Não volto a escrever sobre o morto (corrigido)

No que me toca, depois deste post, informo que não voltarei a falar do Orçamento. É um nado morto, e assuntos afins não têm interesse.

Explico: o Jornal de Negócios, competente e crível, somou e revelou. 90% da redução projectada do défice tem por base a receita. Não sei quanta receita fiscal, mas certamente muita.

Ora, a receita fiscal projectada, para ser realizada, depende: 1) do cenário macroeconómico subjacente – quanto e como vai a economia crescer (ou cair); e 2) de relações de elasticidade credíveis (para um crescimento de tantos por cento e com esta ou aquela composição, entre consumo, investimento, exportações e importações, quanto sobe cada imposto e a soma deles).

Dando de barato que o ponto 2 está tecnicamente correcto, resta que o cenário macro é uma ficção.

Se o Orçamento não tem uma orientação contraccionista – e para aferir adequadamente isso seria necessário ter dados estruturais (intervalo do produto) –, fortemente contraccionistas vão ser as condições monetárias, a outra grande variável envolvente. Poderia apostar todos os meus salários até ao fim da vida, na ausência de um milagre, que assim vai ser.

A diferença do custo da dívida pública face à Alemanha, a referência no euro, já mais do que duplicou desde Novembro para cá. Vai aumentar muitíssimo mais.

É impossível que a União Europeia não considere este Orçamento aquilo que ele é: um erro total nas opções, de que a mais evidente é a opção pela receita, adiando tudo o que não podia ser adiado. Quando se pronunciar, e certamente que o fará com luvas para evitar enterrar mais fundo o país, sem poder deixar, contudo, de o fazer, pois perde a cara se não o fizer, o rombo nos custos da dívida será ainda maior.

Isso é apenas o princípio do fim. Mas já não estamos nessa fase. Já vamos bem avançados no meio: o custo de financiamento da banca, que por seu turno financia (quase) tudo vai aumentar tanto, ou mais, que o do agente mais solvente da economia, que é o Estado.

E lá estão hoje, no Jornal de Negócios, as curvazinhas diabólicas de que falo, com a EDP, a PT, o BES, o BCP a serem percebidos como afectados de níveis crescentes de risco e, portanto, a terem de pagar por isso, para irem aos mercados e poderem... viver. Os bancos, por seu turno, farão pagar os custos acrescidos às famílias e ao restante sector empresarial, que não se pode financiar directamente lá fora, como as grandes cotadas do PSI-20.

O fortíssimo aperto monetário que aí vem fará o país recair numa recessão, e quaisquer cálculos, em regime de instabilidade total, que é aquele onde passámos a viver, são efabulações, porque a forma do caos (oxímoro advertido) não se pode prever com nenhum acerto.

Muito boa noite.
publicado por Jorge Costa às 13:04 | comentar | partilhar