Leitura imprescindível


Não li nem todos, nem metade, nem nada que se pareça dos livros que nos últimos anos foram escritos em língua portuguesa. Portanto não posso dizer que este seja o mais importante. O mais belo. Talvez seja, não sei. É um livro sobre o tempo que sobra, ou melhor, sobre o tempo como sobra, e sem préstimo. Sobre o tempo que sobra, porque vamos morrer em breve e já nada com sentido é, de aqui em diante, possível. Ou sobre o tempo que sobra, porque o luto é impossível e o tempo se quebra (leiam, se quiserem perceber o que é isso). É um livro sobre o tempo nu. Sobre o tempo quando ele verdadeiramente (?) aparece. É um livro que conta histórias sobre o irremediável. Sobre pessoas que vivem com o irremediável no tempo que lhes sobra, e sem préstimo. Um paradoxo, bem sei. Talvez a grande literatura, com que o livro dialoga permanentemente, seja a forma humana de encontro com esse nó de ser que resiste à, e reclama a apropriação com sentido, pela forma narrativa. Ou talvez seja isso a grande tradição da filosofia, que tem na sua origem o espanto inextinguível por serem as coisas aquilo que são. O que é como é. O livro de Filipe Nunes Vicente participa da tradição da grande literatura e da filosofia. Uma tradição que não chega. É um livro necessário.
publicado por Jorge Costa às 20:43 | partilhar