A legalidade e a cidadania

O Henrique Raposo escreve hoje sobre o centro muçulmano nas imediações do Ground Zero em Nova Iorque. E um dos argumentos que invoca para defender a sua edificação é a legalidade. Mas não me parece ser esse o mais correcto, senão vejamos: nas últimas duas semanas um pastor da Florida provocou uma reacção das autoridades americanas porque pretendia queimar livros do Corão. Segundo esse mesmo critério da legalidade e cidadania, nada impedia o pastor de o fazer. A liberdade de expressão está consagrada na Constituição Americana, e como tal, ele tinha todo o direito de o fazer. Não é crime queimar livros religiosos, por muito pateta que seja. No entanto, e bem, vários foram os políticos e responsáveis que condenaram essa hipotética acção. O mesmo se passa com a construção do centro islâmico, que não me parece ser a melhor forma de promover as relações entre religiões nos Estados Unidos. Aliás, o próprio Iman responsável pelo centro, que está longe de ser o moderado que o Henrique refere (a menos que não condenar o Hamas ou defender o regime iraniano sejam opiniões de um religioso moderado), já confessou que se soubesse que isto iria provocar tanta polémica não teria avançado (só mesmo por ingenuidade é que ele poderia pensar assim). Mas pelo meio, também foi avisando que esta questão do centro tem de ser bem gerida, pois pode suscitar uma violenta reacção do mundo muçulmano - onde é que já ouvimos isto: "o Ocidente tem de se portar bem, senão os muçulmanos queimam e partem tudo".

Isto não é uma questão de legalidade. Isso pouca gente colocará em causa. Isto é uma questão de bom senso. A tolerância e o respeito religioso tem duas vias. Será que insistir na sua construção tem contribuído para a pacificação do debate na sociedade americana, quando já foram avançadas várias soluções para a construção do centro noutro local? Não por acaso, os mais prejudicados desta polémica têm sido os próprios muçulmanos americanos, que após nove anos do 11 de Setembro, estão mais em causa do que nunca. Porque será que só agora surge este sentimento anti-muçulmano nos Estados Unidos? Porque não logo imediatamente após os atentados terroristas?

Concordo, e já o defendi, que a exploração política que está a ser feita do caso é contraproducente. E nem sempre se têm utilizado os melhores argumentos. Mas não é verdade que é apenas a direita populista americana que está contra o centro. A menos que Harry Reid ou Howard Dean façam parte dessa ala política. A maioria da população americana em geral, e a nova iorquina, em particular, prefere que o centro seja construído noutro local. Por motivos emocionais também. Mas vida em sociedade nem sempre é comandada pela racionalidade, e existe quem tenha emoções fortes com aquele local, especialmente aqueles que perderam familiares e amigos. Que se respeite pelo menos isso. E não se fale em liberdade religiosa numa cidade que tem centenas de mesquitas, sinagogas, igrejas católicas, ortodoxas e de todos os credos religiosos.
publicado por Nuno Gouveia às 15:27 | comentar | partilhar