Sexta-feira, 27.07.12

Da série “O sorriso do lobo”

Quando leio a recomendação da OCDE de equiparação salarial entre o sector público e o sector privado, aumentando os salários dos funcionários públicos qualificados e diminuindo os salários dos menos qualificados, pergunto-me em que grupo de qualificação estarão inseridos os professores do ensino estatal básico e secundário? E, dependendo da resposta a esta pergunta, o que fazer com os seus salários? Baixar-lhes os salários ou baixar-lhes os salários?

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Quarta-feira, 25.07.12

O jornalismo na vanguarda do debate político

Ontem, o editorial do PÚBLICO terminava com um conselho ao Primeiro-Ministro para não lixar os eleitores. Hoje, o líder parlamentar do PS critica o Primeiro-Ministro por estar-se a lixar para os eleitores. O jornal PÚBLICO já não noticia nada; faz política. O PS já não pensa nada; segue a voz do PÚBLICO.

 

PS. Mais risível ainda do que o facto de o editorial do PÚBLICO se ter lembrado que o Primeiro-Ministro se assemelha a um "líder messiânico", é a ideia de que o PS tenha efectivamente brindado o Governo com "muitos desafios" que pudessem ser levados a sério.  

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Sexta-feira, 20.07.12

A comunicação social e a política

Dentre o que foi dito e o que ficou por dizer durante o debate do IDL-Instituto Amaro da Costa, que colocou o Carlos Magno e o Joaquim Vieira a falar sobre a relação entre a comunicação social e a política, deixo aqui algumas conclusões a que cheguei:

 

1. Não obstante o primeiro ponto do Código Deontológico do Jornalista afirmar que “a distinção entre notícia e opinião deve ficar bem clara aos olhos do público”, não é raro assistirmos hoje à prática de um “jornalismo interpretativo” (para usar a expressão cara ao Ministro Miguel Relvas), em que os autores das notícias não deixam os factos falar. Em vez de ser deixado às pessoas a liberdade de formar a sua própria opinião a partir dos factos relatados, os jornalistas optam antes por antecipadamente formar e influenciar a opinião de quem procura relatos meramente objectivos e fieis. A política não incumbe ao jornalista e sobretudo não incube ao jornalista que tem como matéria de trabalho os assuntos políticos.

 

2. Há hoje um consenso em torno do facto de as relações entre os jornalistas e os políticos ser demasiado interdependente – os políticos usam os jornalistas para veicular informação que lhes interessa e os jornalistas usam os políticos para ter material de trabalho – dando lugar a familiaridades e cumplicidades perversas, desde logo ilustradas pelo facto de uns e outros se tratarem pelo primeiro nome. Alguns dizem que o problema principal está na precariedade da carreira dos jornalistas, que hoje muitas vezes parece servir de rampa de lançamento para outras actividades profissionais.

 

3. Ficamos a saber que as pressões dos responsáveis políticos a órgãos de comunicação social são frequentes e que a regra passa pela sua desvalorização por parte das direcções. Pode-se compreender que tem haver bom senso e equilíbrio no modo como os órgãos de comunicação social reagem a pressões, mas da suspeita de que o tipo de reacção às pressões poderá ter menos a ver com a gravidade da pressão e mais com a sua cor política já ninguém se livra.

 

4. Independentemente do muito que foi dito, eu encontrei uma virtude na deliberação da ERC. Foi nela que sem esforço encontrei a descrição exaustiva do caso Relvas-PÚBLICO. Complementarmente, fiquei a conhecer melhor o modo como evoluem as relações entre os profissionais e órgãos de um jornal. De qualquer modo, concedo que isto seja pouco e que não seja este o papel devido a uma entidade reguladora da comunicação social. O que a deliberação da ERC poderia e deveria ter sido, e quais as suas implicações caso tivesse sido diferente, é algo que ainda não consegui perceber.

