Quinta-feira, 26.07.12

Eu não sei se são loucos ou se acham simplesmente que os outros são muito tolos

Vejamos: os funcionários públicos têm uma segurança no emprego que no sector privado não existe; os funcionários públicos têm uma avaliação de desempenho risível quando comparada com a avaliação praticada do sector privado; os funcionários públicos têm o diligente tribunal constitucional a defender-lhes os valores dos ordenados, mesmo com o estado falido; os funcionários públicos têm acesso à prestação de cuidados de saúde em instituições que os trabalhadores do sector privado só têm pagando directamente ou comprando seguros de saúde; etc.; etc.; etc.. Com todas as benesses que oferece o serviço público, só alguém muito convencido da indigência intelectual alheia pode sugerir a necessidade de aumentar salários no sector público para os equiparar ao sector privado, como se não fosse razoável que as tais benesses - que têm o seu valor pecuniário - se concretizassem em mais baixos ordenados no serviço público. Mas lendo o que a OCDE considera 'razoável', ficamos esclarecidos sobre quem produz tais razoabilidades.

publicado por Maria João Marques às 18:19 | comentar | ver comentários (24) | partilhar
Domingo, 08.07.12

Pio XII, a righteous gentile

«De Israel chegou uma boa notícia para o Papa e o Vaticano esta semana: em Jerusalém, o Yad Vashem, o memorial às vítimas do Holocausto, alterou o texto que acusava o Papa Pio XII (1939-1958) de ter silenciado o massacre dos judeus durante a II Guerra Mundial. Junto à fotografia de Pio XII está agora um texto que, anunciou o museu e memorial, tem em consideração as "investigações dos últimos anos" - entre as quais um simpósio promovido pelo próprio Yad Vashem em 2009. O novo texto dá uma imagem mais "complexa" da actuação de Pio XII, que diz ser objecto de debate. O Papa Eugenio Pacelli não denunciou "explicitamente" o genocídio dos judeus, lê-se no documento. Mas, na sua rádio-mensagem do Natal de 1942, Pio XII falou das "centenas de milhares de pessoas que, sem qualquer culpa da sua parte, por vezes só por causa da sua nacionalidade ou raça, se vêem destinadas à morte ou a um extermínio progressivo". E, diz ainda o texto, as acções da Igreja Católica permitiram salvar "um importante número" de judeus. A mudança foi bem acolhida pelo Vaticano, naturalmente, mas também na Pave the Way (PTW), uma fundação americana vocacionada a criar pontes entre religiões, incluindo a recolha de documentação sobre o papel de Pio XII (www.ptwf.org). Gary Krupp, judeu nova-iorquino e presidente da PTW, comentou à agência Zenit que "não há uma base documental para nenhuma das acusações" feitas a Pio XII. E contou que, recentemente, a fundação descobriu uma carta do então cardeal Pacelli, de 1939, em que o futuro Pio XII tentava obter vistos para os 200 mil judeus que restavam na Alemanha, após a Noite de Cristal.»

No Povo.

 

«O padre Peter Gumpel, postulador da causa de beatificação do Papa italiano, referiu à Rádio Vaticano que a modificação foi pedida pelo historiador Martin Gilbert, que apresenta como o “maior estudioso” da Shoah. »

 

E o título de righteous gentile é precisamente aquele que Sir Martin Gilbert atribuí a Pio XII, num livro que toda a gente devia ler (pelas lições de bondade que descreve), onde também conta, entre outras coisas, como a Radio Vaticana, perante a próxima entrada dos alemães em Roma, em frequência aberta e arriscando represálias avisou os judeus que precisavam de se esconder.

publicado por Maria João Marques às 16:46 | comentar | ver comentários (1) | partilhar
Sexta-feira, 06.07.12

Para lembrar que aumentos de impostos são escolhas e não inevitabilidades

«Itália aprova cortes de despesa de 26 mil milhões de euros para evitar subida de IVA

"Uma subida do imposto teria graves consequências na economia", defende o governo italiano. Por isso, o executivo de Monti optou por medidas como redução do número de funcionários públicos e a diminuição para metade do número de autarquias.»
publicado por Maria João Marques às 15:27 | comentar | ver comentários (7) | partilhar

O rosto do aumento dos impostos

 

