O nosso caso


Sócrates sempre procurou subtrair-se àquele que devia ser o seu papel num debate político democraticamente saudável. Sim, de duas em duas semanas lá estava no parlamento, mas isso tem um significado somente aparente, porque o uso que o primeiro-ministro sempre fez dessa modalidade transformou-a numa forma democrática vazia – ou, mais exactamente, com um conteúdo contraditório.
Ao longo destes funestos quatro anos, a actividade normal, sublinhe-se normal, das oposições (partidárias ou não) numa democracia, isto é, a observação qualificada, a apreciação crítica, o escrutínio das opções do governo, a sua recusa terminante, foi sempre descrita por Sócrates como “maledicência” ou “ataques pessoais”. Se o primeiro-ministro não o fizesse conscientemente, julgaríamos estar perante uma personagem ainda civicamente tosca que soltava os seus primeiros vagidos para a vida política da comunidade. Mas não. Sócrates sabe muito bem o que faz. Esse seu modo patológico de se subtrair ao confronto político é, precisamente, uma opção política. Ao virar as costas às críticas dos adversários e refugiar-se na choradeira esganiçada do “ataque pessoal”, está a fazer política. Ao mesmo tempo que vai acusando os outros de “salazarismo” ou “estalinismo”, coloca-se naquele plano aparentemente apolítico sempre do agrado das criaturas autoritárias. Ele faz de si aquela imagem do líder “determinado” e providencial que quer “fazer”, mas tem de arrostar com a “maledicência” dos outros, aqueles que “não fazem”, que “só dizem mal”.
Neste modo imaturo de proceder, se vê como Sócrates é de uma indigência política pré-ateniense. Naquela sua cabeça, não há lugar para a crítica. Existem apenas duas alternativas: ou a concordância com o seu governo ou a “maledicência”. Tudo se passa como se Sócrates não esperasse nunca a apreciação de cidadãos, mas sim a passividade de súbditos. Este nosso primeiro-ministro é, no fim de contas, um reaccionário profundo. É, assim, uma medida de higiene política arredá-lo no próximo dia 27.


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publicado por Carlos Botelho às 01:51 | comentar | partilhar