 

5. É necessário que haja regulação e que o regime democrático esteja salvaguardado dos perigos que decorrem do uso abusivo do poder político. Mas o inverso é igualmente verdadeiro. O poder da comunicação social junto das pessoas e a influência que exercem nas suas opções políticas não é menos relevante. A regulação também deve passar por impedir que os profissionais da comunicação social cedam à tentação de também eles fazerem política.

 

6. Não existe um código deontológico dos políticos. Mas existe um escrutínio permanente da actividade política que passa pela justa ou injusta descredibilização deste ou daquele político e pela sujeição ao voto dos eleitores. Os jornalistas têm um código deontológico. Mas independentemente do bom ou mau jornalismo que façam, não são sujeitos a qualquer escrutínio, podendo permanecer na carreira eternamente enquanto estiverem nas boas graças de quem lhes paga.

publicado por Nuno Lobo às 16:00 | comentar | ver comentários (21) | partilhar
Sexta-feira, 13.07.12

Ensino favorece as alunas (e compromete os alunos)?

Há mais meninos que meninas a frequentar o ensino básico: 52% contra 48%. No secundário, o caso muda de figura, ou se preferirmos, de sexo: em cada 100 alunos, 55 são raparigas, ou seja, uma fatia generosa de rapazes perdeu-se para o abandono e insucesso escolares. No ensino secundário, a razia masculina adensa-se e apenas 43 em cada 100 transições/conclusões são de rapazes, contra 57 de raparigas. O último acto da saga de insucesso masculino ocorre no ensino superior: no conjunto dos últimos 15 anos, apenas 36 em cada 100 diplomados, pouco mais que um terço, eram do sexo masculino. Será que os homens deste país estão a embrutecer? David Chadwell, especialista em educação diferenciada por sexo, acha que não. Segundo este professor, em Portugal a convite dos Colégios Fomento, rapazes e raparigas aprendem de forma diferente e, em geral, os sistemas de ensino modernos favorecemo modo de aprendizagem feminino. Num sistema de ensino onde abundam os paladinos da igualdade, será que o tema não merece um pouco de atenção?

Francisco Vieira e Sousa no CM

publicado por Nuno Lobo às 12:18 | comentar | ver comentários (4) | partilhar
Terça-feira, 05.06.12

Silent End

E o PÚBLICO nada noticia sobre a demissão da sua jornalista? Talvez não seja assunto. Não percebo. Enfim.

publicado por Nuno Lobo às 13:40 | comentar | ver comentários (4) | partilhar

A natureza das coisas (uma expressão démodé)

Segundo o Alexandre [Homem Cristo], há um mito a pairar no ar que se sobrepõe à realidade. E como reza o mito? A educação está hoje pior do que antigamente. Este mito estará relacionado com um outro, desta feita não explicitado como tal pelo Alexandre, segundo o qual o ensino do sistema actual é menos exigente do que o de outrora. Ora, não é de todo impossível qualificar-se um sistema menos exigente mas mais democrático como sendo melhor do que um sistema mais exigente e menos democrático. É, segundo penso, o que Alexandre faz: hoje há mais alunos escolarizados do que outrora, logo o sistema de hoje é melhor do que o de outrora. Faz sentido e compreende-se o argumento. Contudo, o argumento não é necessariamente verdadeiro. Mais importante ainda, o argumento nada nos diz sobre a exigência da educação. E o que sabemos sobre a exigência da educação de hoje face à exigência da educação de outrora? Sabemos pouco, de facto. Mas sabemos que os exames do passado, para um mesmo ano escolar, eram mais exigentes do que os exames de hoje (reportagens de jornais comprovam isso mesmo). E sabemos que hoje são cada vez mais e mais os alunos a entrar na universidade sem saber escrever de forma recta e inteligível, o que outrora não acontecia (são os professores universitários, com anos de experiência, que o dizem). Em suma, podemos concluir que não é impossível que o sistema de ensino de hoje seja melhor do que o sistema de ensino de outrora, bastando para isso que a medida da qualidade seja o número de alunos escolarizados. Agora, se a medida da qualidade for a exigência, então a conversa muda radicalmente de figura. É natureza das coisas que a democratização do ensino implique menor exigência? Eis uma boa pergunta que a realidade parece comprovar. O segredo do sucesso estará em conseguir-se equilibrar da melhor forma possível os dois lados da questão. E, para este efeito, para se equilibrar a democracia com a exigência, não é mais importante ouvir e ler o que o Alexandre tem para dizer do que ouvir e ler os educadores démodés (na expressão do Alexandre). Quanto à autonomia escolar, de que o Alexandre também fala, eu não poderia estar mais de acordo – até porque a autonomia poderá ser a única forma que resta às escolas de imprimir exigência no ensino, indo assim ao encontro das expectativas de tantos alunos e tantas famílias que hoje se sentem defraudadas por um sistema aparentemente mais preocupados com o número de alunos escolarizados do que com o conhecimento adquirido ao longo do percurso escolar.

