Carta ao camarada Botelho sobre a esquerda


Camarada Botelho
Muito bem, mas o Henrique Raposo toca num ponto essencial. Se é verdade que há uma direita que resume o seu pensamento ao anticomunismo, metendo no mesmo saco uma ideologia perversa e o que essa ideologia designa por "conquistas dos trabalhadores", também há uma esquerda que troca ainda o sentido mínimo da realidade pela idealização do passado antifascista. Esta memória ao mesmo tempo utilitária e idealizada, da qual a esquerda se considera guardiã exclusiva, fundamenta a superioridade moral que gosta de brandir (Bernardino Soares no último Congresso do PCP, mas igualmente a eterna retórica de denúncia de Soares, Alegre ou Louçã). No fundo, todos eles se julgam com direito a governar a pátria sem o incómodo de respeitar a moral burguesa, permitindo-se a dissonância cognitiva de transigir aqui e além com a ética republicana enquanto pregam a liberdade, a igualdade e a fraternidade.
Não falo apenas de Baptista Bastos, que ilustra a coisa até à caricatura. Os exemplos são muitos e vão dos grupúsculos de extrema-esquerda, fora do sistema, ao PS bem instalado na democracia. Lembremos as mentiras de campanha sobre Sarah Palin ou os dislates sobre a "pulsão autoritária" de Manuela Ferreira Leite, que tanto animaram gente pouco honesta e alguma direita distraída.
Este trono moral dá à esquerda uma real vantagem política. Nunca tem que responder pelos erros ou crimes cometidos porque age sempre em nome das melhore intenções. Pelo contrário, a direita tem que fazer prova constante do seu amor à humanidade. É fácil ser de esquerda em Portugal. Basta invocar os pobrezinhos (dos quais é proprietária em regime de monopólio), agitar a bandeira da última causa fracturante (desde que isso não faça perder eleições) e gritar muito, muito, muito contra o fascismo (mesmo que o fascismo esteja morto e enterrado).
Não está em causa o respeito que devemos aos resistentes à ditadura. O que está em causa é se lhes devemos algo mais. Eu entendo que não. E parece-me que foi isso o que quis dizer o Henrique.
Até amanhã, camarada.
Adenda: Obviamente, nada do que escrevi significa que, para mim, a pertença à direita seja uma garantia de moralidade ou que todos os esquerdistas sejam gente vil e desonesta. Conheço muita gente séria de esquerda e muito sacana de direita. Aliás, o que mais conheço são sacanas de direita.
publicado por Pedro Picoito às 12:26 | comentar | partilhar