Mal agradecidos

Um dos grandes erros do Salazar -- erro que pagámos caro -- foi a postura do "pobres mas honrados" (em relação ao Plano Marshall) e "orgulhosamente sós" (em relação à Europa). Mas veio o 25 de Abril, e todos cantámos, com os GNR, "quero ver Portugal na CEE".

Agora parece que mudou a música. Dizem Portugal está pior do que estava ou pior do que deveria estar. Mas a comparação relevante não é essa; o que interessa é saber como seria Portugal hoje se nunca tivesse pertencido à União Europeia.

É um contrafactual difícil. Mas não tenho dúvidas de que o resultado é claramente positivo. Não me refiro somente à ajuda económica directa através dos fundos estruturais. Refiro-me também -- e principalmente -- à credibilidade institucional induzida pelos compromissos europeus.

Queixamo-nos de que muitas decisões que nos afectam são tomadas por uns senhores em Bruxelas que não sabem o que é Portugal. Mas em muitos sentidos a perda de flexibilidade dos decisores nacionais é uma bênção. Onde estaria a economia portuguesa se o governo tivesse maior margem de manobra na política monetária e fiscal? Teríamos a política de concorrência que temos se não fosse a pressão de Bruxelas?

Enfim, deixámos de ser pobres mas honrados para ser simplesmente mal agradecidos.
publicado por Joana Alarcão às 03:20 | comentar | partilhar