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Quinta-feira, 31.05.12

Política e jornalismo. Jornalismo e política

Há quem diga que devemos continuar a comprar jornais impressos – uma espécie de contribuição para o bem da democracia portuguesa. Compreendo. Mas é cada vez mais difícil. Habituado a comprar e a ler o PÚBLICO, li há pouco um artigo de opinião, na rubrica Debate, assinado por um tal Domingos Lopes (p. 47). Diz mais ou menos isto: Passos Coelho é um liberal protegido pelo Estado. Passos Coelho, ao contrário de Nelson Mandela e do Zé do Telhado, é um herói valentão que ataca os fracos e venera os fortes, que bate nos desprotegidos para lhes meter medo, adormecer-lhes a consciência, e subtrair-lhes a força anímica. Em suma: Passos Coelho, que nada tem de corajoso, é um cobarde da pior espécie – daqueles que não se limita a fugir do perigo, mas antes a espezinhar os que já estão por terra. E como Passos Coelho tem um carácter vil, os seus ministros – com Miguel Relvas à cabeça – mau carácter necessariamente têm. Dado que Passos Coelho conduziu os portugueses a uma pobreza e miséria sem precedentes, para quando a revolta dos oprimidos? Se as palavras de Domingos Lopes não merecem atenção especial, já merece atenção saber-se o que motiva o PÚBLICO a publicar um artigo com uma ironia infantil, a um mesmo tempo ofensivo e moralista, sem um único argumento ou qualquer espécie de razoabilidade que motive o debate e justifique o nome da rubrica em que se insere. O jornalismo de referência em Portugal, de que o PÚBLICO foi um digno representante, está muito próximo de ser hoje uma merda: onde procuramos investigação e reportagem, encontramos o resultado de trocas de informação entre dois poderes que se alimentam mutuamente; onde procuramos informação objectiva e factual, encontramos opinião ideológica dissimulada por entre palavras escolhidas; onde procuramos opinião fundamentada, encontramos o Domingos Lopes. Políticos e jornalistas. Jornalistas e políticos. O regime está doente e não há medicina que nos cure.

publicado por Nuno Lobo às 21:42 | comentar | ver comentários (11) | partilhar
Terça-feira, 15.05.12

20/20 Revista de Política Educativa

 

20/20 é o nome da novíssima revista bimestral portuguesa sobre políticas públicas de educação. Fundada por Francisco Vieira e Sousa e Alexandre Homem Cristo, o ESTATUTO EDITORIAL define a revista como “aberta a todos os pontos de vista” e assente nos princípios fundamentais da “liberdade, responsabilidade, equidade e participação".


