Terça-feira, 25.09.12

Podemos avançar com a conversa?

Nestes últimos meses, e de forma mais intensa nos últimos quinze dias, temos assistido a um intenso debate em que se opõem duas maneiras de olhar para o nosso país:

- os realistas (para dizer de alguma maneira) perscrutam o défice com olhar agudo e sentenciam que os cortes são necessários, que têm de chegar aos salários e às pensões, não bastam as PPP's e os restantes ganhos de eficiência na despesa; sentem que, enquanto não começarmos a falar de forma mais verdadeira sobre o estado das finanças do país, estamos à procura de caminhos, mas de olhos fechados. E têm razão.

- os humanistas (à falta de melhor palavra) salientam sagazmente que a vida humana não se mede em euros e cêntimos, que há direitos que não estão ao dispor dos políticos, que a aritmética e a contabilidade não podem ser os patrões do destino de uma nação. Sentem que se negarem tenazmente a lógica cega dos números, os interesses instalados acabarão por ceder e se abrirão novas possibilidades até agora fora do debate. E têm razão.

Podemos desencravar esta conversa? Porque é que o realismo dos números há-de ser oposto à consideração da amplitude e totalidade da vida humana? Não é simplesmente uma parte, uma parte verdadeira, dessa totalidade?

É uma falsa oposição. Se deixarem o "realista" falar até ao fim, podem conversar com ele sobre como atenuar as consequências sociais nefastas dos cortes que ele diz serem necessários. Se deixarem o "humanista" falar até ao fim ele certamente saberá estender a sua preocupação social à geração seguinte, que não quer sobrecarregar (ainda mais) com dívidas.

A solução para o país (se existir…) não poderá prescindir de nenhuma destas duas visões. Devíamos ocupar-nos em equilibrá-las, não em usar uma para bater na outra.

publicado por Pedro Gonçalves Rodrigues às 13:08 | comentar | ver comentários (12) | partilhar
Segunda-feira, 24.09.12

Public Discourse

O Witherspoon Institute, recente think tank e centro de investigação localizado em Princeton, New Jersey, publica uma newsletter chamada Public Discourse que costumo receber por e-mail.

 

Os artigos versam sobre temas políticos, normalmente seguindo assuntos da actualidade mas aprofundando com alguma argumentação filosófica ou de ciência política. A linha é conservadora com algumas variantes, já que o painel de colaboradores é vasto. São mais extensos do que o que tipicamente lemos na Internet, mas sem exagerar. O tom por vezes é académico, mas não deixa de ser americano, portanto, explicam como quem quer ser entendido (ao contrário da academia europeia que frequentemente prefere manter uma certa obscuridade que insinue a sua superioridade intelectual).

 

Tenho lido lá grandes artigos que me renovam a esperança na possibilidade de um debate intelectual elevado sobre os temas mais difíceis. Exemplo disto, por vezes, são as polémicas (artigo, resposta ao artigo, resposta à resposta, ...) sempre com muito nível, respeito pelo adversário e atenção genuína aos argumentos opostos.

 

A Public Discourse interesserá especialmente a quem se interesse por política norte-americana, pois inclui muitas discussões sobre a sua constituição, os seus tribunais e leis; mas não se limita a isso e toca muitos temas relevantes e actuais no nosso país. E não esqueçamos que nós somos importadores diários de ideias e cultura americanas. E que os nossos media nos vão servir em breve doses generosas de eleições americanas...

publicado por Pedro Gonçalves Rodrigues às 11:35 | comentar | ver comentários (22) | partilhar
Sábado, 22.09.12

Reset Nacional

 

 

Nos tempos duros que vivemos sentimos de forma mais aguda os defeitos patentes das nossas instituições: não é difícil desiludirmo-nos com o nosso parlamento, os nossos partidos, com o comportamento de uma ou outra classe profissional, com os nossos jornalistas, até com "o povo português" em geral.


Nota-se mais, agora que não há dinheiro para esconder os problemas, a falta que faz a virtude: se houvesse nestes grupos mais gente honesta, veraz, trabalhadora, generosa, leal, audaz… ainda tínhamos alguma hipótese de nos renovarmos como povo e como país.


