2007: Bergman

2007 foi o ano da morte de Ingmar Bergman. A 30 de Julho.
O realizador sueco não era uma das minhas paixões adolescentes. Como a tantos outros, custava-me entrar no seu universo claustrofóbico. Chesterton diz algures que o mundo de Dante é mais real do que o de Ibsen porque tem o inferno, o purgatório e o paraíso, ao contrário do escandinavo, que só retrata o inferno. Durante algum tempo, pensei o mesmo de Bergman, que não nos poupa nenhuma das misérias humanas.
Os seus filmes falam-nos da solidão, da distância entre as pessoas, da hipocrisia das convenções, do egoísmo, da insuportável deficiência física (Sonata de Outono), da decadência da velhice (Saraband, a última obra), da perda da fé, do silêncio de Deus, da morte (O Sétimo Selo), da falta de sentido da vida, que se reflecte na própria ausência de acção. Uma acção que se concentra em diálogos lentos e violentos, densíssimos e cortantes. E nos grandes planos, aliás enormes planos, em que a câmara parece querer entrar pelas personagens.
Tudo o mais é inútil. Os gestos do amor são uma ilusão ou uma mentira e, sem amor, de que serve o resto?
Durante muito tempo, Bergman incomodou-me. Como se a falta de acção na tela nos obrigasse a a olhar para nós próprios, sem gostar do que vemos. Seríamos assim por dentro? Mas na era do cinema de mastigar e deitar fora, descobri que a sua claustrofobia pode ser mais libertadora do que a maioria dos filmes que vemos por evasão, esse triste consolo que Bergman não nos dá. Dá-nos apenas a arte sem artifício.
Na Sonata de Outono, que revi há cerca de um mês na sempre benemérita Cinemateca, há duas personagens principais: a filha (Liv Ullmann) e a mãe (Ingrid Bergman). No reencontro ao fim de vários anos de separação, a filha acaba por revelar à mãe que a odeia porque esta a trocou por uma bem sucedida carreira de pianista e outras aventuras menos espirituais, enquanto o pai tudo suportava em silêncio. Mais tarde, casara com um homem que não amava, um pastor luterano em crise de fé, e tivera um filho, que morrera ainda criança. A memória deste filho e o cuidado da irmã deficiente, abandonada pela mãe num asilo, são as suas únicas razões de viver.
Só a beleza salva estes seres à deriva. A beleza da paisagem nórdica, a beleza da música - Bach, Mozart, Schubert -, a beleza dos rostos das duas actrizes (magníficas, Ingrid Bergman aos 60 anos e Liv Ullmann a fazer de tontinha). E, apesar de tudo, a beleza do coração humano que, para lá do deserto gelado dentro e fora das personagens, entrevê outra coisa mais funda, mais misteriosa, mais verdadeira. "Toda a vida procurei um lar e, quando o tive, não me chegou", diz a mãe, essa detestável mãe que troca a imperfeição do amor pela perfeição da arte.
A beleza salvará o mundo, ensina-nos Dostoievski melancolicamente. Onde quer que esteja, o melancólico Bergman há-de concordar com ele. No outro mundo, também não existe apenas o inferno.
publicado por Pedro Picoito às 16:28 | comentar | partilhar