A 20/20 é uma revista online e gratuita, que conta com a contribuição generosa de um conjunto diversificado de pessoas. Neste número inaugural, topamos com um FRENTE A FRENTE que opõe as opiniões de Ana Rita Bessa e de Paula Serra sobre a Revisão Curricular que terá início já no próximo ano lectivo. Adiante, um olhar VISTO DA ESCOLA, por parte de Álvaro Almeida dos Santos, sobre o tema recorrente – mas sempre adiado – da autonomia escolar. A revisão curricular e a autonomia são ainda objecto da reflexão de Roberto Carneiro numa longa ENTREVISTA, que inclui também considerações sobre o ponto da situação educativa actual face ao estudo prospectivo que ele mesmo apresentou no ano 2000, a qualidade dos professores portugueses e sua relação com as escolas superiores de educação, os benefícios e limites que decorrem do PISA e ranking das escolas nacionais, a Iniciativa Novas Oportunidades, entre outros assuntos relevantes. A 20/20 inclui ainda a OPINIÃO de Hugo Mendes sobre os motivos que poderão justificar o atraso educativo português e a aposta continuada no chamado Estado Educador, assim como a rubrica EDUCAÇÃO LÁ FORA, assinada por Inês Gregório, com uma descrição das novas políticas educativas protagonizadas pelo governo de coligação entre Conservadores e Liberais Democratas, que visam, já não o Estado Educador de que nos fala o Hugo Mendes, mas antes a inclusão efectiva da sociedade e dos seus diversos grupos no desenvolvimento da educação escolar inglesa. Por fim, Rodrigo Queiroz e Melo assina a RECENSÃO do livro que Frederick M. Hess publicou em 2010, intitulado The Same Thing Over and Over - How School Got Stuck in Yesterday’s Ideas, apostado na demonstração de que o centralismo educacional, que ainda determina o funcionamento das escolas, é anacrónico face ao pluralismo e multiculturalismo característicos das sociedades modernas, sendo hoje um tempo para a abertura a novas formas escolares, vias alternativas de acesso à profissão docente, entre outras reformas necessárias.

 
Em suma, estamos perante 36 páginas de uma revista esteticamente agradável, dedicadas às políticas educativas em Portugal e no estrangeiro, com intervenções relevantes de personalidades que se dedicam aos assuntos educativos, e que constituirá, certamente, um passo em frente na elevação do debate sobre a educação em Portugal. Pelo trabalho já realizado e pelo trabalho que ainda têm pela frente, especialmente por se tratar de uma iniciativa inteiramente graciosa, desejo ao Francisco e ao Alexandre os maiores êxitos e longa vida à 20/20, deixando-lhes uma palavra amiga de admiração e agradecimento por esta nobre iniciativa.

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Sexta-feira, 20.04.12

Gu Sporting gara!

publicado por Nuno Lobo às 15:54 | comentar | partilhar
Terça-feira, 17.04.12

Vergonha (2)

 

O Sporting continua a surpreender-me. Depois das notícias sobre o caso rocambolesco que associava Paulo Pereira Cristóvão a um depósito de 2 mil euros na conta do árbitro José Cardinal, que motivou a suspensão do dirigente do Sporting, eis que o Conselho Directivo, após ouvir em reunião Paulo Pereira Cristóvão, decide que o senhor deve reassumir as suas funções, retirando assim o pedido de suspensão do mandato. Não sei o que se passou ou foi dito na reunião, mas desconfio que a coisa não terá sido bonita. Fica a suspeita de que Paulo Pereira Cristóvão poderá ter dito qualquer coisa como isto: “Ou sou reintegrado ou outras cabeças rolarão.” Infelizmente, o comunicado do Conselho Directivo, porque inócuo, permite todas as suspeitas. Pelo caminho, o comunicado apela à união de todos os sportinguistas e ao apoio nos próximos desafios do Clube. Não sei exactamente quais os "desafios do Clube" que a Direcção tem em mente no comunicado. Para mim, o maior desafio que o Sporting enfrenta neste momento é mesmo o do caso que hoje envergonha todos os sportinguistas. Face a este caso, a meia-final com o Bilbao ou o jogo no Jamor com a Académica é de somenos. Ainda espero, embora já com pouca fé, que a Direcção do Sporting consiga estar à altura das suas responsabilidades.

publicado por Nuno Lobo às 14:40 | comentar | ver comentários (9) | partilhar
Sábado, 14.04.12