Se o governo for pelo caminho fácil de aumentar os impostos aos trabalhadores do sector privado, além de o devermos agradecer a Passos Coelho e Vítor Gaspar, este aumento de impostos deve ser sobretudo agradecido a Isabel Moreira e aos restantes socráticos do PS que continuam a atormentar as populações e a trabalhar para o empobrecimento geral a partir da AR.

publicado por Maria João Marques às 14:59 | comentar | ver comentários (28) | partilhar

Houve uns piadistas que falaram em 'igualdade'

Acho que esta é uma excelente altura para o governo - em nome da 'igualdade' exigida pelo Tribunal Constitucional (e digam-me, por favor, se os juízes do TC estavam a julgar a constitucionalidade da perda dos seus próprios subsídios de férias e Natal) - nivelar, de uma assentada, os ordenados dos funcionários públicos pelos do sector privado, bem como extinguir a Caixa Geral de Aposentações, ADSE e outros que tais.

 

Também é uma excelente desculpa para fechar - finalmente! - institutos e fundações que nada criam se não despesa, com os correspondentes despedimentos, cortar despesas dos reguladores e reorganizar o mapa autárquico. A justificação da necessidade já existe. Só é necessária vontade política.

publicado por Maria João Marques às 14:59 | comentar | ver comentários (12) | partilhar
Quinta-feira, 05.07.12

Eu proponho uma avaliação à memória antes de se ocuparem cargos políticos. Talvez se melhore um bocadinho a qualidade do que por aí anda

José Sócrates não se recordava das reuniões que teve durante o processo de licenciamento do Freeport e também não se recordava que nunca se encontrou com os clientes dos seus maravilhosos projectos de arquitectura para os lados das Beiras. Manuel Alegre não se lembrava se tinha feito um anúncio para o BPP e, depois de se lembrar, não se lembrava se havia sido pago ou não pelo anúncio. Miguel Relvas não se recorda de boa parte das conversas que tem com pessoas que ocupam cargos negligenciáveis como mandar nas secretas e também não se lembra quantos anos frequentou na faculdade (o que também é estranho, tendo aparentemente sido tão poucos).

 

Das duas uma: ou os nossos políticos são pessoas anormalmente desmemoriadas e é um perigo tê-los em lugares onde se decide a vida alheia; ou são mentirosos consumados e impenitentes e é um perigo tê-los em lugares onde se decide a vida alheia.

 

(E o conceito de corrigir informações de Relvas também é especialmente elástico; para mim, corrigir seria informar 'frequência do 1º ano de Direito' e não uma informação vaga como a que entregou na sua 3ª legislatura; mas estou a ser demasiado picuinhas; afinal o que interessa é uma verdade formal que pemita fingir que se corrigiu o que nunca se corrigiu, não é?)

publicado por Maria João Marques às 00:31 | comentar | ver comentários (10) | partilhar
Terça-feira, 19.06.12

Verdes de inveja e não só

Andando eu por estes dias atarefada com a gramática do mandarim ou a dinastia Qing e sem tempo nem vontade para ver os jogos da selecção no Euro, digo: o PPM tem toda a razão. E não é só esta inveja insidiosa que é daninha; pior é mesmo esta falta de vontade de tentar, mesmo que a tentativa saia frustrada. Quanta gente dá palpites sem nunca ter tentado algo ousado na sua vida ou, tentando, desiste à primeira contrariedade.

publicado por Maria João Marques às 13:55 | comentar | partilhar

Momento livresco

E gostando da pesca de salmão no Iémen, pode-se passar para os livros de Paul Torday. Aqui vão duas sugestões:

 

 

 

Haverá sobressaltos q.b. e, sobretudo, uma pujante imaginação a ser transposta em talentosa escrita para o papel.

publicado por Maria João Marques às 12:45 | comentar | partilhar
Quarta-feira, 13.06.12

Está difícil!

