Postais de Lisboa (2)

Sigo pela Rua da Boavista. A pobreza sente-se. Casas abandonadas. Negócios que faliram. Um sem abrigo debaixo das arcadas, deitado no catre. Às 6 da tarde. A rua assemelha-se a este mendigo à deriva, mas com títulos de nobreza que vai declinando a quem passa: Travessa do Cais do Tojo, Rua das Gaivotas, Boqueirão dos Ferreiros. Alguns turistas fora de jogo. (Vêm certamente do Terreiro do Paço, mas para onde é que vão?)
De repente, a rua alarga-se. Começa a de São Paulo. Por cima da Pastelaria-Snack Tijúlia, surge uma janela trabalhada. Arte Nova? Neoclássica? Mero pastiche? Não sei, mas o efeito é supreendente. Mais à frente, o elevador da Bica - ou Ascensor da Bica, como se anuncia muito sério. Um nicho de Santo António. O Roti Botti 100% Restaurante Hallal, seja lá o que isso for. As Tintas Marilina, com as pernas do m a azul, amarelo e vermelho. Bêbados e prostitutas no Largo de São Paulo. Três bombeiros gozam com um taxista, que buzina à lentidão do trânsito. "És mesmo fogareiro, pá!" Rua das Flores, a da Tragédia do Eça, com duas lápides: uma oficial, lápide branca com letras prestas, outra de azulejo e debrum florido, que alguém fez ou deixou estar.
Uma Lisboa feia e bela, à ilharga do Chiado.
publicado por Pedro Picoito às 09:20 | comentar | partilhar