Vergonha

 

Tenho acompanhado à distância as notícias que colocam Paulo Cristóvão, dirigente do Sporting, que pediu há dias a suspensão do mandato, no centro de um caso rocambolesco de pressão a um árbitro e vigilância da vida privada dos jogadores da equipa de futebol. O mesmo Paulo Cristóvão já havia sido o cérebro das imagens dos hooligans violentos no corredor de acesso aos balneários dos adversários do Sporting, um caso menos grave mas igualmente triste. Não obstante a história gloriosa do Sporting, com a acumulação sem precedente em Portugal de títulos e mais títulos em variadíssimas modalidades desportivas, os sportinguistas orgulham-se, acima de tudo, de o Sporting ser um clube de cavalheiros, respeitador das regras de convivência desportiva, e alheio às golpadas que envolvem particularmente o futebol português. Nós, sportinguistas, queremos vitórias, mas queremos vitórias dentro da lei, para as podermos celebrar com a cabeça bem erguida, sem estarmos sujeitos à desconfiança que sempre acompanha as vitórias de outros clubes menos dignos. Espero que este caso seja esclarecido o mais rapidamente possível e, a haver culpados, como parece haver, que eles sejam rapidamente identificados e imediatamente corridos do Sporting. Mais, a haver lugar a sanções desportivas, elas serão muito bem-vindas, se forem justas. Esforço, dedicação, devoção e glória – eis o Sporting! Menos do que isto já não há lugar à glória nem é do Sporting que se trata.

publicado por Nuno Lobo às 23:59 | comentar | ver comentários (14) | partilhar
Segunda-feira, 09.04.12

Debates do IDL

Amanhã, ao fim da tarde, na sede do Instituto Amaro da Costa, Bruno Maçães e João Galamba vão debater sobre os acontecimentos que estiveram na origem da crise de 2008 e as suas implicações políticas. De um lado, um filósofo político que nos últimos anos se tem debruçado sobre os assuntos económicos e financeiros; do outro lado, um economista que durante algum tempo se dedicou ao estudo da filosofia. O primeiro exerce actualmente a função de Assessor político do Primeiro Ministro; o segundo é Deputado do PS. O Bruno foi durante muitos anos blogger no Cachimbo; o João escreve pelos lados do Jugular. Um debate a não perder.

 

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Quarta-feira, 04.04.12

Relativismo moral no CDS?

Os jornais e a blogosfera deram alguma atenção ao último Conselho Nacional do CDS. Pelo que vamos lendo, sabemos que um grupo de conselheiros propôs a clarificação da estratégia do CDS em três pontos: que o CDS e os seus deputados se empenhem na promoção da dignidade humana e direito inviolável à vida desde a concepção até à morte natural, contrariando legislação que facilite o aborto, eutanásia e suicídio assistido; que o CDS e os seus deputados se empenhem na defesa do “direito dos filhos” e não do “direito aos filhos”, devendo a Procriação Medicamente Assistida estar unicamente disponível como forma subsidiária para os casais que dela manifestamente necessitem e não como alternativa de procriação; que o CDS e os seus deputados se empenhem na defesa da dualidade da “maternidade” e “paternidade”, contrariando propostas que contemplem a filiação de crianças por “dois pais” ou “duas mães”.


Qualquer um dos três pontos descritos, por princípio, não necessitaria de qualquer clarificação, bastando que o discurso e acção dos responsáveis políticos do CDS se mantivesse fiel ao Programa do CDS, designadamente no que respeita aos seus “Valores Éticos”. E o que lemos no Programa do CDS? Lemos que, para o CDS, “a vida é o primeiro de todos os valores morais”; que, para o CDS, “o primeiro contributo das ideologias humanistas deve ser, precisamente, a defesa permanente da dignidade do valor da vida e a recusa por princípio de medidas legislativas que a diminuam”; que, para o CDS, “a vida é uma graça de Deus e não se encontra na livre disposição do Estado”; que, para o CDS, “vida e natureza são, de resto, dois valores indissociáveis”; que o CDS “defende a subordinação da política à ética”, contrariando uma “visão relativista” e consequente “transformação da política em mera arbitragem de interesses contraditórios, destituindo-a de qualquer conteúdo valorativo”.


