Os gays de Santo António

Quando disse aqui que a esquerda, com o "casamento" gay, tinha trocado a utopia pelas noivas de Santo António, estava apenas a fazer uma piada. Julgava eu. Para minha surpresa, houve quem levasse a ideia à letra. No fundo, porém, a coisa não é assim tão surpreendente: como muita gente avisou, os missionários da causa não estão interessados no casamento, mas no reconhecimento público que lhe está associado. Querem apenas ocupar os espaços simbólicos até agora vedados aos homossexuais.
É a mesma reivindicação que, na América, os levou a exigirem ser admitidos no exército ou nos escuteiros (o que conseguiram no primeiro caso, mas não no segundo). Ou que motivou o tremendo debate sobre a ordenação de bispos gays na Igreja anglicana, um tema tão incendiário que está a provocar um verdadeiro cisma entre os anglicanos do hemisfério norte (a favor) e os do hemisfério sul (contra). Ou que fez cair duras críticas sobre a Igreja católica quando o actual Papa reafirmou que os homossexuais não podem ser padres.
Casos muito distintos, mas com um traço comum: o inesperado nexo entre a felicidade dos gays e o livre acesso aos escuteiros, às ordens sacras, às bodas de de Santo António ou a qualquer outra caverna homofóbica onde se diga "gay não entra".
Para ter o casamento, os gays invocam a igualdade. Estão errados porque o direito ao casamento não consiste no direito de redefinir o casamento, um contrato que, no Ocidente, sempre relacionou a heterossexualidade e a monogamia com o bem dos cônjuges e dos filhos. O resto é folclore - ou o casamento em culturas diferentes da nossa, por exemplo o Islão poligâmico. Mas quando, em nome dos supostos direitos de algumas pessoas (supostos porque a homossexualidade não é fonte de direitos), é ameaçado o legítimo direito de outras ao próprio património simbólico (aquilo a que Charles Taylor chama o direito ao "reconhecimento"), já não se trata de folclore nem de multiculturalismo. Trata-se de pura engenharia social e simples tirania fracturante.
É certo que os homossexuais portugueses não querem casar pela Igreja. Para já. Basta-lhes a cerimónia neo-salazarista patrocinada pela Câmara de Lisboa, se possível com a bênção de algum padre mais distraído ou modernaço. Não é o casamento religioso. Mas lá chegarão, em nome do sagrado combate à homofobia.
No dia em que descobrirem que os velhotes da bisca no jardim são todos uns furiosos marialvas, hão-de exigir o direito à bisca gay. Está na Constituição, de certeza.
publicado por Pedro Picoito às 20:52 | comentar | partilhar