Leitura recomendada (e poderia ter sido de outra maneira?)

Pergunto-me todos os dias e em momentos vários, converso sobre o assunto com quem penso que me pode ajudar a reflectir sobre o tema: a crise inédita em que nos atolamos e de que não sei como e quando sairemos teve como um dos seus principais vectores uma injecção monumental de crédito; as pilhas de dívida pública e privada acumuladas, sob os escombros das quais soçobraremos (disso, pelo menos, apesar do silêncio de ordem sobre o assunto, não tenho dúvidas), são o seu resultado contável. Pergunto-me, sobretudo no que à alavancagem das empresas e famílias diz respeito, se poderia ter sido de outro modo no euro, isto é, com o mesmo enquadramento institucional e monetário. Não se trata de um exercício ocioso de história virtual. Trata-se, sim, de compreender a natureza do desastre para poder esboçar, com alguma segurança, perspectivas de futuro viável (está tudo demasiado escuro, por enquanto). Este trabalho, Curbing the Credit Cycle, de David Aikman, Andrew Haldane e Benjamin Nelson, publicado num dos mais recomendáveis lugares da blogosfera, Naked Capitalism, não nos dá respostas (também não formula especificamente o meu problema). E, sobretudo, a direcção para que apontam as possíveis respostas ao problema genérico do freamento do ciclo de crédito, a de uma espécie de governo prudencial/monetário global, está longe de ser satisfatória. Ainda um dia compreenderemos que a parte monetária da economia, o lugar por excelência onde o político no seu sentido eminente se cruza com o económico, entendido como o extra-político, requer uma abordagem que faça jus ao extra-económico, isto é, ao eminentente político, onde a questão da soberania é nuclear. Suspeito que a cegueira, no caso em apreço, vem sendo recíproca: os economistas, com muito louváveis excepções, tendem a esquecer o político, tal como os políticos a exibir uma iliteracia aterradora sobre a natureza da economia e, em especial, da economia monetária. Se o trabalho não dá respostas, ajuda consideravelmente a organizar ideias para o diagnóstico. Leitura requerendo alguma boa dose de formação em economia. Recomendação inquestionável.
publicado por Jorge Costa às 15:14 | comentar | partilhar