Contudo, nos últimos tempos, tanto por ocasião da discussão sobre o casamento homossexual, como com a discussão sobre a Procriação Medicamente Assistida e a possível filiação de crianças por “dois pais” ou “duas mães”, ouvimos por parte de alguns responsáveis políticos do CDS um discurso e acção que contraria aberta e flagrantemente os “Valores Éticos” inscritos no Programa do CDS. Esta situação tem gerado, naturalmente, algumas interrogações de pessoas próximas do CDS e até fora dele: Será a vida, para o CDS, já não uma graça de Deus, mas agora um instrumento manipulável em função dos interesses particulares de cada pessoa? Será que, para o CDS, as medidas legislativas já não têm de obedecer à medida da vida e da natureza? Será que, para o CDS, a política já não tem de estar subordinada à ética? Será que, para o CDS, a ética dos seus responsáveis políticos pode sobrepor-se aos “Valores Éticos” inscritos no seu Programa? Será que o CDS, ao invés de se constituir como reduto de combate contra o relativismo moral envolvente, se prepara para o abraçar?


“O relativismo moral banaliza a prática do mal.” Esta afirmação já não é habitual em política. A estranheza com que alguns a possam ler é apenas um sintoma mais do clima de opinião relativista dominante. Que a afirmação esteja inscrita no Programa do CDS é um bem político significativo que o CDS deve honrar e conservar.

publicado por Nuno Lobo às 15:22 | comentar | ver comentários (10) | partilhar
Terça-feira, 03.04.12

Procriação assistida e homossexuais

O Parecer do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida sobre a Procriação Medicamente Assistida e Gestação de Substituição, menos do que uma recomendação para que os casais de pessoas do mesmo sexo possam aceder às técnicas de PME, constitui uma recomendação ao PS e PSD para levarem a sério o trabalho que têm em mãos. A lei da PMA foi naturalmente concebida para pessoas de sexo diferente, estando o acesso à PMA reservado às pessoas casadas ou em união análoga. Entretanto, uma vez determinada a admissibilidade do casamento entre pessoas do mesmo sexo, o que antes estava naturalmente destinado a casais de sexo diferente, passou agora a estar artificialmente à disposição de casais do mesmo sexo. Neste sentido, por forma a evitar-se a decadência numa contradição legal e restabelecer-se o espírito da lei da PMA, o Estado está obrigado a justificar, de forma sustentada e ponderosa, a razão por que o acesso à PMA deve ser reservado a casais de sexo diferente. Para este efeito, não basta o recurso à motivação ou intenção ou interesse de quem recorre às técnicas de PMA, pois assume-se como boas as razões tanto de casais heterossexuais como de casais homossexuais. Mas é o próprio Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida que afirma poder “haver outras razões que determinem diferenças de tratamento consoante as diferentes situações”, ao mesmo tempo que admite, sem reservas, estar em causa “não apenas as motivações dos interessados, mas também eventuais danos provocados em terceiros”, como sejam “o novo ser que se pretende trazer à vida” ou a “sociedade e os seus valores simbólicos” ou ainda “princípios éticos relevantes”. Conclui-se que o Parecer do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida não chega a ser uma opinião sobre as implicações éticas, pessoais, e sociais que resultariam de uma extensão da possibilidade do acesso à PMA a casais do mesmo sexo, mas é antes uma opinião sobre o imbróglio jurídico em que nos metemos quando passou a ser admissível o casamento homossexual. O PS e o PSD têm então a palavra e a oportunidade para justificar de forma sustentada e ponderosa o acesso reservado da PMA a casais de sexo diferente. Caso contrário, a espiral de loucura legal não terá fim - e pouco faltará para vermos em acto propostas absolutamente chocantes como aquela que saiu há um mês no Journal of Medical Ethics.     

publicado por Nuno Lobo às 14:32 | comentar | ver comentários (3) | partilhar
Terça-feira, 27.03.12

"Fascistas!", gritam eles

Imaginem lá uma horda destas a entrar em vossa casa e a partir tudo o que tem à frente - beijinhos e abracinhos, pois claro...

