Much ado about less than nothing

Os custos de financiamento, público e privado, são a variável que deve estar no foco das decisões que se tomam neste momento.

Os custos de financiamento do Estado, nos mercados de dívida, não apresentam alterações significativas, nem seria natural que apresentassem.

Por várias razões. Com a medida adoptada pelo Governo para corrigir a execução orçamental e garantir um défice de 7,3% no final do ano, absorvendo o fundo de pensões da PT, o Governo mostra a sua falta de vontade para mudar. Não resolve nenhum problema de fundo e agrava os já existentes. As medidas anunciadas para 2011, tendo embora impacto na despesa e na receita, são, em todo o caso, reversíveis, e está por provar que serão politicamente exequíveis. A esquerda do PS não pode viabilizar um orçamento que reduz salários e pensões, e, até prova em contrário, a direita não se dispõe a permitir um aumento de impostos. Entretanto, o toque de trombeta para mobilizar resistências está dado. Tudo somado, nada de certo se prefigura. É natural que os mercados reajam em conformidade.

A racionalidade de recorrer ao Fundo Europeu de Estabilização Financeira deveria, pois, estar a ocupar o essencial do debate, que só poderia – eventualmente – ser substituído por um outro: em torno de medidas que, efectivamente, fossem susceptíveis de começar a infundir confiança e substituir a necessidade do Fundo; suficientemente virtuosas para – eventualmente – produzir a almejada diminuição dos custos de financiamento. O que se fez não vai nesse sentido. Mas, mesmo na circunstância de haver força de vontade e entendimento político para as pôr em prática, por que razão o fazer na incerteza sobre os seus efeitos nos custos de financiamento, e não com a certeza (taxas de juro mais reduzidas) e as disponibilidades do Fundo?

A questão aparece com tanta mais pertinência quanto se, e quando, formos forçados, pela contínua pressão das taxas de juro, a recorrer ao Fundo, o orçamento que, entretanto, anda Portugal inteiro a discutir passa a ser um nado-morto. Mas um nado-morto já razoavelmente encarecido, política e financeiramente falando.

A Alemanha só aceitará o recurso português perante um programa de consolidação orçamental a sério, com algumas reformas a sério, muito mais duro do que o ontem anunciado. Entretanto, ter-se-ão queimado mais umas semanas ou, na melhor das hipóteses, meses, mobilizando resistências contra algo que nada vale, pois o que vier a valer terá de ser a... valer.
publicado por Jorge Costa às 13:23 | comentar | partilhar