A falta de virtude das instituições não é mais do que a soma das faltas de virtude das pessoas que as compõem, dirigem, sustentam. Vem-me à cabeça muitas vezes, nestes dias, uma frase de um santo do nosso tempo: «estas crises mundiais são crises de santos». Exprime bem este défice, o pior défice de todos, o da falta de virtude, de forças morais, de rectidão, que apodrece toda e qualquer estrutura social desde dentro.


Chegámos a este ponto porque preferimos a mentira à verdade, o cómodo ao árduo, o egoísmo ao espírito de serviço. Não estou nada certo que estejamos perto de mudar livremente estas atitudes de fundo, ainda que as circunstâncias nos estejam a obrigar a mudar alguns comportamentos externos.


Vamos varrendo da nossa educação, do nosso debate público, das nossas leis, as referências morais, os pontos de apoio para a exigência pessoal, a luta por construir virtudes. Não estranhemos depois se nos encontramos a viver num Portugal mesquinho, preguiçoso e concubino da mentira.


Parece-nos dispensável a disciplina na educação, a fidelidade no casamento, a ajuda aos mais fracos, o pudor nos media, a moderação nos comodismos, a paciência para os de lá de casa, a perseverança no esforço. E esperamos que todas estas qualidades em falta brotem espontaneamente nos homens que elegemos para nos governar, no dia da tomada de posse.


A miséria moral não começa no que se vê no Telejornal: cruzamo-nos com ela no elevador, está logo ali nos nossos vizinhos. E quando vamos sozinhos no elevador se calhar também lá está, a olhar-nos do espelho.


E é aqui que se pode mudar a nossa conversa nacional de desconfiança e desespero numa conversa de esperança. Sim, está aí no espelho, o Portugal que pode mudar já hoje, o único Portugal que é preciso criticar, e ao qual é preciso exigir mudança. O resto são as tretas que nos trouxeram até onde estamos hoje.

publicado por Pedro Gonçalves Rodrigues às 16:23 | comentar | ver comentários (6) | partilhar
Quarta-feira, 12.09.12

Por um concurso não-nacional de professores

Há algo de tétrico na possibilidade de se lançar de um dia para o outro vários milhares de professores num desemprego desesperado. Habituados a queixar-se dos critérios com que isto é feito, muitos se esquecem que deviam era queixar-se daquilo que é, a meu ver, o mais funesto atropelo ao princípio da subsidariedade no nosso país: a simples existência de um concurso nacional de professores.

 

Este concurso centraliza a distribuição de professores pelas escolas. Alguém achou que isto era boa ideia, pôr tudo ao molho. Em vez de deixar essas decisões a quem lhes compete, a quem tem mais informação, a quem tem mais a ganhar e a perder com elas, a quem enfrenta diariamente os alunos e os pais, ou seja, a quem lá está naquela escola, não: reduz-se o professor a um conjunto de dados académicos, uns números e uns anos de serviço, mete-se no computador e... já está: este muda de cidade, o outro muda de vida, etc.

 

Aguenta-se no sistema milhares de professores com esquemas de horários inventados, espera-se uns anos, acumula-se... e agora de repente deita-se toda a gente fora. Para estes, também não haverá lugar na escola ao lado, porque foi a máquina nacional que expulsou a "carga excessiva", por isso é todo o país que se inundou de professores sem colocação e de portas fechadas, de uma vez só.

 

Podia ter acontecido tudo aos poucos, de forma mais humana, mais previsível, com mais alternativas, com decisões mais ponderadas, atendendo a outros factores como a qualidade do professor ou os seus encargos familiares. Todas estas coisas podem ser tidas em conta numa escola que decide sobre os seus professores. O CPU do Ministério é que não quer saber nada disto...

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Segunda-feira, 10.09.12

Aumentos "secretos" de impostos

Gosto de ler o João Miranda no Blasfémias. Às vezes parece que está a dizer só coisas evidentes, mas a verdade é que tem o condão de clarificar e trazer à luz aquilo que estava escondido naquele modo falacioso de descrever a economia que tantas vezes encontramos na nossa imprensa, e na boca dos nossos políticos.

 

Pois é, não deixar o governo aumentar os impostos, se isso levar a ficarmos com mais défice é equivalente a... aumentar os impostos. Até iria mais longe - é um aumento de impostos pior, porque mais escondido, mais falaciosamente apresentado à população. E, nos tempos que correm, é gravíssimo cair de novo no mesmo erro que nos trouxe ao triste estado em que estamos.

