O português: tristeza e mistério


Nunca é tempo perdido reler o famoso livrinho castanho que a Cinemateca Portuguesa publicou em 1999 sobre o realizador russo Alexander Sokurov. Cada frase do peculiar e genial cineasta – que não gosta muito de cinema mas delira com literatura (Dostoievsky, Faulkner, Thomas Mann, Tchekov) – é uma pedrada no charco de um certo e viçoso pseudo-intelectualismo lourenciano.
Para Sokurov, que não tem pejo em afirmar que os ocidentais são pessoas muito sós e espiritualmente mais doentes que os russos, o tema principal da arte – certamente da sua – é o destino da vida humana. Mas o mais extraordinário e provocador para nós, portugueses, é “ouvi-lo” falar da experiência tida no encontro com Portugal:
"É um país espantoso, talvez o mais misterioso da Europa. Em Portugal há uma qualidade que me impressiona muito, a tristeza. Muitos portugueses foram pessoas geniais. Portugal será dos países onde há mais génios que não são conhecidos. São pessoas tristes que vivem para si, uma qualidade de experiência pessoal que os diferencia dos demais. E um carácter nacional inacreditável. Digo isto por intuição e não porque me baseie em algum conhecimento particular. Vocês têm uma grande quantidade de energia escondida. (...) É muito fácil encontrar portugueses numa multidão de europeus, do mesmo modo que numa multidão de asiáticos é muito fácil descobrir onde estão os japoneses. (...) Quanto mais Portugal se juntar ao espaço europeu maior será a tragédia da cultura portuguesa, ela estará cada vez mais próxima de um estado de choque, porque precisa de dar azo aos seus sentimentos para se desenvolver. É muito complexo. As misturas são muito complexas. (...) As formas artísticas populares são muito complexas. Mas elas existem, estão lá. Por exemplo, se os espanhóis (falo de espanhóis porque estão aqui perto) vos impusessem a sua forma de vida, as suas imagens, a sua cultura, seria um caos. Em termos financeiros e económicos, a união europeia terá muitas vantagens, mas em termos culturais a ideia inspira-me muita desconfiança e alarme, acho que é uma tragédia".
Alguém já descreveu com tanta argúcia a nossa incapacidade de nos darmos a conhecer e a força-fraqueza do nosso ânimo melancólico, hoje em banho-maria, mas com explosivas provas já dadas, como atesta a História? Para não falar do juízo sobre o iberismo...
publicado por Joana Alarcão às 21:59 | comentar | partilhar