O homem da nossa década


Dele podia restar para a história apenas uma nota de pé de página. Pequenina. Mas não. Ele foi o rosto do Portugal com meio milhão de desempregados (para já), do país estagnado com um crescimento tendencial apontado para o zero, do défice «acima dos 8%» (dados provisórios), da dívida dos 80 ou mais não-sei-quantos-por-cento (lá mais para o Inverno logo se vê, para já não se sabe), da corrupção desenfreada na terra do salve-se-quem-puder, do descrédito galopante das magistraturas, da permanente ingerência e controlo da informação, do beco sem saída da educação, do chico-espertismo da licenciatura ao domingo no poder, da mentira ongoing, do abandono da cultura se não servir para fazer vistaço, da postura irascível a fazer de convicção. E, claro, mais alarmante do que tudo, da reconfirmação no poder com isto tudo sabido ou intuído. Ele foi o rosto do medo nacional, da fuga à verdade, da falência da alternância, da desistência. Do impasse. Ao contrário do que sugerem os seus dedinhos, não são coisas pequeninas, não.
publicado por Jorge Costa às 19:50 | partilhar