Dois livros Sefarad

Ora aqui vão os curtos posts anunciados sobre os dois livros que integram a nova e inédita colecção Sefarad, da Editora Nova Vega.

Breve História dos Judeus em Portugal, de Jorge Martins.

O livro quer ser uma visão sinóptica da realidade judaica em Portugal, ao longo dos oito séculos pelos quais ela se prolonga, destinada a um público não especializado, «particularmente aos professores e aos estudantes, complementando ou suprindo as clamorosas omissões dos nossos programas escolares». A promessa não é cumprida, pese embora as virtudes que o livro tem, e o recomendam.

Não é cumprida, em primeiro lugar, porque praticamente se não detém na presença judaica em Portugal, ao longo de toda a Idade Média. Esse período, muito sumariamente aflorado, abarca apenas uma dezena de páginas, numa obra de 190.

E sendo de nós a mais distante, a compreensão da presença judaica no período medieval é crucial para o entendimento da tragédia que ocorre do Renascimento em diante.

A falta está longe de ser justificada pela ausência de estudos: desde os trabalhos de Henrique da Gama Barros («Judeus e Mouros em Portugal», in Revista Lusitana, volumes 34º e 35º, de 1936 e 1937, disponíveis online graças à sageza do Instituto Camões), de Maria José Pimenta Ferro Tavares (Os judeus em Portugal no século XIV, Guimarães editora, Os Judeus em Portugal no século XV, dois tomos, Universidade Nova de Lisboa e Instituto Nacional de Investigação Científica), até aos de Elias Lipiner (O Tempo dos Judeus segundo as ordenações do Reino, Nobel editora), para falar apenas de obras seminais neste domínio, porque as mais parcelares abundam, a informação não falta. Falta a sua abordagem no livro em apreço, como falta, para os demais capítulos, muito mais bem tratados, uma bibliografia, senão comentada, pelo menos recomendada, já que o público visado inclui professores e estudantes, eventualmente interessados em desenvolver conhecimentos.

É para o período pós-«expulsão» - de facto, nunca houve expulsão, mas o seu exacto contrário: a conversão forçada e o impedimento de saída do Reino -, que esta Breve História é mais interessante. É louvável a atenção que dispensa a um problema crucial da história de Portugal - a introdução e vigência dos estatutos de limpeza de sangue, que dominaram, pelo menos desde 1600 até à sua supressão por Pombal, em 25 de Maio de 1773, a vida pública e a sociedade portuguesa, bem como à narrativa da progressiva reconstituição da existência judaica pública em Portugal, até à contemporaneidade.

Por tudo isso, o livro vale pelos apontamentos de maior detalhe que traz a estes temas, impossíveis de desenvolver na obra - essa sim - de síntese da História dos Judeus Portugueses, de Carsten Wilke, das Edições 70, feita a pensar nos mesmos públicos, e plenamente sucedida, que o autor deste post teve o prazer de traduzir e colocar à disposição dos leitores.

Por fim, falta ao livro um desenvolvimento minimamente satisfatório da vida dos judeus portugueses que se salvaram e constituíram uma diáspora fundamental na história do Judaísmo, visto que foram a «vanguarda» - a expressão é do próprio Heinrich Graetz, o fundador, no século XIX, da moderna história do povo judaico -, que abriu os judeus à modernidade e a modernidade às novas possibilidades da existência judaica. É certo que o livro se chama Breve História dos Judeus em Portugal. Não é menos certo que tal história não é compreensível sem o estabelecimento das relações que se mantiveram entre os cristãos-novos portugueses e os seus irmãos regressados ao judaísmo normativo no exílio. É certo ainda que essa ponte é dos tópicos mais precisados de investigação e estudo, mas as estradas foram abertas, por I. S. Révah, nem uma vez mencionado no livro, o que é um pouco difícil de entender, não por uma questão de cortesia, mas por uma questão de estudo do tópico em causa.

Ora é precisamente a relação entre os cristãos-novos e os seus irmãos exilados - assunto que me parece dos mais decisivos para a história por fazer -, que constitui um dos eixos mais importantes do segundo livro da colecção Sefarad,

A tormenta dos Mogadouro na Inquisição de Lisboa, da autoria de António Júlio Andrade e Maria Fernanda Guimarães.

Este, sim, com investigação original, baseada na leitura inédita de processos da Inquisição e reconstituição histórica fundamentada, é livro inovador. Constitui-se tendo por pano de fundo o protgonismo dos cristãos-novos na Restauração de 1640, as lutas entre o partido inquisitorial e o partido anti-inquisitorial onde preponderaram os Jesuítas - sim, os Jesuítas e não só a sua figura mais eminente, o Padre António Vieira - e traz dados de valor inestimável à investigação futura das relações entre os criptojudeus em Portugal e os judeus livres, designadamente de Livorno. António Rodrigues Mogadouro, um dos mais importantes (inclusive no sentido económico do termo) homens de negócio da «nação», foi garrotado e queimado em auto-da-fé, não só por «pertinaz e impenitente», mas também como fautor: «passava» judeus perseguidos para o exílio. Leiam, se quiserem compreender.
publicado por Jorge Costa às 12:45 | partilhar