 

Claro que se pode argumentar que não é directo que um não-aumento de impostos resulte em mais défice, há certamente outras variáveis pelo meio, e o Governo continua a parecer pouco convincente quanto aos cortes do lado da despesa. Mas que se argumente, que se explique, porque isto já está apertado por todos os lados.

 

Foram ingénuos aqueles que rejubilaram com o acordão do Tribunal Constitucional sem perceber que a coisa havia de doer noutro sítio. O nosso debate político devia ser sobre como equilibrar isto da melhor maneira possível, mas cortando o que for preciso cortar; quem quiser deixar os cortes para descarregar no défice merece o mesmo opróbrio que recai (justamente) sobre os que propõem aumentos de impostos. É que querer suavizar a nossa dor financeira actual à custa da geração que se segue é um vício feio para o qual temos de começar a sensibilizar-nos...

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Quarta-feira, 25.07.12

Devemos preocupar-nos com a Demografia? (III)

 

Neste terceiro post da série fico-me por uma observação algo técnica, numérica. Trata-se de fazer um exercício pensando sobre como seria uma hipotética recuperação dos números da população depois de um declínio demográfico.

 

Costumamos falar de Demografia olhando para a taxa de fecundidade - em termos simplificados diríamos: o número de filhos por mulher. Ora a baixa taxa dos últimos tempos é preocupante porque há 30 anos que não renovamos gerações. Somos um país a envelhecer.

 

Mas convém reparar que tem um efeito de segunda geração também muito importante: se nos propusermos um objectivo de recuperar o número total de portugueses depois de algum tempo com taxas de fecundidade baixas, não nos bastará ter taxas mais altas na mesma proporção durante um tempo semelhante. Isto porque podemos recuperar no número de filhos por mulher, mas já não iremos a tempo de evitar que as mulheres que estarão então a ter mais filhos sejam em menor número.

 

Esta análise das taxas de fecundidade abrangendo duas gerações, e propondo-nos um "objectivo" de população (tipicamente, como referência, a manutenção da população actual) é muito reveladora. Os pais de amanhã não teriam de "compensar" apenas os pais menos fecundos de hoje, teriam adicionalmente de compensar o menor número de pais que estará vivo nessa altura, devido à baixa de fecundidade de hoje. Teriam de fazer também o "trabalho" dos irmãos que não tiveram, para dizê-lo de alguma maneira.

 

(alguns leitores sentirão um desconforto por esta conversa como se se tratasse de "produção industrial" de bebés. Tenham paciência, eu também os acompanho nesse desconforto, noutros posts tentarei compensar com uma visão humana mais completa e digna)

 

Podíamos continuar este raciocínio para gerações seguintes, mas admito que não faz sentido avançar a futurologia muitas décadas para a frente, pois entram em jogo tantos factores incógnitos que é um exercício fútil. Este olhar que propus, de cerca de 20 anos para a frente (uma geração), parece-me ainda fazer sentido. Trata-se de reconhecer que a actual taxa de fecundidade reduzida cria uma redução de crianças hoje e uma pressão sobre a taxa de fecundidade da geração seguinte: a taxa mede o número de filhos, mas é o número de filhos por mulher. Com menos mulheres é precisa uma taxa mais alta para se chegar ao mesmo número de crianças nascidas.

 

É como se houvesse um "juro" sobre a "dívida" das crianças que ficaram por nascer... e isso faz com que o declínio demográfico seja mais difícil de inverter.

publicado por Pedro Gonçalves Rodrigues às 09:49 | comentar | ver comentários (9) | partilhar
Terça-feira, 24.07.12

Devemos preocupar-nos com a Demografia? (II)

 

Num post anterior discuti o modo como o declínio da natalidade num país remete sempre para um problema cultural: temos de ver se estamos confortáveis com a ideia de na próxima geração termos um Portugal com muito menos população, ou com uma população (imigrada) muito diferente. É uma alternativa: ou teremos uma ou a outra; e ou isso nos incomoda ou não.

 

À primeira vista, para quem goste de multiculturalidade e abertura, tudo isto podia parecer indiferente. Queria agora argumentar que além dos perigos culturais há também perigos económicos.

