Corte na aldeia

Há dias, preparando o próximo artigo para a Atlântico, dei com uma pergunta que Vitorino Magalhães Godinho fazia em 1971: "não será toda a nossa literatura essencialmente de corte na aldeia?" Questão retórica - o ilustre historiador queria dizer que Portugal nunca conhecera uma urbanização comparável à dos países desenvolvidos, ou até à de Espanha, e que isso se reflectia na literatura, quase toda de cenário rural ou malquista com a cidade. E citava como exemplos Gil Vicente, o próprio Rodrigues Lobo, Herculano, Camilo, Júlio Dinis - à excepção de Uma Família Inglesa -, Guerra Junqueiro, Alves Redol, Manuel da Fonseca e o inevitável Torga. Só escapavam ao anátema bucólico o Eça d`Os Maias (mas não o d`A Cidade e as Serras) e os "recentes" Rodrigues Miguéis e Abelaira.
Pus-me a pensar. Seria verdade? E, se fosse verdade então, continuaria a sê-lo hoje?
Não, não era bem verdade, embora a essa lista se devessem acrescentar A Sibila de Agustina, a Aparição de Virgilio Ferreira ou mesmo O Delfim de Cardoso Pires. Mas Godinho esquecia Fernão Lopes, o mais vigoroso retratista que Lisboa já teve. Gil Vicente metera o Rossio e a Betesga no Pranto de Maria Parda, uma deliciosa mina de informações sobre a Baixa do seu tempo. E o Eça das Farpas? E Cesário Verde, com o seu extraordinário catálogo de sons, cores, cheiros, tipos e quadros da capital? E Pessoa, tanto o ortónimo que ouvia no campanário dos Mártires "o sino da minha aldeia", em pleno Chiado, como o Bernardo Soares do Livro do Desassossego, que Steiner coloca, com Borges e Kafka, entre os "escritores de cidades"?
E de então para cá? Em 1971, talvez Magalhães Godinho não tivesse lido Ruy Belo, um poeta que começara a publicar dez anos antes e que um dia, em belíssimos versos, comparara as lágrimas de Cristo sobre Jerusalém à visão de Lisboa do Alto da Serafina. É menos provável que desconhecesse Alexandre O`Neill, o genial O`Neill que chamara à cidade "Nápoles por suíços habitada". Ou o António Gedeão da "Calçada de Carriche". E os mais "recentes" ainda? Que diria de Saramago ou Lobo Antunes, da portuense Sophia que se apaixonou pela Graça, de Eugénio de Andrade, de Graça Moura, de Assis Pacheco, de João Miguel Fernandes Jorge?
Nunca saberemos. Mas uma coisa é certa: há hoje muito mais autores a levar para os seus livros o ruído citadino. Somos finalmente um país urbano?
publicado por Pedro Picoito às 16:40 | partilhar