Lendo os posts de Priscila Rego chego à conclusão que devo ser muito confusa a escrever. Não sei bem onde Priscila Rego (ou João Miranda) foram buscar a ideia de que, para mim, diminuição de salários ou diminuição de despesa pública+Justiça a funcionar+desrulamentação+outras são alternativas entre si e que se deve escolher (quem?) uma ou outra (como?). Parece-me que fica claro pelos meus posts, mas talvez não esteja, que aquilo de que discordo é da apresentação dos ordenados como O problema de falta de competitividade das empresas; digo que o problema é outro, mas isso não os torna alternativos. E digo que falar dos ordenados pretende mascarar a incapacidade do governo de reformar o estado, o que também não os torna alternativos; poderia eu acusar o governo pretender mascarar com esta discussão sobre os salários um escândalo de corrupção (se fosse esse o caso) ou das trapalhadas de Relvas, que isso também não tornaria a corrupção ou as secretas uma alternativa à diminuição dos salários.

 

Por outro lado, não vejo também como pode Priscila Rego entender que eu digo que os salários já desceram tudo o que tinham a descer, quando garanto a toda a gente que não tenho uma bola de cristal para os equilíbrios. Digo algo diferente: que têm ajustado para baixo. Não vejo a parte onde digo que não têm de ajustar mais - porque não tenho a bola de cristal e não sei se têm de descer mais ou não.

 

O resto é construção sobre estas más interpretações, mas ainda assim acrescento que quanto às tradicionais baixas taxas de desemprego que costumávamos ter (e já uns bons anitos depois do euro e da inflação à volta de 2%) e aos ajustamentos dos ordenados há que ter muito em conta o único ponto que dá flexibilidade ao mercado laboral e que tem sido fundamental para empresas e trabalhadores indiferenciados: os contratos a termo. Também não consigo entender como um aumento de poupança das famílias resultante de diminução de impostos (os tempos são de aumento da criminalidade pelo que suponho que não guardariam as poupanças debaixo do colchão) - que permitiria que o actualmente escasso crédito bancário às empresas aumentasse, o que por sua vez permitiria maior investimento das empresas e até criação de alguns empregos - teria efeitos negativos nos ordenados.

publicado por Maria João Marques às 11:55 | comentar | ver comentários (5) | partilhar
Terça-feira, 12.06.12

Obrigada pelos conselhos, mas não precisamos

Eu espero não dar uma surpresa demasiado forte a João Miranda, mas as empresas (e os particulares que estabelecem mínimos de ordenados a aceitar) sabem tomar as suas decisões sem recorrer a António Borges ou aos que o aplaudiram. De facto, tem sido comum nas empresas privadas nestes últimos anos a contenção salarial, quando não mesmo o congelamento dos salários nominais (o que implica a descida dos salários reais) ou a diminuição de prémios de produtividade e outras regalias. Por estes dias, qualquer empresa oferece a um novo colaborador um ordenado mais pequeno do que o fazia há dois anos (ou, em alternativa, oferece o mesmo ordenado mas exige maiores qualificações). Se uma empresa não consegue pagar os ordenados dos que já lá trabalham, ou consegue despedir os menos produtivos ou não consegue (o que é frequente por cá graças à absurda legislação laboral) e acaba por fechar e despedir toda a gente. Tudo isto pressiona os ordenados para baixo sem que António Borges ou João Miranda necessitem de intervir. Por outro lado, quem procura trabalho actualmente sabe bem que não pode esperar ganhar o que esperaria há uns anos (e aceita ordenados menores), tanto pela contenção de custos das empresas como pela abundante oferta de trabalho expressa nos nossos números de desemprego.

 

Em suma: o mercado de trabalho, mesmo no contexto daquela coisa perniciosa que dá pelo nome de código do trabalho, tem acertado o valor dos ordenados quando e quanto é necessário. Tudo, novamente, sem a ajuda de António Borges e seus apoiantes - obrigada, de qualquer forma, pela preocupação.

 

Isto dito, é óbvio que as atenções dos governantes se devem centrar naquilo que é a verdadeira causa da nossa atrofia económica, em vez de procurarem desviar atenções para outros supostos culpados. Não se trata de serem alternativas entre si: trata-se de um constituir um problema para a economia que os governantes podem resolver, enquanto o outro não.

