senior economic adviser to President Lee Myung-bak, told reporters that the reclusive state's rocket launch itself shouldn't be a worry for investors.
``The international community has a general agreement on how to address the situation,'' he said, adding that proper counteractive measures should dampen any concerns."
in "The Korea Times", edição de hoje
publicado por Francisco Van Zeller às 14:16 | comentar | partilhar
Domingo, 05.04.09

O Míssil (da série "Lições da Coreia")

Conforme já vinha ameaçando, a Coreia do norte lançou o seu míssil de longo alcance Taepodong-2 causando a previsível reacção da "comunidade internacional". É interessante verificar que aqui, em Seoul, o desinteresse por este tema é quase total. Essencialmente por duas razões: A primeira é que os sul coreanos já sabem que o "Norte" faz estes "testes" sobretudo para chantagear o Ocidente (para obter mais dinheiro); a segunda é que a Coreia do Sul é o principal parceiro económico do seu temível vizinho, o que leva a que qualquer ameaça não seja levada muito a sério (os EUA e o Japão é que já não acham o mesmo). Mais interessante ainda é a percepção que os sul coreanos têm do Norte. Enquanto os mais velhos mantêm o forte laço emocional (muitos deixaram lá pais e irmãos, é impressionante) e a unificação é um desejo ainda que romântico, os mais novos vêm a Coreia do Norte como um fardo, impossível de sustentar, desprezando profundamente os seus "irmãos". E aposto que nem sabem o que aconteceu na Alemanha (sendo certo que a situação do Norte é infitamente pior que a velha DDR...).
publicado por Francisco Van Zeller às 15:41 | comentar | ver comentários (5) | partilhar
Domingo, 29.03.09

Mais ERC e o tal canal

Não duvido da existência de um poder excessivo e arbitrário da ERC, o qual combati enquanto desempenhava funções ligadas a esta área, e que resultou de uma lei aprovada logo em 2005 na ressaca do "Casa Pia" (com votos a favor do PS, PSD e CDS é sempre bom lembrar). É em parte por causa daquela cóboiada mediática ocorrida em 2002/03 que a agenda socialista para os media é tão dura. O trauma foi profundo.
Por isso mesmo também não duvido que a ERC tenha competências para pôr e dispôr no concurso do quinto canal. Se a ERC é ou não um instrumento deste Governo eu acho que não, mas acredito que entre qualquer almoço ou telefonema se tenha cozido um entendimento para evitar um mal maior (o lançamento do tal canal). Mas isto não é necessariamente manipulação.
Resta saber então porque não deve haver um quinto canal. Alguns leitores do Cachimbo propõem uma posição liberal (corajosa nestes dias), onde o mercado - neste caso as audiências - decide quem deveria sobreviver. Ora acontece que televisão não é um mercado qualquer.
publicado por Francisco Van Zeller às 16:00 | comentar | ver comentários (1) | partilhar
Quarta-feira, 25.03.09

Do fim do quinto canal generalista

Miguel, é um pouco mais complicado que isso. A introdução de um quinto canal generalista em Portugal só iria fragilizar ainda mais os nossos grupos de media que já estão num lindo estado: A Impresa (SIC) está na enésima reestruturação desde 2000 e teve outra vez prejuízos no ano transacto e a Media Capital (TVI) tem a casa mãe (os espanhóis da Prisa) à rasca com a dívida. Entretanto, o mercado publicitário, depois de ter crescido em termos reais 0% nos últimos 9 anos, este ano vai ter crescimento negativo. Uma democracia saudável precisa de grupos de media prósperos, assegurando assim a sua independência face ao poder político. Um 5º canal só iria piorar as coisas. O Ministro Santos Silva sabia isso do início e tenho a certeza que se deliciava com esta perspectiva. Por isso teimou até ao último segundo. A crise tornou inevitável este mini-teatro da ERC: considerar que nenhum candidato "reunia condições" para ganhar o concurso do 5º canal, quando obviamente que o que se passou foi uma decisão política de cancelar de vez esta ideia peregrina (calculo que tenham havido pressões fortíssimas dos grupos, à boleia da referida crise).

Agora a parte mais interessante: Esta malta da Telecinco, onde está envolvido o inevitável Rangel, terá por trás "investidores angolanos". Ouvi isto de lados diferentes e não me surpreende. São precisos umas boas dezenas de milhões para arrancar com um canal generalista. Não tendo nada contra os angolanos, preocupa-me porém a ideia de outsiders fazerem dumping nos preços dos anúncios para ganharem share à força e rebentarem com a SIC e a TVI. Para isso já basta a RTP.

publicado por Francisco Van Zeller às 23:56 | comentar | ver comentários (5) | partilhar

Cachimbos

O Cachimbo de Magritte é um blogue de comentário político. Ocasionalmente, trata também de coisas sérias. Sabe que a realidade nem sempre é o que parece. Não tem uma ideologia e desconfia de ideologias. Prefere Burke à burqa e Aron aos arianos. Acredita que Portugal é uma teimosia viável e o 11 de Setembro uma vasta conspiração para Mário Soares aparecer na RTP. Não quer o poder, mas já está por tudo. Fuma-se devagar e, ao contrário do que diz o Estado, não provoca impotência.

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