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Já se zombou acerrimamente com o conteúdo da campanha da Igreja Maná que, nos últimos tempos, tem ocupado os espaços públicos e os pára-brisas dos nossos automóveis. Resta saber porquê. Os princípios teológicos respeitantes à virtude da esperança (ou à falta dela) são perfeitamente adequados. Senão vejamos.
O estado nas nossas finanças particulares e públicas é “um caso sério de falta de graça”. Dívidas e despesas imprevistas? Público e privados estão em sintonia. E pode ser que a solução para este caso tão sério dependa integralmente da Graça divina. «Não desespere! Deus quer e pode fazer um milagre nas suas finanças!» Se dos nossos méritos e dos deméritos dos governantes já pouco se espera, então como não desesperar? Consultemos rapidamente São Tomás de Aquino. A esperança tem como fim último a felicidade eterna. O seu objecto é assim um bem futuro sobrenatural, árduo, mas exequível. O desespero, por outro lado, nasce da consideração de que é impossível atingir o bem árduo a que se aspira. A perpetuidade da pena dos condenados no fogo do inferno impede-os de terem qualquer esperança. Ao saberem que não podem evadir-se do castigo, o bem sobrenatural e objecto primário da esperança nem sequer é apreendido como possível.
Dirão que a Igreja Maná exagera. O bem constituído pelo equilíbrio das nossas finanças públicas é um fim árduo, mas precipitamo-nos quando clamamos por Deus. Afinal, tal bem é exequível e nada tem de sobrenatural. Pois permitam-me discordar. É exequível e antevemo-lo como possível. Não estamos na situação dos condenados no inferno. Mas olhem que tem contornos sobrenaturais. Deixem lá ver se completam e publicam a lista dos excedentários da função pública e depois logo falamos. Pois é. Talvez só mesmo um deus nos possa salvar.

publicado por Joana Alarcão às 00:15 | partilhar