Tréplica

Caro Paulo, não sei se serão bem réplicas e tréplicas, sobretudo porque estamos a falar de coisas um pouco distintas. Não tendo o meu sentido de voto definido, e não militando em nenhum dos lados da questão, preocupo-me mais no aprofundamento dos argumentos do que na sua agitação. Há um conjunto de argumentos do lado do "Não" que colocam a questão em termos de gasto e eficiência que não me parecem devidamente fundamentados e, tal como estão apresentados, não convencem. Há até alguma indignação no argumento da pessoa idosa e indefesa que verá o seu tempo de espera por uma consulta/intervenção aumentado devido à deslocação de recursos do SNS para "garantir" o aborto livre e "gratuito". Gostava sinceramente que explicassem porquê, e sobretudo como é que este argumento encaixa em quem tem como bandeira a defesa da "vida".

Quem coloca a questão nos termos "aborto vs vida" e argumenta impostos e recursos tem de resolver a equação "aborto vs parto", que nada por acaso é altamente deficitária para o lado dos "defensores da vida", pois o parto é mais custoso e consome mais recursos ao longo de muitíssimo mais tempo (antes e depois). Se a preocupação é não prejudicar os indefesos em espera, aborta-se o feto e deslocam-se os recursos restantes que seriam gastos com parto, maternidade, pediatria, etc. para os indefesos em espera.

Compreendo que existam certos corredores de pensamento pelos quais às vezes entramos e sentimos as paredes pintadas de suásticas, uma espécie de Mengele tornado contabilista, mas o que espero que o teu lado do "Não" compreenda é que a defesa da "vida" é altamente custosa, exige dinheiro, recursos, sacrifícios. O "Sim" é eminentemente mais eficientista, fácil e os custos são sobretudo de outra ordem e suportados pelo casal ou pela mulher no dramatismo da decisão. O que espero do "Não" é a defesa de como a "vida" vale bem todos esses custos, e como compensa os sacrifício e as despesas associadas, que são muitas e prolongadas.

Quanto à questão da objecção de consciência fiscal, disfruta os Pirinéus, e cá estaremos na próxima semana para a debater se ainda fizer sentido.
publicado por Manuel Pinheiro às 11:10 | comentar | partilhar