O Papa na Turquia



Bento XVI inicia hoje uma histórica visita à Turquia. Embora não seja a primeira deslocação papal a um país islâmico, as circunstâncias tornam-na especial. A última Time sugeria que o Islão será para o pontificado de Ratzinger aquilo que o comunismo foi para o de Wojtyla: a maior preocupação da Igreja. Ora, não há hoje país mais propício a um diálogo entre a Bíblia e o Corão do que a Turquia, historicamente uma ponte entre a Europa e o Oriente, aliada da nação germânica e do império austro-húngaro na I Guerra Mundial, ocidentalizada à força por Ataturk, Estado laico com 70 milhões de muçulmanos mas comunidades cristãs de longa tradição, actual membro da NATO e candidata à União Europeia, origem do maior número de imigrantes não-europeus na Alemanha de Ratzinger. Um amigo dizia-me, há dias, que o périplo turco de Bento XVI terá um efeito semelhante no mundo de Maomé ao da primeira viagem de João Paulo II à Polónia no então Bloco de Leste. Uma expectativa demasiado alta, sem dúvida, mas o modo como a Turquia acolher o Papa marcará certamente o tom de eventuais idas posteriores a outros países de maioria islâmica.
A este propósito, convém lembrar que Ratzinger não contará com a boa vontade dos seus compatriotas bávaros e muito menos com o entusiasmo dos polacos por Wojtyla. Crítico da entrada da Turquia na União Europeia, não foi convidado pelo Governo, mas pelo patriarca ortodoxo de Constantinopla. A conjuntura internacional não é a melhor. A “crise dos cartoons” alimentou uma miniguerra de civilizações e a Turquia foi um dos países onde os católicos foram atacados (houve mesmo um padre italiano que foi morto por um extremista). Para agravar as coisas, a França aprovou recentemente uma lei que proíbe negar o genocídio arménio, um tema tabu para Ancara, e as negociações de adesão à União foram suspensas devido à velha recusa turca em reconhecer a soberania de Chipre. E há ainda, obviamente, as ondas de choque do célebre discurso de Ratisbona. As manifestações de hostilidade contra o Papa, algumas com milhares de pessoas, têm-se multiplicado entre os turcos nos últimos dias.
Contudo, Bento XVI mostrou já que não tem medo de criticar o Islão por aquilo que considera a maior ameaça que esta fé conquistadora lança ao Ocidente: a intolerância. Disse-o pela boca de um imperador bizantino do século XIV, mas disse-o. Não se espere dele grandes considerações sobre a questão arménia ou a Europa. Mas é provável que, em Esmirna ou em Éfeso, onde o Cristianismo tem um peso histórico, recorde o respeito pela liberdade religiosa e pelos direitos das minorias do antigo Império otomano. Aqui para nós que ninguém nos ouve, acho que é só para isso que lá vai.
publicado por Pedro Picoito às 16:50 | comentar | partilhar