Acabar com 2010

O grande personagem do ano 2010, de que nos vamos despedir dentro de umas horas, foi o bode. Bode expiatório. Não estou a brincar. Foi mesmo. Umas vezes chamou-se-lhe Alemanha, outras Europa, com mais frequência mercados, mas era sempre um algures, nebuloso, um ersatz do velho sistema, uma espécie de xix exterior capaz de aglutinar magicamente a origem dos problemas internos, uma operação meticulosamente calculada para evitar o confronto com a verdade. Não pretendo com isto negar a evidência: a Europa é uma coisa moribunda e naturalmente incapaz de fazer face aos problemas que criou; a Alemanha defende-se, e tem força para o fazer, embora valha a pena referir que Merkel, no conjunto europeu, é, europeiamente falando, o que resta de bom-senso, até mesmo porque não pode evitar, pelo interesse próprio e poder que tem, o recurso forçoso a um módico de contacto com a realidade; e os mercados são os mercados, com a sua lógica própria, a sua natural incapacidade de cálculo a longo prazo, a sua reacção tardia e, por tardia, percebida como excessiva, ao passivo de imprudências que acumularam, dentro de um sistema, é verdade, um sistema, sabemos agora, construído para que elas se pudessem acumular maciçamente, sem alarme, durante tempo de mais: o euro. Até gente que não é totalmente obtusa, como a deputada europeia Ana Gomes (não digo o mesmo do candidato presidencial Manuel Alegre, coitado), respira no ambiente zombie do Bode Expiatório, como ilustra este pequeno post excitado, onde, vejam bem, pede que alguém lembre à Srª Merkel que é responsável por que converjamos com a Alemanha, em troca da bondade de não lhe lembrarmos que está unificada à nossa «conta» (sic). Por isso, quando hoje tocarem as 12 badalas, o melhor que (nos) posso desejar é que deitemos com elas, pela janela fora, o bode. E segunda-feira regressemos à realidade. Por pior que seja, e é muito má, pior não pode haver do que este estado onírico em que vive Ana Gome e, reconheçamos, a generalidade do país.
publicado por Jorge Costa às 17:49 | partilhar