A igualdade radical

Na recente proposta de resolução de combate aos estereótipos sexista nos media apresentada pelo Comité para Igualdade de Oportunidades para Mulheres e Homens do Conselho da Europa afirma-se:
1. The Parliamentary Assembly notes and deplores the fact that women are the victims of sexist stereotypes in the media. On the one hand, they are under-represented, if not invisible in the media. On the other hand, the persistence of sexist stereotypes in the media – confining women and men to the roles traditionally assigned by society, often portraying women as passive and lesser beings, mothers or sexual objects – is a barrier to gender equality. “

Não é nova a técnica de num argumento geral simpático – porque naturalmente associado à exploração da imagem sexual em sociedades violentamente sexuais - encontramos subjacentes ideias deveras perversas, como a referência ao papel da maternidade como algo menor.
Muito poderia ser dito sobre esta desvalorização do papel de mãe nas envelhecidas sociedades europeias, mas hoje gostaria apenas de me focar no princípio ideológico que está subjacente a esta referência. A meu ver, ele é directo herdeiro do feminismo de género que, de uma forma simples, se fundamenta na proposição ontológica de que tanto a masculinidade como a feminilidade são meras concepções sociais. Na voragem igualitária que vivemos ignora-se deliberadamente as mais recentes descobertas nos campos da biologia ou neurologia, no que dizem respeito às diferenças naturais entre sexos, e sob a capa do principio de que os papeis desempenhados pelos sexos são meras construções sociais, logo resultado da sociabilização, indiscriminadamente colocamos em causa tudo e todos. O problema desta postura igualitária é que dada a sua natureza nominalista radical permite argumentar que nada pode ser qualificado de masculino ou feminino, que nada há a que se possa chamar de paternidade e maternidade. O eu radical, sem sexo, sem genética, sem história, sem amarras, sem nome reduzido a um número.
Recordo o que escrevi para um dos muitos testes do jornal i antes do seu lançamento oficial, em 2009, a propósito da proibição do prefixo Sr.. Sra., ou Senhorita no Parlamento Europeu
“ (...) Pressupõe-se que a utilização desse insuportável e arcaico elemento da mais elementar boa educação traduz um maléfico principio de discriminação, instrumento para a manutenção das desigualdade de géneros. Mas essa discriminação é mais profunda do que a mera constatação do sexo do indivíduo, na língua inglesa traduzia também o estado civil da mulher através do Miss ou Mrs, senhorita ou senhora na língua vernácula.
Dizem-me que a medida é simbólica. Mas do quê? O género por si só traduz alguma desigualdade formal ou substantiva quando objecto de tratamento diferenciado prejudicial para o indivíduo. Não era esse o caso. Resta então, falhando o recurso ao puro bom senso, uma outra explicação. O substantivo de género utilizado reflectia um preconceito implícito relativamente a minorias, seja por opção de orientação sexual seja por opções de projectos de vida alternativos.
O género não é mais um reflexo da biologia mas antes uma opção. As naturais diferenças entre sexos são assim, por decreto, abolidas. O mais assustador é que neste processo em breve seremos reduzidos apenas a números. Únicos que efectivamente não têm sexo.”
publicado por Eugénia Gamboa às 15:29 | comentar | partilhar