Portugal e a Tristeza (continuação)

Não sei se é exacto, mas cá vai: “quem almeja ser trovão, tem de se acumular nuvem durante muito tempo”.
É a isto que nos recusamos. Na primeira oportunidade, por mais pequenina que seja, começa a algazarra. Mal se amontoam duas ou três nuvenzitas, começa logo a pingar. Há sempre um arauto que gosta de traduzir tudo isto em falta de auto-estima ou pessimismo. Ai Jesus! Vem lá uma depressão nacional. Temos de reverter imediatamente a situação. Vejam como somos bons. Olha o Figo, o Cristiano Ronaldo, o Mourinho. Casos individuais e pontuais? Não senhora. Portugal sabe organizar grandes eventos: a Expo, o Euro, o Laureus, o Estoril Open, o Dakar. E lá fora? Somos tão bons como os outros. Os Madredeus vão ao Japão, a Mariza ganha prémios em Inglaterra, há tecnologia portuguesa no espaço, a Selecção de Futebol faz ver a muita gente.
Que razões existem para a falta de auto-estima? Nenhumas. Mas quem foi o inteligente que disse que somos falhos nesse bem primário da auto-estima para termos que suportar estas injecções de pretenso sucesso nacional? Que urgência em fazer ver o óbvio. Como se a única mensagem de Portugal fosse a de martelar ao mundo (e a si próprio) que o português é tão bom como os outros.
É isto. Quando principiamos a escurecer, dá-se uma ténue precipitação. Penso que a sabedoria popular descreve isto como “chuva molha-parvos”. Haverá coisa mais aborrecida?

(Continua)
publicado por Joana Alarcão às 12:44 | comentar | partilhar