 

Uma nota só para terminar, que esta conversa dos transaccionáveis versus não-transaccionáveis só é possível para quem vê a economia em teoria e acha que algum agente económico decide sobre alguma ideia de negócio pensando 'isto vai-se encaixar no sector transaccionável ou no não-transaccionável?'. Ou de quem pensa numa economia planificada e acha que tantos recursos devem ser alocados num sector e tantos noutro. Há boas possibilidades de negócios em ambos os sectores e esta mania de perseguição dos não-transaccionáveis é herdeira directa (só mudam os protagonistas) da anterior mania das obras públicas como motor de crescimento. As pessoas que arrisquem, num sector ou noutro, que o mercado há-de premiar as boas ideias, tanto o que se transaccionar cá como o que se transaccionar lá fora. Prefiro um país com excesso de empreendedorismo, mesmo que parte deste falhe, do que um país - como nos estamos a tornar - onde quem não pensa em exportar é um pária económico.

publicado por Maria João Marques às 14:37 | comentar | partilhar
Segunda-feira, 11.06.12

Os 'altos salários dos portugueses' ou o novo bode expiatório da pseudo-direita

E, de repente, depois de uma entrevista de António Borges, um coro de vozes se levantou apontando o problema da falta de competitividade das empresas portuguesas (i.e., do país): os altos salários pagos. Por acaso (ou não) o coro de vozes fez-se mais ouvir em jornalistas, comentadores e políticos do que em empresários.

 

Ora bem: sendo certo que os salários em Portugal aumentaram mais nos últimos anos do que a produtividade - o que tornou as empresas portuguesas progressivamente menos competitivas - só alguém alucinado pode supor que o problema dos salários é o fulcro da falta de competitividade nacional. Tirando na administração pública, nas empresas públicas, em institutos e fundações públicas e nas grandes empresas privadas geridas como se fossem públicas, a política de ordenados é geralmente conservadora e anda perto da produtividade de cada um (e se alguém pensa que todos os custos das empresas com a absurda legislação laboral do país - que pouco mudou com este governo - não se reflectem também em ordenados mais baixos, esse alguém vive noutro planeta).

 

O problema fulcral da falta de competitividade das empresas é o Estado gordo e mastodôntico que temos, não os salários. O problema da falta de competitividade do país são as leis absurdas, muito lindas em teoria e catastróficas na prática (onde se enquadra, com direito ao quadro de honra, a legislação laboral), não os salários. A TSU é um problema de competitividade do país. A legislação laboral é outro. A (In)justiça, que tudo faz para penalizar as empresas, mais um. Os custos fiscais das empresas (sejam em IRC, taxas e taxinhas, impostos sobre produtos petrolíferos que tornam tudo mais caro por via das matérias-primas ou dos custos de transporte, IVA em taxas alucinantes, e um largo etc.) são pouco menos que mortais. A hiper-regulamentação controleira asfixia qualquer empresa. E por aí adiante.

 

Mas, claro, como já passou quase um ano desde a tomada de posse deste governo e ainda nada foi feito para reduzir de forma estrutural a despesa pública (apenas se implementaram medidas pontuais e facilmente reversíveis de redução de despesa), nada faz prever que o governo pretenda prescindir da sua colecta. Donde: é necessário tapar o sol com a peneira e distrair os tolinhos com um suposto problema nacional, de forma a que ninguém perceba que o problema é e continua a ser o estado, que faz tudo e culpa todos para evitar emagrecer.

 

Enfim, esta discussão dos salários tem um bom resultado. Geralmente considera-se que o estado socialista que temos apenas vai atrás dos 'ricos' (e 'ricos' do ponto de vista de quem ganha o ordenado mínimo). Talvez agora se perceba que o estado (ou quem dele se aproveita), para evitar reformar-se, irá atrás de quem seja necessário, mesmo de quem ganha 700 euros brutos por mês. Chama-se a isto socialismo e é nisto que temos votado.

publicado por Maria João Marques às 12:31 | comentar | ver comentários (27) | partilhar
Sexta-feira, 01.06.12

Uns piadistas

Tem imensa piada ler em vários lados colegas de blogue de uma deputada que um dia disse que não era grave que o primeiro-ministro do seu partido houvesse mentido ao parlamento (claro que para chefes de governo de outros partidos a falta de exigência não é igual, que as gentes do PS não têm nada que se submeter aos limites impostos a meros mortais) se indignem tanto com as contradições (que tanto podem ter sido esperteza saloia ou mentira pura e dura, ambas a la Sócrates, como falta de preparação para responder à AR - e que também deve ter custos políticos) de Relvas.