 

Ter muito menos população, e uma pirâmide demográfica invertida, gera tantos problemas económicos que nem vale a pena deter-me a listá-los. E com a dívida que temos, e uma segurança social que promete o que não pode cumprir, ainda se torna mais grave.

 

E a outra hipótese: podíamos compensar com imigração? Certamente tiraríamos algumas vantagens: os imigrantes podem chegar pobres, mas trazem sempre consigo alguma riqueza humana e cultural que abrilhanta o nosso país. Mas se o fenómeno for demasiado vasto não podemos deixar de observar que nos arriscamos a encontrar daqui a uns anos um país de desenraizados, de gente em dificuldades (porque é difícil emigrar), de famílias quebradas (porque os emigrantes vêm muitas vezes separados), de gente que está a começar do zero.

 

Ou seja, mesmo uma imigração bem sucedida, quando é em larga escala, não pode deixar de "queimar" uma ou duas gerações que terão a vida complicada com as dificuldades de integração, da adaptação à língua, aos costumes, ao clima, à alimentação, às instituições, etc...

 

É muito mais fácil educar um bom português num lar português do que transformar um emigrante num bom português. Se tantas vezes os emigrantes nos dão provas do contrário, dando-nos exemplo em tantas virtudes, é só um sinal maior da falência de alguma da nossa educação: é fazer pior o que era mais fácil...

 

Não afirmemos de ânimo leve que o nosso declínio de natalidade "se resolve", ou que "se resolve com imigração", ou que "depois já vemos como nos safar". Um forte decréscimo na população autóctone de um país é sempre um problema sério, de consequências vastas e prolongadas no tempo.

publicado por Pedro Gonçalves Rodrigues às 13:27 | comentar | ver comentários (11) | partilhar
Segunda-feira, 23.07.12

Devemos preocupar-nos com a Demografia? (I)

 

Na sequência de vários posts aqui no Cachimbo que tocaram este tema, queria deixar também algumas reflexões sobre o assunto. Em diversos posts tentarei abordagens diversas ao assunto.

 

A primeira observação é que a preocupação pelo declínio na fecundidade em Portugal, como em qualquer outro lugar, remete para um problema cultural.

 

Ou seja, olhamos para o número de filhos dos portugueses, mas também olhamos para os fenómenos migratórios. Nascem menos portugueses, mas podem vir para cá muitos estrangeiros e o número de habitantes mantém-se constante. O que fica em causa é a identidade do país, a cultura que será fruto desse mix de gente. Para algumas pessoas isso é preocupante, para outras é absolutamente indiferente.

 

É bem verdade que o Portugal que temos hoje é fruto de muita mistura populacional, pois somos um povo aberto, emigramos e admitimos bem a imigração. É uma das nossas qualidades, e essa abertura é ela mesma um traço da cultura portuguesa. Portanto "o Portugal que eu amo" inclui traços de África, do Brasil, de muitos países da Europa, de influxo cultural americano, etc.

 

Com o declínio da fecundidade observado nos últimos anos entre os portugueses, torna-se certo que a população futura, olhando para os próximos 20 ou 40 anos, ou será muito menor, ou será muito diferente (se houver imigração). A própria diminuição de população autóctone é um convite à imigração, pois as estruturas existentes no país "pedem" quem as ocupe e as faça perdurar.

 

Não imagino nem desejo que a cultura portuguesa daqui a 20 anos possa ser igual à de hoje: de tão grande e variado "caldo" de gente sempre surgirão coisas novas.

 

Mas temo que possamos assisitir a uma mudança demasiado grande, demasiado rápida (porque o nosso inverno demográfico tem essa escala), e que haja um declínio cultural que venhamos a lamentar. Sei que outras pessoas com opinião distinta sobre os valores de Portugal e do passado português não se preocuparão muito com isto (e espero que em 2012 já se possa escrever esta frase sem temer leituras paranóicas centradas no Estado Novo...). Os nossos tempos não são nada bons na preservação de tradições e de valores culturais, são muito melhores em abraçar revoluções e engolir indiscriminadamente estrangeiradas. A troca de uma boa parte da população do país por gente de outros lugares não vem em boa altura.