 

 

 (Via Henrique Raposo

publicado por Nuno Lobo às 15:32 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

Democratização da economia

 

Quem assistiu, mesmo sem especial atenção, como foi o meu caso, ao Congresso do PSD, não deixou de notar que se tratou de um Congresso simples, sem encenações espectaculares. No mesmo sentido, não passou despercebido o facto de este Primeiro-Ministro falar directamente aos portugueses, sem o recurso ao teleponto. Finalmente, quem está imune aos rodapés mediáticos, onde se destacavam afirmações como “quando se tem um martelo na mão, tudo parece um prego”, verificou que os discursos do Primeiro-Ministro têm substância. Exemplo disso mesmo é a questão da democratização da economia, que serve de objecto ao artigo de opinião que o Paulo Rangel deixa hoje no PÚBLICO. A questão da democratização da economia (assim como a questão da sociedade de confiança) já tinha merecido a atenção do Pedro Lomba há uns meses, no mesmo jornal. Que os discursos do actual Primeiro-Ministro contenham elementos capazes de se constituir como objecto de análises conceptuais é um outro aspecto distintivo que não pode deixar de ser destacado face à nossa experiência política mais recente. Se bem recordo, a expressão “democratização da economia” foi referida publicamente pela primeira vez pelo Primeiro-Ministro na Mensagem de Natal. Na análise de hoje do Paulo Rangel, a democratização da economia é interpretada à luz da tensão política entre igualdade e liberdade, democracia e liberalismo. Neste sentido, o projecto do actual Governo não é apenas liberal mas também democrático, não se trata apenas de libertação mas também de reposição do equilíbrio original. Talvez a afirmação mais esclarecedora de Paulo Rangel seja mesmo aquela onde ele parece dizer que uma sociedade estatizada, como a nossa, precisa de ser liberalizada, mas que a libertação do Estado face aos interesses que o colonizam não pode deixar de ter igualmente em conta os perigos de uma subsequente colonização da sociedade por parte desses mesmos interesses ou até de outros. A este respeito, a Mensagem de Natal do Primeiro-Ministro é muito clara: a construção da riqueza de Portugal tem de nascer de baixo para cima, a partir das actividades e projectos das pessoas comuns, e não apenas de um grupo restrito de pessoas com acesso privilegiado ao poder ou com a boa fortuna de terem nascido na protecção do conforto económico. Dado o ponto de onde partimos hoje, sou levado a concluir que esta enormíssima reforma não pode deixar de exigir uma acção forte do Governo e não será por isso que o seu alcance liberalizador fica diminuído. Tal como não me custa nada conceber a necessidade de haver um Governo forte para fazer face aos interesses desproporcionados que facilmente conseguirão transitar do Estado para a sociedade. Prudente é a liberdade que tem o olho direito posto na democracia igualitária e o olho esquerdo posto na oligarquia.

publicado por Nuno Lobo às 12:46 | comentar | ver comentários (5) | partilhar
Sexta-feira, 23.03.12

Tom & the Saints

 

camera obscura french navy 2009

publicado por Nuno Lobo às 17:29 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Aspernatio rationis

