Bem-vindos ao futuro



Ontem, o Ministério da Cultura divulgou um documento com o ambicioso título Plano Estratégico Para os Museus Nacionais. Museus Para o Século XXI. Bem, divulgar, divulgar - não divulgou. Indisponível para consulta pública, o Plano não passa, por enquanto, de uma declaração de intenções transmitida na conferência de imprensa por Gabriela Canavilhas e João Brigola, o novo director do Instituto dos Museus e da Conservação. Do dito Plano só sabemos o que os jornais de hoje nos contam, baseados nas palavras de Sexas e no press release oficial.

É pena, porque lê-lo ajudaria a conhecer as ideias do actual Governo para o sector. Ainda mais agora, que se discute o orçamento. Depois do consulado de Isabel Pires de Lima, sempre mais atenta à visibilidade mediática dos empréstimos do Hermitage do que às obscuras dificuldades dos museus portugueses, depois da discreta passagem do seu sucessor Pinto Ribeiro pela Ajuda, depois de o próprio Primeiro-ministro ter confessado o fraco investimento do anterior executivo na cultura, talvez a leitura fosse instrutiva.

Entretanto, e à falta da real thing, fiquemos pelo que dizem os jornais, que destacam duas novidades.

Primeira: a proposta de um modelo de "gestão bicéfala" dos museus, com um director para consumo externo, encarregado da "gestão da imagem" (leia-se "marketing") e das "parcerias público-privadas" (leia-se "angariação de fundos"), e um subdirector para consumo interno, encarregado do estudo e conservação do acervo, tarefas tradicionalmente associadas à direcção. A proposta ainda não saiu da gaveta, mas já fez rolar cabeças: a do director do Museu de Évora, Joaquim Caetano, que pôs o lugar à diposição declarando não ter esse perfil, e a do director do Museu Nacional de Arte Antiga, Paulo Henriques, demitido no dia anterior à apresentação do Plano, declarando a Ministra que ele não o tinha. São dois académicos respeitados na sua área e com larga experiência de trabalho em museus. Não chega, ao que parece. Admirável mundo novo. Serão substituídos respectivamente por Antonio Camões Gouveia, historiador que passou pela extinta Comissão dos Descobrimentos, e António Filipe Pimentel, ex-director do Instituto de História de Arte da Universidade de Coimbra e director do Museu Grão-Vasco desde Setembro. Boa sorte a ambos. Vão precisar.

Gabriela Canavilhas deu a entender que o modelo seria testado no Museu de Arte Popular, depois das obras e das mudanças em curso. Não arrisca muito. O MAP tinha chegado a um tal estado de abandono que agradecerá a mera atenção de ser tubo de ensaio do Ministério. Curiosamente, Gabriela Canavilhas nada disse sobre o próximo museu a inaugurar pelos seus serviços - o de Foz-Côa. Prometido desde Guterres, causa de intensa polémica, objecto de faraónico investimento, aí já é a doer. Ainda bem. Mas vale a pena notar a aparente falta de confiança na "gestão bicéfala".

A segunda novidade, ainda em estudo, é a passagem de alguns dos 28 museus a cargo do Instituto dos Museus e da Conservação para a tutela das autarquias e das Direcções Regionais da Cultura. Não se sabe quais e não se sabe como, mas sabe-se que aqui, sim, há riscos. Os museus regionais que são óbvios candidatos à transferência (Lamego, Grão-Vasco, Castelo Branco, Abade de Baçal, etc.) dificilmente conseguirão atrair visitantes ou investimento para se tornarem auto-sustentáveis. As câmaras municipais que os acolherão dificilmente terão quadros políticos e técnicos com formação para gerir um património nacional. E o que acontecerá ao pessoal dos museus? Será contratado pelo poder local, como os funcionários do ensino básico, ou pelo poder central, como os professores? Em suma, é uma jogada demasiado perigosa para compensar os tostões que talvez se poupem.

Porque o objectivo da estratégia museológica "para o século XXI" é claro: aliviar os encargos financeiros do cronicamente subfinanciado Ministério da Cultura. Para isso, vai-se buscar dinheiro às empresas e aos municípios. Nada contra, desde que se acautele o interesse público, mas é a utopia ao contrário. Por baixo da calçada das boas intenções, a praia da penúria orçamental. Se o Governo não fosse socialista, adivinho as críticas - economicismo, insensibilidade cultural, degradação do património, menorização da vertente científica e por aí fora. O PS tem outros pergaminhos, já se sabe. Tendo registado a patente da modernidade, a esquerda pode fazer a política que a direita gostaria de fazer. Bem-vindos ao futuro. Alguém disse "museus para o século XXI"?
publicado por Pedro Picoito às 19:47 | comentar | partilhar