 

Isto sem paranóias nacionalistas: sou a favor de que a imigração continue tão livre como até agora, e que as pessoas escolham as suas influências culturais também em liberdade. Venham daí os de fora, enriquecer-nos culturalmente como até agora. Mas não será demais pedir só isto: gostava que mais dos portugueses de amanhã fossem educados em lares portugueses de hoje...

publicado por Pedro Gonçalves Rodrigues às 16:25 | comentar | ver comentários (10) | partilhar
Sábado, 14.07.12

The National

 

Sem me preocupar em dar uma visão geral da sua música, queria abordar os The National por um ângulo muito concreto que me fascina neles: cada vez mais os ouço como uma banda feita com voz e bateria e outras coisa à volta. Ora isto não é o mais normal, o normal é as bandas serem voz e guitarra com outras coisas à volta.

 

A voz é de Matt Berninger. É barítono e isso nota-se, dá o tom à banda. Escreve as letras em frases simples, pouco ligadas, pouco interpretáveis, mas intensas e pessoais, perturbadas.

 

Não quero desvalorizar os gémeos das guitarras e o baixista: são excelentes, e são admiráveis também pela classe e subtileza com que cedem o protagonismo. É deles a cola que segura as canções, uns arpejos aqui e uns feedbacks acolá para dramatizar; uns sublinhados, uns toques. Less is more aplicado na perfeição. Quando entram, entram bem, são mesmo bons músicos e por isso lhes fica tão bem admitirem o registo humilde.

 

Mas assim chegamos ao "maestro" Bryan Devendorf, que considero um dos melhores novos bateristas do rock actual. Devendorf é admirável a toda a linha. O seu kit tem um som próprio, simples e equilibrado, sente-se que há cuidado na selecção e afinação de cada peça. A sua abordagem é, como disse, de condução da música e não de mero acompanhamento.

 

Os seus ritmos, li algures, demoram a repetir, mas depois repetem mesmo. Ou seja, não é uma bateria muito livre, não é jazz, o seu virtuosismo não é de solo de bateria contínuo; ele faz padrões em ciclo, mas estes são ricos, levam pequenas nuances em cada volta, para só repetir totalmente mais à frente. Nunca há uma drumline banal nos The National: consigo ouvir os dois últimos albuns seguidos (Boxer e High Violet) só à escuta da bateria, e é um prazer.

 

 

Escute-se como exemplo este Bloodbuzz Ohio. Deliciosa aquela pausa, quebrada pela entrada da bateria, aos 2m 35s: é Bryan Devendorf a tirar-nos o apoio durante uns segundos para depois voltar em força... quando já nos mostrou quem manda na canção...

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publicado por Pedro Gonçalves Rodrigues às 21:41 | comentar | ver comentários (1) | partilhar
Segunda-feira, 09.07.12

...false in emphasis and interpretation, if not in fact as well...

 

"... Even in peacetime I think those are very wrong who say that schoolboys should be encouraged to read the newspapers.

 

Nearly all that a boy reads there in his teens will be known before he is twenty to have been false in emphasis and interpretation, if not in fact as well, and most of it will have lost all importance.

 

Most of what he remembers he will therefore have to unlearn; and he will probably have acquired an incurable taste for vulgarity and sensationalism and the fatal habit of fluttering from paragraph to paragraph to learn how an actress has been divorced in California, a train derailed in France, and quadruplets born in New Zealand." (C.S. Lewis, Surprised by Joy, 1956, “Fortune’s Smile”)

 

Se se podia escrever isto sobre os jornais em 1956, o que poderemos dizer sobre os de 2012? E o que se lê na Internet? E no Facebook? O aviso de Lewis é muito actual, não para fomentar quimeras inúteis contra a tecnologia e os media, mas para nos determos a pensar na ingenuidade com que por vezes celebramos a nossa "cultura" de factoids e links. Somos muito bons a reparar no que os novos media nos trazem, e muito maus a reparar naquilo que nos tiram...

publicado por Pedro Gonçalves Rodrigues às 17:47 | comentar | ver comentários (1) | partilhar
Quarta-feira, 04.07.12

Higgs Boson for Dummies

 

 

A física de partículas contemporânea está cada vez mais difícil de entender. Por isso é de agradecer quando alguém nos consegue explicar a grande notícia como se fossemos mesmo muito burros. Está aqui tudo num genial cartoon animado que merece os nossos próximos 7 minutos. É para ficar a perceber o Universo. Acho que já percebi, é tipo uma bola de energia que pesa tipo coiso nas massas como se fosse um espaço-tempo mas distorcido...

publicado por Pedro Gonçalves Rodrigues às 14:51 | comentar | ver comentários (1) | partilhar
Segunda-feira, 02.07.12

Eurobonds

Num exclusivo Cachimbo de Magritte, soubemos que o BCE, numa tentativa desesperada de resolver os problemas do euro, encarregou um grupo multi-disciplinar de estudar formas de tornar os Eurobonds mais sedutores para Angela Merkel.

