Empurrar o buraco com a barriga (& escavá-lo um bom bocado mais)

Para o ano é que é!

Portanto, estava tudo muito bem na execução do orçamento em curso. E, como estava tudo muito bem, para ficar melhor ainda vêm ao orçamento, a título de receita deste ano, 2,6 mil milhões de euros do fundo de pensões da PT. Os compromissos que têm de cobrir ficam para orçamentos posteriores. Chama-se a isto empurrar o buraco com a barriga. Ele continua intacto. Ou melhor: não continua; aprofunda-se; de facto, as receitas cobrem despesas imediatas (e que não são eliminadas); os compromissos, que não existiam no Estado, e que o fundo deveria cobrir, permanecem e passam a integrar as responsabilidades do Estado. São despesa futura agregada. Resta saber se os mercados comem o jogo, pois é claro que, tendo entrado Portugal em foco, tanto ou mais importante que não exceder as necessidades de financiamento anunciadas é a forma como se estanca o seu crescimento num exercício. Sobre a dita forma estamos falados. Será suficiente anunciar, acto contínuo, uma redução na massa salarial de 5%*, com efeito em 2011**, a par de aumentos de impostos (num cenário económico incerto, para não dizer mais) e reduções em prestações sociais (cujo conteúdo e efeito terá ainda de ser visto melhor)? Não sei. Eu sei o que faria se fosse investidor. Mas não sou e, por isso, abstenho-me de comentar. A coisa do para-o-ano-é-que-é pode já não pegar.

* A mentirinha chalada de que Portugal faz o que fez a Grécia, a Espanha ou a Irlanda. Não faz. Portugal anunciou que vai fazer. Os países nomeados fizeram.
** Um simples anúncio é uma a declaração de uma intenção; mantém tudo no domínio do virtual, e há tempo para a resistência natural se organizar; ver, portanto, para crer.
publicado por Jorge Costa às 20:38 | partilhar