O cachimbo Pedro Picoito lá vai mantendo pacientemente o "diálogo" com a jugular Ana Matos Pires. Quanto a mim, o Pedro anda a perder o tempo. Há pessoas que definitivamente não servem para parceiros de discussão, embora possam não ser completamente inúteis enquanto objecto de estudo do clima de opinião dominante. Leia-se, por exemplo, esta pérola argumentativa da Ana Matos Pires: "A identidade sexual não define a orientação sexual do sujeito, são coisas diferentes. O facto de eu ter uma experiência (fazer) uma experiência homossexual não questiona a minha orientação heterossexual - até a sedimenta, no sentido de perceber o que mais me agrada na cama, p ex - nem determina a maneira como me penso ou penso a minha sexualidade." As determinações são muito importantes e faz parte do labor filosófico e científico distinguir umas coisas das outras. Mas uma das maleitas do nosso tempo filosófico e científico é precisamente o emaranhado ininteligível de pseudo-determinações sem qualquer adesão à realidade e consequente possibilidade de acesso a ela. A opinião da Ana Matos Pires, por mais travestida de ciência que esteja, não se distingue substancialmente da opinião do marido infiel que diz com orgulho que as aventuras que mantém com as amantes não questionam o seu casamento - até o sedimentam, no sentido de o ajudarem a perceber que é a mulher legítima quem ele realmente ama. Bem vistas as coisas, nem para objecto de estudo filosófico e científico a Ana Matos Pires serve especialmente. Qualquer outra opinião de rua chega para o mesmo efeito.

publicado por Nuno Lobo às 11:41 | comentar | ver comentários (12) | partilhar
Quarta-feira, 21.03.12

Toulouse, Sarkozy, e PÚBLICO

Na campanha presidencial em curso, agora interrompida devido ao massacre na escola judaica de Toulouse, Nicolas Sarkozy decidiu tocar no tema da imigração, para dizer, basicamente, que a política de integração, tal como hoje existe em França, não funciona. Trata-se de uma preocupação recorrente do actual Presidente e ex-Ministro do Interior, que por diversas vezes insistiu na necessidade de em França haver um grande debate sobre a identidade nacional. Estupidamente, como sempre acontece na comunicação social, o tema da imigração e da identidade nacional é reduzido a acusações de extremismo e racismo. Foi o que aconteceu com Sarkozy, actual Presidente da República Francesa, país com milhões de imigrantes, oriundos das mais diversas regiões do mundo, muitas delas com formas de viver situadas nos antípodas da forma de viver de que a França e todo o Ocidente se orgulha ter conquistado. Ontem mesmo, quando ainda muito pouco se sabia do massacre de Toulouse, o sempre ideológico, por vezes irresponsável, e desta vez temerário editorial do PÚBLICO dizia que “Sarkozy, dias antes dos atentados, para ganhar votos à extrema-direita arriscou um inflamado discurso anti-imigrantes”, e perguntava “Serão estas balas, vindas de um assassino desconhecido, o eco incomensurável dessa perigosa aventura?” Hoje, já se vai sabendo que o principal suspeito é um francês de origem argelina, auto-proclamado moudjahidin, com ligações à Al-Qaeda, disposto a vingar as crianças palestinianas e a intervenção militar francesa no exterior. Estou curioso para ler amanhã o editorial do PÚBLICO e ficar a saber, no fim de contas, quem são os verdadeiros protagonistas da “perigosa aventura” que está na origem do ataque de Toulouse. Arrisco um nome colectivo: o "autor" dos editoriais do PÚBLICO. Mas há mais aventureiros, muitos mesmo.

publicado por Nuno Lobo às 13:24 | comentar | ver comentários (4) | partilhar
Sexta-feira, 16.03.12

À Sporting

publicado por Nuno Lobo às 10:55 | comentar | partilhar

Cachimbos

O Cachimbo de Magritte é um blogue de comentário político. Ocasionalmente, trata também de coisas sérias. Sabe que a realidade nem sempre é o que parece. Não tem uma ideologia e desconfia de ideologias. Prefere Burke à burqa e Aron aos arianos. Acredita que Portugal é uma teimosia viável e o 11 de Setembro uma vasta conspiração para Mário Soares aparecer na RTP. Não quer o poder, mas já está por tudo. Fuma-se devagar e, ao contrário do que diz o Estado, não provoca impotência.

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