 

Através da análise da idade de Merkel e dos gostos das raparigas da sua geração já foi possível chegar a uns primeiros protótipos:

 

 

 

 

Se este projecto de Eurobonds tiver o sucesso pretendido contrariará a opinião de tantos que, olhando para Merkel, por alguma razão não conseguiram ver nela uma bond girl. O futuro da Europa estará shaken, but not stirred...

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Quinta-feira, 28.06.12

Obamacare

 

 

 

O Supremo Tribunal americano passou a lei de saúde de Obama por uma curta maioria (5-4), incluindo o inesperado voto do conservador John Roberts. Mitt Romney já prometeu mandar a lei abaixo. Só lhe falta ser presidente.

publicado por Pedro Gonçalves Rodrigues às 22:03 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Do dever social de somar (3)


Há uma dimensão deste problema da recusa dos números por suposta preocupação social que parece particularmente relevante nos dias que correm.
A partir do momento em que nos endividamos, estamos a fazer negócio com o futuro.
Como é que podemos deixar de alargar a nossa preocupação social aos que virão depois de nós? Tenho humanidade e compaixão quando tapo a pobreza de hoje com uma pobreza maior de outro, mas que só chegará amanhã?
O que vale a minha preocupação social de hoje, a minha defesa obstinada dos direitos das pessoas, se é em detrimento dos direitos dos filhos dessas mesmas pessoas?
Não vos dá calafrios olhar para a geração que nos segue e pensar no que lhes estamos a deixar em herança? Eu não me senti culpado quando, nos últimos 20 anos, iam abrindo as auto-estradas, quando iam melhorando os hospitais e as escolas, quando se iam substituindo rapidamente as televisões para acrescentar uma ou duas polegadas de pixéis em 24 suaves prestações.
Mas tudo somado, olhando para a nossa dívida (do Estado, das empresas e das famílias), o que estamos a deixar para os nossos filhos? Não lhes fomos roubar algum bem-estar e segurança para nos confortarmos com o supérfluo?
Sim: é verdade que o que parecia bom-senso ontem pode já não parecer hoje. Mas não víamos nada? Não havia vozes a avisar-nos? Não temos um dever de desconfiar de benesses demasiado fáceis? E, agora que o vemos, onde está a vontade de reparar pelos nossos erros e repôr alguma justiça? Ou foram só os outros a errar?
O problema já está aí, nem é preciso esperar. Já fechámos as portas aos que estão agora a sair da universidade… Nem lhes damos os empregos que eles precisam para pagar as nossas dívidas… mas que ninguém nos mexa nos nossos direitinhos adquiridos!
Quando a troika se for embora, se o seu plano tiver corrido todo bem (grande se!), deveremos mais dinheiro do que devíamos quando eles chegaram. Teremos passado 3 anos a chorar cortes, e o problema do nosso deficit deverá estar reduzido a metade… mas ainda um deficit. Ainda estará por começar o pagamento da dívida. Considerar todas estas coisas dá-nos uma medida melhor do problema que criámos. Este nó é muito complicado de desatar: não basta encher-nos de bons sentimentos e desatar a ser generosos e altruístas. Vai ser preciso muito trabalho e muito engenho, boa gestão e boa política. E moderação nas queixas.
Temos um dever social de somar as parcelas todas e cortar o que houver a cortar nas nossas vidas. E sem deixar de fora as parcelas de amanhã.

publicado por Pedro Gonçalves Rodrigues às 11:17 | comentar | ver comentários (17) | partilhar
Quarta-feira, 27.06.12

Do dever social de somar (2)

 