 

Já agora, é conveniente lembrar que Silva Carvalho não tomou posse do SIED através de um golpe. Chegou lá por nomeação superior e alguém - que, curiosamente, agora nunca é referido - fez um mau trabalho escrutinando Silva Carvalho para um lugar que nunca deveria ter ocupado.

publicado por Maria João Marques às 14:08 | comentar | ver comentários (7) | partilhar
Segunda-feira, 28.05.12

Ministro amputado?

Não obstante o caso das pressões de Miguel Relvas a uma jornalista do Público não ter os contornos sinistros que inicialmente se pensou e ser, assim, menos grave, o ministro não deixa de estar numa situação insustentável dada a sucessão de casos que lhe são associados - crónica da Antena 1, excessiva casualidade e excessivas contradições no 'caso das secretas', pressões ao Público - e dado o 'esclarece, não esclarece' a que Relvas e o PSD se têm dedicado. E é precisamente por não estarmos em tempos de velocidade de cruzeiro que não nos podemos dar ao luxo de ter no governo um ministro amputado na legitimidade. O governo vai fazer um ano e ainda estão por iniciar reformas que diminuam de forma estrutural a despesa pública, dando lugar a questões sobre as reais vontade e capacidade do governo de as iniciar (e concluir). Com ministros diminuídos é que, com certeza, não tentarão qualquer reforma.

 

Nota: não defendendo a jornalista nem as suas palavras, só espero que quem tenha montado este vídeo não o tenha feito enquanto recebendo um ordenado pago pelos contribuintes. Por estes dias há melhor uso a dar ao dinheiro dos contribuintes apropriado, em montantes absurdos, pelo estado.

publicado por Maria João Marques às 13:37 | comentar | ver comentários (6) | partilhar
Sexta-feira, 25.05.12

Incompatibilidades jornalísticas

Se afinal Miguel Relvas ameaçou revelar sobre a jornalista do Público que investigava as suas relações com o denominado 'caso das secretas' algo que não traz qualquer embaraço e até é do conhecimento geral (além do blackout, e da queixa à ERC e aos tribunais), confesso que não vejo motivo para tanto alarido. Diferente seria se Miguel Relvas pretendesse revelar pecadilhos sexuais da jornalista ou dos que lhe são próximos, a falta de pagamento da segurança social da empregada doméstica, as más notas de um filho ou algo do género e se tivesse obtido essas informações fazendo uso do alto cargo que ocupa. Afinal, os jornalistas não estão acima do escrutínio (desde logo o dos consumidores que escolhem comprar ou não as publicações onde escrevem).

 

Dito isto, também não vejo que incompatibilidade teria a jornalista, por ter uma relação sentimental com alguém do PS, em escrever sobre o governo PSD-CDS, ou que embaraço tal lhe traria ou em que medida isso desvaloriza as suas investigações. Os políticos devem ser submetidos a um escrutínio forte e que esse seja feito por espírito de missão ou por azedumes pessoais não me interessa nada desde que o poder seja de facto escrutinado. Incompatível e inaceitável seria que a jornalista escrevesse sobre o seu namorado (ou lá o que é). Tal como incompatível e inaceitável foi uma jornalista ter uma relação com alguém que pertenceu a um governo e ter escrito notícias sobre esse governo sob a capa de imparcialidade - tanto inaceitável para a jornalista como para o jornal que publicou as notícias.

publicado por Maria João Marques às 16:00 | comentar | ver comentários (13) | partilhar
Quarta-feira, 23.05.12

Passo positivo mas muito pequeno

CDS propõe o pagamento de taxas moderadoras para a realização de abortos no SNS. Está muito bem, mas não entendo por que razão não se propõe o fim da realização de abortos no SNS. É ignóbil gastar recursos dos (depauperados) contribuintes em procedimentos deste género, inclusivé quando poupanças são feitas com quem está, de facto, doente.

