100 Dias na Vida de Barack Obama (1)

Enquanto não temos o vídeo do debate de ontem sobre os 100 dias de Obama, em que participei juntamente com o José Gomes André nos estúdios do TVI24.pt, ficam aqui algumas deixas.
Uma palavra prévia: é preciso dizer que não me sinto muito confortável com este hábito de comentar os 100 primeiros dias de um mandato de 4 anos. Não se trata apenas de ser um período muito curto, acarretando inevitavelmente juízos precipitados. O que também me incomoda é que este hábito cultivado pela primeira administração F. D. Roosevelt sugere que o frenesim denota empenho e acção eficaz. Coloca a administração em funções sob a pressão de demonstrar como a administração anterior foi inepta e passiva diante da catástrofe. Foi o que Roosevelt fez com grande sucesso relativamente a Hoover, e Obama tenta fazer agora com Bush. Mas, com tanta gente a comentar os 100 dias, também eu acabei por contribuir para agravar o problema.
Para compreender a acção de Obama no plano interno temos de perceber o que está por detrás da retórica presidencial. Só assim se conseguirá medir os seus actos mais significativos. É que começa a ser gritante o contraste entre a retórica de Obama, que invoca o "pragmatismo", a moderação, o consenso, as pontes entre os dois partidos, o diálogo, etc., e a execução de uma estratégia que no fundamental foi sintetizada por Rahm Emanuel (e também por Hillary Clinton) na sua expressão "não desperdiçar a crise". Isto é, com a circunscrição do discurso político ao horizonte negro da crise, de preferência de uma crise longa e profunda, ir avançando uma agenda que nada tem de consensual, moderada ou pragmática. Foi precisamente isso que sucedeu com o orçamento que já continha o pacote de "estímulo" à economia. Debaixo do tecto vacilante da ameaça económica cataclísmica, tudo é permitido, tudo é autorizado. Mesmo aquilo que não sabemos exactamente que acabámos de aprovar - a experiência dos membros da Câmara dos Representantes durante a votação desse orçamento -, mesmo aquilo que nos provoca reservas. Neste caso, gerir uma crise não é bem devolver a "esperança". Pelo contrário, gerir bem a crise é manter o horizonte de receio para que as nossas reservas sejam incomparavelmente mais pequenas do que o sentido aparente de fazer alguma coisa. Qualquer coisa. Até aquelas coisas que não fazem assim tanto sentido.
publicado por Miguel Morgado às 18:36 | comentar | partilhar