The sense of an ending

Esta noite, estive a ver o Bing Crosby e o Sinatra cantando o “White Christmas”. Depois, por acaso, vi o Dean Martin a cantar a “My Rifle My Pony and Me”, no Rio Bravo, com o John Wayne e o inesquecível Walter Brennan – lembram-se?... Mas veio-me então uma imensa tristeza. Percebi porquê. Lembrei-me de ter lido isto e ainda isto. E das outras inacreditáveis histórias sobre o abafamento das imagens e designações associadas ao Natal. Aqui e ali. Para não ofender [sic] crentes de outras religiões.
Lembremo-nos do que aconteceu há pouco com o Idomeneo em Berlim e, no ano passado, em Genève, a Le Fanatisme, do Voltaire. Muita gente “sensata”, então, considerou as preocupações, ou mesmo as supressões, como razoáveis. Começa sempre assim.
Lembremo-nos, também, do desfile miserável que foi o episódio dos cartoons. Cá, a tristíssima declaração oficial do nosso Ministro dos Negócios Estrangeiros, o ‘senhor Amaral’ - como lhe chamou essa criatura sem vergonha que é o embaixador do Irão em Portugal.
Há qualquer coisa que se dissemina. Qualquer coisa que não é nada bonita. Os sinais vão aparecendo por todo o lado. Por exemplo, contaram-me noutro dia que, em Croydon, um borough de Londres, uma piscina municipal, num certo dia da semana, está vedada a qualquer cidadão que a queira frequentar, com excepção dos muçulmanos, porque é para estes que esse dia está reservado (para homens e mulheres, segregados por diferentes alturas do dia, note-se). Como se isto fosse normal.
O que está a acontecer (irá acontecer) a este nosso mundo? Um mundo em que ainda (?) faz sentido ouvir-se o “White Christmas”, celebrar-se o Natal (com menor ou maior “autenticidade”, não vem ao caso), exibirem-se símbolos que podem ser religiosos, sim (e, ao escolher um símbolo, excluo outros, claro), haver liberdade de expressão, opções estéticas carregadas de “ideologia” pouco simpática, etc.
Nada de novo, na verdade: o Nacional-Socialismo chegou ao ponto, também, de alterar o texto do Requiem de Mozart para eliminar as referências “judaicas”, não convenientes para aquela modernidade. Entre outros, 'Deus in Sion' passou a cantar-se 'Deus in coelis' e, na vez de 'in Jerusalem', ouvia-se agora 'hic in terra'...
Um dia, proibir-se-á uma interpretação pública do Messias de Händel, porque também ela poderá ferir ouvidos “religiosamente” susceptíveis. E chegará a data em que, serenamente, sem um protesto, retirarão, da National Gallery, por ofensiva, Uma Alegoria com Vénus e o Tempo, de Battista Tiepolo, ou talvez, por obscena, a Vénus ao Espelho, de Velázquez. Sem um protesto.
Não sei se é acertado, como fazem alguns, comparar esta espécie de anemia do “Ocidente” ao final do Império Romano ou, como outros preferem, à queda de Constantinopla. Mas, esta noite, não consigo deixar de ouvir soar na minha cabeça a expressão the sense of an ending (que, atrevidamente, fui buscar a Sir Frank Kermode) – gosto muito dela. Tem-se a sensação amarga de se estar rodeado de gente para quem nada daquilo que se está perdendo é importante. Gente para quem a falta daquilo que ainda se vai tendo (vendo, ouvindo, lendo, fazendo) não fará, realmente, diferença. A sensação de que se está sozinho. Just my rifle, pony and me.
publicado por Carlos Botelho às 03:13 | partilhar