 

Relembro que o referendo que deu cobertura política à legalização do aborto não deu qualquer cobertura ao uso de recursos estatais para a prática de abortos.

publicado por Maria João Marques às 00:03editado por Paulo Marcelo às 10:21 | comentar | ver comentários (49) | partilhar
Terça-feira, 22.05.12

Triste natureza humana, que não deixa de ser hilariante

Então não é que agora, perante a acusação da editora de política do Público a Miguel Relvas, há quem venha defender que Miguel Relvas não é rapaz para ter estes comportamentos? Ou, melhor ainda, que nada foi 'provado'? Ora bem, quanto à primeira defesa, e aceitando que Miguel Relvas foi uma pessoa correcta até estes dias, não é que seria surpreendente um ministro sofrer um processo inédito que, paradoxalmente, tem como nome o  cliché 'subiu-lhe o poder à cabeça'? E esse mesmo ministro ser assaltado de um sentimento (tendo em conta o país, bastante justificado) de impunidade? E, perante muitas notícias desfavoráveis, ter uma reacção a quente que não se pode aceitar? Se quem esboça tal defesa de Miguel Relvas não concebe estas possibilidades, ou tem défice de imaginação (e, de caminho, de boa literatura) ou está a reinar. Quanto ao que está 'provado' ou não, não vamos voltar àquele argumento rasteiro da era socrática que propunha que apenas o susceptível de ser provado em tribunal pode ser usado no debate político, pois não?

 

Quanto à questão de fundo: se ainda passa que a quente um ministro ameace com um black-out do governo a um jornal, retratando-se depois, que um ministro ameace divulgar divulgar informação pessoal de uma jornalista como represália pela investigação da jornalista já está noutro nível e é essencial que se investigue não só se a ameaça foi feita como também se o governo ou alguém no governo tem vindo a armazenar informação pessoal sobre jornalistas (e se só de jornalistas) para divulgar como castigo a quem se porta mal. O mínimo que se pedia a Miguel Relvas e ao PSD era toda a disponibilidade para esclarecer a questão onde deve ser esclarecida: na AR, visto que é também um assunto político, e a democracia faz-se com o escrutínio político e não pela aceitação acrítica da confiança que uns tantos têm nos comportamentos de outros. E o PSD começou mal.

 

Nota: para quem relevou todos os (muitos e estrepitosos) ataques de Sócrates e Santos Silva aos media nos anos negros do socratismo e se indigna agora, aqui vai a definição de um conceito útil: o de vergonha na cara.

publicado por Maria João Marques às 11:34 | comentar | ver comentários (16) | partilhar
Quarta-feira, 16.05.12

Até as piores crises têm alguns resultados positivos

Como sucedeu noutras áreas, onde tantos anos de engorda e despesismo do estado tiveram como consequência a extensão dos tentáculos do estado até sectores pouco recomendáveis (para o estado) como a comunicação social, os seguros e um largo etc. em prejuízo da execução eficiente e eficaz das funções fulcrais de um estado (o estado calamitoso dos tribunais é apenas um dos sintomas desta visão desviante que foi sendo sedimentada ao longo dos anos do que deve ser um estado), a política cultural também preferiu demitir-se das suas funções essenciais - a preservação do património - para se concentrar na construção de clientelas de artistas que, do alto da sua casta de artistas (mesmo quando apenas se lhes pode aplicar o termo em sentido muito lato) e do seu profundo desprezo pelos mortais comuns (vulgo: contribuintes), decidiram ter um direito inalienável ao dinheiro dos contribuintes e consideram não ser possível avaliação dos resultados do seu trabalho se não pelos seus pares igualmente dependentes do dinheiro dos contribuintes. Estas clientelas ficam sempre bem nas campanhas eleitorais; quem considera não ter de sustentar clientelas cujo trabalho não aprecia (se apreciasse, escolhia gastar parte do seu dinheiro nos resultados da criatividade dos ditos artistas) é apelidado de troglodita ou amante de telenovelas mexicanas.

 

Um dos poucos lados bons desta crise é mesmo o termos alguém que, finalmente, diz a esta clientela que não tem nenhum direito inalienável ao meu dinheiro. Isto, claro, nem entrando na questão mais importante: na actual conjuntura, quando tanta gente luta diariamente por uma sobrevivência digna (quando não apenas sobrevivência), há alguma legitimidade em desviar recursos estatais para clientelas partidárias que produzem bens que não são propriamente de primeira necessidade? (Sim, fica muito bem dizer que sim, que bens culturais são de primeira necessidade mas, alas, não são; eu própria, se sobrevivo muito bem sem cinema português, considero ler tão essencial como respirar,  no entanto, se tivesse de escolher entre dar de lanchar aos meus filhos ou comprar livros, estes lá seriam sacrificados; em suma: dizer que os bens culturais são essenciais mais não é do que um exercício de um snob).