Não saberemos ser justos, caridosos e humanos, se não soubermos olhar para cada homem e para cada mulher como um ser concreto e único, com dignidade pessoal.
Mas argumentei aqui que também não cai fora dessa mesma preocupação social a soma das parcelas, o olhar para os custos das várias benesses que atribuímos e das barreiras de protecção que, bem intencionadamente, elevamos à volta dos desfavorecidos. Se o bolo é limitado, optimizaremos o cuidado social se optimizarmos o modo sábio de o dividir equitativamente, atendendo às diferentes necessidades e urgências.
(Há uma saída alternativa que é tentar aumentar o tamanho do bolo; concedo, mas concedam-me também que isso é o mais difícil em tempos de recessão, e é o que sempre se promete mas dificilmente se consegue. Portanto, essa saída existe, e vamos explorá-la; mas reconheçamos que essa saída matiza, mas não anula, o problema que descrevi.)
Quando se passa para a dimensão geral, do orçamento, da dívida, e se propõem os cortes necessários, não venham acusar (pelo menos automaticamente) de perder de vista as pessoas reais e concretas, e os seus sofrimentos. Pode dar-se o caso de a razão porque se está a procurar cortes é para ir atender a outros fogos, a outros sofrimentos, outras preocupações sociais, em última análise, a outras pessoas.
Pode-se argumentar que esse gesto seja infeliz, que o equilíbrio que se conseguiu ficou pior do que o anterior, ou que ainda ficam outros sofrimentos por resolver. Mas não se pode argumentar à partida que isto se faz apenas por desrespeito a quem viu a sua porção reduzida.
É mais emotivo fazer um Telejornal com o choro de quem ficou sem um 13º mês que lhe era devido (e era mesmo) mas, em situação de ruptura orçamental, há sempre outro choro a ter em conta, caso se tivesse dado essa quantia.
Cada "reivindicante" que se pergunte: a minha dor (ou a dor daqueles que me preocupam) é mesmo maior do que a do vizinho, ou só dói mais porque é minha?
No fundo trata-se só disto: não reduzamos o nosso olhar sobre a política, essa (potencialmente) nobre arte de equilíbrios, de compromissos, de casar ideais com realismos, a uma mera sinalização de dores sociais, que pode acabar por ser desequilibrada e, por isso, irresponsável.
É tão claro o diagnóstico de que temos um problema sério no estado geral de saúde do país… não estranhemos que andem por aí cirurgiões a preparar-nos incisões dolorosas. Nem toda a gente que nos espeta uma lâmina é agressor ou assassino. Há também a hipótese (só uma hipótese!) de que tenha um plano e que o conjunto da acção seja em nosso favor. O que não está certo é negar a doença geral cada vez que se vê sangue…
Há cortes em ordenados e pensões que se devem desejar precisamente em nome da nossa preocupação social.

publicado por Pedro Gonçalves Rodrigues às 12:34 | comentar | ver comentários (32) | partilhar
Terça-feira, 26.06.12

Do dever social de somar (1)

A sopa dos pobres nos EUA durante a Grande Depressão

 

 

Quando olhamos para cada parcela da nossa vida neste país, é fácil entusiasmarmo-nos com coisas que não têm preço, que é preciso preservar a todo o custo. Cortar na educação? Nunca, é o futuro. Na saúde? Nunca – sem saúdinha, o que somos nós? Nas pensões? Que injusto, o valor de uma sociedade mede-se pelo respeito que se mostra aos idosos! E por aí adiante.
E assim vamos andando, sem somar as parcelas todas, gastando, gastando o dinheiro de outros. Mais tarde, quando a dura realidade se impõe, por uma crise de dívida, comemos com ataques à justiça, aos contratos, à soberania, e sim, também às pensões, saúde e educação. Não é difícil ver que estas derrocadas e cortes forçados têm um efeito final pior do que se tivéssemos tido algum bom-senso desde o início.
Todos aqueles que dizíamos defender, os trabalhadores, os velhinhos, as crianças, pagam a factura agravada… da nossa preocupação social.
Pois é, somar é duro, despedir é chato, mas o mal maior parece ser mesmo o de ignorar a realidade, mesmo que lhe chamemos humanismo ou preocupação social. Saem caros, certos idealismos. É bom sonhar o bem mas convém não sonhá-lo só com dinheiro sonhado.
Não falei do peso do Estado nem da liberdade dos mercados. Este não é um post liberal, nem tecnocrata, nem pragmatista. É um post de preocupação social, um argumento social para o dever de somar as parcelas todas.
Afinal, porque é que havemos de limitar as nossas preocupações de equidade apenas ao grupo de que estamos a falar num determinado momento? Os outros não são gente?
Trata-se de distribuir as porções do alimento pelos vários que se aproximam para a receber. Podemo-nos fazer de ofendidos sempre que se reduz a dose a um, e a outro (tão esfomeado está!)… mas um sinal genuíno de preocupação social será preocuparmo-nos em olhar para o fim da fila. E a nossa fria matemática de dividir equitativamente, tendo presente o total, será verdadeira caridade.

