Porreiro o tanas, pá

Não vai haver referendo ao Tratado de Lisboa, anunciou Sócrates. E eu lamento muito, porque seria uma oportunidade única para se discutir o que queremos da Europa para lá da política de mercearia. É assim, literalmente, que a maioria dos portugueses vê a União Europeia: uma gigantesca mercearia a crédito. Até o PCP, esse partido de saudáveis hábitos anticapitalistas, disse sempre que o maior problema da integração era "pagarmos impostos como os alemães sem termos os salários dos alemães". Veremos o que dizem, eles e os outros, quando os impostos (e portanto os salários) forem decididos em Bruxelas.
E não me venham com o argumento-nada-porreiro-pá de que um eventual "não" ao Tratado é o fim da integração e tem "custos políticos elevadíssimos", como fez o favor de nos avisar pedagogicamente Cavaco. A França e a Holanda submeteram a anterior Constituição dos sábios à ASAE do voto, e os políticos lá se arranjaram para a trazer outra vez fora de prazo. Se não votamos o sistema que nos governa, vamos votar o quê? As promessas de Sócrates? Pois, as promessas de Sócrates...
É claro que, se houvesse referendo, o "não" corria o risco de vencer. Chama-se a isso democracia, um regime em que há sempre o risco de a plebe votar contra os sábios. Que o diga Sócrates (o outro). Ou o Sócrates que nos governa (este) sem ter tido o meu voto. O Cavaco até teve o meu voto, mas começo a arrepender-me.
O argumento mais supinamente falso, ridículo, demagógico, autoritariozinho e insultuoso-para-a-inteligência-dos-portugueses-pá que ouvimos ontem à noite, e ouviremos até à exaustão nos próximos tempos, é porém o de que o Tratado de Lisboa não vai a referendo, como o PS prometera em eleições, por ser um texto diferente da defunta Constituição dos sábios. Em Inglaterra, onde Gordon Brown usou a mesma desculpa para a mesma mentira, a imprensa mostrou que cerca de 90% do articulado se mantém igual na forma ou no conteúdo. Um facto que não será alheio à abrupta queda do Governo nas sondagens, a que se junta a curiosa mania dos conservadores de fazerem oposição, no caso pedindo o referendo.
Por cá, não teremos essa sorte. A imprensa tem mais que fazer e o PSD está de acordo com o PS quanto aos perigos do voto errado. Menezes quer uma Constituição nova para Portugal, mas tanto lhe faz que ela venha de Bruxelas. Quer desmantelar o peso do Estado em seis meses, mas não se importa que ele apenas se transfira para Estrasburgo.
Menezes, o homem das rupturas.
Acho que vou nadar com os tubarões do deserto.
publicado por Pedro Picoito às 13:14 | comentar | partilhar