publicado por Maria João Marques às 11:00 | comentar | ver comentários (9) | partilhar
Terça-feira, 15.05.12

A agricultura da direita e a agricultura da esquerda

A agricultura é um sector estratégico em qualquer país, não por motivos de tradição mas por questões de segurança e defesa. Qualquer país tem obrigação de manter níveis de auto-suficiência alimentar adequados e não são os longos períodos de paz que devem fazer esquecer este desígnio. Tem, assim, lógica apoiar a agricultura de formas diferentes do apoio, por exemplo, à produção de torneiras (cujos apoios estatais se devem resumir a não incomodar a actividade das empresas que à produção de torneiras se dedicam).

 

Para este apoio à agricultura, um governo de direita tem necessariamente políticas diferentes de um governo de esquerda. Um governo de direita dá isenções de IRC aos produtores agrícolas, cria taxas de IVA especialmente baixas para produtos fulcrais da alimentação, isenta parcialmente as empresas agrícolas nas suas contribuições para a segurança social dos seus trabalhadores, providencia um contexto económico concorrencial nos produtos e serviços adquiridos pelos produtores agrícolas (de forma a que os adquiram a preços mais baixos) e mais umas tantas medidas que vão no sentido de desonerar e de reduzir custos especificamente às empresas agrícolas. Um governo de esquerda cria impostos a outros sectores económicos (aumentando assim o preço dos bens alimentares no consumidor) para cobrir custos do sector agrícola, cria legislação de forma a intrometer-se nas relações comerciais e contratuais entre os vários agentes económicos, cobra impostos aos contribuintes para usar em programas de apoio ao sector agrícola e mais umas tantas medidas que vão no sentido de reforçar distorções, criar novas distorções e, inevitavelmente, aumentar o preço dos bens alimentares. E depois, claro, tanto nos governo de direita como nos de esquerda há os excessos de intromissão em áreas alheias.

publicado por Maria João Marques às 14:15 | comentar | ver comentários (16) | partilhar
Sexta-feira, 04.05.12

Felizmente há sanidade e vozes não-socialistas no governo

«O ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira, disse hoje que as promoções do Dia do Trabalhador do Pingo Doce estão a ser investigadas, mas sublinhou "que este tipo de iniciativas é comum em vários países no mundo".»

 

E, vejam bem, a ASAE detectou dumping em três - três! - produtos. Se o rídiculo fizesse mossa nestes senhores, teriam saído do radar da comunicação social aí um mês depois das primeiras declarações aos media do actual director da ASAE.

publicado por Maria João Marques às 13:11 | comentar | ver comentários (6) | partilhar
Quinta-feira, 03.05.12

Agora sem ironia

Mas não deixa de ser irónico que o partido que mais oposição fez - e muito bem - ao PS devido aos abusos da ASAE seja agora o partido que, através de Assunção Cristas, aumente os impostos com argumento de defesa da segurança alimentar e que pretenda conter promoções comerciais que, está à vista de toda a gente, só trazem benefícios.

 

Eu não sei se o CDS está descontente por ter tido uma boa porção dos votos dos eleitores urbanos, e mais jovens que entradotes na idade. Mas se não está e pretende manter esse eleitorado, é conveniente informar Assunção Cristas que é ministra da Agricultura e não ministra dos agricultores e parar-lhe rapidamente os disparates. Porque as boas prestações de Paulo Portas e Pedro Mota Soares podem não ser suficientes para conter o descontentamento com a catástrofe socializante que a acção de Assunção Cristas tem sido.

publicado por Maria João Marques às 14:05 | comentar | ver comentários (13) | partilhar

Cachimbos

O Cachimbo de Magritte é um blogue de comentário político. Ocasionalmente, trata também de coisas sérias. Sabe que a realidade nem sempre é o que parece. Não tem uma ideologia e desconfia de ideologias. Prefere Burke à burqa e Aron aos arianos. Acredita que Portugal é uma teimosia viável e o 11 de Setembro uma vasta conspiração para Mário Soares aparecer na RTP. Não quer o poder, mas já está por tudo. Fuma-se devagar e, ao contrário do que diz o Estado, não provoca impotência.

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