publicado por Pedro Gonçalves Rodrigues às 16:39 | comentar | ver comentários (11) | partilhar
Sábado, 23.06.12

À la Finnegans Wake...

 

 

Aventurei-me a começar o Finnegans Wake, do James Joyce… tenho tido algumas bificuldades, que passas pôr:

 

As palahvras tão, todas mauscritas. Ukek diz? Dukek estafa lar? Aquelas hrases são uma semfusão sempleta. Trocadas todas voltas as. Frento com audácia sete centos folios cem dez istir.

Por agora estou à toa durar!

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Sexta-feira, 22.06.12

Aquilo deve pesar

 

O novo ministro das finanças grego foi hospitalizado depois de um colapso...

O novo primeiro-ministro Samaras também vai ser submetido a uma pequena cirurgia...

Eu, no lugar deles, acho que também me desfazia em pedaços.

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Quinta-feira, 21.06.12

Generalizando...

 

 

Como quem desenha uns bonecos, porventura infantis, à volta de outros posts recentes de camaradas Cachimbos...:

A Democracia é toda ela um sistema de equilíbrio entre representatividade (dar a cada um a sua voz, garantir a igualdade) e governabilidade (conseguir formar eficazmente pareceres e decisões).

Num extremo teórico estaria o governo por todos os cidadãos, um máximo de representatividade (todos teriam a sua voz, igual à dos outros) e um mínimo de governabilidade (impossível, na prática, afinar pareceres e tomar decisões).

No outro extremo, já não tão teórico, está a ditadura por um tirano, com um mínimo de representatividade (uma única pessoa tem uma voz que "ganha" a todos os outros) e um máximo de governabilidade (pensa e decide sozinho, está sempre "em acordo"... ainda que mais tarde isso se vire contra ele).

Ora todos os sistemas democráticos concretos têm um determinado mix de representatividade e governabilidade. É difícil ajuizar qual o ponto de equilíbrio ideal, que aliás varia de país para país e de época para época.

Ao julgar um sistema democrático, se olhamos pelo lado da governabilidade agradecemos a sucessão democrática, os reforços das maiorias, a selecção eficaz do número de vozes que podem intervir, a filtragem dos extremistas, etc.

Se olhamos pelo lado da representatividade tentamos maximizar essas possibilidades de intervenção, equilibrar as possibilidades dos grandes e dos pequenos, evitar distorsões entre votos e deputados, etc.

Estas considerações não dispensam nem substituem o interessante debate para empurrar o mix para um lado ou para o outro: simplesmente o enquadram. Levantaram-se nesses posts questões muito sugestivas, em relação à Grécia, à França e ao nosso Portugal (nos comentários)...

publicado por Pedro Gonçalves Rodrigues às 17:39 | comentar | ver comentários (5) | partilhar
Quarta-feira, 20.06.12

Adivinha

 

 

Segundo Paulo Morais, em Espanha há 320 autarcas presos por corrupção, e em Portugal... zero.

Uma adivinha: qual dos dois países é mais corrupto?

publicado por Pedro Gonçalves Rodrigues às 12:00 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

Cachimbos

O Cachimbo de Magritte é um blogue de comentário político. Ocasionalmente, trata também de coisas sérias. Sabe que a realidade nem sempre é o que parece. Não tem uma ideologia e desconfia de ideologias. Prefere Burke à burqa e Aron aos arianos. Acredita que Portugal é uma teimosia viável e o 11 de Setembro uma vasta conspiração para Mário Soares aparecer na RTP. Não quer o poder, mas já está por tudo. Fuma-se devagar e, ao contrário do que diz o Estado, não provoca impotência.

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