A ministra desajustada

Queixa-se a ministra da Educação (um cargo de designação irónica) que as quatro propostas de Manuela Ferreira Leite para o campo de batalha em que Sócrates transformou a Escola estabelecem um "clima de ódio desajustado". Vinda de quem vem, é uma acusação que faz sorrir. Uma ministra que, ao lado dos inesquecíveis Lemos e Pedreira, amparados os três pela sempre pronta gritaria "socrática" e por meia-dúzia de tiranetes-serviçais da província, pouco mais fez do que lançar uma rede de ódio sobre a Escola, fomentando politicamente, como nunca se tinha visto, o azedume e a aversão entre pais, professores e alunos.
Lurdes Rodrigues apenas repete aqui os lugares-comuns tipicamente reaccionários da predilecção do seu Chefe: a velha litania do "eu construo e vocês destroem", etc. Num sentido, é natural que assim seja, porque já não têm mais nada para dizer para lá dessas banalidades repetitivas. Já se sentem perdidos, encurralados por todos os lados. Refugiam-se, assim, numa monomania sem qualquer relação com a realidade.
As quatro propostas gerais de Ferreira Leite só são negativas na medida em que negam. São, na verdade, medidas higiénicas. Trata-se de remover os escombros da política educativa de Sócrates. Os escombros e o entulho que Sócrates/Lurdes Rodrigues/Valter Lemos deixam atrás de si são: o abstracto e desencarnadamente artificial estatuto da carreira docente; o chamado "estatuto do aluno", já um remendo sobre remendos, monumento da inacreditável incompetência técnica e da manipulação ardilosa dos alunos e famílias (sacrificando a educação de milhares de jovens com o engodo do aproveitamento fácil mascarado de assiduidade falsamente exigente); o famoso modelo de "avaliação" dos professores (a "simplificação" cosmética não alterou a sua natureza iníqua e perniciosa); finalmente, o burocracismo perverso que esta gente multiplicou exponencialmente nas escolas.
Que se pode fazer a isto senão arredá-lo? É isso que Ferreira Leite, e bem, se propõe fazer.


Por outro lado, é irresistível comparar este piedoso queixume de Lurdes Rodrigues: "o sistema educativo precisa de estabilidade, de continuidade" ou que "procurou nunca destruir o que os antecessores tinham feito", com a sua política verdadeiramente desestabilizadora (dirá a acefalia "socrática" que se tratou do combate aos "privilégios" e tal) e, mais, com as afirmações que reiteradamente produziu, segundo as quais cortava com "trinta anos de governos" em políticas de educação ou com este discurso na conferência O Estado e a Educação em que alardeia a "exigência de rupturas com o passado recente"...

A primeira grande dificuldade do futuro governo, no que respeita à Escola, será a quantidade de escombros que vai encontrar pela frente...
publicado por Carlos Botelho às 23:15 | comentar | partilhar