Estónia na RR

A minha crónica de ontem (segunda-feira) na Rádio Renascença: "Estónia".

Poucos deram pelo acontecimento, mas desde o dia 1 de Janeiro que a zona Euro conta com mais um membro: a Estónia. A adesão à moeda única europeia estava na calha há já algum tempo, mas não deixa de ser estranho que haja quem persista em querer juntar-se a uma zona monetária que está coberta de fissuras. Seja como for, o exemplo da Estónia pode ser importante por outras razões.
Em 2008, a Estónia, a par dos seus outros dois vizinhos do Báltico, sofreu uma pesadíssima crise económica. Nos anos anteriores, a economia estónia, à semelhança de outras, alimentara o crescimento de uma bolha que o terrível ano de 2007 estouraria. O que veio a seguir foi tremendo. O produto caiu a pique, o desemprego quase chegou aos 20 por cento. A economia foi apanhada com índices de competitividade externa insustentáveis e um sector financeiro em seríssimos apuros.
Foi nesse momento que a Estónia tomou a decisão de não abalar os seus planos de adesão ao euro, o que implicava manter a mesma política cambial. Isto é, resistiram tenazmente à tentação da desvalorização da sua moeda. E submeteram-se voluntariamente a esse processo penoso e demorado a que se chama “desvalorização interna”, ou seja, obter a diminuição de preços e salários que uma desvalorização da moeda realiza instantaneamente. O mesmo processo que agora se pretende instaurar em Portugal ou em Espanha como alternativa ao abandono do euro.
Recentemente, o crescimento do produto e do emprego voltou à Estónia. Ainda é cedo para saber se, de facto, o pior já passou e se a normalidade está de regresso. Mas há muita gente na Europa a torcer pelo feliz resultado de todo o esforço que foi feito. Percebe-se porquê. Diante de tanta incerteza, é preciso encontrar um exemplo concreto que demonstre que tantos sacrifícios valem mesmo a pena.
publicado por Miguel Morgado às 07:51 | comentar | partilhar